Há exatamente dez anos – em 28.11.2008 – entrei num avião rumo à Leipzig, imaginando que voltaria depois de um ano para procurar um emprego melhor em São Paulo. Tudo muito certinho e definido como jovens adultos (daqueles chatos) costumam fazer. Hoje me parece bastante óbvio que as coisas tomaram outro rumo. Mas este seria o enésimo post falando de como não controlo absolutamente nada do que julgo controlar. Então, deixemos esse problema de lado. Desde então muita coisa mudou, a cor do cabelo (deixaram de ser vermelhos), o peso (toda senhora respeitada ganha uns quilinhos), a forma de ver o mundo, as cidades, o país, meu gosto por Milan Kundera ou a superstição pelo número três ou sete.
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quarta-feira, 28 de novembro de 2018
quinta-feira, 10 de outubro de 2013
A Cathach Books
Todo mundo tem uma livraria pra chamar de sua. Mesmo para aqueles que não tem planos de adquirir nenhum livro, é um passeio agradável. Caminhar entre as prateleiras, ver os novos lançamentos, destaques, best-sellers na vitrine e até tomar um café folheando uma revista ou outra. Em São Paulo, a Livraria Cultura é uma das favoritas. Sempre que estou na cidade, quero matar a saudade. Além de ter ou conseguir praticamente todos os títulos, os vendedores estão super por dentro das áreas em questão. Lá nunca ocorreria, o que já me aconteceu na Saraiva. Queria comprar "A Interpretação dos Sonhos" para dar de presente e me mandaram em direção à seção de “Esotéricos”. Então tá, né? A da Vila é bem aconchegante, mas meio longinho pra mim.
Em Berlim, achei a Dussmann na Friedrichstraße. É um paraíso cheio de livros, CDs, vídeos, artigos de papelaria, guichês vendendo ingressos para shows e uma multidão de gente, dependendo do horário. A Thalia, em Weimar, é um pouco mais provinciana, mas quebra um galho. Todos esses exemplos são livrarias bacanas, cool, freqüentadas pelos estudantes de cada cidade, mas ainda têm um status normal. Andando pelos arredores da Grafton Street em Dublin, descobri a Cathach Books, uma livraria bem pequena, de fachada bordô, que passa quase desapercebida. Dá pra ficar horas lá, mesmo sabendo que não se comprará nem um mísero livrinho! O lugar é um antro de clássicos da literatura irlandesa, com foco no século 20.
Mas bacana mesmo é existir a possibilidade de trazer para casa as primeiras edições dos livros ou versões para colecionadores. Um Dubliners (1914), do ano de 1917, custa 65 euros. Ta bom, é até pagável, mas, no fim das contas, o mesmo texto está disponível por 10 euros em versões de livros de bolso ou até de graça na internet! Um pouco mais salgada é a versão do Ulysses (1922), que ganhou ilustrações do artista francês Henri Matisse em 1935. A raridade não sai por menos de 375 euros. O problema de pagar esta quantia é o peso na consciência de desistir de ler. Afinal, tempo e coragem são precisos para encarar aquelas construções textuais de pontuação esquisitíssima. Brincadeiras à parte, só pra colecionador mesmo, já que a dificuldade não estará só na leitura, mas também no ato de carregá-lo. Esta versão parece um livro de fotografia grande e pesado! Poemas do Samule Becket, de 1961, uma edição restrita de cem exemplares, também pode ser adquirida pela bagatela de 1.250 euros. Jà as primeiras edições do Drácula (1897) chegam até 12 mil euros. Devem vir com alhos entre as páginas pra espantar os vampiros da época.
Para quem não resistir e quiser trazer como souvenir ou livro de cabeceira há uma versão para colecionadores por 75 euros (esta aí em cima). Apesar de impressa em 2012 pela Constable (mil exemplares), o layout é parecido com o primeiro de 1897: capa-dura amarela e título vermelho em relevo. Há também uma cópia do contrato entre Bram Stocker e a editora, assinado por ele.
Quem quiser pode procurar a raridade preferida no site deles: http://www.rarebooks.ie/search.htm
quarta-feira, 27 de março de 2013
Bibliotecas pelo Mundo
Há
quem diga que as bibliotecas se extinguirão e livros em papel deixarão de
existir. Será? Ao sair de uma visita da Anna Amalia Bibliothek em Weimar, achei
um livrão de fotografia bem bacana, que ainda cairá na rede dos meus desejos
consumistas. A obra, de Cândida Höfer (com prefácio do Umberto Eco), mostra a
arquitetura das “catedrais do conhecimento” por todo o mundo. E por que não
colocar esses templos de sabedoria na lista de pontos turísticos a serem
visitados por aí? Muitas podem valer a pena.
A Anna
Amalia, em Weimar, por exemplo, foca em obras da literatura alemã desde 1800 e
documentos da história da arte do século 9 ao 21. Na verdade, trata-se de
diversas construções que ao longo dos séculos foram se juntando. Oficialmente,
a biblioteca foi fundada em 1691, quando o duque da Saxônia- Weimar e Eisenach
(o Guilherme Ernst) resolveu disponibilizar sua coleção de 1400 livros ao público.
