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quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Espanha: Santiago de Compostela e litoral da Galícia

A religiosa Santiago de Compostela e o litoral da Galícia 

Por Regina Cazzamatta (texto publicado originalmente na Revista Viaje Mais! Novembro 2016)

Dizem na Espanha que Deus, após terminar a criação do mundo, apoiou as mãos abertas, para descansar, sobre o norte do país. Assim teria formado, com seus cinco dedos, as cinco “rías” da Galícia, os braços do mar que avançam território adentro, rasgando as montanhas. A lenda tem uma explicação: a Galícia vive cercada de fé e misticismo desde os tempos mais remotos. E é assim até hoje. Sua capital, Santiago de Compostela, clímax do célebre Caminho de Santiago, é o terceiro ponto de peregrinação cristã mais importante do mundo, depois de Jerusalém e do Vaticano.
Essa região do norte da Espanha, às portas do Atlântico, é uma terra bucólica, de morros suaves e cidades pequenas (a capital tem apenas 100 mil habitantes), onde brota uma cultura própria, que não tem nada a ver com os estereótipos espanhóis do flamenco e de touradas. Começa pelo idioma distinto, o galego, e segue pela religiosidade. O turismo é um traço importante, mas não se resume aos andarilhos peregrinos carregados de fé e devoção a San Tiago. Turistas bem mais céticos também vão à galícia, em busca do prazer de caminhar em belas cidades históricas, como a própria Compostela; dos divinos pratos de frutos do mar; e dos passeios ao litoral de águas cristalinas, de charmosos vilarejos de pescadores e grandes belezas naturais. 
litoral das ilhas cíes 
Sendo assim, não será preciso caminhar centenas de quilômetros para chegar a Santiago de Compostela, ainda que seja impossível não se contagiar com a emoção de se deparar com a catedral de Santiago, a alma da urbe. O templo é colossal, sempre cheio de fiéis de todas as partes do mundo, que fazem fila na entrada para tocar a coluna do Pótico da Glória e repetir as mesmas palavras: “Senhor, eu creio!”. Faz parte do ritual peregrino. Os devotos também se juntam na cripta para ver o baú de prata com os supostos restos mortais do apóstolo Tiago. 
Santiago clicada do topo da catedral
A história católica dá conta de que Tiago veio bater na Galícia em 38 d.C. em sua missão evangelizadora. Seis anos depois, já de volta a Jerusalém, foi assassinado. Dois discípulos recolheram o corpo de Tiago e colocaram-no em uma urna, que foi levada de volta à Espanha para ser enterrada. Oito séculos se passaram até que o santíssimo esqueleto fosse enfim encontrado por um eremita galega chamado Pelayo.
Peregrinos chegando a Santiago de Compostela
É claro que Pelayo não tropeçou distraidamente na tumba do apóstolo. O episódio ganhou tons bem mais dramáticos. No ano de 813, o eremita viu uma chuva de estrelas cair sobre um campo e, guiado por essas luzes, foi até o local e desenterrou a ossada. Obviamente, há dúvidas se os restos mortais na cripta da igreja são mesmo de Tiago. Mas isso é uma questão de fé, e fé, como se sabe, é o que não falta em Santiago de Compostela.
Do lado de fora da catedral, o burburinho rola com intensidade nas quatro praças que a circundam: Quintana, Imaculada, Prataria e Obradoiro. Essa última ganha mais vida com a chegada de peregrinos exaustos após longas e árduas jornadas. A atmosfera de vitória e trocas de energias positivas dominam o ambiente, com cantorias e lágrimas. Ao lado da praça, está o antiquíssimo Hotel dos Reis Católicos. Recheado de pátios e fontes memoráveis, o abrigo foi criado em 1499 como um hospital para socorrer peregrinos. Paradoxalmente, transformou-se hoje em uma hospedaria chiquezinha. 
Interior do Hotel dos Reis Católicos 
Ruas de Santiago durante a madrugada
No centro histórico de Compostela, por suas ruas estreitas, proibidas para carros, é bem fácil encontrar as famosas taperias espanholas. A capital galega abriga cerca de 1.100 restaurantes e bares, um para cada 100 habitantes. A especialidade quase sempre é a “mariscada”, uma orgia de frutos do mar. O pecado é não provar. Navalhas, percebes, berberechos... são alguns dos estranhos mariscos locais que são degustados com muito azeite e uma taça de vinho albariño. Ou, se melhor apetecer, uma cerva local, a estrela da Galícia. Nenhum frutos do mar, porém, é tão tradicional quanto as vieiras, a macia carne da concha que virou o singelo ícone da cidade, e está pendurada nas mochilas dos peregrinos. Em outros países, como na Alemanha, a vieira é conhecida como “concha de Santiago”. O problema é o preço salgadinho (uma unidade pode custar até €12). 
Vieriras ou conchas de Santiago
 O mercado de Abastos em Santiago é uma boa opção para degustar todas essas delícias e outras cositas más, como queijo tetilla (tetinha, em português), batizado assim por conta do seu formato de seio. Como 40% do leito produzido na Espanha provém da Galícia, dá para imaginar a qualidade dos queijos da região. Ou então o “pulpo á feira”, um polvo cozido que derrete na boca, temperado com páprica. E, na hora de adoçar a vida, nada e mais clássica do que a Torta Santiago – de amêndoas e salpicada com açúcar de confeiteiro –, acompanhada dos licores locais. 
Queijos tetillas vendidos no mercado de Abastos


