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quarta-feira, 14 de junho de 2017

Sul da Alemanha: Munique e Bavária

Alemanha, festeira e romântica! 

Aproveite a vida boa em Munique, terra da cerveja, e viaje por um roteiro com castelos e as paisagens mais incríveis da região da Baviera. 

(Texto originalmente publicado na Revista Viaje Mais! Junho, 2017)

A região da Baviera é uma das mais especiais da Alemanha, principalmente para nó, brasileiros, pois lá estão todos os grandes ícones que conhecemos sobre o país. A começar pelos gigantescos canecões de chope de um litro, que requer braço de halterofilista para erguer (ou seria halterocopista?).
A Baviera é a terra da cerveja e da Oktoberfest, a original. Sabe aquelas bandinhas nas quais os sujeitos vestem bermudas com suspensórios, e as mulheres, vestidos campestres de babadinhos brancos? São de lá. Munique, a capital, é a casa da BMW e do FC Bayern, o maior time de futebol do país, cujo estádio recebeu 4 milhões de visitantes no último ano. Sim, o futebol é uma paixão nacional lá também. Então, pode ir chegando e não faça cerimônia. A região é a mais festiva do país e gosta de receber. Viajar para Baviera é encontrar a Alemanha que você tanto sonha conhecer.

Castelo Neuschwanstei, em Füssen

Munique – A cidade mais altro-astral e festeira da Alemanha 

Showroom da BMW, Munique 
A capital da Baviera é uma cidade alegre e tem a cara de seus muitos biergartens, ou "jardins dacerveja”, traduzindo ao pé da letra, onde se vive o astral da Oktoberfest o ano inteiro. As pessoas são mais expansivas e menos o formais se comparadas aos alemães de outras partes do país, e a cidade é festeira e bem humorada. Para entrar no clima peça logo uma cerveja a caneca de um litro (a Maß) e uma típica salsicha branca (a Weisswurt). Será melhor ainda se o lugar escolhido para o brinde (aplique um sonoro “prost!”, “saúde!” traduzindo para o português) for em uma das cervejarias mais tradicionais e antiquíssimas da cidade, como a Augustiner (de 1328), a Spaten (1397), Paulaner (1634) ou a Hofbräu (1589), onde todo mundo fala alto e se abraça feito bons bêbados. Em Munique, bebe-se cerveja acima da média nacional.   
A famosa cervejaria Hofbräu, de 1589

Castelo da Cinderela em Füssen

Füssen e seu magnífico castelo que inspirou Walt Disney 

O castelo que inspirou o da Cinderela, de Walt Disney

A Baviera foi um reino independente do restante da Alemanha até 1918. Os principais vestígios reais da região estão nos projetos alucinados e soberbos do jovem rei Ludwig II que chegou ao trono em 1864, aos dezoito anos, cheio de ideias mirabolantes. Seu primeiro plano surreal foi uma das obras mais bem sucedidas do turismo de massa do estado – a Castelo Neuschwanstein, na pacata cidadezinha de Füssen, a 125 km de Munique, ou duas horas de trem. É um passeio bate-volta para 99% dos visitantes.

Burgo Hohenschwangau, em Füssen
Nos arredores do burgo Hohenschwangau, onde passara parte de sua infância, Ludwig II assistiu cuidadosamente à construção do seu sonho do outro lado da montanha. Curioso é que ele procurara a solidão, um local tranquilo e idílico para mergulhar na encenação de um passado da ordem de cavaleiros medievais. As obras iniciaram em 1869, mas nunca foram finalizadas, assim como todos seus outros empreendimentos. Mesmo assim, o legado dessa alucinação recria ao mundo a mitologia germânica operacionalizada pela sobras de Richard Wagner. A sala dos menestréis, por exemplo, foi concebida para alimentar a fascinação do rei pelo compositor e pelas ordens de cavalaria. Os afrescos do conhecido cômodo ilustram cenas da ópera Tannhäuser. No mês de setembro, é possível assistir ali a concertos diversos. A admiração pelo maestro também é notada no quarto do rei, ocupado pela cama em estilo gótico e decorado com cenas do clássico Tristão e Isolda. 
Paisagem dos lagos que circundam os castelos em Füssen

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Sul da Alemanha: Munique e Rota Romântica na Alemanha - como planejar um ótimo roteiro

Munique & Rota Romântica — Onde vivem os sonhos

Uma viagem de 12 dias pelo trajeto turístico mais famoso da Alemanha que leva da pulsante capital da Baviera (e da cerveja) às pequenas e mágicas cidades que parecem congeladas numa fábula dos irmãos Grimm

(Texto originalmente publicado pela Revista Viaje Mais! Dezembro de 2015)

