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quinta-feira, 28 de abril de 2016

Sicília: Itália bonita e barata. Um roteiro fundamental pela ilha passando pelas principais cidades como Palermo, Catânia, Cefalù, Taormina e as ilhas eólicas

Sicília — Itália Bonita e Barata

Essa encantadora região no “bico” do país bota é repleta de preciosidades, de ruínas gregas a cidades antiquíssimas debruçadas à beira de um mar azul cristalino. De quebra, rende uma viagem mais barata do que outros destinos clássicos da Itália.
(Texto originalmente publicado pela Revista Viaje Mais! Abril 2016)
Nas encostas de impulsivos vulcões, águas azuis translúcidas brilham no litoral da Sicília e dão as boas-vindas aos visitantes que chegam à enigmática ilha no sul da Itália. Embora muitos associem a região à máfia italiana, eternizada pela trilogia hollywoodiana O Poderoso Chefão, de Francis Ford Coppola, a Sicília é muito mais do que a terra natal do personagem d. Vito Corleone. É um lugar lindo por natureza. E repleto de história: mesmo estando na Itália, tem um legado arquitetônico grego tão rico quanto o da própria Grécia.
Ruinas do anfiteatro grego em Taormina, construído por volta de 230 a.C
À parte a sucessão de ruínas gregas, há muito o que ver, e cair de amores, na Sicília. A ilha montanhosa, no “bico” da bota que é o território da Itália, é a maior do Mediterrâneo, ostentando tamanho similar ao do Estado do Sergipe. O lado mais moderno, e paradoxalmente arcaico, está na vibrante capital Palermo, a maior urbe da ilha. O doce romantismo de praias lindas fica em Cefalù. Ruínas gregas e romanas dão o tom em Taormina. E uma verve literalmente quente e explosiva vem da lava do poderosos vulcão Etna, na Catânia. 
A natureza foi mesmo generosa com a Sicília. Desenhou ali um litoral entrecortado por falésias, que funcionam como terraços para contemplar o mar azul de um ponto de vista privilegiado, do alto. E ainda cravejou sua costa com sete pequenas ilhas de sinhô, conhecidas como Ilhas Eólias. 
É compreensível, portanto, que um lugar tão atraente assim, localizado num ponto estratégico — a só 3 Km da ponta do continente europeu, do qual a Sicília está separada pelo Estreito de Messina—, tenha sido tão cobiçada através dos tempos. Os fenícios foram os primeiros a chegar, cerca de 30 séculos atrás. Depois desembarcaram gregos, romanos, árabes e normandos. Cada conquistador deixou suas marcas na arquitetura da ilha, que por quase 700 anos foi reino independente. Os gregos tiveram especial apreço por aquele litoral de paredões escarpados, Ocuparam a Sicília por meio milênio e lá ergueram uma infinidade de suntuosos templos em louvor aos deuses do Olimpo.
Esse mosaico formado ao longo dos séculos está imerso num típico cenário do sul da Itália, cheio de ladeiras estreitas e varais de roupas nas sacadas de predinhos. Nelas circulam enormes famílias, compostas de muitos filhos, tios e primos, cujas mammas são craques no preparo de massa caseira e outras delícias da culinária regional.
Não é a toa que o escritor siciliano Gesulado Bufalino (1920-1996) falava em muitas Sicílias e descrevia suas paisagens de sua exuberante terra natal em múltiplos e quase surreais tons: o esverdeado das alfarrobas (árvores selvagens do Mediterrâneo); o branco das salinas; o amarelo do enxofre; o loiro do mel; e o púrpuro das lavas. 
Além da beleza e variedade de canários, a região ainda é relativamente mais barata se comparada a outros destinos da Itália. Em tempos de euro nas alturas, é possível se jogar nessa viagem sem atirar dinheiro às cinzas. O custo para curtir o mar, apreciar altos visuais e relaxar na praia é menor do que se imagina. Afinal, não se paga nada para vislumbrar a natureza primorosa e a arquitetura das cidades. E, como a Sicília é a rainha dos mercados e das comidas de ruas, as refeições ficam bem em conta, mas ainda assim inventivas e cheias de experimentações. Vai aí um brioche com sorvete de pistache?
Uma invenção típica siciliana: brioches recheados com sorvete

