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quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Cervejas e Absinto na República Tcheca

Com uma culinária baseada em muita carne de porco, batatas e repolho, a comida da República Tcheca, no geral, é bem calórica e pouco refinada. No entanto, na categoria bebidas, eles manjam do riscado. A cerveja (pivô, e tcheco) é uma das melhores do mundo. E isso há muito tempo: foi na cidade tcheca de Pilsen, no século 19, que o processo de fabricação da loira do tipo pilsen foi inventada. As marcas mais conhecidas do país são a Pilsner Urquell e a Budweiser original, que não tem nada a ver com a marca norte-americana, mas o país produz uma porção de outros rótulos, que podem ser degustados na taberna medieval Brabant (rua Thunovská, 15, em Malá Strana). 
Outras bebidas tradicionais, e fortes, são o slivovice, uma aguardente à base de frutas, e o mítico absinto, lá vendido em qualquer bar ou loja com teor superior a 70 por cento. Se em vez de pirar o cabeção você só quer se aquecer do frio, faça como os nativos: peça para seu café vir acompanhado de uma dose de becherovka, licor que leva 34 ervas e tem um pronunciado sabor de canela.   

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Munique e a Oktoberfest


Munique
Um brinde à capital da cerveja
(Texto originalmente publicado na revista Viaje Mais! Set.2013)

A cidade alemã é famosíssima pela Oktoberfest. Mas ela também é a terra da BMW, do time de futebol Bayern, das moças de cabelos trançados que vendem pretzel nas ruas, da arquitetura e da arte moderna

Regina Cazzamatta

Carros da desejada marca BMW circulam aos montes pelas ruas de Munique. Também pudera: a matriz e uma fábrica da empresa ficam nessa bela cidade alemã, a terceira maior do país. O município também é a casa do Bayern. Um dos times de futebol mais poderoso da atualidade, a equipe reúne alguns brasileiros em seu plantel, como o volante Luiz Gustavo e o zagueiro Dante, os quais atuaram pela seleção canarinho na Copa das Confederações recentemente vencida pelo Brasil. E ainda há pelas ruas da cidade lindas moças de tranças loiras vendendo brezel, o tradicional e crocante pão alemão em forma de laço, chamado pretzel no Brasil. Os símbolos conhecidos são muitos, mas todos os anos, entre setembro e outubro, é outra marca local que se sobressai: a cerveja consumida aos milhões de litros na Oktoberfest.

O etílico evento surgiu em 1810, como parte das celebrações do casamento do príncipe Ludwig, mais tarde Ludwig I, com a princesa Teresa da Saxônia. Como os münchners, nativos de Munique, adoram cerveja e farra, a festa ocorreu de novo, de novo e outra vez mais... até chegar à edição de numero 180, em 2013.
Mas não só os amantes de cerveja, futebol e carros que encontram diversão por lá. Aficionados por cultura e arte e apreciadores de design, alta costura e gastronomia também estão no ligar certo. Certo não, certíssimo. Assim, não é para menos que Munique receba 6 milhões de visitantes por ano, que já no primeiro dia perambulando na cidade aprendem a pedir a famosa Maß, aquela canecaça preenchida por um litro de cerveja.

Oans, Zwoa, Gsuffa!
A Oktoberfest tem início em 21 de setembro de 2013 e segue até 6 de outubro. Mas, antes de começar a entornar o caneco, prepare os ouvidos para o famoso hit da festa, entoado a torto e a direito: oans, zwoa, gsuffa! (pronuncia-se algo como óains, dzvóa, gzufa), que no dialeto da Bavária significa um, dois e embebedar! É assim que os participantes brindam durante o evento mais famoso e esperado do ano, o qual, desde 1810, é realizado no Theresienwiese (campo da Teresa), chamado de Wiesn (vízen).
 O local é um verdadeiro parque de diversões dedicado à cerveja, reunindo as enormes tendas que vendem a loira, brinquedos como o emblemático carrossel e o chapéu mexicano, e espaços para shows e outras atividades que se desenrolam durante a festa.

No dia da abertira, pontualmente às 11h, há um desfile rumo ao Wiesn. É nesse momento que as cervejarias despacham seus barris para o local dos festejo, transportados em carruagens ornamentadas por fitas, folhas e guirlandas. Ao meio- dia, o cortejo já chegou ao Wiesn, e, na tenda Schottenhamel, o prefeito de Munique dá uma martelada e fura o primeiro barril.

Até esse momento, que marca o início oficial do embebedamento coletivo, o cronômetro mostra uma contagem regressiva e aos visitantes a acompanham em alto e bom som, como se estivessem esperando a virada do ano. Aí, pelas mãos do prefeito, a cerveja, produzida especialmente para essa ocasião, começa a jorrar. É a deixa para todos exclamarem o´zapft is, algo como fluindo, aberto está, o que é dito mais ou menos assim: “otzapft is”. O êxtase da galera pode ser sentido msmo por quem está longe dali, já que a cerimônia é transmitida pelos canais de TV de toda Alemanha.