      Pairando no alto de uma montanha, por vezes surgindo como se fosse um delírio da mente por se esconder em meio à nevoa e à densa vegetação dos Alpes, o Castelo de Neuschwanstein magnificamente enfeita o panorama de Füssen. Construção mais conhecida do sul da Alemanha, o castelo foi a concretização do sonho — ou seria um devaneio? — do sensível rei Ludwig II, que pessoalmente se juntou a um cenógrafo para planejar os suntuosos ambientes do local. Sim, foi um cenógrafo que elaborou o projeto monumental, iniciado em 1869 e nunca efetivamente concluído, o qual, inspirado na obra do compositor Richard Wagner, celebra a mitologia do país. A parceria entre um monarca com tendências megalomaníacas e um profissional com alma de artista, e liberdade para criar, só podia dar no que deu: um castelo para lá de majestoso, cênico e riquíssimo de detalhes, que parece saído dos contos de fadas. Ou melhor, das fábulas dos irmãos (alemães) Grimm. Do estilo às muitas histórias que rondam o local, tudo faz jus ao roteiro de sonhos em que a construção está inserida, a Rota Romântica, uma das viagens mais lindas e desejadas pelos turistas em solo europeu.
O monumental Neuschwansteinm, em Füssen
       O trajeto começa na região da Francônia, na cidade de Würzburg, grande produtora de vinhos brancos e casa do magnífico Residenz, um gigantesco, e reluzente, palácio barroco que é o primeiro presente recebido na Rota Romântica. O passeio segue então para o Estado da Baviera, e passa por quase 30 lugarejos, incluindo a perfeitinha Rothenburg ob der Tauber, um dos melhores exemplares dos cenários à la histórias infantis e um vilarejo tão colorido e enfeitado que os alemães dizem ser um local onde se pode celebrar o Natal o ano inteiro. A viagem termina em Füssen, aos pés dos Alpes, já na divisa com a Áustria, que não contente em hipnotizar o olhar com Neuschwanstein, esbanja mais um castelo monumental, Hohenschwangau, onde Ludwig II passou os primeiros anos de vida. Encantadora e envolvente assim, a estrada, além dos ares idílicos, certamente evoca o que os locais chamam de Gemütlichkeit, mistura de aconchego, conforto e satisfação.
       Apesar de não fazer parte da rota, a pulsante Munique, por ser um dos principais pontos de chegada de turistas internacionais à região, deve ser acrescentado ao roteiro. Capital da Baviera e terra da Oktoberfest original, ela é garantia de ótimas experiências com seus museus, parques e palácios, além da culinária típica. Afinal, onde mais se forra o estômago no café da manhã com salsichas brancas, acompanhadas de um caneco de cerveja de trigo? Incluir Munique no roteiro é também uma forma de aproveitar em uma mesma viagem dois mundos totalmente diferentes, indo de uma urbe cosmopolita e abastada para vilarejos bucólicos e graciosos, que se mantêm tal qual são mostrados em pinturas da era medieval.