Palermo e Cefalù

Na escadaria do teatro Massimo em Palermo foram gravadas as última cenas do Poderoso Chefão 3
Quase toda viagem à Sicília começa pela capital Palermo. É a quinta maior cidade da Itália e ficou conhecida por ser o berço da outrora poderosa máfia. Mas pode esquecer aqueles gângsteres de terno escuro, cara de poucos amigos e cabelos engomados. Eles não vivem na Sicília faz muito tempo, o que, aliás, fez um bem danado à autoestima do povo siciliano que é dos mais alegres e caricatos do país. 
Típicas procissões na Sicília
 Palermo é uma cidade para ser devorada com os olhos. A arquitetura é uma fusão maluca de estilos deixados pelos conquistadores que a ocuparam ao longo dos séculos, desde sua fundação pelos fenícios há 2.700 anos. Um bom exemplo dessa miscelânea é a catedral, construída no século 12 por árabes e posteriormente alterada e ampliada pelos normandos. Os muros altos e robustos, com suas torres proeminentes, dão ao templo um caráter de igreja fortificada. E é lá de cima, no tour que leva ao telhado da igreja (realizado de segunda à sábado, das 10h às 17h), que está a melhor parte: o vislumbre panorâmico de Palermo e do mar azul ao fundo.
A miscelânia aqruitetônica da catedral de Palermo
Ninguém perde também uma visita ao Palácio real, antigo forte do século nove transformado em residência do rei Rogério II em 1130. O monarca mandou erigir uma igreja dentro do palácio, a Capela Palatina, cujas paredes são cobertas de mosaicos bizantinos folheados a ouro, enquanto no teto de madeira foram esculpidos desenhos árabes. 
Na capela Palatina, tudo que reluz é ouro
Como Palermo é mesmo eclética, no coração da cidade a estrela é um conjunto de prédios que mesclam o estilo barroco e renascentista, o Quattro Canti, cujas fachadas idênticas se voltam a uma mesma esquina, no cruzamento da Vitorio Emanuele com a Via Maqueda. Iluminada de modo diferente à medida que o dia avança, a esquina também é conhecida como Teatro do Sol.
Uma vez no centro vale um pit stop na lanchonete Arancine d´autore (www.kepalle.it) para abocanhar os famosos arancines, um bolinho de arroz com açafrão e recheios variados. É uma das muitas delícias sicilianas. Para saborear outras, siga aos mercados de rua, cujas barracas vendem sardinhas na brasa, doces fresquinhos e a grande estrela da ilha, o peixe-espada, com o qual se prepara os involtini di pesce spada, enroladinho do peixe recheado com pão ralado, alcaparras, tomate e azeitona. Sem contar as italianices que rolam em qualquer mercado, como os galanteios dos vendedores que exclamam ma che bella donna (que mulher bonita) e as nonas gorduchas que fazem compras pela janela de casa, descendo baldes marrados por corda aos feirantes.
O arancine é um típico bolinho de arroz com recheios diversos: vale provar o feito pela Arancine d`autore
Para mergulhar ainda mais nos segredos da cidade, a Catacumba dei Cappuccini é um dos passeios mais peculiares. No local, esqueletos e corpos mumificados de mais de 800 palermitanos, mortos entre os séculos17 e 19, descansam. Há corredores para homens, mulheres... e virgens!
A peculiar e curiosa Catacumba dei Cappuccini
Depois dessa visita interessante, mas um pouco macabra, está mais do que na hora de respirar a brisa do mar nas melhores praias sicilianas. Uma opção rápida e barata para um banho de mar próximo a Palermo é a praia Mondello. Se não estiver de carro, use o ônibus 806, que passa em frente ao Teatro Politeama. Já aqueles que planejam um giro pela Sicília e sonham com um inesquecível panorama à beira-mar, Cefalù é para indispensável. Fica a 70 Km de Palermo, perto o bastante até para um bate e volta. Dá para ir de trem até lá, em cerca de uma hora de viagem. 
Em Cefalù, a 70 Km de Palermo, foram gravadas cena do filme Cinema Paradiso
A praia de Cafálu tem mar calmo e areia dourada, mas o charme está no casario antiquíssimo que emoldura sua orla. De tão charmosa, a cidade caiu no gosto do diretor Giuseppe Tornatore, que escolheu Cefalù para gravar cenas de Cinema Paradiso, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 1989. Ali, o ponto de encontro é a Piazza Duomo, onde está a catedral local, tombada como Patrimônio Cultural da Humanidade, e diversos barzinhos com mesas ao ar livre.

De todos os cantos da cidade se avista um imenso rochedo, chamado La Rocca. Tem 270 metros de altura, e no topo, ao final de uma caminhada de uma hora desde o centro histórico, está uma das vistas mais belas da Sicília. É como abraçar tudo que a cidade tem pode oferecer de uma só vez. O mar, a orla, os telhados da urbe, e, de quebra, as duas torres da catedral. 
Vista da La Rocca para o mar e catedral de Cefalú
Ao entardecer, após um relaxante dia de sol  e mar, não há nada melhor em Cefalù do que circular, do jeitinho que você saiu da praia, pelas ruelas medievais da cidade e, ao pôr do sol, estar diante do pequeno porto, se possível sentando num banco e tomando sorvete.