A Costa Galega

Marco zero do caminho de Santiago, na costa Finisterre
O Caminho de Santiago não acaba em Compostela, segue até Finisterre, no ponto mais ocidental da costa  espanhola, a 90 km de distância. Os peregrinos encaram três dias para concluir esse trecho final da caminhada. Mas dá para ir até lá em pouco mais de uma hora de caro, ou mesmo em passeios bate-e-volta que saem da capital galega e levam a diversos pontos do recortado litoral que vai de Carnota a La Coruña. Finisterre é o pedaço mais famoso, onde está a rocha do marco zero do Caminho de Santiago. Próximo a ele fica o farol do Cabo Finisterre, de 1853. Nesse ponto, no alto da falésia, peregrinos que concluíram a jornada queimam suas roupas e amarram seus calçados surrados no penhasco. É um ato para simbolizar renivação e renascimento. 
Botas deixadas por peregrinos ao fim do percurso
Entre algumas excursões ao Cabo Finisterre estão paradas em pontos interessantes, como a ponte Maceira, no pequeno município homônimo. Toda de pedra, com arcos em estilo romano, a ponte foi construída na Idade Média para ajudar a travessia dos peregrinos. Outra belezura do trajeto é a cachoeira do Rio Ezaro, que deságua no mar em grande estilo com uma encantadora queda d´água. 
Desague do Rio Ezaro
Os passeios que partem de Santiago de Compostela também levam a La Coruña, onde o principal ímã turístico é a Torre de Hércules, o farol mais antigo em funcionamento do mundo, erguido há dois mil anos pelos romanos. Até hoje auxilia os navegantes que enfrentam o mar bravio e os nevoeiros comuns naquelas latitudes atlânticas. 
Torre de Hercules em la Coruña
Na pequena cidade de Muxía, o santuário da Virgem da Barca, uma fascinante igreja à beira-mar, merece estar no seu roteiro. Segundo a fábula, Santiago rezava no local, quando viu chegar um barco. Nele vinha Nossa Senhora, que o consolou e o motivou a continuar seu trabalho de evangelização. Muitos crentes vão até lá e passam por baixo de uma enorme pedra curvada, que simboliza o barco de Nossa Senhora, com o intuito de curar dor nas costas. 
Santuário da Virgem da Barca, em Muxía
De todos os vilarejos costeiros, o mais charmoso é Combarro, uma vilinha de pescadores, com uma ruela estreitinha à beira-mar, abarrotada de restaurantes e lojinhas com produtos locais. Barraquinhas de licores, panelas de barro, vinhos albariños e bruxinhas (curiosamente chamadas de “meigas”, para espantar os maus espíritos) são vendidos ali na minúscula orla. É daqui também que saem animadíssimas excursões de catamarãs (www.crucerospelegrinn.com) para uma voltinha na ilha do Tambo. O auge dos passeios é a degustação de mexilhões ao vapor com uma garrafa de vinho branco geladinha. Música, petisquinhos frescos, bebida trincando e a tripulação toda dançando. 
Orla de Combarros, litoral da Galícia 

Combarros from Regina Cazzamatta on Vimeo.