Dia 1 a 3 — Munique, um show de cidade

Igreja das Mulheres em Munique (Frauenkirche)
       Pode ser por causa das cervejas sensacionais da Oktoberfest, pela atmosfera moderna e vibrante desta que é uma das principais metrópoles alemãs ou ainda porque os münchners (nativos de Munique) são muito receptivos e bem humorados. Fato é que dez milhões de visitantes passam anualmente pela cidade e esbarram numa gente que sabe mesmo como levar a vida. Basta olhar como, nos dias quentes do ano, eles invadem, cheios de alegria, o sem-fim de áreas verdes, como o Englischer Garten (veja o box ao fim do texto), as 900 cervejarias e os 80 biergartens (jardins da cerveja, espaços, normalmente ao ar livre, dedicados à bebida).
Biergarten durante o verão - Jardins da Cerveja 
      Para se juntar a eles e começar a trocar uma ideia, é simples. Basta aprender duas palavrinhas mágicas na língua de Goethe: bier (cerveja) e kneipe (bar que se pronuncia knaipe). Como você é turista, essa dupla de vocábulos o levará a endereços como a cervejarias Augustiner e Hofbräuhaus. Esta última surgiu, há 400 anos, como um bar para atender a realeza e, hoje, está entre as mais conhecidas, e procuradas, cervejarias do planeta. Tanto é que, nos dias de pico, são vendidas pelo menos dez mil Maß, aquele canecaço que comporta a “módica” quantidade de um litro de cerveja.
Mariensäule ou Coluna da Maria, Munique 
       Outro ícone é a praça central (Marienplatz), onde se impõem o chamativo prédio neogótico da prefeitura, as duas torres da igreja das mulheres (Frauenkirche) e uma coluna (Mariensäule) com a padroeira da Baviera abençoando o vaivém lá embaixo. Mas é ao meio dia, em ponto — lembre-se de que você está na Alemanha—, que a praça lota de vez, quando uma legião de turistas se aglutina para ver o “show” que rola na torre do relógio da prefeitura. Por oito minutos 43 sinos entoam quatro melodias, enquanto bonecos de madeira se movimentam.
Vitrine da Karstadt
        Ainda por ali, grandes galerias de compras, como a Kaufhof e Karstadt, fisgam os shopaholics — e sempre há quem ignore o bom senso e adquira as roupas tradicionais da região, que mesmo os nativos só usam em eventos como a Oktoberfest. As compras literalmente mais gostosas, porém, são garantidas pelo mercado Viktualienmarkt, onde 140 lojas e barracas comercializam frutas, iguarias internacionais e produtos típicos, a exemplo dos famosos embutidos.
Uma Maß de cerveja — a caneca alemã de um litro
            Para continuar exercitando o estilo de vida local, a boa é prosseguir a bateção de perna no Parque Olímpico. Ele abrigou os jogos de 1972 e, mesmo para os padrões de hoje, é um colosso, composto por ginásios, alojamentos, um estádio e um lago —outrora usado nas provas aquáticas da olimpíada, a garotada hoje ali se diverte dentro de grandes bolas de plástico, enquanto os pais saboreiam uma cerveja no biergarten vizinho. 
Parque Olímpico - Munique 
     A área é vislumbrada por completo quando se sobe até o mirante panorâmico da Torre Olympiaturm, de 291 metros, que conta com um restaurante giratório e também faz parte do Parque Olímpico, assim como o complexo da monstruosa BMW. Num moderníssimo prédio, que emula um motor de quatro cilindros da marca, a fabricante de carros mantém a linha de montagem, um museu e um showroom, onde os visitantes podem entrar nos veículos, tirar fotos e pilotar um cobiçado “possante” — isso num simulador, que fique claro.
Showromm da BMW, Munique
          À parte os carrões da BMW (e a cerveja, claro), os moradores têm mais um grande orgulho: a equipe de futebol do Bayern, que, como o outro time local, o TSV 1860, joga na Allianz Arena. Ostentando um projeto arrojado, o estádio, que pode ser visitado fora dos dias em que ocorrem partidas, muda de cor conforme quem entra em campo. Se você o vir iluminado de vermelho, o time que comandará o espetáculo é o milionário Bayern, de estrelas como o atacante alemão Thomas Müller e o meia holandês Robben. Já a iluminação azul indica a presença do TSV 1860 em campo.
Estádio do Poderoso Bayern de Munique 
       Agora, para começar a entrar no clima de contos de fadas que permeará a próxima etapa da viagem, na Rota Romântica, visite os castelos da região. Em Munique, há dois. Um é o Residenz, maior palácio urbano da Alemanha e encantador por dentro — com sua câmara de tesouros, a sala e concertos que segue recebendo apresentações e o Teatro Cuviliés — e por fora: a vontade é ficar horas relaxando no jardim outrora usado pela corte. Já no Nymphenburg, que funcionava como residência de verão da realeza, nasceu o rei mais amado e controverso da Baviera, Ludwig II.
Jardins do Palácio Residenz de Munique
       Ainda no clima de esquenta aposte numa excursão à ilha de Herren, no Lago Chiemsee, adquirida pelo monarca em 1873. De Munique, gasta-se cerca de uma hora de trem até a cidadezinha de Prien am Chiemsse, onde se pega um barco ou ônibus para chegar a ilhota que guarda o castelo Herrenchiemsse, mais um impressionante exemplo da megalomania de Ludwig II. A construção, que custou ainda mais do que Neuschwanstein, é a prova máxima do fascínio do rei pela cultura francesa: a Sala dos Espelhos é praticamente uma réplica do salão homônimo que existe em Versalhes, e abrigava os rega-bofes da corte. Candelabros, lustres de vidro e sete mil velas iluminam o delírio da majestade, que morreu em 1886, antes de o projeto ficar pronto, em circunstâncias que até hoje não foram totalmente esclarecidas.

Dias 4 e 5. Würzburg — a joia barroca que marca o começo da Rota Romântica

Palácio Barroco (Residenz) em Würzburg
      Viajar pela Rota Romântica, recheada de cidadezinhas fofas e que parecem aprisionar o passado medieval nas ruas de pedra e nas construções típicas ultraconservadas, é como chegar a um universo paralelo, que parece estar a anos-luz da realidade moderna. Como ninguém quer despertar abruptamente desse sonho bom ou deixar que o conto de fadas termine antes da meia-noite, o ideal é passar de um a dois dias em cada local, dependendo da quantidade de atrações que cada vila tem a revelar.
       Os mais apressados podem ver bastante coisa em poucas horas, principalmente a bordo do ônibus da Europabus, empresa que oferece um roteiro que pinga de cidade em cidade do trajeto. Mas, para curtir a vizinhança como ela merece, num ritmo mais slow motion, nada como flanar lentamente pelo labirinto de ruelas e sentir a magia de cada lugar. Mesmo os amantes da velocidade, que pretendem abusar das autobahns vão entender que a boa é desacelerar assim que se alcança Würzburg, a 276 Km de Munique e onde o tour oficialmente começa.
Rio Main clicado da Marienbrücke (Ponte da Maria)
      Por conta de sua beleza — Würzburg se esparrama entre morros repletos de parreiras, à beira do Rio Main —, o escritor alemão Hermann Hesse (1877-1962) disse que, se pudesse escolher seu local de nascimento, optaria pela cidade. Não é difícil entender por quê. A começar pelo Palácio Residenz (a urbe, como Munique, tem uma construção real chamada Residenz), uma das estruturas barrocas mais exuberantes do país, tombada pela Unesco e que já dá uma senhora mostra do poder de sedução da cidade.
Jardins do Palácio Residenz, em Würzburg 
        O complexo, envolto por um enorme e vistoso jardim, serviu de residência aos bispos-príncipes a partir de 1720, que não pouparam no quesito ostentação ao ornamentar o palácio, tal como fizeram na monumental escadaria arqueada que recepciona os visitantes no interior da construção. Eles trouxeram ainda um artista de Veneza, Giovanni Tiepolo, para decorar o teto acima dos degraus, criando o maior afresco do mundo, uma representação dos quatro continentes. Outros símbolos de opulência são o gabinete dos Espelhos, onde tudo que reluz é ouro, e a igreja outrora usada pela corte (Hofkirche). Anexa ao complexo, saltam aos olhos suas colunas de mármore e a faustosa decoração dourada, num total contraponto com os singelos anjinhos que seguram uma coroa no topo do altar. O Residenz é tão grande que, à parte esses cômodos que podem ser visitados, o palácio abriga ainda museus, faculdades e até órgãos governamentais.
Ponte Marienbrücke, em Würzburg 
       Para celebrar essa ode ao bom gosto que pontua os monumentos locais, vá até a Ponte Alte Marienbrücke, que descortina um baita visual do Rio Main e da fortificação Marienberg. Uma vez ali, peça uma taça de vinho riesling ou müller-thürgau produzido pelas vinícolas da região, à venda nos quiosques que alguns restaurantes mantêm junto à ponte. E, por falar na bebida de Baco, o panorama fica ainda melhor morro acima, ao se tomar o rumo da cidadela, quando se vê Würzburg mergulhada entre colinas e plantações de uvas. É um deslumbre só.

