sexta-feira, 8 de agosto de 2025

Entre a sopa de feijão e o passaporte alemão



Tem coisas muito estranhas nessa vida. Sempre conto e reconto minha memória aos seis anos, na sala da minha avó, em 9 de novembro de 1989. Musiquinha do plantão da Globo e cheirinho de sopa de feijão no fogão. Vontade de comer ignorada por todos, que olhavam para a TV – em pé – atônitos. Ainda sou do tempo em que, quando a musiquinha do plantão da Globo tocava, todo mundo corria para a frente da telinha. Minha avó dizia: “Acabou o socialismo.” Eu, que não entendia nem de socialismo, nem de Guerra Fria, Alemanha, nazismos, política ou Apfelstrudel, não compreendia o “oh-do-borogodó” em torno da notícia. Só queria mesmo jantar. Mas lembro de imagens de jovens marretando um muro, dançando, chorando, se abraçando, olhando incrédulos para a câmera. Mal sabia eu que, se o maluco do Günter Schabowski, membro do politbüro, não tivesse feito aquele anúncio todo desajeitado, a vida de uma garota lá na rua Vapabuçu – em São Paulo – teria sido tão diferente.

Coincidências da vida: fui parar na Alemanha Oriental – Leipzig, Berlim, Weimar, Erfurt – fiz meu mestrado, doutorado, pós-doutorado, comecei a dar aulas, pesquisar desinformação. Escrevi sobre o discurso da unificação alemã pelo mundo. Uma trajetória pouco provável, se Gorbachev não tivesse abraçado a Perestroika! Depois de anos, entre tantos altos e baixos, tropeçando na vida e nas declinações, resolvi encarar o longo processo de naturalização. Afinal, nada mais tranquilo que navegar a burocracia alemã. As regras foram flexibilizadas: agora é possível se naturalizar sem perder outras cidadanias – no meu caso, a brasileira e a italiana. Afinal, queria me naturalizar, não negar minhas origens.

Deu um baita trabalhão. Não tenho espaço para contar tanta presepada burocrática e desencontros nas datas. Traduza certidões de nascimento, peça documento no cartório do Brasil, apostile, mande para a Alemanha, traduza, mande para os Behörde. Volta, tudo errado! Repete o processo. Socorro! Deu certo, finalmente! Recebo uma data para mostrar os documentos originais: compareça dia 17/07. Opa, sinal de sorte – aniversário do meu primo miniatura. Italianinho. Socorro: estava na Escócia. Toca comprar um voo de última hora, vendo um rim, pago a passagem. Bate-volta Escócia–Alemanha. Agora é só esperar o processo ser julgado! Joga na mão do Schabowski, do Goethe, do Schiller, do Nietzsche – niilista é bom, blasê. Caguei se não der certo. Medo: não vai ser aprovado. Precisa residir na Alemanha; estou prestes a entrar numa temporada de pesquisa na Itália – paga pela Alemanha – mas que alterará meu endereço oficial. Caos. Precisa sair rápido, é agora ou nunca. Calma, mas não tão rápido. Chega uma carta – sim, alemães amam carta: compareça aqui dia 8 de agosto. 08/08. Que data estranha. Meu primo disse uma vez que 8 é um número bom. Significa infinito. Minha família só tem maluco. Opa, mas tenho um voo para Singapura dia 7 à noite! Que caos. Muda esse voo, paga taxa. Final feliz.

Leio uma frase de palavras enormes, prometo respeitar a Constituição alemã, os direitos humanos, as instituições e o Parlamento. Pronto! Dez minutos depois, estou com o certificado de naturalização em mãos. Foi como preparar uma refeição nível três estrelas Michelin e comer tudo em 10 minutos. Agora posso votar, não preciso mais avisar a imigração quando mudo de cidade.

