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sexta-feira, 23 de abril de 2021

Londres, see you soon.

Foram exatos quatro anos. Quarenta e oito meses em que reclamei do preço do aluguel, da quantidade de turistas baldeando na estação Green Park, do sotaque indecifrável de East London (Cockney), do cheiro de fritura do Fish & Chips. Virei piada entre os amigos. Eles reviravam os olhos e repetiam – “sim, peixe é grelhadinho só com um fiozinho de bom azeite”. Concordavam para não contrariar! Tentaram me apresentar o Spaghetti Hoops! Italianos, por favor, pulem as próximas duas linhas. Foi uma das coisas mais bizarras que já vi no Reino Unido. Anéis de massa com molho vermelho, ultra processado e enlatado. Come-se sobre um toast para curar a ressaca. Felizmente, consegui me refugiar nas tortas (Pie & Mash) e dizer que há algo para se apreciar na culinária britânica. São boas mesmo.

quarta-feira, 3 de março de 2021

Fantasia e Realidade

Uma parte de mim gosta de envelhecer. Só uma parte mesmo. Acho uma tremenda besteira juvenil a maioria das coisas que escrevi anos atrás. Por isso estou aqui preocupada em divertir a Regina do futuro. A melhor parte desse blog é dar motivos pra rir deu mesma daqui alguns meses. Há oito anos (2014) comemorei meu aniversário no meu primeiro colóquio de doutorandos antes mesmo de receber o financiamento para pesquisa. Pisquei e acordei com quase quarenta anos! Quando desejo de volta aquela juventude, esqueço que teria de abrir mão de todo o caminho até aqui – livros, músicas, amigos, viagens, pesquisas, conferências, um milhão de crises existenciais, perdas, mudanças, dúvidas, conquistas. Seria mais jovem, mas bem menos completa e mais amedrontada. Pra apaziguar esse paradoxo o jeito é intensificar a vida antes de cair no divã aos quarenta. Viajar, fazer umas cagadas, mudar mais algumas vezes, cruzar a Transiberiana, fotografar, caminhar, ler mais uns livros, aprender italiano, escrever outras besteiras, virar mestre de yoga, meditação, sei lá. Quando e se o Covid deixar. 

sexta-feira, 17 de julho de 2020

Semântica é o seu c...

Essa semana, covid à parte, me aconteceu algo bem bizarro. Sequer posso dizer que foi surpreendente porque essas sutilezas são parte do cotidiano feminino. Sutilezas, aliás, que boçais de plantão teimam em classificar como mi-mi-mi. Respiro fundo. Não é ‘questão de semântica’ ou análise de discurso de conversa de elevador, mas uma sensibilidade para nuances da nossa cultura patriarcal. “Eu ajudo” é uma ova, só para citar uma clássica. Notem que estou tentando usar menos palavrões para expressar emoções negativas! 

sábado, 6 de junho de 2020

Estratégias de quarentena

Uma das minhas táticas de sobrevivência durante a quarentena foi me inscrever em um curso de crônicas (vai lá, foi bem legal). Mas, paradoxalmente, nunca escrevi tão pouco. Esse blog está menos movimentado que restaurante em tempos de pandemia. Até as moscas escafederam-se. Pode ser o excesso de trabalho? Talvez, mas já encarei fases mais tensas e isso nunca me aconteceu. Mesmo imersa em um mar revolto de artigos para ler e capítulos de tese para finalizar, encontrava uma prancha velha esgarçada para uma pausa. Um tempinho pra escrever despretensiosamente sobre o cotidiano e retomar o fôlego. O problema mesmo é meu superego.