Cada um no seu quadrado
Cada cervejaria tem sua mega tenda, com clima e públicos diferentes. Munchners e estudantes preferem a da Augustiner, enquanto norte-americanos e australianos freqüentam a da Hofbräu. Quando a movimentação está nas alturas – tais espaços comportam até 10 mil pessoas -, pode ocorrer das portas serem fechadas até a superlotação dar uma folguinha. Aí as casas voltam a aceitar novos bebedores.

No meio dessa muvuca sem fim e ao som de bandas típicas, garçonetes com o típico vestido de babadinhos carregam até oito canecas de um litro de cerveja! Bandejas enormes, cheia de especialidades da Baviera, também circulam sob as cabeças dançantes nos salões.

Para dar conta do apetite dos 6,9 milhões de visitantes, os números etílico- gastronômicos da Oktoberfest são grandiosos. Alem de 7 milhões de litros de cerveja, vão para a panela e para brasa 500 mil frangos, 100 bois e 200 mil salsichas, usados em vários pratos da região. Para prová-los em grande estilo, vá à tenda Hippodrom, que também vende taças de vinho e champanhe – e até receber, por incrível que pareça, uma missa católica durante os dias da bebedeira.

Mais cerveja e salsicha
Se não der para estar em Munique na Oktoberfest, tudo bem: as cervejarias que fazem a fama da cidade funcionam o ano inteiro e recebem muito bem os fregueses. A Ausgustiner é a mais antiga da região: existe há quase 700 anos. Sua história remonta a 1328, quando um mosteiro agostiniano, nos arredores da Igreja Frauenkirche, um dos cartões postais de Munique, produzia a bebida. Hoje, a cervejaria funciona em outro local, que se mantém tal qual na época de sua construção, e, 1897, e é um verdadeiro palácio das cervejas.
Se a temperatura estiver agradável, deguste sua Maß no jardim nos fundos, um dos mais idílicos da cidade, com arcos romanos e paredes verde-claro, onde estão estampadas pinturas de musas à la Botticelli. Embora não dê vontade de sair dali, vale perambular pelos diferentes ambientes da casa.
A cerveja clara da Ausgustiner é vendida numa garrafa que exibe um logo esverdeado e, por isso, os locais se referem a ela como “monge verde”. Para acompanhar a bebida no melhor estilo Bavaro, nada mais indicado do que um par de salsichas brancas – as weißwürstchen (pronuncia-se “vaisvurtichen”), feitas à base de carne de porco, carneiros, cebola e temperos – servidas com brezel, os tradicionais pães trançados.
As salsichas chegam à mesa dentro de um pote, embebidas em água quentes. É preciso fazer um leve corte com a ponta da faca no produto para a pele sair inteirinha, deixando a carne pronta para ser degustada na companhia de uma mostarda adocicada. Mas, atenção: as “branquelas”, segundo manda a tradição, não devem escutar o sino do meio- dia. Ou seja, as weißwürstschen são iguarias consumidas no café da manhã. Isso que dizer que, quando os turistas saem para assistir ao espetáculo do relógio da prefeitura na Marienplatz (praça principal), ao meio-dia, por exemplo, as salsichas já devem estar no estômago, em processo de digestão.

Apesar da tradição, é comum ver os potes com o alimento saçaricando o dia todo nas bandejas das cervejarias. “Comer salsicha branca não é como tomar um cappucino, o que se faz a qualquer hora, mas os turistas podem”, disse um morador, rindo de mim, enquanto eu as saboreava por volta das 16h.