Vira e mexe me perguntam onde me identifico mais. Não sei, essas perguntas me confundem. Minha língua materna, meus mortos (por enquanto) e a música me levam ao Brasil. Os trejeitos, a comida e as maluquices familiares (Non sono italiano, sono austriaco, porco Dio), pra Itália. A pesquisa, a ciência, a profissão e a organização me remetem à Alemanha. Acho irônico eu pegar o passaporte alemão depois de tantos anos, meses antes de seguir para a Itália. Não tiro o Ernesto da cabeça, que saiu da Itália provavelmente faminto e hoje descansa no cemitério em Itu. Atravessou o oceano para mandar as futuras gerações para as universidades mais renomadas na Itália. O futuro é um troço doido. Vai saber se não arrumo um emprego em outro país e me naturalizo britânica, francesa ou belga. Não sou brasileira, italiana ou alemã. Acho que sou uma mistureba dos livros lidos, das pessoas conhecidas, dos lugares visitados e das perdas sofridas. Parte desse mundão por aí – e segue o baile. Férias lá vou eu!


segunda-feira, 11 de novembro de 2024

Chegadas e partidas

Hoje é uma data para ressuscitar esse blog sobre estranhices, esquisitices, contradições e peculiaridades da vida. Faz anos que não escrevo, nesse vai-e-vem entre países, conferências, pesquisa e artigos. Essa tarde, percebi que meus últimos posts foram escritos durante a quarentena, quando ainda fantasiava poder sair, viajar, colocar uma mochila nas costas. Um terapeuta perguntaria, “você realmente quer o que deseja”? Nunca saberemos. Minha versão de 2021 queria voar e explorar o mundo. Em 2024, gostaria de conseguir passar pelo menos dez dias numa mesma cidade. Esse ano me levou para o Japão, EUA, Austrália, Nova Zelandia, Portugal, Eslovênia, terminará na Irlanda e, por fim, no Brasil. As idas entre Alemanha e Dinamarca eu já desconsidero. Vida é movimento, ciclos. Tenho medo de parar. Medo ou quem sabe culpa. Hoje, nessa mesma data, 10 de novembro, perdi um primo em um acidente de carro, aos 22 anos. Depois dele, ainda vieram muitas outras perdas, menos traumáticas, mas nem por isso menos doloridas. Assim, sinto-me em dívida com os que se foram. Preciso viver por eles, por mim, ver, conhecer e experimentar o que eles já não podem mais. Como desperdiçar a vida que me foi poupada? Jamais. 

Eu tinha uma aposta com esse meu primo. A gente fazia piada. Quem fosse ‘premiado’ (na verdade, dizíamos “quem se lascasse primeiro”) teria que pagar uma paella com sangria para o outro. Esse “se dar mal” era a visão de dois adolescentes ou jovens adultos sobre virar pai ou mãe. Riamos e tínhamos convicção de que ganharíamos um do outro. Infelizmente venci a aposta. Ganhei por “W.O” porque ele “walked away” desse mundo miserável. Os primos mais novos assumiram a aposta na tentativa de dar continuidade as besteiras que trazem leveza a vida. 

Acredito que essa perda tenha mudado muito a família. Trouxe a percepção de que a vida é efêmera, curta, inesperada. Meu primo viajou para uma pescaria tranquila, pacata e sem retorno. Qualquer sonho, ideia, projeto que tínhamos – mesmo que se vistos como não muito normativos – nunca foram boicotados. Ninguém nos empurrou qualquer cartilha chata como terminar faculdade, casar, trabalhar em banco com carteira assinada, pagar aposentadoria ou frequentar igreja aos domingos. Todos nós saímos do país por anos, sem pais, mães ou avós fazerem drama ou chantagem emocional. Muito pelo contrário. Anos se passaram. Cada um superou esse baque a sua maneira. Vida segue, vida é movimento. 