Dias 6 e 7. Rothenburg ob der Tauber — a grande estrela medieval

A medieval Rothenburg ob der Tauber - a estrela da Rota Romântica
      O esperado mergulho num cenário tal qual aquele que aparece nas histórias infantis e que efetivamente dá o tom da Rota Romântica ocorre 64km adiante de Würzburg, em Rothenburg ob der Tauber, que tem os “pés” graciosamente fincados na arquitetura tradicional da Idade Média. Um dos municípios medievais mais bem preservados da Europa, o que não é pouca coisa diante do “acervo” europeu nesse quesito, Rothenburg exibe uma profusão de coloridas casinhas típicas, as Fachwerkhäuser, caracterizadas pelas estacas de madeira que sustentam a estrutura e pelo telhado de tijolos vermelhos, num estilo que, no Brasil, é chamado de enxaimel. O que já é fofo de tudo fica ainda mais lindo nos dias de verão, quando floreiras com rosas vermelhas dominam as janelas, e no auge do inverno, época em que os telhados cobertos de neve contrastam ainda mais com o tom vibrante das fachadas.
Fachwerkhäuser em Rothenburg ob der Tauber — típicas casinhas da Rota Romântica
        O formoso centro histórico é envolvido por uma fortificação circular de 2,5 Km, ao longo da qual se sucedem 42 torres de vigilância. Passear sobre a muralha é indispensável, e dá uma boa dimensão do charme da vila. Para um cenário ainda mais fascinante, encare os 20 degraus da torre da prefeitura, na praça do mercado, que revela o panorama cortado pelo rio Tauber e a vastidão de telhados bordôs das construções. Além das barracas de comidas típicas, a praça guarda a antiga adega do conselho, prédio de 1446 onde hoje funciona o posto de informações turísticas. Nele está o famoso relógio do Meistertrunk (gole de mestre), que homenageia o burgomestre (cargo equivalente a prefeito na Idade Média) Georg Nusch, salvador e herói da cidade.
Muralhas de proteção em Rothenburg ob der Tauber, Rota Romântica
          O tal prefeito é o personagem principal de uma das lendas mais festejadas no vilarejo. Conta-se que o general católico Tilly e 60 mil comandados tomaram a protestante Rothenburg durante a Guerra dos Trinta Anos, em 1631, prendendo e sentenciando à morte Nusch e diversos companheiros. Para tentar apaziguar os invasores, a cidade teria oferecido a Tilly certa quantidade de vinho. Embriagado depois de tomar umas, o general lançou um desafio: se alguém da comunidade virasse uma botelha com três litros e um quarto da bebida, ele pouparia a cidade. Foi então que o prefeito Nusch entrou em cena, cumpriu a façanha, salvou Rothenburg e segue sendo lembrado até hoje, seja numa encenação apresentada durante o Pentecostes ou diariamente, das 10h às 22h, pelos personagens que “saem" do relógio do Meistertrunk.
Schneballen empilhados em Rothenburg ob der Tauber
           Outra tradição no entorno da praça é degustar os doces Scheneeballlen (bola de neve), tiras de massa entrelaçadas, fritas e passadas em açúcar, canela, chocolate ou outros confeitos, muitas vezes encontrados literalmente empilhados no balcão das docerias. E é mesmo uma delicia entrar nessas confeitarias e lojas do centrinho, cujas prateleiras também levam os adultos à loucura com ursinhos de pelúcia caríssimos costurados à mão, as bonecas de porcelana em trajes típicos e os relógios-cuco de madeira.
Kriminalmusem e os castigos da era medieval 
      Nos arredores da praça também está o celebre Kriminalmuseum, um dos museus de jurisprudência mais significativos da Alemanha. A descrição parece chata, mas a mostra é bem legal, reunindo instrumentos de tortura e imagens dos peculiares castigos aplicados na Idade Média. Por exemplo, a mulher que descia a lenha no marido tinha como pena andar publicamente montada num burro, só que sentada ao contrário. Já um padeiro que tentasse vender o pão menor ou mais leve aos clientes era trancado numa gaiola e despejado na água inúmeras vezes, enquanto um vassalo que quebrasse a confiança de seu soberano era obrigado a carregar sempre um cachorro, símbolo de lealdade, nas costas.
A lojinha natalina Käthe Wohlfaht Weinachtsdorf
      Agora tortura mesmo é escapar de comprar umas coisinhas na loja Käthe Wohlfahrt Weinachtsdorf. Tomada por luzes e enfeites para lá de fofos, ali é como se fosse Natal o ano inteiro. Além de uma boa oferta gigantesca de presépios, bolas de vidro pintadas à mão e calendários do Advento (que, a partir do domingo do Advento faz uma graciosa contagem regressiva para o Natal), a loja abriga um museu que mostra a evolução dos enfeites natalinos ao longo dos séculos — e ninguém sai do clima porque, qualquer que seja a época do ano, sempre está tocando Jingle Bells.