domingo, 12 de abril de 2020

Ressureição

Em um domingo de Páscoa, ela chegou a conclusão que Natal é superestimado. Nascimento de Jesus... grande merda. Qualquer um nasce, até Bolsonaros nascem. Foda mesmo é ressuscitar, essa ela queria ver (ou crer). Apesar de extremamente religiosa, dependendo do dia, resolveu, por assim dizer, ser uma católica devota e comemorar a Páscoa apesar das condições restritas impostas pelo corona vírus e a peste enviada por causa dessa geração Easy Jet. A culpa só poderia mesmo ser deles. Se criassem raízes em seus bairros, comprassem casa, cassassem, reproduzissem e morressem no seu vaso, não espalhariam essa bodega. Mas não era o momento de apontar os dedos. Ninguém “normal” pensou em culpar os libertinos pelo surto da Aids nos anos 80.

quinta-feira, 26 de março de 2020

Ressuscitem o Saramago!


Se existisse um céu de escritores, José Saramago estaria mesmo por lá, bem puto da vida aliás, pisoteando enraivecido uma harpa angelical e irritante. Provavelmente, baseado no Evangelho Segundo Jesus Cristo, chamaria Deus de uma grande ingrato, vingativo e lazarento. Aquela mente genial pensou numa situação hipotética em que todos ficavam cegos e nos deu o brilhante “Ensaio sobre a Cegueira”. Anos depois, em “Ensaio sobre a Lucidez”, mostrou o que ocorreria se uma população inteira votasse em branco. Se nós brasileiros lêssemos mais, resolveríamos a dicotomia do ódio ao PT ou o voto num acéfalo nazistinha desse modo. Mas sem política. De volta à literatura. Saramago ainda criou em “As Intermitências da Morte” uma narrativa em que ninguém mais morria, e se assim o quisesse seria necessário atravessar a fronteira do hipotético país. Tudo isso pra dizer que estou aqui na minha quarentena londrina, fazendo uma reivindicação com a cúpula espiritual para que ressuscistem o Saramago. Nem ele previu que um vírus batizado com nome de cerveja deixaria a população mundial (com algumas exceções, em casos de países com governantes menos pensantes que lombrigas parasitárias) trancafiada em suas casas. 

domingo, 15 de setembro de 2019

A casa do Freud em Londres

Tenho um prazer enorme em bisbilhotar à casa alheia pelas janelas entreabertas. Acho ainda mais interessante se ninguém estiver presente. Assim, posso criar a figura de um personagem, um morador fictício, baseada nos objetos que compõem o cômodo bisbilhotado. A indiscrição é tanta que até já ganhei um livro de fotos de janelas parisienses, exibindo a vida privada da cidade. Por essa mesma lógica, gosto também de visitar museus que outrora foram residências de escritores, artistas ou intelectuais. Já vasculhei os antigos lares de Goethe, Schiller, Nietzsche, Otto Dix, Thomas Mann, Shakespeare, Van Gogh, Picasso... Recentemente, inseri na lista a última morada de Freud, na Maresfield Gardens, número 20, no charmoso bairro de Hampstead, em Londres.

quarta-feira, 19 de junho de 2019

Stonehenge e o solstício de verão




Há coisas nessa vida que costumo chamar de “experiência antropológica”. Dar uma espiadela em coisas “estranhas” para ver se gostamos. E, sim, vale para todas as esferas da nossa existência (por que não?). Ano passado decidi que passaria a madrugada do solstício de verão no Stonehenge. Além de ser de graça (quem mora em Londres entenderá a mão de vaquice), é a única oportunidade de chegar bem pertinho e encostar as mãos, pés, nariz e bunda na estrutura. Cada um com seu fetiche, tenho dito sempre. A única coisa é que dividimos o espaço com toda sorte de malucos (no bom sentido, tá?) que seguem para contemplar as lendas e mistérios da construção desse círculo concêntrico de rochas. Durante um tour oficial, o monumento é protegido e só podemos vê-lo a uma certa distância. Por isso, há vários motivos para se juntar a celebração.

domingo, 10 de março de 2019

É pau? É pedra? É o fim do Caminho? Fuck Paintings!