Fui pescar na Noruega pela primeira vez e descobri como pode ser legal. Fiz as pazes com a atividade que até então me parecia traiçoeira. Ressignifiquei. E eis que nesse ciclo de movimentos inusitados de 2024, mais de vinte anos depois da minha primeira vitória por W.O, o irmão caçula do meu primo foi premiado e descobriu que seria pai. Não vou contar aqui a epopeia do querido casal até eles decidirem anunciar a gravidez para não expor a intimidade alheia. O processo rendeu boas risadas. E bons vinhos também. Fato é, o pequeno deveria se chamar MacGyver. Como nascerá na Irlanda, acho que os pais acharam queima filme. A razão da minha paella na faixa, com sangria, vinho e sobremesa, vai se chamar Gregório. Carinhosamente já apelidado de Greg. A aposta foi paga em Algarve, Portugal, última vez que vi o casal curtindo a vida antes de embalarem nos cantos gregorianos da madrugada. A data prevista para a chegada desse mais novo integrante seria 09 de novembro. 

Fiquei empolgadíssima. Teria um sobrinho que nasceria na data da queda do muro de Berlim. Fim da Guerra Fria. Fim da Cortina de Ferro. Sempre penso como teria morado tantos anos da minha vida na Alemanha oriental, feito mestrado, doutorado, pós-doutorado se não fosse o 09 de novembro. Liberdade. Fiquei com isso em mente. 09 de novembro de 2024. Voei de Copenhagen para Berlim. Foi uma semana puxada pra mim profissionalmente. Muitas incertezas. Uma semana conturbada também em termos geopolíticos. Aquele clima de liberdade há 35 anos estava bem diferente. Trump ganhou as eleições nos Estados Unidos. A coalizão do governo alemão se desfez quando o chanceler social democrata Scholz  (SPD) despediu Lindner, o ministro liberal das finanças (FDP). Comprei o Berliner Zeitung  que reportava sobre as comemorações do muro e a revista der Spiegel para ler sobre a crise no Bundesregierung. A guerra na Ucrânia continua e a disputa Hamas e Israel ainda assombra o Oriente Médio. Que mundo para se chegar. 

09 de novembro. Gregório já estava sendo espremido mundo afora. Mas ele não chegou dia 09. Após 40 horas de parto, Gred veio ao mundo no dia 10 de novembro, na mesma data em que seu tio deixou esse mundo. Pra mim é tão difícil escrever ‘tio’ porque hoje, quase aos 42 anos, quando vejo as fotos daquele meu primo mais velho pouco antes do acidente, enxergo uma criança. Greg também nos trouxe liberdade. Veio chutando à marretadas esse muro de tristezas que rondava a família. Já nasceu nos mostrando como sustentar as contradições dessa vida. Penso nos avós (meus tios) e no pai (meu primo) que perderam um filho e um irmão na mesmíssima data que ganharam filho e neto. Vida louca, mundo louco. Bem vindo Gregório! Que sua vida seja intensa, bonita e cheia de peculiares contradições. Viva como se não houvesse amanhã! 


domingo, 20 de junho de 2021

Lisboa: chegar e partir

Não sei se foram os doze meses em quarentena ou o espacate de treze anos entre Alemanha e Reino Unido que me deixaram assim. Com esse jeito meio bobo, meio gringa deslumbrada no Mediterrâneo. Passo protetor solar religiosamente todas as manhãs e faço o “pequeno almoço” na varanda. Sim, mesmo que esteja frio para os padrões lisboetas. Paro na rua e admiro árvores de mexericas e limões sicilianos. Pareço uma criança paulistana quando escuto um galo cantar numa capital. Juro que tem galo! Acho os telhadinhos vermelhos desiguais, cheios de antenas tortas destoando na paisagem, o charme maior do continente. Mais do que pão de queijo nas padarias, tapiocas nos supermercados e até mesmo catuaba para relembrar a adolescência, há lajes e varandas. Às vezes torço para chover só para sair gritando – “olha a roupa no varal”. Há anos não me lembrava que roupas podem secar livres ao sol e ao vento. 

sexta-feira, 23 de abril de 2021

Londres, see you soon.