Dias 8 a 10. Dinkelsbühl e Augsburg. O lado menos conhecido, e igualmente encantador, do roteiro

Muralhas de Dinkelsbühl na Rota Romântica
        Os castelos, o casario que mais parece uma sequência de casas de boneca, as robustas muralhas fortificadas e as pontes de pedra que cortam rios bucólicos estão no imaginário dos turistas em relação à Rota Romântica, mas, até mesmo por conta dos nomes complicados das cidades, boa parte das pessoas nem imagina em que lugarejos esses adoráveis tesouros estão “escondidos”. Por isso, Viaje Mais dá mais esta ajuda: guarde o nome, e visite, Dinkelsbühl, a 40km de Rothenburg.
         Fundada no século 8 por reis carolíngios que ali ergueram uma residência real, Dinkelsbühl tem como trunfo ter saído imaculadamente preservada de todas as guerras que assolaram suas vizinhas. Por isso ostenta um astral superautêntico, sentido ao zanzar pela muralha medieval, que conta com 18 torres e quatro portões e propicia uma bonita vista da cidade. Saçaricar do lado de fora da fortificação também rende altos visuais: as águas correm por baixo de minipontes, que ligam a cidade menos antiga, digamos assim, às muralhas que protegem o coração do centro histórico. Para desfrutar, sem pressa, dessa atmosfera, sente-se no Café Am Münster, colado à principal igreja, a gótica Münster St. Georg.
Café am Muster, em Dinkelsbühl, Rota Romântica
         A história por trás do fato de Dinkelsbühl ter sido poupada de tantos conflitos ganha vida na Haus der Geschichte (casa da história), antigo prédio da prefeitura que hoje oferece uma exposição mostrando a trajetória local de contendas e dos tempos de paz, com uma seção dedicada somente à  Guerra dos Trinta Anos e à arte produzida na região. Uma novidade é a parte que trata da caça às bruxas no período medieval. Além dos instrumentos para torturar as “feiticeiras”, o espaço mostra os processos de condenação que atingiram pelo menos nove milhões de pessoas entre 1430 e 1700. Fazendo jus aos assunto, a Weib´s Bauhaus é uma cervejaria em que a bebida é feita só por mestres cervejeiras mulheres e onde os copos trazem bruxas estampadas.
        Para dar uma agitada no passeio, o próximo pit stop é a maior cidade da região: Augsburg, a qual, com cerca de 170 mil habitantes, também é uma das mais antigas da Alemanha, fundada há dois mil anos pelo imperador romano Augusto.
           Na praça principal, que desde tempos remotos marca o coração da urbe, fica o cartão-postal local, a prefeitura de estilo renascentista, marcada por duas cúpulas esverdeadas e a águia alemã entre elas. No interior, aberto à visitação, a sala de banquetes salta aos olhos pelos detalhes de ouro, ainda mais reluzentes com os raios de luz que entram pelos janelões de vidro. Na praça também se impõe a Torre Perlachturm, que garante um visual daqueles a 70 metros de altura. 
           Na toada de ostentar superlativos, Augsburg ainda é dona do conjunto habitacional mais antigo do mundo, Fuggerei, uma doação de Jakob Fugger, conhecido como “o Rico”, para a Igreja católica, no século 16. Atualmente, 200 pessoas vivem ali, em 67 charmosas edificações coloridas que abrigam 140 apartamentos, além de fontes e ruelas de pedras. Num dos apês funciona o Fuggereimuseum, que traz uma exibição mostrando o dia a dia dos moradores nos difíceis tempos sem água encanada e aquecimento.
            Com uma doação do naipe do conjunto Fuggerei, não é de assustar que “seu” Fugger descanse num belo mausoléu na Igreja de Santa Ana, de 1321, que abriga pinturas e obras valiosíssimas em pontos como a Capela dos Ouvires, decorada também de modo para lá de ostensivo.

Dias 11 e 12. Landsberg am Lech e Füssen. Despedida da Rota Romântica em altíssimo estilo.