Somente 30 anos depois, o acervo já tinha crescido para 11 mil títulos.
De
1761 a 1766, a biblioteca, localizada no castelo verde (das grüne Schloss), teve
a decoração adaptada ao estilo do século 18. O salão nobre, em
estilo rococó, erguido no primeiro andar, foi o grande destaque da reconstrução. E como não podia deixar de ser aqui em Weimar,
Johann Wolfgang Von Goethe logo entrou em cena. O duque Carlos Augusto (filho
de Anna Amalia e neto do fundador) convidou o escritor para a supervisão geral
da biblioteca, em 1797. As regras de uso estabelecidas pelo autor de Fausto já foram publicadas, por curiosidade, em alguns jornais alemães. Ele era também um dos usuários mais
assíduos da biblioteca.
Em
setembro de 2004, o espaço pegou fogo, uma tragédia que destruiu 35 obras de
arte, 50 mil livros do século 17 e 18, além do acervo de partituras musicais.
Outros 62 mil livros danificados estão em processo de restauração. Séculos de
produção de conhecimento reduzidos à cinzas em uma noite. Somente em outubro de
2007, a biblioteca foi reaberta para visitação. O salão rococó, desde 1998
patrimônio cultural da Unesco, agora só possui uma galeria (a segunda virou uma
sala de leitura). Durante a visitação, vídeos mostram o processo de restauração
das obras, livros sendo congelados e cenas do incêndio. http://www.youtube.com/watch?v=Lk60cnQILI0
Na famosa sala em estilo rococó, encontram-se bustos
do Goethe (meio assustador), Schiller e livros antiguíssimos, alguns com indicação
de que ainda se encontram em processo de restauração. A oficina está no mesmo prédio, mas não é aberta ao público. Como somente 290 pessoas podem
entrar no local ao longo do dia, aconselha-se a reserva dos ingressos, principalmente
em alta temporada.
Outra
biblioteca digna de visita é a Old
Library da Trinity College, em Dublin, a universidade de maior prestígio da Irlanda, que
abriga o livro de Kells (Book of Kells).
Todos os anos, meio milhão de pessoas encaram a fila para ver o manuscrito,
datado de 800 d.c e tido como um dos textos mais antigos do mundo. Produzido
por monges celtas do monastério St. Colmcille, na Escócia, a obra contém os
quatro evangelhos do novo testamento escritos em latim e ilustrados artisticamente
à mão. Com a invasão dos vikings, os monges fugiram para Kells, na Irlanda. Lá,
os manuscritos foram roubados, enterrados e redescobertos, após três meses. Mas
os vikings viraram o jogo, agora em 1007, e roubaram a preciosidade novamente.
No entanto, pegaram só a caixa de ouro que guardava o livro e jogaram fora os
textos, sem perceber sua importância. Desde 1654, depois da brincadeira de gato e
rato, a relíquia está sob segurança da Universidade.
Outra atração de peso da
biblioteca é o Long Room (a sala comprida), onde os 200 mil livros mais antigos
da universidade estão organizados em diversas prateleiras em uma sala de 65 metros
de comprimento. Mesmo quem nunca colocou os pés ali terá a sensação de
já ter visto o espaço. “O George Lucas bateu uma foto da biblioteca da entrada e a
usou em Star Wars”, conta um dos seguranças locais. Privilégio do diretor porque, hoje em dia, fotografias são proibidas. Depois de aparecer nas telas do cinema, o espaço passou a ser classificado como a biblioteca dos jedis.
“Como
os livros estão desatualizados, mal os usamos, mas é importante ter essa história
da construção do conhecimento”, disse pra nós um estudante da universidade.
Nesta sala, há ainda uma das poucas cópias restantes da Proclamação de
Independência da Irlanda, de 1916, lida por Patrick Pearse, no começo do
levante, que acabou fortemente reprimido por tropas britânicas. Uma harpa em
carvalho de 29 cordas, do século 15, a mais antiga do país, também é digna de nota.
Além
da Anna Amalia, em Weimar, e da Old Library, em Dublin, Cândida Höfer clicou
muitas outras bibliotecas que devem entrar para a listinha a serem visitadas
algum dia! Ainda mais se o tempo estiver ruim...
terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
Irlanda, Dublin: um roteiro pela capital irlandesa
Dublin – Diversão em meio a cervejas e livros
(Texto originalmente publicado na revista Viaje Mais! Fev. 2013)
Terra da Guinness e de escritores da estirpe de James Joyce e Oscar Wilde, a capital irlandesa é um convite à cultura e à boemia, elevadas à máxima potência durante o St. Patrick´s Festival.
Por Regina Cazzamatta
(Texto originalmente publicado na revista Viaje Mais! Fev. 2013)
Terra da Guinness e de escritores da estirpe de James Joyce e Oscar Wilde, a capital irlandesa é um convite à cultura e à boemia, elevadas à máxima potência durante o St. Patrick´s Festival.