As Ilhas Eólicas

Pequeno e charmoso porto da ilha Lipari
 Uma semana é tempo suficiente para conhecer a região de Palermo e Catânia e já voltar para casa deslumbrado com a Sicília. Mas, quem tiver mais tempo pode incluir também uma visita a um exótico arquipélago no Mar Tirreno, as Ilhas Eólicas. O nome foi dado pelos gregos, que acreditavam que as ilhas eram a casa de Éolo, deus dos ventos. Trata-se de um colar de sete pequenas ilhas vulcânicas, das quais Lipari é a maior e mais acessível, o que a torna o ponto de partida para explorar as outras ilhas. Há barcos diários para lá saindo de Milazzo, a 200 Km de Palermo. São apenas 45 minutos de travessia. 
Lipari teve um passado tormentoso. Durante séculos foi ameaçada por invasores e ataques piratas, o que explica a existência de sua linda cidadela. Com cerca de 12 mil habitantes, é a única ilha com jeitão de cidade, onde circulam carros, scooters e ônibus turísticos por suas ruelas medievais. No fim do dia, quando os turistas retornam das excursões — pesca esportiva, mergulhos e caminhadas —, o clima ferve nos restaurantes e barzinhos à beira-mar. Lipari ainda guarda um segredinho a 3 Km do centro antigo: um mirante natural conhecido como Quattrocchi, de onde se tem um belo panorama ada vizinhança. 
Crateras do Vulcano
E é de Lipari que partem barcos rumo às outras ilhas. Vulcano é a mais visitada delas. Nela, a grande atração é a caminhada rumo ao topo de um de seus cinco vulcões, a Gran Cratere, que fica ao final de uma trilha de uma hora, a 391 metros de altura. A cratera emite gases sulforosos amarelados, o que confere um tremendo cheiro de enxofre. Já na praia, há quem encare banhos terapêuticos de lama de origem vulcânica, que dizem ter efeitos medicinais. 
A ilha de Stromboli também rende um baita passeios. O pedaço é dominado por um grande vulcão homônimo, o Stromboli, que tem um formato perfeito de pirâmide e parece emergir do mar. Nuvens acinzentadas parecem pregadas ao seu cume, já que o vulcão é superativo e expele constantemente fumarolas. Aventureiros partem em uma jornada de quatro horas rumo à cratera, em tours organizados por agências de turismo locais. Mas o melhor é estar na ilha à noite, quando é possível ver as erupções em forma de fogos de artifício e o rio de lava que escorre pela encosta do Stromboli. Os mais preguiçosos podem ver o cuspe de fogo a bordo de barcos que atracam ao redor da Sciara del Fuoco, a encosta negra da ilha. A intensidade da vivencia dependerá, claro, dos humores strombolianos. Nem sempre há uma chuva de lavas. Por vezes, só aparece algum fiapinho vermelho no céu. Ainda assim, vale cada segundo. 

Catânia e Taormina


 Do outro lado da Sicília, na costa leste da ilha, está a Catânia, a segunda maior cidade da região, com 300 mil habitantes e atrás apenas da capital Palermo. Está aí uma excelente base para explorar atrações desse trecho do litoral siciliano, voltado para o não menos deslumbrante Mar Jônico (o outro mar que banha essas maravilhosas paragens, vale lembrar, é o Tirreno). 
Para quem sai de Palermo, a melhor forma de chegar à Catânia é com um carro alugado. As estradas da Sicília são excelentes e modernas, com grandes viadutos sobre os vales. Ora a rodovia atravessa campos de trigo e oliva, ora corre sobre o alto das encostas das montanhas, lambendo o mar. A paisagem é sempre belíssima, e qualquer deslocamento vira um ponto alto da viagem. É quase impossível dirigir na Sicília sem parar várias vezes para admirar os visuais que surgem a todo momento.
O caminho de 210 Km entre Palermo e Catânia é um dos mais interessantes. À medida que você se aproxima de Catânia, uma enorme montanha de forma cônica se agiganta cada vez mais no horizonte: é o Etna, o maior vulcão da Europa, a 3.330 metros de altitude, que pode ser avistado, em dias de céu claro, de uma distância de cerca de 150 km.
O Etna é o vulcão mais ativo e temperamental do mundo, e vive em constante erupção há cerca de meio milhão de anos. Quem gosta de brincar com fogo não deve dispensar um trekking pela incandescente montanha. A partir de Catânia, há caminhadas guiadas por esse encosta negra, de puro magma petrificado, que levam a inúmeras crateras secundárias nos arredores da montanha.
Os caminhos tortuosos pelas crateras do Etna 
São impressionantes as marcas deixadas na Catânia, ao longo dos séculos, pela ação do gigante. Tanto que o lema por lá é “ainda melhor ressurgir das cinzas”. Uma devastadora erupção ocorrida em 1669 gerou um rio de lava que destruiu boa parte da cidade. Para remediar o estrago, no século 18,, o arquiteto Giovanni Battista Vaccarini liderou uma reconstrução usando as pedras escuras que existem aos montes nos arredores do vulcão, o basalto. Por isso, Catânia também é conhecida como “a filha negra do Etna”. 
Catedral de Catânia erguida com lavas vulcânicas
A catedral barroca local também foi erguida com pedras vulcânicas e hoje brilha na lista de Patrimônios da Humanidade da Unesco. Assim como a Via Crociferi, rua com uma mega concentração de igrejas e palácios barrocos do século 18, cujas paredes são enegrecidas por conta da fuligem do Etna. 
O show barroco da Via Crociferi
A despeito dos humores do velho vulcão, Catânia se exibe com ares joviais. Há muitos estudantes em virtude da Universidade de Catânia, a mais antiga da Sicília, fundada em 1434. O clima universitário garante a ocupação de uma sucessão de barzinhos descolados para tomar umas e outras. 
Mercado de peixes de Catânia
Já no mercado de peixes La Pescheria também impera uma atmosfera de descontração e informalidade. É o ponto onde moradores e turistas se encontram, todos disputando as mesas de barracas que vendem e preparam todo tipo de frutos do mar. No verão, muitos não perdem a chance de bebericar um seltz, bebida típica refrescante com água gasosa, limão fresco e xarope de laranja.
De Catânia, são apenas 50 Km até Taormina, a cidade mais turística da Sicília, onde estão as praias mais fotogênicas de toda a ilha italiana, espalhadas por uma sequência de pequenas enseadas bem recortadas e mar estupendamente azul. As simpáticas casas de pedra, que já passaram dos 400 anos, e diversas igrejas medievais ficam encarapitadas nas encostas do Monte Tauro.
Belas prais de pedrinhas em Taormina
Na principal rua, a Corso Umberto I, que diversas vezes se abre em graciosas piazzetas (pracinhas), há muitos restaurantes gourmet e lojas de grife. É onde Taormina exibe seu lado chique. A Praça Nove de Abril, que abriga a torre do relógio e a Igreja de São Giuseppe, é a mais animada. Ali circulam músicos, vendedores de balões e cartunistas que fazem caricaturas dos turistas. À noite, sanfoneiros colocam as pessoas para dançar ali na rua mesmo, enquanto belas garotas encomendam pinturas de seus rostos. 
No alto do Monte Tauro (dá para subir de bondinho), os gregos construíram, há cerca de 2300 anos, um anfiteatro, que dois séculos depois foi reformado pelos romanos. A construção está preservada e continua sendo usada como casa de espetáculos ao ar livre. Quem imaginaria que uma ilha na Itália treia ruínas gregas tão impressionantes quanto a própria Grécia? Mas a Sicília é assim mesmo, repleta de histórias e cidades que são verdadeiras relíquias. O escritor alemão Goethe, fascinado durante sua visita à ilha em 1787, já convencia muito bem os turistas a seguirem seus passos. Sentenciou: “A Itália sem a Sicília não forma em nossa alma um quadro completo: somente aqui se tem a chave para o todo”. Ele tinha razão.  