A grande joia da costa galega são as ilhas Cíes, um pequeno arquipélago transformado em parque nacional marítimo, a 14 km da costa da cidade de Vigo, que por sua vez está a 100 km de Santiago de Compostela. São apenas três ilhotas, pequenas em tamanho mas grandes em beleza. Duas delas são interligada por uma longa faixa de areia, a Paria de Rodas, que o The Guardian classificou, em 2007, como “a melhor do mundo”. É de fato muito bonita, mas convenhamos, os ingleses não entendem muito de praia. Além dela, são mais oito arquipélago, todas com areia branca e mar cristalino que poderiam mesmo compor um pequeno Jardim do Éden se as águas não fossem geladérrimas!

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Sicília: Itália bonita e barata. Um roteiro fundamental pela ilha passando pelas principais cidades como Palermo, Catânia, Cefalù, Taormina e as ilhas eólicas

Sicília — Itália Bonita e Barata

Essa encantadora região no “bico” do país bota é repleta de preciosidades, de ruínas gregas a cidades antiquíssimas debruçadas à beira de um mar azul cristalino. De quebra, rende uma viagem mais barata do que outros destinos clássicos da Itália.
(Texto originalmente publicado pela Revista Viaje Mais! Abril 2016)
Nas encostas de impulsivos vulcões, águas azuis translúcidas brilham no litoral da Sicília e dão as boas-vindas aos visitantes que chegam à enigmática ilha no sul da Itália. Embora muitos associem a região à máfia italiana, eternizada pela trilogia hollywoodiana O Poderoso Chefão, de Francis Ford Coppola, a Sicília é muito mais do que a terra natal do personagem d. Vito Corleone. É um lugar lindo por natureza. E repleto de história: mesmo estando na Itália, tem um legado arquitetônico grego tão rico quanto o da própria Grécia.
Ruinas do anfiteatro grego em Taormina, construído por volta de 230 a.C
À parte a sucessão de ruínas gregas, há muito o que ver, e cair de amores, na Sicília. A ilha montanhosa, no “bico” da bota que é o território da Itália, é a maior do Mediterrâneo, ostentando tamanho similar ao do Estado do Sergipe. O lado mais moderno, e paradoxalmente arcaico, está na vibrante capital Palermo, a maior urbe da ilha. O doce romantismo de praias lindas fica em Cefalù. Ruínas gregas e romanas dão o tom em Taormina. E uma verve literalmente quente e explosiva vem da lava do poderosos vulcão Etna, na Catânia. 
A natureza foi mesmo generosa com a Sicília. Desenhou ali um litoral entrecortado por falésias, que funcionam como terraços para contemplar o mar azul de um ponto de vista privilegiado, do alto. E ainda cravejou sua costa com sete pequenas ilhas de sinhô, conhecidas como Ilhas Eólias. 
É compreensível, portanto, que um lugar tão atraente assim, localizado num ponto estratégico — a só 3 Km da ponta do continente europeu, do qual a Sicília está separada pelo Estreito de Messina—, tenha sido tão cobiçada através dos tempos. Os fenícios foram os primeiros a chegar, cerca de 30 séculos atrás. Depois desembarcaram gregos, romanos, árabes e normandos. Cada conquistador deixou suas marcas na arquitetura da ilha, que por quase 700 anos foi reino independente. Os gregos tiveram especial apreço por aquele litoral de paredões escarpados, Ocuparam a Sicília por meio milênio e lá ergueram uma infinidade de suntuosos templos em louvor aos deuses do Olimpo.
Esse mosaico formado ao longo dos séculos está imerso num típico cenário do sul da Itália, cheio de ladeiras estreitas e varais de roupas nas sacadas de predinhos. Nelas circulam enormes famílias, compostas de muitos filhos, tios e primos, cujas mammas são craques no preparo de massa caseira e outras delícias da culinária regional.
Não é a toa que o escritor siciliano Gesulado Bufalino (1920-1996) falava em muitas Sicílias e descrevia suas paisagens de sua exuberante terra natal em múltiplos e quase surreais tons: o esverdeado das alfarrobas (árvores selvagens do Mediterrâneo); o branco das salinas; o amarelo do enxofre; o loiro do mel; e o púrpuro das lavas. 
Além da beleza e variedade de canários, a região ainda é relativamente mais barata se comparada a outros destinos da Itália. Em tempos de euro nas alturas, é possível se jogar nessa viagem sem atirar dinheiro às cinzas. O custo para curtir o mar, apreciar altos visuais e relaxar na praia é menor do que se imagina. Afinal, não se paga nada para vislumbrar a natureza primorosa e a arquitetura das cidades. E, como a Sicília é a rainha dos mercados e das comidas de ruas, as refeições ficam bem em conta, mas ainda assim inventivas e cheias de experimentações. Vai aí um brioche com sorvete de pistache?
Uma invenção típica siciliana: brioches recheados com sorvete