Por Regina Cazzamatta
Você pode nunca ter pensado em
viajar para a capital irlandesa, Dublin. Mas se já tiver cantado e dançado à
exaustão ao som do U2, ido a um pub para tomar uma pint de Guinness e lido os clássicos como O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, ou mesmo Drácula, de Bram Stocker, então já está
íntimo de algumas especialidades da inebriante cidade: musica, literatura e
cerveja da melhor qualidade.
É muita tradição cultural e etílica,
associada a uma trajetória de quase dois mil anos desde sua fundação, que legou
Dublin a uma série de construções dos mais variados períodos. Mas se tudo isso
não fez seu coração palpitar a ponto de convencê-lo a colocar os pés lá, talvez
a celebração do St. Patrick´s Festival o faça mudar de ideia.
Realizada todos os anos em março –
normalmente entre os dias 14 e 18, como será em 2013 – a festa tem seu ponto
alto no dia 17, feriado nacional em homenagem à possível data de morte de St.
Patrick (ou São Patrício em português), padroeiro da Irlanda e grande símbolo
nacional. O evento tem desfiles de artistas, dançarinos e grupos de músicos que
sai da Praça Parnell, na O`Connell Street. Segue margeando pontos turísticos, como a Trinity College,
universidade fundada em 1592 e dona de uma biblioteca de obras raras, e o
Castelo de Dublin, cartão-postal local.
No percurso de 2,5 KUM, embalado
pelo som da gaita de frole irlandesa, pelo menos 500 mil pessoas, entre
moradores e visitantes, assistem ao corso ou o acompanham. Boa parte usa
chapelões e roupas verdes (muitas são uma alusão aos leprechauns, duendes de barbas e cabelos vermelhos que fazem parte
da lenda do país). E estar em Dublin na época do St. Patricks Festival tem
outra vantagem: março é um dos
meses mais secos do ano, já que na capital irlandesa o clima é bastante inconsistente
(chove tanto quanto em Londres).
Festejar em meio à muvuca faz parte
do espírito do St. Patrick´s Day, mas para curtir o evento sem tanta agitação o
ideal é procurar os pub mais
afastados, fora do centro. Esses bares são uma instituição tão enraizada e
respeitada que, só em Dublin (com uma população de 500 mil habitantes) há cerca
de mil deles. Revestidos por carpetes, móveis de madeira, grandes sofás e
lareiras e normalmente rústicos, os pubs têm
como toque de modernidade a presença de muitas TVs.
Assim, enquanto as pints (copo de 568 ml), sobretudo de
Guinness, se esvaziam nas mesas, alguns assistem à disputa de esportes típicos
de lá, como o hurling, jogado com
taco de madeira é uma espécie de mistura de futebol americano e hóquei sobre
grama, e o futebol gaélico, em que vale até pegar a bola com a mão.
Mas antes que se possa levar a
caneca de cerveja à boca, o atendente do pub ou um freguês irlandês qualquer
pode exclamar “ainda não”, já que a Guinness precisa de um tempinho para estar
totalmente assentada e apresentar seu real sabor. E é aí que se percebe que há
um ritual para a degustação de uma legítima stout,
gênero a que pertence a famosa cerveja. Ela tem gosto forte, pois o malte é
tostado – daí a coloração escura – e o teor alcoólico fica entre 7% e 8%, quase
o dobro de uma cerveja pilsen
brasileira.
Possivelmente em nenhum outro lugar
do mundo uma marca de cerveja (caso da Guinness, produzida desde 1759)
representa tanto a identidade nacional – para citar uma mera comparação, o
desenho de uma harpa está tanto no brasão de armas da Irlanda como no rótulo da
bebida.
Quem quer saber mais sobre esse
ícone irlandês pode visitar a Guinness
Storehouse, construída em 1904 e na ativa até hoje – diariamente sai e lá
cerveja para abastecer 3 milhões de pints,
nos mercados nacional e internacional. Alem da fábrica, o complexo tem uma área
dedicada aos visitantes. Nela, é contada a história da bebida, e é detalhada
uma série de momentos da produação e armazenamento.Durante o tour, pode-se ver rótulos, propagandas e
outros matérias que mostram a “cara” da Guinness ao longo dos anos. Também se
aprende que, ao contrario do que é dito popularmente, a água usada para fazer a
cerveja não vem do Rio Leffey, que corta Dublin, mas da Montanha Wicklow, nos
arredores da capital.
Um dos espaços mais concorridos é a
Guinness Academy, no qual turistas aprendem a tirar uma pint perfeita. Quem não fizer o “treinamento” pode usar o ingresso
para provar a bebida no Bar Gravity, o pub
mais alto da cidade, a 44 metros de altura e com uma bela vista de Dublin. Lá,
os barmans, além de tirarem bebida
nos rígidos padrões de qualidade, ainda fazem aparecer o trevo da sorte, outro
símbolo do país, junto à espuma.