         Tudo que foi vislumbrado até então na Rota Romântica é de um primor inquestionável, mas não há como negar: quando o assunto é magnificência, nenhum outro lugar ganha de Füssen, na fronteira com a região austríaca do Tirol e indissociável de uma das atrações mais geniais e emblemáticas do rei Ludwig II, o Castelo de Neuschwanstein, fruto da mania de grandiosidade de opulência do monarca.
Castelo Hohenschwangau, onde Ludwig — o maluco — passou a infância
           Antes, porém, de dedicar todo o tempo e todos os ângulos possíveis para admirar o suprassumo dos castelos da Rota Romântica, vale visitar um vilarejo esquecido, Landsberg am Lech. Não fosse pelo fato de Hitler ali ter escrito o livro "Minha Luta" enquanto esteve numa prisão no município, Landsberg seria ainda menos mencionada. Mas, exatamente por passar batido entre os viajantes, o local é um refúgio encantador, bem menos comercial. A muralha — sim, mais uma — às margens do Rio Lech exibe torres belíssimas, como a Bayertor, de estilo gótico tardio. A praça do mercado, com a Fonte Marienbrunnen e as casinhas típicas, também emana uma calmaria nem sempre desfrutada em outras partes do caminho.
         Não que Füssen não tenha uma vibe de cidade pequena e pacata. Mas, ali, dividi-se o vilarejo sempre com muita gente que, não raro, nem percorre a Rota Romântica e segue direto para lá só para ficar tête-à-tête com o símbolo máximo da vizinhança. Seja como for, tanta vontade de conhecer a construção monumental, e, de quebra, um pouco mais sobre a vida do controverso Ludwig II, se justifica. E Muito.
Estradinha de Füssen no inverno - Rota Romântica
        Com apenas 23 anos, em 1863, Ludwig assumiu o trono da Baviera e a partir daí começou a erguer seus castelos (no plural mesmo). Seus dias como governante seguiram até 1871, quando Otto von Bismarck criou o Reich (império) alemão e os tempos da Baviera como estado independente chegaram ao fim, de modo que o rei virou um mero fantoche. Cada vez mais isolado, ele se entregou à bebida. Esses fatores, aliados às tendências megalomaníacas e à fixação pela cultura francesa, talvez fundamentem os gastos mirabolantes em seus castelos fabulosos, entre os quais Neuschwanstein é a obra-prima de seu reinado ilusório — e que viria a inspirar o criador-mor de um reino da fantasia, Walt Disney, a conceber o ícone máximo de seus parques, o Castelo da Cinderela, em Orlando.
          Pairando imponente e vaidoso sobre as montanhas de Algäu, Neuschwanstein tem como maior e mais luxuoso cômodo o Salão dos Cantores. O recinto, que retrata cenas medievais com afrescos que remetem à ópera Tannhäuser, de Wagner, foi usado para festas e eventos musicais e, fazendo jus ao passado glorioso, todos os anos, em setembro, recebe concertos disputadíssimos. Dá para passar ainda pelo quarto de Ludwig, tematizado de acordo com a ópera Tristão e Isolda, também de Wagner, que foi amigo próximo do rei, e pela Sala do Trono, cujo piso de mosaico junta dois milhões de pedrinhas e, curiosamente, não tem um trono.
       Não contente em fascinar os viajantes com um cartão-postal dessa relevância, Füssen esbanja outro castelo. É o Hohenschwangau, onde Ludwig passou os primeiros anos de vida e cujo interior, que preserva o mobiliário original, pode ser visitado. Foi aí que o soberano se encontrou pela primeira vez com o compositor e ídolo Richard Wagner, que tinha a tarefa de o entreter ao piano. Quando não estava imerso nesse mundo conduzido pelas artes, o rei, com uma luneta, vigiava a construção de Neuschwanstein.
     Para suspirar com uma vista espetacular dos dois gigantes ao mesmo tempo, já que o Neuschwanstein e Hohenschwangau ficam em pontos diferentes das montanhas, caminhe 30 minutos pelo Monte dos Calvários (Kalvarienberg). Se bem que ainda mais fabulosa é a vista da obra-prima de Ludwig, de Füssen, vislumbrada da Marienbrücke (Ponte da Maria). Caso essa imagem, ou qualquer outra descortinada ao longo do roteiro, vier à mente na volta ao Brasil, é certo que um sorriso há de brotar. E aí você terá certeza de que, ao viajar pela Rota Romântica, passou por um lugar onde o sonho e a fantasia ainda bem, permanecem vivos.

Uma viagem para o Verão. E o Inverno também. 

Surf de Rio, no parque Englischer Garten, Munique 
     Com atrações para todas as estações, não há tempo ruim para explorar Munique e a Rota Romântica. Quem chega à região no calor pode se divertir no Englischer Garten, em Munique. O parque à beira do Rio Isar é uma delícia, e a galera se esbalda na água. Nessa época faz sucesso o surf de rio, onde os praticantes aproveitam as ondas naturais formadas pela força das águas quebrando contra as pedras.
Verão no Rio Isar, Munique 
       Como os alpes cortam a Baviera, quem estiver por lá no inverno encontrará um belo abrigo em cidades como Garmisch-Partenkirchen, a 1h20 de Munique, terra de pousadas charmosas e base para você explorar de esqui a vizinhança, localizadas na Montanha Zugspitze, a mais alta da Alemanha, a 2.962 metros. Teleféricos levam os visitantes ao alto da formação, onde, além de pistas de todos os níveis, há diversos bares e restaurantes.