Foram exatos quatro anos. Quarenta e oito meses em que reclamei do preço do aluguel, da quantidade de turistas baldeando na estação Green Park, do sotaque indecifrável de East London (Cockney), do cheiro de fritura do Fish & Chips. Virei piada entre os amigos. Eles reviravam os olhos e repetiam – “sim, peixe é grelhadinho só com um fiozinho de bom azeite”. Concordavam para não contrariar! Tentaram me apresentar o Spaghetti Hoops! Italianos, por favor, pulem as próximas duas linhas. Foi uma das coisas mais bizarras que já vi no Reino Unido. Anéis de massa com molho vermelho, ultra processado e enlatado. Come-se sobre um toast para curar a ressaca. Felizmente, consegui me refugiar nas tortas (Pie & Mash) e dizer que há algo para se apreciar na culinária britânica. São boas mesmo.

quarta-feira, 3 de março de 2021

Fantasia e Realidade

Uma parte de mim gosta de envelhecer. Só uma parte mesmo. Acho uma tremenda besteira juvenil a maioria das coisas que escrevi anos atrás. Por isso estou aqui preocupada em divertir a Regina do futuro. A melhor parte desse blog é dar motivos pra rir deu mesma daqui alguns meses. Há oito anos (2014) comemorei meu aniversário no meu primeiro colóquio de doutorandos antes mesmo de receber o financiamento para pesquisa. Pisquei e acordei com quase quarenta anos! Quando desejo de volta aquela juventude, esqueço que teria de abrir mão de todo o caminho até aqui – livros, músicas, amigos, viagens, pesquisas, conferências, um milhão de crises existenciais, perdas, mudanças, dúvidas, conquistas. Seria mais jovem, mas bem menos completa e mais amedrontada. Pra apaziguar esse paradoxo o jeito é intensificar a vida antes de cair no divã aos quarenta. Viajar, fazer umas cagadas, mudar mais algumas vezes, cruzar a Transiberiana, fotografar, caminhar, ler mais uns livros, aprender italiano, escrever outras besteiras, virar mestre de yoga, meditação, sei lá. Quando e se o Covid deixar. 

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Antídoto 2020-2021! Será que teremos vacina contra burrice?


2020 foi esquisito em exponencial. Bizarro mesmo. Um ano de perdas colossais, dúvidas, incredulidade, um vendaval digno de um demônio da Tasmânia. Assisti “Death to 2020” (Netflix), ri demais com toda a retrospectiva da política à la pornochanchada anos 80, e olha que o filme se mantem majoritariamente no eixo US-UK. Imagina se trouxessem com mais afinco a destrambelhada agenda mortífera do miliquinho acéfalo brasileiro. Em alguns países, o número de vítimas já se iguala ao de soldados mortos da Segunda Guerra Mundial. Não surpreende que muitos já comemoravam o Natal em agosto! Chegou a vacina, uma leve esperança, mas também as mutações que mais uma vez suspenderam o mundo. “Plunct Plact Zum, não vai a lugar nenhum”! Um ode ao carimbador maluco do Raul. O cerco começou a se fechar, pessoas próximas adoecendo. A gente aqui equilibrando medo, saudades, arriscando um encontro aqui e acolá. Culpando-se por um abraço. Depois respirando fundo com um resultado negativo em mãos. A vida sempre foi um xadrez, um balanço estratégico de prós e contras, um cálculo de possíveis perdas. Mas o sazón 2020 já salgou demais na boca. Negacionistas, milícias digitais, caos e desinformação generalizados, o picadeiro macabro de 2020. A vacina contra desinformação também faria um bem danado!

domingo, 25 de outubro de 2020

Partiu pro Paraguay!