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Sul da Itália: Nápoles, Capri, Pompeia, Vesúvio e vilarejos da Costa Amalfitana como Amalfi, Ravello, Positano, Sorrento e Salerno

Apaixonante Costa Amalfitana

Os suspiros estão garantidos em cada curva da estrada mais cênica da Itália, ladeada por vilarejos mesclados às montanhas, perfeitos para o dolce far niente, e pelas águas cintilantes do Mar Tirreno
Por Regina Cazzamatta (Texto originalmente publicado na Revista Viaje Mais! Junho 2015)

     Dio mio, uau! São exclamações assim que naturalmente saem da boca dos turistas a cada curva vencida na estrada mais cênica da Itália: a Costa Amalfitana. E que sucessão de curvas vertiginosas permeiam o trajeto. É que a baía que avança a partir de Nápoles, em especial no trecho entre Sorrento e Salerno, que se estende por 60 km de puro deslumbre, é atravessada por uma estrada estreitíssima e sinuosa que recorta uma íngreme cadeia de montanhas à beira do Mar Tirreno. O homem também colocou seu talento ali, construindo casas multicoloridas encarapitadas nos precipícios que se erguem vários metros acima do mar, formando vilas minúsculas e charmosas, como presépios fincados nos alucinantes penhascos.
     É, sobram mesmo muitos motivos para a região, a 400 Km ao sul de Roma, ser tão desejada. Mas, antes de suspirar em cada pedacinho desse litoral espetacular, aproveite o pit stop em Nápoles, que dá acesso às maravilhas da Costa Amalfitana, e curta o alegre caos da cidade inventora da pizza, assim como os impressionantes vestígios arqueológicos de Pompeia e Herculano, que por 1.500 anos ficaram escondidas sob a lava lançada pelo Vulcão Vesúvio em 79 d.C. 

Nápoles. Onde todos os clichês italianos se encontram  

Seja apenas como ponto de chegada ou um pit stop repleto de história e recheado com os autênticos sabores italianos, apesar do ritmo um tanto caótico, Nápoles certamente figurará no seu roteiro pela Costa Amalfitana. Equipada com um aeroporto e uma estação de trem, é nela que você chegará a partir de outras cidades da Itália para dar partida rumo à romântica e deslumbrante Costa Amalfitana. 
Inicialmente, cair nas frenéticas ruas de Nápoles pode ser um choque, mas é aos poucos que se reconhece a beleza nesse caos. Na realidade, não se trata de uma cidade particularmente bonita, mas a graça está em seu verdadeiro clima à moda italiana, com tudo o que isso traz de bom. E de ruim. Uma sinfonia de buzinas é a trilha sonora de qualquer caminhada. Lambretas com uma, duas ou até mesmo três pessoas, a maioria sem capacete, circulam pelas ruas que se entrecruzam sem regras no centro histórico, distribuindo intermitentes bip-bips. Ao mesmo tempo, lençóis e roupas estendidos do lado de fora das janelas são responsáveis por colorir, e bagunçar ainda mais, os prédios de Nápoles e garantir uma certa atmosfera de velha cantina italiana. 
Entre toda essa balbúrdia, está uma série de joias, principalmente no centro histórico, tombado pela Unesco em 1995. A área esconde um emaranhado de boas surpresas não só arquitetônicas como culinárias, a exemplo de trattorias, osterias, barraquinhas de pizza frita e peixarias, onde coloridas bacias expõem frutos do mar fresquinhos, que irão parar no seu prato na hora do almoço ou jantar. Delicie-se com a comida fata de Nápoles, pois a cidade que criou a pizza margherita só poderia ser a terra da comida boa. 