Cidadezinha de Garmisch-Partenkirchen aos pés dos alpes da Baviera
      Outro passeio bacana em Garmisch, em qualquer estação, é o Castelo Linderdof. Mais uma extravagância de Ludwig II, a construção é uma tentativa de copiar Versalhes. No palácio, um dos destaques é um espaço dedicado à música, a Gruta de Vênus, um oásis com lago e cascatas artificiais que reproduz o cenário do primeiro ato da ópera Trannhäuser, de Wagner, compositor que acabou se tornando próximo do monarca.

Placa do Biergarten mais alto da Alemanha, no Zugspitze

Informações Gerais 

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Alemanha de Norte a Sul: um roteiro completo pelo país passando por Berlim, Potsdam, Frankfurt, Dresden, cidades da Rota Romântica, Colônia e Munique

Alemanha: Um país show de bola

(Texto originalmente publicado na revista Viaje Mais! Ago.2014). 

       Atmosfera moderninha e apego ao passado em Berlim. Arquitetura grandiosa em Potsdam e Dresden. Arte e festança em Colônia e Munique. Cidadezinhas encantadoras na Rota Romântica. Com este roteiro de 15 dias, prepare-se para se apaixonar pelo país



A Alemanha é a terra das boas cervejas, das salsichas e da velocidade – empresas que produzem carros dos sonhos, como Audi, BMW e Mercedes, são germânicas. Mas o país é, sobretudo, um estupendo destino para as suas férias. A começar por Berlim, uma capital repleta de arrojo e história, como a construção e a queda do infame muro que dividia a cidade, a qual completa 25 anos em 2014. Há também muitas metrópoles empolgantes, tais quais a incrível Munique, e um cênico interior, que se descortina, por exemplo, ao longo da Rota Romântica. Tudo temperado pela organização e cordialidade tão associadas ao país. Para ajudá-lo a descobrir tantos encantos, Viaje Mais sugere este roteiro de 15 dias, que pode ser feito num carro alugado ou em trens pontualíssimos, que, no caso do ICE, têm o plus de serem bem velozes: podem alcançar 300 km/h. Mas, com tantas maravilhas pelo caminho, melhor ir devagar. E parando em cada cidade que convidamos você a conhecer.

Dia 1 a 4. BERLIM: a capital que segue reescrevendo sua história

Para curtir todas as facetas da capital, percorrer uma porção de marcos históricos, passear pelos bairros da moda e ainda ter forças para se jogar na balada, que por lá não é brincadeira, recomenda-se passar pelo menos quatro dias em Berlim. Afinal, em que outra metrópole do mundo tantas peculiaridades se reúnem no mesmo lugar? Lá, cidadãos e turistas andam e observam, de dentro da modernosa cúpula de vidro do Reichstag, prédio que abriga o Parlamento alemão, os políticos decidirem os rumos da nação. Há ainda uma das cenas mais agitadas da música eletrônica mundial, que têm como palco casas disputadíssimas, como a Berghain e a Watergate. No Mauerpark, artistas de rua brotam como as flores na primavera. Já os adeptos do FKK, sigla em alemão para cultura do corpo livre, passeiam peladões pelo Tiergarten, o maior parque da cidade. E, na Arena Badeschiff, no descolado bairro de Kreuzberg, há uma piscina dentro do Rio Spree. A atmosfera libertária, vibrante e cosmopolita faz com que Berlim abrace vanguardas artísticas, musicais e do universo da moda e do design, criando uma vibe irreverente e moderninha por toda parte. De regiões como o sempre animado Hackescher Markt, com seus bares, teatros e feirinhas de artesanato, a bairros descolados como Kreuzberg, Friedrichshain e Prenzlauerberg.