Cada um lida com suas perdas como pode. Os Cazzamattas, muitas vezes, enfrentam dores com piada. Quando as lágrimas caem, alguém tira alguma besteira fenomenal da cartola para transmutar o choro em gargalhada. Então, a pessoa que fez a graça também se emociona e as horas seguem nessa mistura de piadas, anedotas, angústias e preocupações. Típica situação dos nossos velórios, dos mais traumáticos pelo menos. Não é difícil traçar as origens desse lado tragicômico da família, bastava olhar pro “capo” (carinhosamente atribuído ao Sr. Júlio Cazzamatta). Ele merecia um velório de pelo  menos 72 horas de piadas. Netos e filhos recontando histórias e polêmicas das mais diversas perspectivas (Covid de merda). Não darei conta aqui, somente na compreensão de neta, de recontar toda sua figura complexa e caricata. Precisava ter ao meu lado todas as outras pessoas que conviveram com ele pra remontar esse quebra-cabeça. Natural de Salto de Itu... Ops, quem o conheceu que complete a frase: “Salto de Itú é o seu c...”. Spoiler: se você não gosta de palavrão, pare de ler o post nesse preâmbulo introdutório. É muito difícil reconstruir histórias de Júlio Cazzamatta com uma linguagem educada. Mas prometo que tentarei. Logicamente só narrarei aqui os causos mais ou menos publicáveis. Acabo de escutar sua voz: “Rê, vai cagar”. 

sexta-feira, 17 de julho de 2020

Semântica é o seu c...

Essa semana, covid à parte, me aconteceu algo bem bizarro. Sequer posso dizer que foi surpreendente porque essas sutilezas são parte do cotidiano feminino. Sutilezas, aliás, que boçais de plantão teimam em classificar como mi-mi-mi. Respiro fundo. Não é ‘questão de semântica’ ou análise de discurso de conversa de elevador, mas uma sensibilidade para nuances da nossa cultura patriarcal. “Eu ajudo” é uma ova, só para citar uma clássica. Notem que estou tentando usar menos palavrões para expressar emoções negativas! 

sábado, 6 de junho de 2020

Estratégias de quarentena

Uma das minhas táticas de sobrevivência durante a quarentena foi me inscrever em um curso de crônicas (vai lá, foi bem legal). Mas, paradoxalmente, nunca escrevi tão pouco. Esse blog está menos movimentado que restaurante em tempos de pandemia. Até as moscas escafederam-se. Pode ser o excesso de trabalho? Talvez, mas já encarei fases mais tensas e isso nunca me aconteceu. Mesmo imersa em um mar revolto de artigos para ler e capítulos de tese para finalizar, encontrava uma prancha velha esgarçada para uma pausa. Um tempinho pra escrever despretensiosamente sobre o cotidiano e retomar o fôlego. O problema mesmo é meu superego.

quinta-feira, 14 de maio de 2020

Quarentena, privadas e excrementos

Quando o muro de Berlim despencou, eu não era uma criança de fraldas, mas ainda usava um penico. Não entendia muito de geopolítica e, aparentemente, nem de banheiro. Recordo nitidamente da musiquinha épica do plantão da TV Globo e da minha avó estatelada em frente à televisão. Enquanto a sopa de feijão fervia na cozinha, ela exclamava com seus cabelos esbranquiçados para o meu tio: “viu, o socialismo acabou”!

domingo, 12 de abril de 2020

Ressureição

Em um domingo de Páscoa, ela chegou a conclusão que Natal é superestimado. Nascimento de Jesus... grande merda. Qualquer um nasce, até Bolsonaros nascem. Foda mesmo é ressuscitar, essa ela queria ver (ou crer). Apesar de extremamente religiosa, dependendo do dia, resolveu, por assim dizer, ser uma católica devota e comemorar a Páscoa apesar das condições restritas impostas pelo corona vírus e a peste enviada por causa dessa geração Easy Jet. A culpa só poderia mesmo ser deles. Se criassem raízes em seus bairros, comprassem casa, cassassem, reproduzissem e morressem no seu vaso, não espalhariam essa bodega. Mas não era o momento de apontar os dedos. Ninguém “normal” pensou em culpar os libertinos pelo surto da Aids nos anos 80.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Flaneurs de Instagram: diário de quarentena

Quando saí da Alemanha há duas semanas, as ruelas da pequena Erfurt, capital do Estado da Turíngia, já estavam fantasmagóricas. O aeroporto de Nuremberg operava de modo improvisado, com parte da infraestrutura interditada. Ao chegar em Londres, encontrei algo excepcionalmente distante do cenário narrado em O Homem da Multidão. Allan Poe também deve estar lá com José Saramago no céu dos escritores, observando de camarote celestino essa mutação do espaço urbano moderno.

quinta-feira, 26 de março de 2020

Ressuscitem o Saramago!