Höfbrau, espécie de ensaio para a Oktoberfest
A Höfbrau é a mais diversificada e turística cervejaria a ponto de ter áreas de venda de suvenires e lojas dentro do próprio complexo. Ainda assim, a casa não deixa de ser visitada pelos locais – e o grande número de plaquinhas em cima das mesas com o termo stammtisch comprova isso. A palavra refere-se a uma espécie de reserva eterna, e as mesas com a tal placa são lugar cativo de determinada família. Assim, não importa quão cheia a casa está, quem te “mesa eterna” pega sua Maß assim que chega.
O salão principal é embalado pelo som de uma banda. Ali, jovens e velhinhos, turistas e nativos, homens e mulheres, se encontram para brindar. Nesse ambiente, o volume fica tão alto por conta da banda e do zumzumzum dos freqüentadores e os garçons ficam num ritmo frenético que a experiência pode ser encarada como um ensaio geral para a Oktoberfest.
Burburinho na Marienplatz
Entre um pit stop e aqui e várias lições aqui e acolá sobre as curiosidades da região, perca-se pelo centro histórico de Munique. No meio da movimentada Praça Marienplatz, uma coluna com a imagem dourada de Nossa Senhora destaca-se entre as torres da Frauenkirche (Igreja das Mulheres), que fica no quarteirão de trás.
Quem visita a igreja logo procura pela marca de um pé, que teria sido deixada pelo diabo perto do órgão, na entrada. Conta-se que o arquiteto responsável pela obra fez um pacto com o demo em 1468, que o autorizou a fazer uma belíssima catedral, desde que sem janelas. Quando a construção foi concluída, o tinhoso foi convidado a verificar o resultado. Ao perceber que fora enganado pelo jogo de colunas que escondia as janelas e vitrais, ficou furioso e ali cravou seu pé.
Ao longo do dia, cafés, sorveterias e lojas no entorno da Marienplatz, marcada pela prefeitura gótica, ficam lotados. Uma ótima vista das pessoas flanando no pedaço é vislumbrada da torre da Igreja de São Pedro. Embora o quase sem fim de degraus da escada sejam estreitos e de mão dupla, o visual recompensa o esforço da subida (e descida). Lá de cima, é possível fotografar todo o enorme prédio da prefeitura, as cúpulas esverdeadas da Igreja das Mulheres e mesmo a torre de Museu de Brinquedos, mais ao longe, alem de observar o formigueiro de pessoas.
O burburinho da Marienplatz, porém, já foi bem maior, já que ali ficava o mercado Virtualienmarkt, transferido, em 1807, para outro quarteirão, próximo da praça. Nele, encontra-se de tudo_ cerveja a champanha, joelho de porco a temperos italianos, queijos franceses e cogumelos de diversos tipos , alem de enfeites artesanais, flores e as típicas bolachas em forma de coração com os dizeres ich liebe dich (eu te amo, em alemão).
Nesse coração pulsante de Munique, há também pessoas com roupas típicas da Baviera, como se estivessem nas cervejarias ou na Oktoberfest. Muitos não ligam de serem fotografados pelos turistas e até acenam ou levantam seu copo para brindar os flashes.
À parte as igrejas e suas lendas, bem como os personagens folclóricos da região, o Mercado é famoso pelas seis fontes de água, que, decoradas com estátuas de antigos artistas da vizinhança e com flores deixadas pelos transeuntes, garantem água fresca e potável aos passantes. A fonte dos Pecadores, na Marienplatz, vai alem desse papel: reza a lenda que quem molhar seu porta- moedas naquelas águas, na Quarta- Feira de Cinzas sempre terá os bolsos cheios de dinheiro.

Surfe e mais Cerveja
Nos meses mais quentes do ano e mesmo no começo do outono europeu, até meados de outubro, um programa ao ar livre é extremamente recomendado: curtir o Englisher Garten (Parque Inglês), à beira do Rio Isar, motivo de orgulho dos locais. É que a metrópole, onde vive 1,5 milhão de habitantes, é uma das poucas grandes cidades do mundo em que os moradores encontram um rio tão limpo a ponto de poderem nadar nele.
A correnteza do Isar é tão forte que muitos pulam no rio e deixam levar pelas águas que cortam o parque. Te também quem faça o percurso com bóias ou, para variar, deguste uma cerveja numa patê mais calma do curso do rio.
Mas bacana mesmo é ver o pessoal surfando na altura da ponte Eisbach. Com a forte correnteza e as peras no caminho, formam-se ondas grandes o suficiente para que surfistas se equilibrem em pranchas e dêem um show aos visitantes, que até se sentam à beira-rio para vê-los dominar a força das águas ou cair desastrosamente nelas.
Outro destaque do parque é a torre chinesa, de 1798, situada no meio de um biergarten, o jardim da cerveja. O costume de freqüentar esses emblemáticos bares ao ar livre, que desde a Idade Média marca o estilo e vida na cidade, veio com uma esquisita lei de 1539. Naquele ano, a produção de cerveja foi proibida durante os meses de maio a outubro, devido ao perigo de incêndio por causa do calor. Mas, como a bebida era muito mais vendida justamente nos meses de verão, os estabelecimentos começaram a produzi-las antecipadamente e estocá-la em porões. Para manter amena a temperatura desses ambientes, plantavam-se castanheiras na parte de cima, até que alguém teve a genial ideia – os alemães e o mundo agradecem – de puxar uma bomba e vender a cerveja no local em que eram guardadas. Nasciam os biergartens, equipados com mesas enormes, coletivas e com bancos de madeira, colocados debaixo de grandes árvores.

Nos jardins da cerveja não há garçons; é preciso ir até a tenda buscar a bebida e comida. Conforme o movimento, os canecos são deixados preparados e ficam debaixo de uma placa que indica o tipo da bebida oferecida: clara, escura ou misturada com soda. Como antigamente a venda de alimentos era proibida, muitos freqüentadores levavam seu próprio lanche. Até hoje, alguns biergartens mantém uma área em que os visitantes podem consumir a comida que trazem. Quem não quiser preparar seu piquenique normalmente encontra nessas casas galetinhos assados com salada de batatas, joelho de porco ou o leberkäse, bolo de carne bovina e suína e temperado com cebola e bacon, apreciado dentro de um pão.