Palermo e Cefalù

Na escadaria do teatro Massimo em Palermo foram gravadas as última cenas do Poderoso Chefão 3
Quase toda viagem à Sicília começa pela capital Palermo. É a quinta maior cidade da Itália e ficou conhecida por ser o berço da outrora poderosa máfia. Mas pode esquecer aqueles gângsteres de terno escuro, cara de poucos amigos e cabelos engomados. Eles não vivem na Sicília faz muito tempo, o que, aliás, fez um bem danado à autoestima do povo siciliano que é dos mais alegres e caricatos do país. 
Típicas procissões na Sicília
 Palermo é uma cidade para ser devorada com os olhos. A arquitetura é uma fusão maluca de estilos deixados pelos conquistadores que a ocuparam ao longo dos séculos, desde sua fundação pelos fenícios há 2.700 anos. Um bom exemplo dessa miscelânea é a catedral, construída no século 12 por árabes e posteriormente alterada e ampliada pelos normandos. Os muros altos e robustos, com suas torres proeminentes, dão ao templo um caráter de igreja fortificada. E é lá de cima, no tour que leva ao telhado da igreja (realizado de segunda à sábado, das 10h às 17h), que está a melhor parte: o vislumbre panorâmico de Palermo e do mar azul ao fundo.
A miscelânia aqruitetônica da catedral de Palermo
Ninguém perde também uma visita ao Palácio real, antigo forte do século nove transformado em residência do rei Rogério II em 1130. O monarca mandou erigir uma igreja dentro do palácio, a Capela Palatina, cujas paredes são cobertas de mosaicos bizantinos folheados a ouro, enquanto no teto de madeira foram esculpidos desenhos árabes. 
Na capela Palatina, tudo que reluz é ouro
Como Palermo é mesmo eclética, no coração da cidade a estrela é um conjunto de prédios que mesclam o estilo barroco e renascentista, o Quattro Canti, cujas fachadas idênticas se voltam a uma mesma esquina, no cruzamento da Vitorio Emanuele com a Via Maqueda. Iluminada de modo diferente à medida que o dia avança, a esquina também é conhecida como Teatro do Sol.
Uma vez no centro vale um pit stop na lanchonete Arancine d´autore (www.kepalle.it) para abocanhar os famosos arancines, um bolinho de arroz com açafrão e recheios variados. É uma das muitas delícias sicilianas. Para saborear outras, siga aos mercados de rua, cujas barracas vendem sardinhas na brasa, doces fresquinhos e a grande estrela da ilha, o peixe-espada, com o qual se prepara os involtini di pesce spada, enroladinho do peixe recheado com pão ralado, alcaparras, tomate e azeitona. Sem contar as italianices que rolam em qualquer mercado, como os galanteios dos vendedores que exclamam ma che bella donna (que mulher bonita) e as nonas gorduchas que fazem compras pela janela de casa, descendo baldes marrados por corda aos feirantes.
O arancine é um típico bolinho de arroz com recheios diversos: vale provar o feito pela Arancine d`autore
Para mergulhar ainda mais nos segredos da cidade, a Catacumba dei Cappuccini é um dos passeios mais peculiares. No local, esqueletos e corpos mumificados de mais de 800 palermitanos, mortos entre os séculos17 e 19, descansam. Há corredores para homens, mulheres... e virgens!
A peculiar e curiosa Catacumba dei Cappuccini
Depois dessa visita interessante, mas um pouco macabra, está mais do que na hora de respirar a brisa do mar nas melhores praias sicilianas. Uma opção rápida e barata para um banho de mar próximo a Palermo é a praia Mondello. Se não estiver de carro, use o ônibus 806, que passa em frente ao Teatro Politeama. Já aqueles que planejam um giro pela Sicília e sonham com um inesquecível panorama à beira-mar, Cefalù é para indispensável. Fica a 70 Km de Palermo, perto o bastante até para um bate e volta. Dá para ir de trem até lá, em cerca de uma hora de viagem. 
Em Cefalù, a 70 Km de Palermo, foram gravadas cena do filme Cinema Paradiso
A praia de Cafálu tem mar calmo e areia dourada, mas o charme está no casario antiquíssimo que emoldura sua orla. De tão charmosa, a cidade caiu no gosto do diretor Giuseppe Tornatore, que escolheu Cefalù para gravar cenas de Cinema Paradiso, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 1989. Ali, o ponto de encontro é a Piazza Duomo, onde está a catedral local, tombada como Patrimônio Cultural da Humanidade, e diversos barzinhos com mesas ao ar livre.