Imponência Napolitana

Assim como a gastronomia, outra característica notadamente napolitana é a religiosidade. Não é difícil se deparar com minialtares nas calçadas, ornamentados com imagens de santos. Eles combinam muito bem com o cenário forrado de igrejas, principalmente no centro histórico, onde o destaque é a impressionante Catedral de Nápoles, datada de 1272. Lá dentro, a capela do tesouro, de 1637, guarda pedras preciosas e 54 estátuas de prata, mas o que os moradores consideram ainda mais valioso são os restos mortais de São Genaro, que estaria enterrado ali. 
Outra atração religiosa no centro antigo é o Complexo Monumental San Lorenzo Maggiore. À parte a visita à basílica, explore os subterrâneos da construção, onde ruínas greco-romanas transportam os visitantes à antiga cidade de dois mil anos atrás, mostrando resquícios de fornos, escolas e lavanderias. 
O que consegue ser ainda mais interessante do que San Lorenzo Maggiore, e quiçá de todas as atrações de Nápoles, é o magistral Museu Arqueológico Nacional, que abriga o maior acervo de estátuas romanas do mundo, os melhores mosaicos encontrados nas escavações das antigas cidades de pompeia a Herculano (devastadas pela erupção do Vulcão Vesúvio em 79 d.C) e até uma sala dedicada á arte erótica romana, a qual é proibida para menores de 14 anos. 
Depois dessas boas horas de imersão na cultura e no cotidiano com um quê de bagunçado dos napolitanos, o fim de tarde pede um passeio pela Praça do Plebiscito, onde se impõem o Palácio real e a imponente Igreja de São Francisco de Paula. Aproveite para degustar um encorpado espresso no lendário e requintado Café Gambrinus, num dos cantos da praça. Há mais de 150 anos a casa serve célebres visitantes, incluindo aí os autores Oscar Wilde e Ernest Hemingway e o cantor Luciano Pavarotti. É um lugar e tanto para você provar os doces da região, como o bolo babá (pão-de-ló molhado ao rum) e as tortinhas doces folhadas de ricota, enquanto observa, do conforto das instalações do elegante café, o vaivém dos passantes na praça. 
Outro bom lugar pata flertar com a cidade, e num ritmo ainda mais tranquilo, é o Palácio Real de Capodimonte, afastado do centro histórico, mas mesmo assim com uma localização privilegiada: no alto da montanha. Hoje, a construção se transformou em um monumental museu, que, ao longo de 160 cômodos, espalhados por três andares, distribui uma coleção de pesos pesados das artes, como Rafael, Caravaggio, Ticiano e El Greco. No terceiro andar, dedicado à arte moderna, está aversão de Andy Warhol do Vulcão Vesúvio, que espreita a cidade. Mas não fique só com a pintura. Ao deixar o palácio, você estará no imenso Parque de Capodimonte, que revela a vista do verdadeiro vulcão, imperando todo poderoso na paisagem.  

Nápoles e as redondas

Foi em Nápoles, em 1738, que a primeira pizzaria abriu as portas na Itália, na região de Porta Alba. Foi por aquelas bandas também que nasceu a cobertura margherita. O top pizzaiolo na época, Rafaelle Espósito, quis impressionar o rei Umberto I e sua mulher, Margherita, durante uma visita real, em 1889. Claro que a simples e gostosa invenção, que leva mozarela, tomate e manjericão, cada ingrediente representando uma cor da bandeira da Itália, foi aprovada e, então, batizada com o nome da rainha. 
Hoje, as tradicionais pizzarias de Nápoles são geralmente portinhas escondidas que mal acomodam 50 pessoas. Uma boa recomendação é a lendária Starita, de 1901. Famosa pela versão frita das pizzas, foi lá que Sophia Loren gravou o filme O Ouro de Nápoles , em que fazia o papel de uma pizzaiola instável e adúltera. Prepara-se para esperar cerca de 45 minutos por uma mesa, o que pode ser uma experiência deliciosa. Basta observar o vaivém de lambretas nas ruas e degustar as tais massas fritas com tomate, servidas para quem está à espera de um lugar. Outra boa pedida é a pizzaria Gino Sorbillo. Além de boas margheritas com mozarela de búfala, a casa produz uma cerveja própria.  À noite, em Nápoles, após um agitado dia, é mesmo ótimo se jogar na história de que tudo acaba em pizza. 

Pompeia e Herculano – Testemunhas da ira do Vesúvio


Quem vê o Vulcão Vesúvio tão altivo e tranquilo junto da Baía de Nápoles mal pode imaginar as “peripécias” que ele já aprontou por ali — e a mais séria delas ocorreu em 70 d.C. Uma pesadíssima erupção, mais as cinzas, as pedras e os gases vindos das entranhas do gigante, soterrou cidades como Pompeia e Herculano. Aqueles que tentaram fugir foram atingidos por pedras incandescentes, e os se esconderam morreram sufocados. Esses locais desapareceram do mapa por mais de 1.500 anos, escondidos sob uma espessa camada de rochas e cinzas liberadas durante o “ataque” do vulcão. Pompeia só foi redescoberta em 1594, durante a construção de um aqueduto, e Herculano, mais tarde ainda: em 1709.
Décadas depois, as duas foram “desenterradas” e, no caminho para Sorrento, agora são sítios arqueológicos imperdíveis. Herculano, a 13 Km de Nápoles, é menor, mais ficou até mais preservada por ter sido fossilizada pela mistura de lama e cinzas. Algumas ruínas são de casas de nobres, de uma rua comercial e de banhos termais que ainda revelam o piso de mármore e de mosaicos. 
Já Pompeia, a 23 km de Nápoles, é mais pop e ostenta espaços como o Lupanare, que era um bordel com camas de pedra e afrescos eróticos nas paredes. Também está ali bem preservado o Grande Teatro, com mias de 5 mil lugares. Mas nada é mais aflitivo do que o jardim dos fugitivos, que traz réplicas dos corpos petrificados pela mistura letal de cinzas e rochas, que invariavelmente têm as mãos curvadas sobre o rosto. 
A erupção ocorrida no ano 79 foi tão violenta que também destruiu o cume do Vesúvio, criando uma cratera de dimensões assustadoras, a qual pode ser visitada. Em frente à estação de trem Ercolano-Scavi, perto do Herculano, partem ônibus para lá, o Vesúvio Express. Do estacionamento, são 860 metros até a cratera, num trajeto íngreme e pontuado pelas cinzas de antigas explosões (desde a grande erupção, o gigante se manifestou 30 vezes, a ultima delas em 1944). Um leve cheiro de enxofre acompanha os visitantes, que não se importam com o odor e se deslumbram com a fumaça que sai das rochas.
Enquanto o Vesúvio dorme são outros romãs que seduzem ainda mais quem passeia pela região: o do amarelíssimo limão siciliano, o dos frutos do mar e o das pizzas e massas recém-saídas do forno. São esses, principalmente, que ficam na memória depois que se aproveita as delicias de Nápoles e de seu entorno. 