Se existisse um céu de escritores, José Saramago estaria mesmo por lá, bem puto da vida aliás, pisoteando enraivecido uma harpa angelical e irritante. Provavelmente, baseado no Evangelho Segundo Jesus Cristo, chamaria Deus de uma grande ingrato, vingativo e lazarento. Aquela mente genial pensou numa situação hipotética em que todos ficavam cegos e nos deu o brilhante “Ensaio sobre a Cegueira”. Anos depois, em “Ensaio sobre a Lucidez”, mostrou o que ocorreria se uma população inteira votasse em branco. Se nós brasileiros lêssemos mais, resolveríamos a dicotomia do ódio ao PT ou o voto num acéfalo nazistinha desse modo. Mas sem política. De volta à literatura. Saramago ainda criou em “As Intermitências da Morte” uma narrativa em que ninguém mais morria, e se assim o quisesse seria necessário atravessar a fronteira do hipotético país. Tudo isso pra dizer que estou aqui na minha quarentena londrina, fazendo uma reivindicação com a cúpula espiritual para que ressuscistem o Saramago. Nem ele previu que um vírus batizado com nome de cerveja deixaria a população mundial (com algumas exceções, em casos de países com governantes menos pensantes que lombrigas parasitárias) trancafiada em suas casas. 

sexta-feira, 20 de março de 2020

Covid-19 e a epopeia para defender uma tese em meio ao pandemônio


Terminar o doutorado é um rito de passagem que marca sim (desculpa a chorumela) a vida acadêmica das pessoas. É um momento importante e eu tinha certeza que escreveria um post traduzindo meus agradecimentos para o português ou, sei lá, gritando para toda a Internet o quanto estava aliviada. Mas o pânico que eu sentia em imaginar a sabatina dos examinadores foi, ao longo dos últimos sete dias, transformando-se no desespero da dúvida se a prova aconteceria ou não. Aconteceu. Foi um gol de pênalti marcado no último milésimo de minuto do segundo tempo em final de copa do mundo. A última vez que segundos fizeram a diferença na minha vida, um avião da TAM despencou no meio da 23 de maio em São Paulo e meu carro conseguiu parar antes do fogaréu.

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

A curiosidade matou o gato! Quem é esse sádico revisor?

Dar asas às minhas paranoias é uma fonte inesgotável de posts. Vamos dizer ao “meu fantástico mundo de Bob” para não parecer assim tão patológica! É fácil criar histórias com as compras de supermercado dos outros, os livros que as pessoas leem no ônibus ou as manias que deixam transparecer mesmo quando tentam esconde-las. Ah, quase esqueci. A playlist do Spotify é um manancial de diversão e elucubrações disparatadas. Como esse cara legal consegue escutar esse sujeito tão chato? Quem gosta de Brian Eno anyway? Trilha sonora pra sal de frutas, mais entediante que filosofar o nada. Pra mim, ficar matutando essas coisas é uma distração off-line interessante, um processo quase terapêutico. Claro, se estamos plantados na fila do caixa, sentados no metrô abarrotado ou entediados numa sala de espera. O problema é quando essas distrações começam a atrapalhar sua produção diária. 

terça-feira, 12 de novembro de 2019

Berlim: 30 anos depois da queda do muro


Esse post parece mais um Déjà-vu. Já escrevi reportagens sobre os vinte anos da queda do muro, posts sobre os 25 e aqui estou eu de novo 30 anos depois. Embora seja um dos maiores acontecimentos do século 20, nem Freud explica essa minha obsessão. Tenho lembranças do ocorrido, numa perspectiva claramente infantil de uma criança de seis anos. Meu jantar que não vinha, minha avó paralisada em frente a TV e a Globo anunciando a musiquinha do plantão. Coisas estranhas da vida. Mal imaginava à época que moraria por quase dez anos em cidades na Alemanha Oriental e completaria grande parte da minha vida acadêmica por lá. Só queria mesmo ser astronauta, pintora ou aeromoça pra poder viajar.  