De todos os cantos da cidade se avista um imenso rochedo, chamado La Rocca. Tem 270 metros de altura, e no topo, ao final de uma caminhada de uma hora desde o centro histórico, está uma das vistas mais belas da Sicília. É como abraçar tudo que a cidade tem pode oferecer de uma só vez. O mar, a orla, os telhados da urbe, e, de quebra, as duas torres da catedral. 
Vista da La Rocca para o mar e catedral de Cefalú
Ao entardecer, após um relaxante dia de sol  e mar, não há nada melhor em Cefalù do que circular, do jeitinho que você saiu da praia, pelas ruelas medievais da cidade e, ao pôr do sol, estar diante do pequeno porto, se possível sentando num banco e tomando sorvete.

As Ilhas Eólicas

Pequeno e charmoso porto da ilha Lipari
 Uma semana é tempo suficiente para conhecer a região de Palermo e Catânia e já voltar para casa deslumbrado com a Sicília. Mas, quem tiver mais tempo pode incluir também uma visita a um exótico arquipélago no Mar Tirreno, as Ilhas Eólicas. O nome foi dado pelos gregos, que acreditavam que as ilhas eram a casa de Éolo, deus dos ventos. Trata-se de um colar de sete pequenas ilhas vulcânicas, das quais Lipari é a maior e mais acessível, o que a torna o ponto de partida para explorar as outras ilhas. Há barcos diários para lá saindo de Milazzo, a 200 Km de Palermo. São apenas 45 minutos de travessia. 
Lipari teve um passado tormentoso. Durante séculos foi ameaçada por invasores e ataques piratas, o que explica a existência de sua linda cidadela. Com cerca de 12 mil habitantes, é a única ilha com jeitão de cidade, onde circulam carros, scooters e ônibus turísticos por suas ruelas medievais. No fim do dia, quando os turistas retornam das excursões — pesca esportiva, mergulhos e caminhadas —, o clima ferve nos restaurantes e barzinhos à beira-mar. Lipari ainda guarda um segredinho a 3 Km do centro antigo: um mirante natural conhecido como Quattrocchi, de onde se tem um belo panorama ada vizinhança. 
Crateras do Vulcano
E é de Lipari que partem barcos rumo às outras ilhas. Vulcano é a mais visitada delas. Nela, a grande atração é a caminhada rumo ao topo de um de seus cinco vulcões, a Gran Cratere, que fica ao final de uma trilha de uma hora, a 391 metros de altura. A cratera emite gases sulforosos amarelados, o que confere um tremendo cheiro de enxofre. Já na praia, há quem encare banhos terapêuticos de lama de origem vulcânica, que dizem ter efeitos medicinais. 
A ilha de Stromboli também rende um baita passeios. O pedaço é dominado por um grande vulcão homônimo, o Stromboli, que tem um formato perfeito de pirâmide e parece emergir do mar. Nuvens acinzentadas parecem pregadas ao seu cume, já que o vulcão é superativo e expele constantemente fumarolas. Aventureiros partem em uma jornada de quatro horas rumo à cratera, em tours organizados por agências de turismo locais. Mas o melhor é estar na ilha à noite, quando é possível ver as erupções em forma de fogos de artifício e o rio de lava que escorre pela encosta do Stromboli. Os mais preguiçosos podem ver o cuspe de fogo a bordo de barcos que atracam ao redor da Sciara del Fuoco, a encosta negra da ilha. A intensidade da vivencia dependerá, claro, dos humores strombolianos. Nem sempre há uma chuva de lavas. Por vezes, só aparece algum fiapinho vermelho no céu. Ainda assim, vale cada segundo. 