Carro, Futebol e Arte
 A cerveja não é a única paixão do münchners. Eles também adoram futebol e estão mais vaidosos do que nunca em relação ao principal time da cidade: o poderoso Bayern, atual campeão alemão e da Liga dos Campeões, o mais difícil dos torneios disputados na Europa. Como a equipe está com a bola cheíssima, e caso você goste de futebol, um giro pelo estádio do Bayern vai ser um passeio e tanto.
Desde 2006, a Allianz Arena é a casa do Bayern e do outro time que representa a cidade, o TSV 1860. Além do projeto extremamente moderno e bonito, a construção, que parece um pneu, se caracteriza pela mudança de cor de toda a iluminação da parte externa: fica vermelho ou azul, quando ali jogam equipes locais, e branco, quando recebe partidas de campeonatos internacionais, como a Copa que a Alemanha sediou em 2006.
A visita inclui um tour pela arena e pelo museu que conta a história do Bayern, o qual reúne fotos técnicos e jogadores, camisetas, chuteiras de artilheiros e um completo acervo para nenhum fanático por futebol botar defeito. Mas interessante mesmo são as andanças pelos bastidores do estádio, que levam à sala de imprensa e ao vestiário dos times. Decorado em vermelho, a cor do Bayern, cada cabine do vestiário tem a foto do jogador que vai usá-lo.

Como o gramado é o tapete da realeza, ops, dos craques da bola, ele é cuidado com muito esmero, com direito a banhos de sol artificiais e a dedicação e três jardineiros, encarregados de avaliar o impacto na grama. Quem quiser assistir a um jogo, os melhores ingressos custam entre 85 e 90 euros.
No parque Olímpico, erguido para a olimpíada que Munique sediou em 1972, está mais um ícone turístico, o complexo da BMW. Nesse espaço, encontram-se a linha de produção, o showroom com os desejados carros produzidos pelas montadora e o museu que mostra o desenvolvimento dos veículos ao longo do século 21. O prédio administrativo fica no centro do complexo e ostenta uma estrutura arrojada, que imita o motor de quatro cilindros da marca. Nesse moderno prédio de vidro, criado especialmente para exibir os carrões da BMW, os visitantes fazem a festa: entram nos veículos, tiram fotos e até simulam corridas ao volante de videogames. Quem der sorte pode até assistir a exibição de motociclismo, com direito a saltos e piruetas, além de ouvir roncar os motores das supermáquinas. Ao mais entusiasmados pelo assunto, a dica é se juntar a um tour guiado visitar a linha de montagem (às 15h, a visita é oferecida em inglês e, às 16h, em alemão). No Parque Olímpico destaca-se também a vila erguida para receber os atletas nos jogos de 1972 e, do alto da torre olímpica, a 182 metros do chão, dá para ter uma boa noção de toda herança deixada pelo evento esportivo, cujo visual soa moderno mesmo para os padrões de hoje: o lago usado nas provas aquáticas – onde crianças literalmente rolam dentro de bolas aquáticas, enquanto os pais bebem cerveja em mais um dos biergartens da cidade-, os ginásios, os alojamentos e mais um estádio se juntam ao moderno prédio da BMW.
Para quem não é muito ligado em esportes ou velocidade, vale passar a tarde em alguma exposição, já que Munique está na linha de frente no quesito arte contemporânea e tem pesos pesados na lista de museus imprescindíveis aos amantes da arte. Tanto quanto o próprio acervo, prédios como o da Pinacoteca do Moderno e o do Museu Brandhorst somam-se ao estádio do Bayern, ao complexo BMW e à vila Olímpica e dão um show de arquitetura moderna. 

Castelo dos Sonhos
Fechar a viagem conhecendo o Castelo Neuschwanstein – grande ícone arquitetônico do Estado da Baviera, se não o maior deles – é tarefa para aqueles que dispõem de pelo menos mais um dia livre para jogar numa das excursões mais populares da Alemanha. O destino é Füssen, na região de Allgäu, e o trajeto de Munique até lá é feito em duas horas, a bordo de um trem regional.
O Cênico percurso, que se desenrola em meio a paisagens montanhosas, tão perfeitas que parecem saídas das mãos precisas de um artista genial, é apenas um aperitivo que prepara a vista para a aparição do Castelo Newschwanstein, o qual desponta entre as colinas como uma miragem.

Se o legado do monarca Ludwig I foi a criação da Oktoberfest, ficou para seu filho, Ludwig II (1845-1886), que ganhou a alcunha de “o maluco”, erguer o palácio que é o grande cartão- postal do sul da Alemanha – e que inspirou Walt Disney a criar o Castelo da Cinderela na Disney de Orlando. Embora a construção tenha se iniciado em 1869, o rei amalucado o quis em estilo medieval, o que confere are românticos ao complexo, e sua obsessão era criar um palácio que fosse um palco gigante para reviver o mundo dos mitos germânicos.
No interior os destaques são a sala dos menestréis, onde há concertos todo mês de setembro, a sala do trono e a cama de Ludwig. Pelo luxo das instalações, é certo que esse ode à beleza e ao orgulho alemão custou uma tremenda fortuna, e por isso chega a dar pena do soberano, que passou somente 170 dias ali: Ludwig morreu misteriosamente afogado no Lago Starnberg, em 13 de junho de 1886, e, por conta de uma vida em que a realidade e a fantasia se misturaram em igual medida, ele entrou para história como um rei de conto de fadas.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Irlanda, Dublin: um roteiro pela capital irlandesa


 Dublin – Diversão em meio a cervejas e livros
(Texto originalmente publicado na revista Viaje Mais! Fev. 2013)

Terra da Guinness e de escritores da estirpe de James Joyce e Oscar Wilde, a capital irlandesa é um convite à cultura e à boemia, elevadas à máxima potência durante o St. Patrick´s Festival.