Entra e Sai de Pubs
Para seguir bebendo Guinness e outras cervejas irlandesas, o
endereço mais conhecido é o bairro do Temple Bar, repleto de bares, cafés, restaurantes,
lojas vintage, livrarias, sebos e
galerias repaginadas nos anos de 1990. Também é popular o mercado de comida do
bairro, que, realizado aos sábados, oferece uma vasta opção de iguarias prontas
para ser saboreadas.
Boêmia por natureza, o que lhe
rendeu o apelido de Temple Barf (barf é vômito em inglês), a região concentra
os pubs mais famosos da capital. É o caso da construção vermelha que nomeia o
bairro, certamente um dos locais mais fotografados e estampados em cartões
postais. Por isso, não espere encontrar preços modestos por lá. Ao lado, o
Oliver St. John Gogarty pode até não ser muito freqüentado pelos nativos, pois
não é originalmente rústico nem antigo (mas é bem planejado para parecer como
tal).
Ainda assim, o movimento da casa é grande graças às apresentações de boa
musica irlandesa (a partir das 14h). Das 23h às 23h30, há shows de dança
típica, quando a musica é interrompida para que um casal sapateie no tablado de
madeira. O pequeno espetáculo mostra a arte como ela é praticada nas cidades do
interior e escolas do país antes de passar pelos filtros da Broadway. Está
longe de ser uma produção do grupo Riverdance, que tornou a dança irlandesa um
fenômeno mundial, mas vale a pena.
Cerveja e Literatura
Ainda no Temple Bar, a Porter House Brewing Company, decorada com
rótulos e garrafas de diversos estilos e anos, produz uma série de cervejas.
Além de saborear os tipos ale (mais
avermelhada), Porter (um pouco mais
fraca que a stoutI) e outros gêneros,
é possível levá-las para casa. Outra boa pedida é o tradicional e pitoresco pub Stag´s Head, na região da Merrion
Square, freqüentado por estudantes da Trinity College. A casa de 1770 foi repaginada
em 1895 (e permanece do mesmo jeito desde então). Beber ali ganha um clima
especial quando se imagina estar na mesma poltrona ou sofá usados um dia por
James Joyce (1882-1941), grande expoente da literatura irlandesa e autor de
clássicos como Ulisses e Dublinenses.
Mas não
foi só o Stag´s Head que, com uma “ajuda” de Joyce, ficou famoso: diversos
pontos de Dublin ganharam atenção especial daqueles que leram os relatos do
escritor ou que pelo menos sabem que ele retratou Dublin muito bem. Nas
palavras de Joyce, se a cidade fosse banida do mapa, seria possível
reconstruí-la por meio de Ulisses. Assim, o Temple Bar, o Castelo de Dublin, a
Grafton Street e vários outros lugares não estão apenas registrados na grande
obra literária, mas de fato existem e encantam quem passeia pela chuvosa cidade. Prova disso são as
celebrações no dia 16 de junho, o Bloom´s Day (uma referencia a Leopold Bloom,
protagonista de Ulisses), espécie de St. Patrick´s Day para os aficionados por
literatura em geral.
Dublin,
classificada pela Unesco como a cidade da literatura, também é o berço de uma
lista invejável de escritores contemplados com prêmios Nobel – George Bernard
Shaw, William Butler Yeats, Samuel Beckett e Seamus Heaney-, sem contar com
Bram Stocker, criador da mais famosa história de vampiro, e o polêmico Oscar
Wilde. As casas dos dois últimos ainda existem: ficam na Kildare Street 36 e na
Merion Square North 1, respectivamente (são indicadas com placas). A região da
Merrion Square conta ainda com belas construções da era georgiana museus, a exemplo dos de Arqueologia,
de História Natural e da National Gallery. Mas é mesmo a estátua de Oscar
Wilde, uma escultura colorida bem em frente à casa do autor, retratando-o com
uma leve cara de deboche, tão típica de seus personagens, que recebe mais
atenção dos turistas.
Biblioteca Jedi
Em uma cidade que respira literatura, uma visita obrigatória é a
biblioteca da antiga Trinity College, a universidade de maior prestígio do
país, que guarda o Livro de Kells. Todos os anos, 500 mil pessoas encaram uma
senhora fila para ver o manuscrito do ano 800 produzido por monges celtas do
Mosteiro St. Colmcille, na Escócia. A obra contem os quatro Evangelhos do Novo
Testamento escritos em latim e ilustrados artisticamente à mão, relíquia que, na
Idade Media, passou por um jogo de rouba e esconde até ser entregue aos
cuidados da universidade de 1661.
Outra
atração de peso é a Long Room, sala de 65 metros de comprimento onde estão os
200 mil livros mais antigos da Trinity College. Mesmo quem nunca pisou nessa
área pode ter a sensação de já tê-la visto. “O cineasta George Lucas fez uma
foto da biblioteca e a usou em Star Wars”, explica um dos guardas da sala. A
partir daí, o espço é lembrado como a biblioteca dos Jedis (personagens da saga
Guerra nas EstrelasI). Na biblioteca há ainda uma das poucas
cópias da proclamação de independência da Irlanda, de 1916, lida pelo escritoe
e ativista político Patrick Pearse no começo do levante. O movimento foi
reprimido por tropas britânicas, adiando por décadas a separação entre o que
hoje são a República da Irlanda (ou Eire, em irlandês) e a Irlanda do Norte
(parte do Reino Unido), o que
ocorreu em 1949.