Sorrento – O início de um sonho chamado Costa Amalfitana 

Para zigue-zaguear pelos vilarejos da Costa Amalfitana, é comum os turistas se fixarem em cidades como Sorrento, a 26 Km de Pompeia e onde a estrada ganha os penhascos e o casario colorido que tanto fazem sua fama. Encimada numa colina, a cidade brilha com um cenário à moda antiga e os resorts, ainda que as praias, de pedra e não de areia, não sejam assim tão especiais. Os banhistas têm apenas um pequeno espaço no porto Marina Grande para se refestelar ao sol, mas a presença de bons restaurantes e cafés à beira-mar compensa. 
O centrinho fica na parte alta de Sorrento, e a chegada ali é por um charmoso elevador. O desembarque é no Parque Villa Comunale, um terraço romântico que descortina um estupendo panorama do mar. Ao lado, a Igreja São Francisco, com o pátio preenchido por arcos e buganvíleas e em meio ao zunzunzum da ruela São Cesário, é uma bela surpresa com os afrescos ainda originais. Já a Basílica de Santo Antônio, do século 11, exibe pinturas romanas, fragmentos de edificações antigas e um altar repleto de... limões, fruta deliciosamente recorrente em toda a costa. Não à toa faz parte de várias receitas e, se quiser comprar iguarias preparadas com ela, vá a loja Limonoro. Desde 1905, a casa produz uma porção de guloseimas que levam limão, com os bombons de chocolate recheados com o típico licor limoncello. 

Também dá para começar o tour em Salerno

      No outro lado da baía que envolve a Costa Amalfitana está Salenro, onde também é possível iniciar a viagem vindo de Nápoles ou Pomepeia, fazendo o roteiro no sentido oposto ao mostrado nessa reportagem. A cidade, segunda maior da Campânia (tem cerca de 135 mil moradores e só perde para Nápoles, que tem perto de 1 milhão de habitantes), é muito procurada por oferecer uma ótima conexão de ferries para as vilas vizinhas e, assim, os turistas basicamente só chegam e saem por ali, sem ficar um tempo para explorar o lugar. Mas eles não sabem o que estão perdendo. O calçadão da praia é repleto de gente fazendo jogging – ou se dirigindo para os restos que servem apetitosos frutos do mar. A comida também é o chamariz nas trattorias do centro histórico, que revela igrejas medievais como a catedral de Salerno, uma das mais bonitas da Itália. Num dia de sol, visite o Castelo Arechi, que, pairando a 263 metros de altitude, descortina um panorama sublime do Golfo de Salerno. São ruinas que passaram por uma longa restauração e, reabertas em 2009, agora têm um museu que apresenta as descobertas arqueológicas da região. 

Positano — “O” lugar para desempenhar a arte do dolce far niente 

Se a Costa Amalfitana seduziu você já nos primeiros quilômetros rodados em Sorrento, prepara-se para atingir o auge do encantamento no trecho seguinte, que leva a Positano. São meros 17 Km de trajeto, mas que trajeto: há vários mirantes dispostos a muitos metros acima das águas do Tirreno, que parece ter águas mais azuis e tranquilizadoras do que qualquer outro mar do mundo. Com essa pintura acompanhando a viagem, é impossível não parar em todos os deques disponíveis, fazendo com que a rota, que, num dia de trânsito normal, seria feita em cerca de meia hora, facilmente ultrapasse uma hora.
Outro impacto é se encontrar “cara a cara” com Positano. É que o casario colorido que de cima a baixo invade a montanha garante um irretocável clima de faz de conta à cidade, como se ela mal tivesse moradores e transeuntes. E o movimento nem sempre é muito nítido também porque Positano tem uma única rua-avenida, que por 4 Km se entende, ou melhor, se enrola feito um caracol para atravessar a cidade. 
E como alcançar as redondezas onde tal rua não passa? Só há escadarias e vielas com íngremes subidas e descidas — onde os carros não circulam —, como a Via dei Mineli. Ela leva à praia, a qual, no canto direito, é pública (no quanto esquerdo, ela é reservada para quem quiser alugar guarda-sol e espreguiçadeiras). Na beira mar, todo mundo se junta, mas cada um curte o dolce far niente no seu estilo. Uns torram ao sol. Outros, ou melhor, outras se mantêm de vestido longo e chapéu. E outros se sentam nos restaurantes da orla e, enquanto almoçam, praticam o people watching.