Por Regina Cazzamatta

Você pode nunca ter pensado em viajar para a capital irlandesa, Dublin. Mas se já tiver cantado e dançado à exaustão ao som do U2, ido a um pub para tomar uma pint de Guinness e lido os clássicos como O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, ou mesmo Drácula, de Bram Stocker, então já está íntimo de algumas especialidades da inebriante cidade: musica, literatura e cerveja da melhor qualidade.
É muita tradição cultural e etílica, associada a uma trajetória de quase dois mil anos desde sua fundação, que legou Dublin a uma série de construções dos mais variados períodos. Mas se tudo isso não fez seu coração palpitar a ponto de convencê-lo a colocar os pés lá, talvez a celebração do St. Patrick´s Festival o faça mudar de ideia.
Realizada todos os anos em março – normalmente entre os dias 14 e 18, como será em 2013 – a festa tem seu ponto alto no dia 17, feriado nacional em homenagem à possível data de morte de St. Patrick (ou São Patrício em português), padroeiro da Irlanda e grande símbolo nacional. O evento tem desfiles de artistas, dançarinos e grupos de músicos que sai da Praça Parnell, na O`Connell Street. Segue  margeando pontos turísticos, como a Trinity College, universidade fundada em 1592 e dona de uma biblioteca de obras raras, e o Castelo de Dublin, cartão-postal local.
No percurso de 2,5 KUM, embalado pelo som da gaita de frole irlandesa, pelo menos 500 mil pessoas, entre moradores e visitantes, assistem ao corso ou o acompanham. Boa parte usa chapelões e roupas verdes (muitas são uma alusão aos leprechauns, duendes de barbas e cabelos vermelhos que fazem parte da lenda do país). E estar em Dublin na época do St. Patricks Festival tem outra vantagem:  março é um dos meses mais secos do ano, já que na capital irlandesa o clima é bastante inconsistente (chove tanto quanto em Londres).
Festejar em meio à muvuca faz parte do espírito do St. Patrick´s Day, mas para curtir o evento sem tanta agitação o ideal é procurar os pub mais afastados, fora do centro. Esses bares são uma instituição tão enraizada e respeitada que, só em Dublin (com uma população de 500 mil habitantes) há cerca de mil deles. Revestidos por carpetes, móveis de madeira, grandes sofás e lareiras e normalmente rústicos, os pubs têm como toque de modernidade a presença de muitas TVs.
Assim, enquanto as pints (copo de 568 ml), sobretudo de Guinness, se esvaziam nas mesas, alguns assistem à disputa de esportes típicos de lá, como o hurling, jogado com taco de madeira é uma espécie de mistura de futebol americano e hóquei sobre grama, e o futebol gaélico, em que vale até pegar a bola com a mão.
Mas antes que se possa levar a caneca de cerveja à boca, o atendente do pub ou um freguês irlandês qualquer pode exclamar “ainda não”, já que a Guinness precisa de um tempinho para estar totalmente assentada e apresentar seu real sabor. E é aí que se percebe que há um ritual para a degustação de uma legítima stout, gênero a que pertence a famosa cerveja. Ela tem gosto forte, pois o malte é tostado – daí a coloração escura – e o teor alcoólico fica entre 7% e 8%, quase o dobro de uma cerveja pilsen brasileira.
Possivelmente em nenhum outro lugar do mundo uma marca de cerveja (caso da Guinness, produzida desde 1759) representa tanto a identidade nacional – para citar uma mera comparação, o desenho de uma harpa está tanto no brasão de armas da Irlanda como no rótulo da bebida.
Quem quer saber mais sobre esse ícone irlandês pode visitar a Guinness Storehouse, construída em 1904 e na ativa até hoje – diariamente sai e lá cerveja para abastecer 3 milhões de pints, nos mercados nacional e internacional. Alem da fábrica, o complexo tem uma área dedicada aos visitantes. Nela, é contada a história da bebida, e é detalhada uma série de momentos da produação e armazenamento.Durante o tour, pode-se ver rótulos, propagandas e outros matérias que mostram a “cara” da Guinness ao longo dos anos. Também se aprende que, ao contrario do que é dito popularmente, a água usada para fazer a cerveja não vem do Rio Leffey, que corta Dublin, mas da Montanha Wicklow, nos arredores da capital.
Um dos espaços mais concorridos é a Guinness Academy, no qual turistas aprendem a tirar uma pint perfeita. Quem não fizer o “treinamento” pode usar o ingresso para provar a bebida no Bar Gravity, o pub mais alto da cidade, a 44 metros de altura e com uma bela vista de Dublin. Lá, os barmans, além de tirarem bebida nos rígidos padrões de qualidade, ainda fazem aparecer o trevo da sorte, outro símbolo do país, junto à espuma.

Entra e Sai de Pubs
                     Para seguir bebendo Guinness e outras cervejas irlandesas, o endereço mais conhecido é o bairro do Temple Bar, repleto de bares, cafés, restaurantes, lojas vintage, livrarias, sebos e galerias repaginadas nos anos de 1990. Também é popular o mercado de comida do bairro, que, realizado aos sábados, oferece uma vasta opção de iguarias prontas para ser saboreadas.