Aproveite
a visita e faça também o tour de meia hora guiado pelos estudantes da Trinity,
que explicam a função de cada prédio, os rituais universitários e, claro, citam
os figurões que lá se graduaram, como os escritores Oscar Wilde, Samuel Beckett
e Jonathan Swift.
A Misteriosa Molly
Malone
O maior burburinho da cidade é ali perto, na Grafton Steert, rua
exclusiva aos pedestres reconhecida pelo piso avermelhado e pelos prédios de
estilo georgiano – como a loja de departamentos Brown Thomas. Quando os
dublinenses dizem que vão ao “centro”, se referem a esse bulevar, que combina
belas e tentadoras vitrines com apresentações de músicos.
No início
da rua, destaca-se uma estátua de ferro dedicada a Molly Malone. Mais uma
escultura icônica da cidade, ninguém sabe se a moça realmente existiu. Ainda
assim, a personagem faz parte do imaginário irlandês, e não há criança por ali
que não saiba cantar os versos : “In
Dublin fair city/where the girls are so pretty/I firt set my eyes/on sweet
Molly Malone” (Na atrativa Dublin/onde as garotas são tão bonitas/a
primeira coisa que vi/ foi a Molly Malone).
Conta a
lenda que a formosa menina vendia peixes e mexilhões num período em que a fome
assolou o país, por causa de uma praga que devastou as plantações de batata,
catástrofe que realmente ocorreu – só em 1847, morreram cerca de 1 milhão de
pessoas por desnutrição. Nesse cenário, o destino da garota foi trágico:
segundo a canção, ela morreu de febre antes que alguém pudesse salvá-la.
Enquanto
a estátua de Molly serve de pit stop
para os visitantes no início da Grafton Steert, o parque Stephen´s Green
oferecer momentos de descanso no fim da rua. Se o tempo ajudar, será possível
observar os moradores relaxando ali, aproveitando os aguardados raios de sol.
Ao caminhar pelo agradável parque, mal dá para imaginar que, durante a Idade
Média, ele servia de palco para as execuções por enforcamento ou fogueira.
Castelo e Catedral
E já que a época medieval foi
evocada, para explorar o que restou desse período as melhores paradas são o
castelo que tem o nome da cidade, a Igreja de St. Patrick e a fotogênica e
icônica catedral, erguida a partir de 1030. E para degustar uma cerveja num pub
que remonta a essa antiguidade toda, passe no Brazen Head, um dos mais antigos
de Dublin, datado de 1198 e cujas prateleiras estão cheia de livros – para não
desperdiçar tal acervo, a casa promove saraus de leitura de textos clássicos.
Embora seja um pouco afastado do
centro, o Brazen Head é próximo ao Rio Lyffey, com acesso pela Lower Bridge.
Tanto quanto para beber uma stout,
uma boa ideia é tomar ali um típico café da manhã irlandês, à base de salsicha,
ovos, bacon, tomate e feijão com molho de tomate adocicado, e então explorar o
pedaço. É uma boa oportunidade de conhecer as pontes que cruzam o rio – a
Ha´penny Bridge, toda branca com candelabros, é uma das mais bonitas. Outra
opção para aproveitar as águas e a brisa do Liffey é um passeio de barco rumo
às docas. Por lá, projetos arquitetônicos moderníssimos, dos anos de 1990,
fizeram da região um belo espaço à beira-rio, com prédios de vidro e fachadas
inovadoras. Um ponto alto é a Samuel Beckett Bridge, do arquiteto catalão
Santiago Calatrava, também branca e em forma de harpa, o símbolo nacional.
Para materializar um pouco tudo o
que foi visto em Dublin, a Carrolls Irish Gift Store, cuja principal unidade
fica ao sul da O´Connell Bridge, será um pit stop e tanto. O espaço oferece
todo tipo de lembrança, entre produtos oficiais da Guinness, CDs de musica
irlandesa, bijoux com motivos celtas,
símbolos da sorte, como trevos verdes e miniatures de leprechauns, guloseimas....
Ao fim da estada, especialmente para
quem conseguir vivenciar as festividades em torno do St. Patrick, o dia 17 de
março nunca mais será igual – ainda que sua cidade de origem tenha pubs animados e até organize uma festa
no St.Patrick´s Day. E se a Guinness terá o mesmo sabor depois da viagem, é
difícil dizer. Os ingredientes da cerveja servida no Brasil serão os mesmos,
mas o cuidadoso ritual para tirá-la à perfeição, no clima e na tradição como os
irlandeses apreciam, só em Dublin mesmo.