Depois de ler um livro publicado por uma aluna esta semana (que pretendo comentar num próximo post), fiquei com o tema “primeiras-vezes” ressoando na cabeça. No caso do livro, um inocente primeiro-amor. Coragem, exposição, arte, desejo feminino. Toda essa temática veio a calhar muito bem quando pela “primeira vez” cruzei Londres inteira só para ver genitálias. Quer dizer, pinturas de genitálias. Explico. 

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Londres, mudanças e um baú de inutilidades sentimentais

É difícil fazer a vida caber em uma mochila. Ainda mais quando se envelhece. Ao sair de casa há dez anos, enchi duas malas e segui viagem. Na verdade, deixei com muito zelo tudo que estimava na casa da minha mãe. Levei coisas que poderiam ser deixadas pelo caminho, sem importância. Com o passar dos anos, era até interessante visitar o Brasil e reencontrar objetos que eu mal lembrava da existência no meu dia a dia. Deixei-os guardado porque um dia foram importantes. CDs dos meus dezesseis anos, agendas da adolescência cheias de sonhos e intrigas, vestidos longos de festas antigas, textos da faculdade, livros, retratos do primeiro mochilão, bichos de pelúcia, presentes antigos.

domingo, 15 de julho de 2018

O que você faria se...

... se recebesse o diário de um desconhecido? Em uma manhã de junho, provavelmente ensolarada, a senhora Fátima recebeu em Londres um pacote enviado da Espanha. Não era para ela, mas para algum dos seus vizinhos. O problema é que quase três semanas depois, ninguém nunca apareceu para buscar o envio. A Fátima está até hoje com aquela geringonça trambolhenta no meio da sua sala. Só pode. Seu nome, o bairro que mora e essa coisa solícita de ajudar o próximo recebendo caixas para os moradores me fazem crer que ela tenha um background islâmico. Difícil só dizer se ela usa burca, somente um véu ou anda com a cabeleira solta. Fato é que sei muito pouco sobre essa mulher. Nem eu, nem o Royal Mail temos a mínima ideia de quem é a Sr. Fátima ou exatamente onde ela mora. Who the f... is Fatima?

sábado, 19 de maio de 2018

Royal London: Londres da Realeza


Londres está alvoroçada com as novidades da realeza. O anúncio do noivado do Príncipe Harry com a atriz norte-americana Meghan Markle abriu um novo capítulo na história da mais antiga família real do planeta. Os típicos tabloides não falam em outra coisa senão do casamento marcado para 19 de maio no castelo de Windsor. Mas se você não foi convidado para a festança não tem problema. Grande parte dos castelos e palácios ingleses é aberta à visitação. E nem é preciso ser princesa ou duque para caminhar pelos mesmos corredores pelos quais passaram os grandes monarcas britânicos. Nesta reportagem, a correspondente da Viaje Mais ensina os caminhos que o levarão ao lado mais tradicional da Londres da Realeza. 

terça-feira, 24 de abril de 2018

Maratona de Londres: esquisitices e motivações

Sempre tive curiosidade em saber o que incentiva as pessoas a correrem 40km em pleno domingão. Água, bananas e Haribo? Se fosse prosecco eu até pensava. Flerto com coisas estranhas por um bom tempo, estudo-as como se fossem uma presa, até acabar me acostumando e me convencendo com a ideia. Foi assim nos tempos de Alemanha. Quem em sã consciência faz férias de bicicleta e sai pedalando 90km com a mala acoplada na magricela? Eu! Mas só depois de cinco anos gritando aos quatro cantos do planeta como os alemães tinham costumes estranhos. O resultado da presepada, com bicicleta quebrada e câimbras noturnas já relatei aqui. Mesmo com alguns contratempos, recuei e assumi – esses alemães sabem mesmo curtir a vida. Por isso que gosto tanto de metamorfose ambulante. 