Boêmia por natureza, o que lhe rendeu o apelido de Temple Barf (barf é vômito em inglês), a região concentra os pubs mais famosos da capital. É o caso da construção vermelha que nomeia o bairro, certamente um dos locais mais fotografados e estampados em cartões postais. Por isso, não espere encontrar preços modestos por lá. Ao lado, o Oliver St. John Gogarty pode até não ser muito freqüentado pelos nativos, pois não é originalmente rústico nem antigo (mas é bem planejado para parecer como tal). 


Ainda assim, o movimento da casa é grande graças às apresentações de boa musica irlandesa (a partir das 14h). Das 23h às 23h30, há shows de dança típica, quando a musica é interrompida para que um casal sapateie no tablado de madeira. O pequeno espetáculo mostra a arte como ela é praticada nas cidades do interior e escolas do país antes de passar pelos filtros da Broadway. Está longe de ser uma produção do grupo Riverdance, que tornou a dança irlandesa um fenômeno mundial, mas vale a pena.

Cerveja e Literatura
                Ainda no Temple Bar, a Porter House Brewing Company, decorada com rótulos e garrafas de diversos estilos e anos, produz uma série de cervejas. Além de saborear os tipos ale (mais avermelhada), Porter (um pouco mais fraca que a stoutI) e outros gêneros, é possível levá-las para casa. Outra boa pedida é o tradicional e pitoresco pub Stag´s Head, na região da Merrion Square, freqüentado por estudantes da Trinity College. A casa de 1770 foi repaginada em 1895 (e permanece do mesmo jeito desde então). Beber ali ganha um clima especial quando se imagina estar na mesma poltrona ou sofá usados um dia por James Joyce (1882-1941), grande expoente da literatura irlandesa e autor de clássicos como Ulisses e Dublinenses.
                      Mas não foi só o Stag´s Head que, com uma “ajuda” de Joyce, ficou famoso: diversos pontos de Dublin ganharam atenção especial daqueles que leram os relatos do escritor ou que pelo menos sabem que ele retratou Dublin muito bem. Nas palavras de Joyce, se a cidade fosse banida do mapa, seria possível reconstruí-la por meio de Ulisses. Assim, o Temple Bar, o Castelo de Dublin, a Grafton Street e vários outros lugares não estão apenas registrados na grande obra literária, mas de fato existem e encantam quem passeia  pela chuvosa cidade. Prova disso são as celebrações no dia 16 de junho, o Bloom´s Day (uma referencia a Leopold Bloom, protagonista de Ulisses), espécie de St. Patrick´s Day para os aficionados por literatura em geral.
Dublin, classificada pela Unesco como a cidade da literatura, também é o berço de uma lista invejável de escritores contemplados com prêmios Nobel – George Bernard Shaw, William Butler Yeats, Samuel Beckett e Seamus Heaney-, sem contar com Bram Stocker, criador da mais famosa história de vampiro, e o polêmico Oscar Wilde. As casas dos dois últimos ainda existem: ficam na Kildare Street 36 e na Merion Square North 1, respectivamente (são indicadas com placas). A região da Merrion Square conta ainda com belas construções da era georgiana  museus, a exemplo dos de Arqueologia, de História Natural e da National Gallery. Mas é mesmo a estátua de Oscar Wilde, uma escultura colorida bem em frente à casa do autor, retratando-o com uma leve cara de deboche, tão típica de seus personagens, que recebe mais atenção dos turistas.

Biblioteca Jedi
                Em uma cidade que respira literatura, uma visita obrigatória é a biblioteca da antiga Trinity College, a universidade de maior prestígio do país, que guarda o Livro de Kells. Todos os anos, 500 mil pessoas encaram uma senhora fila para ver o manuscrito do ano 800 produzido por monges celtas do Mosteiro St. Colmcille, na Escócia. A obra contem os quatro Evangelhos do Novo Testamento escritos em latim e ilustrados artisticamente à mão, relíquia que, na Idade Media, passou por um jogo de rouba e esconde até ser entregue aos cuidados da universidade de 1661.

                Outra atração de peso é a Long Room, sala de 65 metros de comprimento onde estão os 200 mil livros mais antigos da Trinity College. Mesmo quem nunca pisou nessa área pode ter a sensação de já tê-la visto. “O cineasta George Lucas fez uma foto da biblioteca e a usou em Star Wars”, explica um dos guardas da sala. A partir daí, o espço é lembrado como a biblioteca dos Jedis (personagens da saga Guerra nas EstrelasI).  Na biblioteca há ainda uma das poucas cópias da proclamação de independência da Irlanda, de 1916, lida pelo escritoe e ativista político Patrick Pearse no começo do levante. O movimento foi reprimido por tropas britânicas, adiando por décadas a separação entre o que hoje são a República da Irlanda (ou Eire, em irlandês) e a Irlanda do Norte (parte do Reino Unido),  o que ocorreu em 1949.
Aproveite a visita e faça também o tour de meia hora guiado pelos estudantes da Trinity, que explicam a função de cada prédio, os rituais universitários e, claro, citam os figurões que lá se graduaram, como os escritores Oscar Wilde, Samuel Beckett e Jonathan Swift.