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segunda-feira, 8 de outubro de 2012
Melhores Pubs em Dublin — Top 5
Escolher os melhores entre os mil
pubs existentes em Dublin não é tarefa fácil. Provavelmente cada um dos 1,2
milhões de habitantes da capital têm lá seu pub para chamar de seu e eles não
devem concordar entre si. Ainda assim, vai a tentativa, mesmo que muitos locais
e turistas discordem da lista.
Oliver St. John Gogarty
A casa é irritantemente turística, milimetricamente pensada para ser tradicional e a comida ainda é cara e ruim. E por que raios o estabelecimento está na minha lista? As apresentações de música e dança irlandesa compensam todas as outras pendengas. Os músicos são ótimos, animados e apresentam canções de qualidade do tradicional e clássico repertório de Pubs como a “Whiskey in the Jar” (vídeo). Apelidado carinhosamente por mim como o Green Pub, o Gogarty fica bem no Temple Bar (Fleet Str. 58-59). Dentro do pub, há uma estátua do poeta que dá nome à casa! Se a fome apertar, tente a degustação de ostra com Guinness!
Stag´s Head
Na área da Grafton Street (Dame Ct. 1) esse pub
é um dos queridinhos dos estudantes da Trinity College. Construído em 1770,
reformado em 1895, a grande “sala de estar”, com decoração marcada por
bastantes elementos em madeira, não mudou muito desde a sua última repaginação
do século 19. À noite, jovens com
jeitão de estudante (barbas por fazer e pouca idade) lêem o The Irish Times
sozinhos, acompanhados por uma pint! Por volta da meia noite é anunciada a
venda da última rodada. Pena que só há comida até às 18h.
Porterhouse Brewing
Company
Como o nome já diz, o espaço (Parliament Str. 16-18) é também uma fábrica
de cerveja, de onde saem diversos tipo de stouts, porter e ale. É possível até levar umas garrafas para casa. Todo em madeira, dá uma certa invejinha da
coleção de rótulos e garrafas da decoração. No cardápio, tortas do dia à moda
inglesa e lasanha de abobrinha. Inevitável não lotar à noite, o último andar
tem uma vista bonita para o Temple Bar.
Brazen Head
Esse é um dos pubs mais antigos de Dublin, próximo das extintas
fortificações da cidade medieval (Lower Bridge St.). Desde 1198, a casa era uma
taverna dos normandos. Hoje em dia, o público é bem mais eclético, estudantes de
escola de inglês, turistas e locais. Há diversos espaços, alguns com um quê
mais de restaurante, além de uma sala de decoração verde, reservada para sarais e
leituras dos clássicos da literatura irlandesa. Para dia mais frios, a lareira
da primeira sala é uma boa pedida.
Portobello Pub
Na região dos grandes canais (South Richmond
Str.), na área sul da cidade, o PUB alimenta os trabalhadores da região. De
manhã, enquanto alguns encaram o café irlandês (ovos, bacon, salsichas, tomates
e feijão com molho), outros já assistem com uma pint em mãos o andamento do Hurling,
o esporte nacional, semelhante ao hóquei. Há diversos ambientes, todos
decorados em madeira, além de fotos e objetos antigos dos tempos da revolução
de 1916, uma pré tentativa de independência.
sábado, 6 de outubro de 2012
Uma carona bem peculiar
Ainda na leva sobre posts
irlandeses, resolvi narrar uma carona por aquelas bandas. Não sei dizer com
exatidão quem bebe mais, se um irlandês ou um alemão. Acho que alguém deveria
escrever uma tese sobre culturas comparadas para verificar quem é melhor de
copo. Fato é que apesar de beberrões, os irlandeses são pessoas muito
hospitaleiras. Encontramos um velho conhecido, num pub no bairro de Raheny (esse aí da foto), que
insistiu em nos dar uma carona até o teatro, no centro da cidade. Já estávamos
com os ingressos do Dubliners em
mãos, quando vimos o Sean, acidentalmente, e acabamos perdendo um pouco a noção
do tempo com o bate papo. Assim, muito solícito, ele cismou que nos levaria até
o local.
Resolvi não perguntar que horas ele
tinha “aberto o escritório” e começado a entornar as Guinness. A única
informação que recebi, após parar no terceiro copo, era que ele conseguia ir
até o sétimo! Detalhe sem importância nesse momento. Outro fato que não podemos
desconsiderar é que nosso solícito amigo sofreu há anos um acidente de carro e
não tem mais um braço. Bom, tecnicamente ele tem, mas não funciona mais. Ficou
paralisado como se ele tivesse tido um derrame. Assim, entramos no carro rindo
e pedindo para o anjo da guarda dar um reforço, lembrando do ditado popular que
Deus olha os bêbados e as crianças. Sim, lá fomos nós de carona com um senhor
de óculos, dirigindo com uma mão só, depois de tomar váriaaassss Guinness! O
detalhe da direção no lado direito passou até desapercebido nesse instante. O que a gente não faz pela interação
com os locais. Pior foi a observação: “como eu bebi um pouco, vou deixar vocês
no ponto de ônibus do centro, mas não na frente do teatro por causa do
tumulto”!. God! Se o Sean fosse contemporâneo ao Joyce, ele certamente seria inspiração
para uma das histórias!