segunda-feira, 2 de abril de 2018

PUBs: uma instituição cultural britânica


Não há nada mais inglês que os PUBs. Acho que nem a própria rainha. Imagine um local onde você frequenta para ler o jornal, escrever, tomar uma (duas, três, dez) pints, jogar um quizz, encontrar os amigos, bater um rango, assistir esportes na TV, tomar um chá quentinho, ouvir bandas ao vivo ou até mesmo tirar um sarro da rainha. Poderia ser a sala da sua casa, não? Um PUB não é lá muito diferente, ainda mais esses de bairro. Sofás com almofadas, carpetes, prateleira de livros antigos, lareira e todo mundo conversando um com os outros. A coisa é tão séria que várias estações de metrô receberam nomes de Pubs históricos. Sem contar os estabelecimentos descritos nas obras de Dickens.

Melhores Pubs de Londres

Best Pubs in London



quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

De Londres ao Delta do Mekong


Tower of London
Quartas-feiras são detestáveis. Nem os domingos lhe roubam o título. Aquele dia insonso ensanduichado bem no meio da semana, sem o vigor corajoso da segunda ou a animação geral da sexta. E como qualquer uma dessas manhãs chatas, sentei na minha mesa para mais uma jornada de tarefas.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Londres: Manual de Adaptação

Pisei em 2018 com a promessa de que deixaria Londres finalmente entrar no meu coraçãozinho. Em alguns meses fará um ano que mudei e ainda continuo numa relação de amor e ódio com essa capital britânica. Dá até para embaralhar os posts bem-me-quer e malmequer. Como é possível gostar e detestar tanto alguma coisa? Sentir atração e repulsa ao mesmo tempo? A maluca aqui não sou eu, mas sim essa cidade exageradamente cheia de opções e preços salgados. Isso inclui aluguéis, transportes, baladas e restaurantes.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

O túmulo do Marx em Londres

... uma história do dia das bruxas 

Preciso de um título “googlável”, mas ao escrevê-lo já sinto uma náusea similar a de um vegetariano preso em um açougue de um zouk marroquino. SEO é uma desgraça, não? Um mal necessário da blogosfera, o balde de água fria em qualquer aspirante a escritor de qualquer bodega. Queria mesmo titular este post como “as incongruências do mundo”, mas isso afastaria o leitor ainda mais do que esse gigante nariz de cera! Portanto, vamos logo ao assunto. Halloween! Gosto tanto da ocasião como  de chuchu, tartarugas, samambaias e aquela lata sem gosto de marrom glacê. Em alto e bom tom, não fede, nem cheira. Tem tanto tempero quanto comida de hospital. Um carnaval com toques de horror onde a garota propaganda é aquela abóbora bochechuda com o mesmo sorriso amarelo desde que o Thomas Jefferson trabalhava na declaração da independência dos EUA. E antes que algum sabichão venha falar das origens celtas da celebração – blá... E o que o Marx tem a ver com isso tudo? Ainda chego lá. Por enquanto, só torturando o desocupado leitor, descontando nele a miséria de ter que abrir a porta e ver crianças histéricas perguntando “doce ou travessura”...

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

London Skyline


Londres é bem famosa pelo seu visual cinzento, com ares de viúva chorosa, mau-humorada, sempre de preto e dona de humores instáveis e neblinosos. Mas, exageros à parte, a capital tem surpreendido nos últimos dias com seus entardeceres multicoloridos. Passo o dia brigando com a tese e lá pelas 17h-18h, quando vou apreciar minha xícarazinha de expresso, começa o cair da noite em diferentes tons.   

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Londres e coincidências estranhas II

Faz tempo que planejo escrever um post turístico sobre a capital inglesa – tipo a Londres da realeza, os mercados mais descoladinhos, grafites secretos, os canais perto das docas, o que fazer “na faixa” e por aí vai–, mas sempre aparece algum “maluco” (no melhor sentido da palavra) e me desvirtua da ideia inicial.