A Misteriosa Molly Malone

             O maior burburinho da cidade é ali perto, na Grafton Steert, rua exclusiva aos pedestres reconhecida pelo piso avermelhado e pelos prédios de estilo georgiano – como a loja de departamentos Brown Thomas. Quando os dublinenses dizem que vão ao “centro”, se referem a esse bulevar, que combina belas e tentadoras vitrines com apresentações de músicos.
No início da rua, destaca-se uma estátua de ferro dedicada a Molly Malone. Mais uma escultura icônica da cidade, ninguém sabe se a moça realmente existiu. Ainda assim, a personagem faz parte do imaginário irlandês, e não há criança por ali que não saiba cantar os versos : “In Dublin fair city/where the girls are so pretty/I firt set my eyes/on sweet Molly Malone” (Na atrativa Dublin/onde as garotas são tão bonitas/a primeira coisa que vi/ foi a Molly Malone).
                  Conta a lenda que a formosa menina vendia peixes e mexilhões num período em que a fome assolou o país, por causa de uma praga que devastou as plantações de batata, catástrofe que realmente ocorreu – só em 1847, morreram cerca de 1 milhão de pessoas por desnutrição. Nesse cenário, o destino da garota foi trágico: segundo a canção, ela morreu de febre antes que alguém pudesse salvá-la.
Enquanto a estátua de Molly serve de pit stop para os visitantes no início da Grafton Steert, o parque Stephen´s Green oferecer momentos de descanso no fim da rua. Se o tempo ajudar, será possível observar os moradores relaxando ali, aproveitando os aguardados raios de sol. Ao caminhar pelo agradável parque, mal dá para imaginar que, durante a Idade Média, ele servia de palco para as execuções por enforcamento ou fogueira. 
Castelo e Catedral
E já que a época medieval foi evocada, para explorar o que restou desse período as melhores paradas são o castelo que tem o nome da cidade, a Igreja de St. Patrick e a fotogênica e icônica catedral, erguida a partir de 1030. E para degustar uma cerveja num pub que remonta a essa antiguidade toda, passe no Brazen Head, um dos mais antigos de Dublin, datado de 1198 e cujas prateleiras estão cheia de livros – para não desperdiçar tal acervo, a casa promove saraus de leitura de textos clássicos.
Embora seja um pouco afastado do centro, o Brazen Head é próximo ao Rio Lyffey, com acesso pela Lower Bridge. Tanto quanto para beber uma stout, uma boa ideia é tomar ali um típico café da manhã irlandês, à base de salsicha, ovos, bacon, tomate e feijão com molho de tomate adocicado, e então explorar o pedaço. É uma boa oportunidade de conhecer as pontes que cruzam o rio – a Ha´penny Bridge, toda branca com candelabros, é uma das mais bonitas. Outra opção para aproveitar as águas e a brisa do Liffey é um passeio de barco rumo às docas. Por lá, projetos arquitetônicos moderníssimos, dos anos de 1990, fizeram da região um belo espaço à beira-rio, com prédios de vidro e fachadas inovadoras. Um ponto alto é a Samuel Beckett Bridge, do arquiteto catalão Santiago Calatrava, também branca e em forma de harpa, o símbolo nacional.
Para materializar um pouco tudo o que foi visto em Dublin, a Carrolls Irish Gift Store, cuja principal unidade fica ao sul da O´Connell Bridge, será um pit stop e tanto. O espaço oferece todo tipo de lembrança, entre produtos oficiais da Guinness, CDs de musica irlandesa, bijoux com motivos celtas, símbolos da sorte, como trevos verdes e miniatures de leprechauns, guloseimas....
Ao fim da estada, especialmente para quem conseguir vivenciar as festividades em torno do St. Patrick, o dia 17 de março nunca mais será igual – ainda que sua cidade de origem tenha pubs animados e até organize uma festa no St.Patrick´s Day. E se a Guinness terá o mesmo sabor depois da viagem, é difícil dizer. Os ingredientes da cerveja servida no Brasil serão os mesmos, mas o cuidadoso ritual para tirá-la à perfeição, no clima e na tradição como os irlandeses apreciam, só em Dublin mesmo.

Informações Gerais

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Melhores Pubs em Dublin — Top 5


Escolher os melhores entre os mil pubs existentes em Dublin não é tarefa fácil. Provavelmente cada um dos 1,2 milhões de habitantes da capital têm lá seu pub para chamar de seu e eles não devem concordar entre si. Ainda assim, vai a tentativa, mesmo que muitos locais e turistas discordem da lista.

Oliver St. John Gogarty
A casa é irritantemente turística, milimetricamente pensada para ser tradicional e a comida ainda é cara e ruim. E por que raios o estabelecimento está na minha lista? As apresentações de música e dança irlandesa compensam todas as outras pendengas. Os músicos são ótimos, animados e apresentam  canções de qualidade do tradicional e clássico repertório de Pubs como a “Whiskey in the Jar” (vídeo). Apelidado carinhosamente por mim como o Green Pub, o Gogarty fica bem no Temple Bar (Fleet Str. 58-59). Dentro do pub, há uma estátua do poeta que dá nome à casa! Se a fome apertar, tente a degustação de ostra com Guinness!