Como deu pra notar, chegamos vivos e em tempo para a peça!
sexta-feira, 5 de outubro de 2012
Como tirar um pint de Guinness
Tenho uma confissão a
fazer. Mesmo morando quase um ano em Dublin, nunca tinha colocado os pés na
fábrica da Guinness, de 1759, um imã de turistas da capital irlandesa. As
tarefas do dia a dia acabam nos distraindo e deixamos um pouco o turismo de
lado. Assim, ao longo de todos aqueles meses, aprendi a degustar pints em
inúmeros pontos da cidade e torcer o nariz para aquelas mal tiradas. Mas nunca
havia botado a mão na massa, por assim dizer, tarefa que deixei para minhas
goladas mais maduras, alguns anos depois. E essa é a atração mais legal da Guinness Storehouse. Tirar a sua própria
stout! Ali são produzidas todos os dias 3 milhões de pints. Ainda em tempo: ao
contrário do que muitos pensam, a água da bebida não vem do Liffey, mas sim das
montanhas Wicklow, nos arredores de Dublin. Sim, assumo, é coisa de turista,
para fazer qualquer irlandês rir, mas a partir de hoje, podemos exibir ao lado
da nossa coleção de quase 250 rótulos de cerveja, um certificado de que aprendemos
a tirar a bebida perfeitamente!
O espaço de visitação é bem legal, mostra todo o processo de produção da marca, a mistura dos ingredientes, a diferença da stout em relação à porter (tecnicamente esta é um pouco mais fraca) e por aí vai. Mas degustar a Guinness tirada por nós mesmos, não tem preço (desculpe pelo chavão). Fizemos a lição de casa e anotamos cuidadosamente todas as recomendações. Aí vai:
O espaço de visitação é bem legal, mostra todo o processo de produção da marca, a mistura dos ingredientes, a diferença da stout em relação à porter (tecnicamente esta é um pouco mais fraca) e por aí vai. Mas degustar a Guinness tirada por nós mesmos, não tem preço (desculpe pelo chavão). Fizemos a lição de casa e anotamos cuidadosamente todas as recomendações. Aí vai:
1. A
bebida é servida a 6 graus Celsius. Observe se o copo está frio e nunca use um
recém saído da máquina de lavar louça. Marcas de batom também são abomináveis.
2. Incline
a pint em um ângulo de 45 graus em relação à bomba, puxe-a para frente e deixe
o líquido escorrer. Quando a cerveja chegar na altura da base da harpa marcada
no copo (o logo não serve só de propaganda), desincline-o e deixe cair um
pouquinho mais de Guinness até o topo da harpa.
3. Deixe
a bebida decantar por alguns segundo. Complete o copo com a cerveja, apertando
a bomba para trás (para não sair mais gás). Espere mais um pouco até a Guinness
“assentar”.
Todo o processo dura 119.5 segundos.
Quase dois minutos! E sim, aqui o ditado popular se aplica: a pressa é inimiga
da perfeição! Depois é só degustar os 4,2% de teor alcoólico da Guinness
Draught e esquecer das suas 198 calorias (menos que uma pint de suco de laranja, diz a lenda)! Alimenta e não dá ressaca! E para
aqueles que não confiam em sua mãos trêmulas, aposte nos Barmans do Gravity
Bar, no topo do edifício. É bom de ver e bom de beber! A precisão é tamanha que
a espuminha vem até com a harpa demarcada (uma espécie de latte art na
cerveja). Deve ser porque mais perto de Deus, a Guinness tem de ser tirada com muito mais
perfeição.
quinta-feira, 4 de outubro de 2012
Dublin revisitada
Sete anos se passaram desde a primeira vez
que vimos o Liffey correr por Dublin. Como estaria a cidade desde que a
deixamos? Embora tivéssemos intimidade com aquelas ruas às margens do rio, com
aquela chuva fina e brisa gelada, receávamos não encontrar tudo do jeito que
deixamos. Afinal, não só as pessoas mudam, as cidades também se transformam.
Claro que muita coisa ainda estava lá, do mesmo jeito que James Joyce descreveu
no começo do século 20, do mesmo jeito que vimos há longos ou curtos sete anos.
A movimentação na Grafton Street, as mesmas lojas e o murmurinho de pessoas na
ponte O´Connell, grupos de estudantes em frente à Trinity College e até mesmo
os canais. A tradicional hospitalidade irlandesa também não desapareceu. Logo
após deixarmos o aeroporto, uma garota de sotaque particular nos deu seu tíquete do transporte público irlândes, válido por três dias. "Estou
indo embora, mas ainda tem 24 horas para vocês pegarem os
Luas, Darts e ônibus", disse sem tentar vender o passe.