Catânia e Taormina


 Do outro lado da Sicília, na costa leste da ilha, está a Catânia, a segunda maior cidade da região, com 300 mil habitantes e atrás apenas da capital Palermo. Está aí uma excelente base para explorar atrações desse trecho do litoral siciliano, voltado para o não menos deslumbrante Mar Jônico (o outro mar que banha essas maravilhosas paragens, vale lembrar, é o Tirreno). 
Para quem sai de Palermo, a melhor forma de chegar à Catânia é com um carro alugado. As estradas da Sicília são excelentes e modernas, com grandes viadutos sobre os vales. Ora a rodovia atravessa campos de trigo e oliva, ora corre sobre o alto das encostas das montanhas, lambendo o mar. A paisagem é sempre belíssima, e qualquer deslocamento vira um ponto alto da viagem. É quase impossível dirigir na Sicília sem parar várias vezes para admirar os visuais que surgem a todo momento.
O caminho de 210 Km entre Palermo e Catânia é um dos mais interessantes. À medida que você se aproxima de Catânia, uma enorme montanha de forma cônica se agiganta cada vez mais no horizonte: é o Etna, o maior vulcão da Europa, a 3.330 metros de altitude, que pode ser avistado, em dias de céu claro, de uma distância de cerca de 150 km.
O Etna é o vulcão mais ativo e temperamental do mundo, e vive em constante erupção há cerca de meio milhão de anos. Quem gosta de brincar com fogo não deve dispensar um trekking pela incandescente montanha. A partir de Catânia, há caminhadas guiadas por esse encosta negra, de puro magma petrificado, que levam a inúmeras crateras secundárias nos arredores da montanha.
Os caminhos tortuosos pelas crateras do Etna 
São impressionantes as marcas deixadas na Catânia, ao longo dos séculos, pela ação do gigante. Tanto que o lema por lá é “ainda melhor ressurgir das cinzas”. Uma devastadora erupção ocorrida em 1669 gerou um rio de lava que destruiu boa parte da cidade. Para remediar o estrago, no século 18,, o arquiteto Giovanni Battista Vaccarini liderou uma reconstrução usando as pedras escuras que existem aos montes nos arredores do vulcão, o basalto. Por isso, Catânia também é conhecida como “a filha negra do Etna”. 
Catedral de Catânia erguida com lavas vulcânicas
A catedral barroca local também foi erguida com pedras vulcânicas e hoje brilha na lista de Patrimônios da Humanidade da Unesco. Assim como a Via Crociferi, rua com uma mega concentração de igrejas e palácios barrocos do século 18, cujas paredes são enegrecidas por conta da fuligem do Etna. 
O show barroco da Via Crociferi
A despeito dos humores do velho vulcão, Catânia se exibe com ares joviais. Há muitos estudantes em virtude da Universidade de Catânia, a mais antiga da Sicília, fundada em 1434. O clima universitário garante a ocupação de uma sucessão de barzinhos descolados para tomar umas e outras. 
Mercado de peixes de Catânia
Já no mercado de peixes La Pescheria também impera uma atmosfera de descontração e informalidade. É o ponto onde moradores e turistas se encontram, todos disputando as mesas de barracas que vendem e preparam todo tipo de frutos do mar. No verão, muitos não perdem a chance de bebericar um seltz, bebida típica refrescante com água gasosa, limão fresco e xarope de laranja.
De Catânia, são apenas 50 Km até Taormina, a cidade mais turística da Sicília, onde estão as praias mais fotogênicas de toda a ilha italiana, espalhadas por uma sequência de pequenas enseadas bem recortadas e mar estupendamente azul. As simpáticas casas de pedra, que já passaram dos 400 anos, e diversas igrejas medievais ficam encarapitadas nas encostas do Monte Tauro.
Belas prais de pedrinhas em Taormina
Na principal rua, a Corso Umberto I, que diversas vezes se abre em graciosas piazzetas (pracinhas), há muitos restaurantes gourmet e lojas de grife. É onde Taormina exibe seu lado chique. A Praça Nove de Abril, que abriga a torre do relógio e a Igreja de São Giuseppe, é a mais animada. Ali circulam músicos, vendedores de balões e cartunistas que fazem caricaturas dos turistas. À noite, sanfoneiros colocam as pessoas para dançar ali na rua mesmo, enquanto belas garotas encomendam pinturas de seus rostos. 
No alto do Monte Tauro (dá para subir de bondinho), os gregos construíram, há cerca de 2300 anos, um anfiteatro, que dois séculos depois foi reformado pelos romanos. A construção está preservada e continua sendo usada como casa de espetáculos ao ar livre. Quem imaginaria que uma ilha na Itália treia ruínas gregas tão impressionantes quanto a própria Grécia? Mas a Sicília é assim mesmo, repleta de histórias e cidades que são verdadeiras relíquias. O escritor alemão Goethe, fascinado durante sua visita à ilha em 1787, já convencia muito bem os turistas a seguirem seus passos. Sentenciou: “A Itália sem a Sicília não forma em nossa alma um quadro completo: somente aqui se tem a chave para o todo”. Ele tinha razão.