Moda Positana

Como um dos pontos mais badalados da costa, alfaiates e comerciantes, nos anos 1960, identificaram uma demanda por acessórios e roupas que representassem o clima e o estilo de Positano. Começaram, então, a criar peças de linho, incluindo toalhas e lençóis bordados à mão. E foram ajudados por estilistas como Benetton e Fiorucci, que passavam as férias na cidade e mostraram como tingir os produtos. O resultado foi a criação da “moda positana”, conferida na loja Antica Sartoria, endereço certo dos visitantes fashionistas. 
Saçaricando pelas ruazinhas, você também vai topar com butiques finas, galerias de arte e lojas que vendem coloridas peças de cerâmica, como jarros, copinhos de limoncello e minimurais de azulejos, sempre presentes na decoração de toda sorte de estabelecimentos. E o caso do café e restaurante La Zagara, onde as refeições são degustadas sobre coloridíssimas mesas de mosaico. Além de adquiri os produtos típicos, você precisa visitar a Igreja de Santa Maria Assunta, uma das mais populares para casamentos, que guarda a imagem de uma Virgem Maria negra, de inspiração bizantina.
E assim, ao conhecer a suspirante vila em caminhadas morro acima para curti uma baita vista do litoral, ao se deliciar com as fresquíssimas receitas locais e ao se jogar na praia para desfrutar da arte de não fazer nada, a frase de John Steinbeck, autor de As Vinhas da Ira, cunhou há mais de 60 anos se mostrará mais atual do que nunca: “Positano nos toca profundamente. É um lugar de sonho, que quando você está lá não parece de verdade, mas, depois que você parte, se torna incrivelmente real”. E deixa muita saudade. 

Capri — hedonista e perfumada 

Ao longo da história, o sul da Itália foi castigado por algumas catástrofes causadas pelo Vesúvio. Mas, para compensar a fúria do vulcão, as redondezas também foram moldadas com formações “pacíficas” e igualmente soberbas, como as que emolduram a elegante ilha de Capri. É um microcosmo mediterrâneo, alcançado de barcos desde Positano (e também de Sorrento, Amalfi e Salerno) e queridinha desde os tempos do Império Romano. Foi nela que o imperador Tibério, desconfiado de que seria assassinado por opositores em Roma, mandou construir, em 27 d.C., 12 vilas no alto da montanha. E se mandou para lá. A mais suntuosa delas, a Villa Jovis — que xige um bom par de pernas para ser alcançada — ainda mantém sues resquícios de pé, 353 metros acima do nível do mar. O governante foi só a primeira personalidade que caiu de amores por Capri. Escritores como o chileno Pablo Neruda e o alemão Thomas Mann também se renderam aos encantos da ilha. Até o ator Leonardo di Caprio já foi visto bebericando uns expressos por lá. E é mesmo esse o clima local: VIP. 
Da marina Grande, no porto de Capri, sem os principais passeios de barco em torno da ilha, os quais escancaram o quão generosa a natureza foi com o pedaço. É tanta formação caprichada que é difícil escolher a mais bonita. Há o arco natural, portal de pedra onde, na passagem da embarcação, os enamorados devem se beijar para que, reza a lenda, o amor perdure para sempre; a Punta Tragara, que fica de cara para os icônicos Faraglioni, rochedos de calcário que brotam no meio do mar; e a Ponta Carena, onde está o segundo farol mais alto do país.
No trajeto, navega-se pelas grutas Branca e Verde, de águas límpidas e transparentes. Mas o ponto alto é mesmo a magnífica Grota Azzura (gruta azul). Uma fila de embarcações se concentra em frente a ela e, então, botes pequenos buscam os visitantes nos barcos maiores e os levam até a gruta, processo que pode demorar mais de uma hora por conta da quantidade de turistas. Mas quem se importa sabendo do show que está por vir? 
A entrada da caverna tem 1,3 metro. O barqueiro, concentrado, observa o correr das águas e, enfim, rema gruta adentro. E então o “milagre” acontece: o túnel, estreito do lado de fora, se abre num salão rochoso, em que a luz do sol entra pela fenda se reflete na água, a qual, forrada por uma areia branquinha gera um efeito de azul fosforescente inacreditável. O espetáculo seria ainda mais encantador se não houvesse tantas canos ali ao mesmo tempo, mas, ainda assim, é maravilhoso. 
 
Ao retornar à Marina Grande — que tem, à direita, a Bagno di Tiberio, uma das praias mais procuradas de Capri -, um funicular conduz os visitantes ao centrinho. Nas estreitas ruas, há lojas de marcas badaladas, o vaivém de carinhos, ao estilo dos de golfe, dos hotéis de luxo transportando as malas dos hospedes, e atrações como o Jardim de Augusto, criando  mando deste que foi o primeiro imperador romano, que encanta, claro, pelas flores, mas também pelos bancos de mosaico e o visual estonteante para os rochedos Faraglioni. Perto dali, também com vista primorosa dessas formações o Mosteiro Certos adi San Giacomo é outro oásis de tranquilidade. Conta-se que, em 1949, um monge dali criou a fórmula do primeiro perfume de Capri. Com autorização do papa, revelou-a a um químico, que achou o aroma promissor e construiu um laboratório para produzi-lo. Nascia assim a conhecida perfumaria Carthusia Certosa. 
Para que o cheirinho das férias na ilha esteja sempre por perto, compre um vidro do perfume Ária de Capri. A essência de limão e laranja, associada a notas de mimosa e pêssego, certamente reconduzirá você aos marcantes dias passados na região. Então, é só fechar os olhos e recordar os momentos em que se via o sol nascer da varanda, com uma xícara de cappuccino em mãos, ou se contemplava o crepúsculo na praia, com a água do mar lambendo os pés. 