Não fosse a tal garota, talvez não tivéssemos
resolvido ir até Howth, um vilarejo portuário ao Norte de Dublin. Costumávamos
ir à vila nos finais de semana, passeávamos pelo porto, tomávamos sorvete, olhávamos
as gaivotas. Por lá pouca coisa tinha mudado. A sorveteria que trabalhei por
dois finais de semana estava pintada de verde e rosa, o mesmo sebo de livros
ainda tinha aquele cheiro de pó e o vento continuava cortante ao longo do cais.
Na volta, o ônibus 31, sentido Lower Abbey str., passou pelo bairro de Raheny,
onde morávamos naqueles tempos. Já tínhamos decidido não ir até lá, pois era
uma área distante do centro e não tínhamos muito tempo para
sentimentalismos.
Naquele sobrado, há sete anos, uma senhora
irlandesa recebia estudantes. A Dympna levava seu trabalho a sério. O
jantar era sempre servido às 18h30, sopa, toastes de alho e manteiga, salada e
um prato principal. Até às 20h, ela ficava na cozinha, conversando com os alunos
com seu leve sotaque irlandês. Sabia de tudo que se passava no bairro, até
mesmo se tínhamos visitado a igreja ou a biblioteca local. Muitas vezes, Sean,
seu marido, chegava do pub, abria a porta da cozinha com as bochechas vermelhas
de tanta Guinness. "Não sobrou nada para você", dizia ela. Apesar do
seu temperamento, nos tornamos amigas. Mostrava fotos da minha família, ela
falava mal do seu futuro genro, um sujeito que, segundo ela, só pensava em
futebol e era caixa no supermercado Tesco. Quando estava mais eloqüente, até
respondia nossas perguntas sobre a independência da Irlanda. Olhava para a
porta de entrada da casa, verificava se o marido não estava por perto e
arrematava: “o Sean não gosta que eu fale isso, mas, se não fosse o IRA, estaríamos
até hoje esmolando por batatas”, dizia. Mesmo adoentada - ela tinha acabado de
se tratar de um câncer e ainda usava peruca - a Dympna continuava a lotar o lar de estudantes, apesar da reprovação familiar.
Olhávamos para a casa e relembrávamos de
todos esses momentos. Observamos a janela do quarto onde dormíamos. Dava para
ver, apesar do reflexo do vidro, a parte detrás da televisão sobre a mesa.
Aparentemente até a disposição dos móveis estava a mesma. Algo me dizia que a
Dympna não morava mais lá. Em frente a porta de entrada, folhas amarelas rolavam
no chão e denunciavam a chegada do outono. Aquela cena não era comum há sete
anos. Uma vizinha abriu a porta, entrou no carro. Cogitamos perguntar sobre os
moradores da nossa antiga casa, mas achamos um pouco fora de propósito. Sem especular
mais, decidimos tomar uma Guinness no Cedar, um pub bem local, onde íamos
durante a semana à noite, para arejar a cabeça depois dos estudos. Lá nós
passamos a noite de Réveillon de 2004 para 2005. Dois estrangeiros, há menos de
oito horas no país, com um monte de irlandês bêbados, celebrando a chegada de
mais um ano!
Ao entrar no Pub, encontramos o Sean,
sentado no sofá entre dois amigos, com uma Guinness em mãos (claro!). Ele
assistia a final do golfe na TV. Pensamos em ir embora, mas tudo parecia muita coincidência
e resolvemos falar com ele. Preparamos bem os ouvidos, afinal o sotaque dele
sempre nos deu calafrios (tink, righsch). Ali, no mesmo pub de sempre, ele
perguntou estonteado "como vocês se lembram de mim"? Fomos apresentados
a todos os locais como os brasileiros que chegaram da Alemanha para revê-lo.
Entre uma discussão e outra para ver quem pagaria a próxima rodada, recebemos
todas as atualizações do bairro. O barman John foi afastado por problemas de saúde
e a Dympna não morava mesmo mais naquela casa!
Eu sabia! Ela nunca permitiria aquelas
folhas melancólicas rolando na frente da casa dela. No mesmo mês que voltei para
o Brasil, em setembro, ela faleceu. A notícia veio dura e seca. Sem eufemismos
como “she
passed away”. O marido disse logo, curto e grosso, apesar
da voz embargada: “she died”.
Embora ela tenha dito que precisasse ir ao hospital naquele período, não esperávamos
o pior. Mesmo do seu leito, ela ainda coordenava o jantar, que as filhas tinham
de ir deixar para os estudantes na sua ausência. Como contou o Sean, ela foi ao
casamento da filha com o fanático por futebol e morreu sete dias depois. Tudo
isso em um curto espaço de tempo, durante meu retorno. Jantamos com ele no dia
seguinte, em Raheny, onde ele mora já há 60 anos.
Depois da sua morte, a Dympna ganhou mais três
netos, Luke, Rebeca e Jessica. Primos dos nossos velhos conhecidos Christine e
Steven, agora dois pré-adolescentes. Acho que a Dympna está metida nesse monte
de coincidências, talvez lá do céu, organizando o acaso da nossa visita. Dublin
estava lá com pequenas mudanças, as eternas ruínas de igrejas medievais, enquanto
seus habitantes iam e vinham.
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