Stag´s Head
    Na área da Grafton Street (Dame Ct. 1) esse pub é um dos queridinhos dos estudantes da Trinity College. Construído em 1770, reformado em 1895, a grande “sala de estar”, com decoração marcada por bastantes elementos em madeira, não mudou muito desde a sua última repaginação do século 19.  À noite, jovens com jeitão de estudante (barbas por fazer e pouca idade) lêem o The Irish Times sozinhos, acompanhados por uma pint! Por volta da meia noite é anunciada a venda da última rodada. Pena que só há comida até às 18h.

Porterhouse Brewing Company
    Como o nome já diz, o espaço (Parliament Str. 16-18) é também uma fábrica de cerveja, de onde saem diversos tipo de stouts, porter e ale. É possível até levar umas garrafas para casa. Todo em madeira, dá uma certa invejinha da coleção de rótulos e garrafas da decoração. No cardápio, tortas do dia à moda inglesa e lasanha de abobrinha. Inevitável não lotar à noite, o último andar tem uma vista bonita para o Temple Bar. 

Brazen Head
Esse é um dos pubs mais antigos de Dublin, próximo das extintas fortificações da cidade medieval (Lower Bridge St.). Desde 1198, a casa era uma taverna dos normandos. Hoje em dia, o público é bem mais eclético, estudantes de escola de inglês, turistas e locais. Há diversos espaços, alguns com um quê mais de restaurante, além de uma sala de decoração verde, reservada para sarais e leituras dos clássicos da literatura irlandesa. Para dia mais frios, a lareira da primeira sala é uma boa pedida.
Portobello Pub
  Na região dos grandes canais (South Richmond Str.), na área sul da cidade, o PUB alimenta os trabalhadores da região. De manhã, enquanto alguns encaram o café irlandês (ovos, bacon, salsichas, tomates e feijão com molho), outros já assistem com uma pint em mãos o andamento do Hurling, o esporte nacional, semelhante ao hóquei. Há diversos ambientes, todos decorados em madeira, além de fotos e objetos antigos dos tempos da revolução de 1916, uma pré tentativa de independência.



sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Como tirar um pint de Guinness

      Tenho uma confissão a fazer. Mesmo morando quase um ano em Dublin, nunca tinha colocado os pés na fábrica da Guinness, de 1759, um imã de turistas da capital irlandesa. As tarefas do dia a dia acabam nos distraindo e deixamos um pouco o turismo de lado. Assim, ao longo de todos aqueles meses, aprendi a degustar pints em inúmeros pontos da cidade e torcer o nariz para aquelas mal tiradas. Mas nunca havia botado a mão na massa, por assim dizer, tarefa que deixei para minhas goladas mais maduras, alguns anos depois. E essa é a atração mais legal da Guinness Storehouse. Tirar a sua própria stout! Ali são produzidas todos os dias 3 milhões de pints. Ainda em tempo: ao contrário do que muitos pensam, a água da bebida não vem do Liffey, mas sim das montanhas Wicklow, nos arredores de Dublin. Sim, assumo, é coisa de turista, para fazer qualquer irlandês rir, mas a partir de hoje, podemos exibir ao lado da nossa coleção de quase 250 rótulos de cerveja, um certificado de que aprendemos a tirar a bebida perfeitamente! 

     O espaço de visitação é bem legal, mostra todo o processo de produção da marca, a mistura dos ingredientes, a diferença da stout em relação à porter (tecnicamente esta é um pouco mais fraca) e por aí vai. Mas degustar a Guinness tirada por nós mesmos, não tem preço (desculpe pelo chavão). Fizemos a lição de casa e anotamos cuidadosamente todas as recomendações. Aí vai:

1.    A bebida é servida a 6 graus Celsius. Observe se o copo está frio e nunca use um recém saído da máquina de lavar louça. Marcas de batom também são abomináveis.

2.    Incline a pint em um ângulo de 45 graus em relação à bomba, puxe-a para frente e deixe o líquido escorrer. Quando a cerveja chegar na altura da base da harpa marcada no copo (o logo não serve só de propaganda), desincline-o e deixe cair um pouquinho mais de Guinness até o topo da harpa.

3.  Deixe a bebida decantar por alguns segundo. Complete o copo com a cerveja, apertando a bomba para trás (para não sair mais gás). Espere mais um pouco até a Guinness “assentar”.

     
     Todo o processo dura 119.5 segundos. Quase dois minutos! E sim, aqui o ditado popular se aplica: a pressa é inimiga da perfeição! Depois é só degustar os 4,2% de teor alcoólico da Guinness Draught e esquecer das suas 198 calorias (menos que uma pint de suco de laranja, diz a lenda)! Alimenta e não dá ressaca! E para aqueles que não confiam em sua mãos trêmulas, aposte nos Barmans do Gravity Bar, no topo do edifício. É bom de ver e bom de beber! A precisão é tamanha que a espuminha vem até com a harpa demarcada (uma espécie de latte art na cerveja). Deve ser  porque mais perto de Deus, a Guinness tem de ser tirada com muito mais perfeição.