Amalfi — Poderosa na Idade Média, idílica e pacata hoje

Cruzar a estrada que conecta os vilarejos, superestreia e com curvas fechadas, uma atrás da outra, dá um certo friozinho na barriga. Mas ainda bem que o cenário sedutor não dá trégua, especialmente entre Positano e Amalfi. Ali, surgem diversas praias, quer dizer, boa parte delas são enseadas minúsculas, praticamente escondidas entre os paredões e acessadas apenas por longas escadarias. Como tais sequências de degraus não são vistas da estrada tampouco há placas que as indique, siga esta dica: pare sempre que você vir uma fileira de carros estacionados no acostamento. É grande a chance de encontrar uma inusitada, e linda, faixa de areia perdida nas falésias.

O zigue-zague do trajeto também é reconfortado pela tranquilidade e beleza de Amalfi, que recepciona os visitantes com um colorido degradê de casas, parte delas cenicamente empilhadas por um terreno mais plano, num vale ladeado pelas portentosas escarpas do Monte lattari. 
Hoje tão pacata e bucólica, mal dá para acreditar que Amalfi foi uma grande potencia marítima na Idade Média, rivalizando com as poderosas repúblicas de Veneza e Genova. A supremacia era tanta que ela era capital da próspera República Amalfitana, que criou um código de leis marítimas seguido em todo o mediterrâneo e que tinha a própria moeda, aceita da Grécia à África. 
Uma testemunha desse passado glorioso é o complexo da catedral, que conserva o Mosteiro do Paraíso, onde fica o cemitério da antiga nobreza amalfitana, e a Basílica do Crucifixo, hoje um museu que guarda tesouros como uma mitra (insígnia religiosa que os sacerdotes usam na cabeça) do século 13, ornamentada com folhas de ouro e uma infinidade de pérolas. Outra atração é a cripta, que guardaria os restos mortais de Santo André, padroeiro da cidade. 
Como fica no centrinho, a escadaria da catedral é um ponto de encontro de moradores e turistas. A turma também adora jogar conversa fora   —  tomar um bom espresso, claro — na confeitaria Andrea Pansa, ao lado da igreja. Se bem que, quando o sol bate forte, uma boa são os sucos de frutas da Sporta Marina, as quais são cultivadas no quintal do proprietário. A casa ocupa uma portinha perto da catedral, que, se você não prestar atenção, passa batido. 
O que nunca passa despercebido é a quantidade de limões sicilianos, cujos pés naturalmente enfeitam as vielas — e boa parte das lojinhas também. É automático querer pegá-los, já que muitos têm quase o tamanho de uma bola de futebol de salão. Mas não faltam avisos para os forasteiros não botarem as mãos nas frutas. Com essa fartura, o limão vai parar não só nas receitas, mas também em sabonetes, perfumes e no licor limoncello, cujas garrafinhas pintadas à mão, trazendo a cena de Amalfi, são um suvenir típico da cidade. 
Nas ruas, também é recorrente se deparar com miniaturas, como se fossem presépios montados em fontes ou colocados nas fendas das montanhas. As figuras representam profissões comuns dos vilarejos, como padeiro e pescador, e são uma espécie de artesanato típico que embeleza ainda mais o centrinho. 

O verde reluzente das águas

A despeito do movimento e do glamour que envolve a vizinhança, Amalfi ainda preserva sua essência de vila de pescadores. E, como tal, nada como explorá-la num tour de barco, que passa pelas “modestas” casas com elevadores privativos para a praia e propriedades como a Vila Sophia Loren e a mansão do dono da fabricante de champanhes Moet & Chandon. 
O barco para de tempos em tempos e se aproxima de alguns rochedos, quando o condutor mostra “imagens” naturais formadas nas pedras. “Use a imaginação”, diz aos mais céticos, apontando para a possível forma de uma mãe abraçando o filho. Outras formações, porém, são mais facilmente identificadas, como a pedra do elefante com sua imensa tromba. Depois, o barco se aproxima do Fiorde de Furore, fenda gigante que corta o Monte Lattari e é o maior do sul da Europa. O clímax do passeio, no entanto, é a chegada à Grotta dello Semeraldo (gruta da esmeralda), no vilarejo de Conca dei Marini, a 4 Km de Amalfi, e também alcançada por terra, com um ônibus que sai da estação Sponda, em Positano. 
Um elevador conduz até a entrada da gruta. Ali, a luz do sol passa por uma pequena fenda e ilumina a caverna e a água, que, devido à refração, cria o radiante efeito que deixa água com tons verde-esmeralda, envolta por estalagmites e estalactites que alcançam 24 metros. 
Barqueiros, com pequenos botes, levam os turistas para um rápido passeio pelo espaço. E alguns, para ninguém se esquecer de que está fazendo um passeio à la Veneza, soltam o vozeirão e entoam trechos da clássica música O Sole Mio.  

Ravello — Terraço para o Infinito