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Cambridge em um Fim de Semana

A cidade é uma boa opção para um passeio de fim de semana, um aconchego bucólico de outono quando cansamos da caótica e intensa moça londrina. Mas é difícil desassociar o destino no condado de Cambridgeshire com seu clima estudantil e os nomes mais cabeçudos da história inglesa. Tanto que um grande número de colleges compõe a lista dos pontos turísticos mais visitados por aqui. Ao pisar no centro histórico, a capela da King’s College domina o reino do conhecimento (e estampa os panos de pratos mais bregas do interior britânico). Um ícone da arquitetura gótica, com vitrais coloridíssimos e teto de abóbodas brancas, é um must-see dos guias de viagem. Mas, diferente de outros países europeus, a universidade aqui não mantém as portas abertas para a sociedade civil. Well, ao menos que se abra a carteira! Em Berlim, podemos entrar na Humboldt, passear pelos corredores, admirar os dizeres de Marx gravados no mármore sem nenhum problema. Por outro lado, em Cambridge, o hobby dos porteiros é barrar visitantes na entrada como se fossem homens-bombas no Heathrow. Há inclusive histórias constrangedoras de professores questionados à entrada por não se encaixarem no padrão de vestimenta “lorde inglês”. Fato é que o total de 31 colleges, embora nem todos abertos à visitação, pode ser um problema pro bolso.

domingo, 15 de setembro de 2019

A casa do Freud em Londres

Tenho um prazer enorme em bisbilhotar à casa alheia pelas janelas entreabertas. Acho ainda mais interessante se ninguém estiver presente. Assim, posso criar a figura de um personagem, um morador fictício, baseada nos objetos que compõem o cômodo bisbilhotado. A indiscrição é tanta que até já ganhei um livro de fotos de janelas parisienses, exibindo a vida privada da cidade. Por essa mesma lógica, gosto também de visitar museus que outrora foram residências de escritores, artistas ou intelectuais. Já vasculhei os antigos lares de Goethe, Schiller, Nietzsche, Otto Dix, Thomas Mann, Shakespeare, Van Gogh, Picasso... Recentemente, inseri na lista a última morada de Freud, na Maresfield Gardens, número 20, no charmoso bairro de Hampstead, em Londres.

terça-feira, 10 de setembro de 2019

Costa Alentejana em Portugal: Falésias dramáticas e praias selvagens


A costa do Alentejo é dona de algumas das mais belas praias de Portugal. Esse trecho do litoral lusitano se estende por cerca de 100 km desde a Península de Troia até o litoral do Algarve, no sul do país, e exibe uma sucessão de praias marcadas por falésias rochosas dramáticas, dunas, mar azul e pouco movimento de turistas se comparado a outros litorais europeus mais badalados. Estradas litorâneas contornam à beira-mar pelo alto das falésias, exibindo altos mirantes e facilitando os deslocamentos entre uma cidade e outra.

sábado, 31 de agosto de 2019

Alentejo-Portugal: Orgia Gastronômica

O Alentejo é famoso por sua boa gastronomia. Por um lado, as influências do litoral dão á mesa deliciosos pratos de peixes e mariscos. Por outro, o interior traz os elementos da terra como os enchidos e os pratos de caça. Coentros, oréganos, hortelã, alecrim e manjericão dão um baile de aromas e sabores. Não deixe de experimentar a sopa de cação com coentro, servida no restaurante Fialho ou o bacalhau com espinafre no Café Alentejo, ambos em Évora.