CONHECENDO OS CARTÕES POSTAIS
São muitos os bairros fervilhantes e os marcos turísticos para conhecer, os quais se esparramam por diversos pontos da capital. No entanto, em Berlim, qualquer lugar à primeira vista longínquo pode ser rapidamente alcançado pelos trilhos, já que seu território é completamente coberto por 15 linhas de trens e dez de metrô, que alcançam qualquer região. Essas estações, por sua vez, são interligadas com os ônibus, que param exatamente em frente a elas. E é a bordo de um deles, o ônibus 100 – cujo ponto inicial é na estação Zoologischer Garten –, que se pode começar a explorar a cidade: a linha é famosa entre os visitantes por passar por várias atrações emblemáticas. 
Tente pegar o primeiro banco do segundo andar e prepare-se para contemplar Berlim de camarote. E, claro, para desembarcar e visitar cartões-postais como a Igreja Gedächtniskirche, que junta o templo original, dos anos de 1890 e célebre por manter uma torre semi destruída durante a Segunda Guerra, a uma igreja de 1963, cujas marcas são os vitrais azulados e a acústica impecável. Desse pedaço, o ônibus segue pela rua de com pras Kudamm, passa pela Coluna da Vitória (Siegessäule, em alemão), junto ao Tiergarten – área verde que recobre boa parte do centro de Berlim e abriga o famoso zoo local –, e termina na Torre de TV, na Alexanderplatz, que espeta o céu com seus 368 metros de altura. 
Ao chegar lá, por que não fazer uma refeição no restaurante giratório, a 203 metros do chão? Quem tiver reserva não pega fila para visitar a torre, um ponto bacana para vislumbrar o skyline berlinense. Contudo, se a ideia for só fazer um lanche, a parada deve ser num imbiss (quiosque de rua), para provar a típica curry wurst: salsicha cortada e que recebe um molho feito com tomate, curry, pimentão, pimenta, sal e açúcar. 
A Alexanderplatz fica no antigo lado oriental, que existia quando Berlim era cortada pelo “muro da vergonha”. De 1961 a 1989, uma reforçada estrutura de concreto, cercada por um ferrenho aparato de segurança, tinha a missão de demarcar a área que apoiava a União Soviética (o leste, comunista) e a que respondia aos Estados Unidos (o oeste, democrático), como parte da Guerra Fria que opunha os dois países. Restos do gigante de concreto, que, pelas mãos dos berlinenses dos dois lados, começou a vir a baixo em 9 de novembro de 1989 – ou seja, em 2014 completam-se 25 anos da queda, que está merecendo uma programação especial por lá –, podem ser vistos em diversos pontos. 
Um dos mais bacanas é o East Side Gallery, entre os badalados bairros de Kreuzberg e Friedrichshain. Em 1990, depois da reunificação e da abertura política, 118 artistas de 21 países foram chamados para pintar 1,2 km do outrora muro cinzento, e o painel mais famoso mostra um beijo na boca entre Erich Honecker e Leonid Brejenev, que lideraram, respectivamente, a Alemanha Oriental e a União Soviética. Nessa toada, outro lugar interessante é o Checkpoint Charlie, que recria um posto de controle exatamente num dos locais mais usados pelos moradores para passar de um lado ao outro da cidade, tal qual na época em que existia o muro. Atualmente, é algo bem cenográfico: ali, há a réplica da guarita e de placas usadas nos tempos da infame muralha, além de um oficial, de mentirinha, sempre a postos para participar das fotos dos turistas.
LUGAR DE FESTA
Quem tiver disposição pode ir andando do Checkpoint Charlie ao grande cartão-postal berlinense, o Portão de Brandemburgo, separados por pouco mais de 1 km. Desde que serviu como palco para os festejos pela queda do muro, o imponente pórtico é o cenário para todo protesto e comemoração, mas, mesmo sem festa, o burburinho ali é constante. Afora os turistas, compõem o cenário charretes e “tricicletas”, que levam os visitantes para uma volta pela vizinhança, que guarda o impactante Memorial do Holocausto. Na Eberstrasse, uma das principais avenidas de Berlim, um quarteirão é tomado por 2.712 blocos retangulares de concreto, que lembram os judeus mortos na Segunda Guerra. Quem caminha entre as estruturas encontra a porta que leva ao museu dedicado ao assunto e descobre, logo à frente, uma vista prazerosa: o parque Tiergarten.
A vocação para abraçar o novo, sem esquecer o passado, também se revela em locais como a Potsdamer Platz, praça a quatro quadras do memorial e que havia ficado esquecida nos tempos do muro. Depois da reunificação, porém, a Potsdamer ganhou prédios comerciais, museus e construções modernérrimas. É o caso do Sony Center, que abriga a sede europeia da Sony e uma porção de restaurantes, cinemas, o Film Haus (Museu de Filmes) e o Legoland Discovery Centre, que, da fachada às atrações, é dominado pelas coloridas peças de montar. 
Outro símbolo do renascimento do país é o Reichstag. Datado de 1884, o Parlamento sempre esteve no centro da história alemã: foi atacado na Segunda Guerra, abandonado quando o país se dividiu e voltou aos holofotes quando sediou a primeira sessão parlamentar da Alemanha reunificada, em 1990. Para celebrar esse retorno ao centro da política nacional, o prédio de linhas clássicas foi restaurado e ganhou uma arrojada cúpula de vidro assinada pelo arquiteto Norman Foster. Nascia um ícone da almejada transparência política e do novo momento que o país desejava viver, o qual pode ser explorado por dentro. A entrada é gratuita, mas deve se reservar com antecedência, pelo site www.bundestag.de, as andanças no domo espelhado, cujo terraço, onde fica um restaurante, descortina uma bela vista da capital.
INFINITA OFERTA CULTURAL
Já na hora de abastecer o lado cultural, é até difícil escolher o que fazer, já que a oferta da cidade é absurda. Só na Ilha dos Museus (Museumsinsel), área às margens do Rio Spree, há cinco museus que cobrem mais de cinco mil anos de história. O Pergamon recria a arquitetura de Roma, Egito e Babilônia e ainda apresenta obras islâmicas; o Altes detém a maior coleção artística do mundo dedicada a Grécia, Roma e Etrúria; o Neues conta com peças do Egito Antigo, incluindo o famoso busto da rainha egípcia Nefertiti; a Antiga Galeria Nacional dedica-se à arte europeia; e o Bode exibe um acervo no qual se destacam esculturas e a arte bizantina. Outro museu de primeira é o Hamburger Bahnhof, de arte contemporânea, que ocupa uma antiga estação de trem e tem sempre exposições interessantíssimas. E ainda há 400 galerias esperando os visitantes. 
Na cidade onde viveu o dramaturgo Bertolt Brecht (1898-1956), o teatro é destaque também. Vale conferir um concerto – já que entender uma peça, em alemão, é para poucos – ou só visitar o Theater am Schiffbauerdamm, sede da companhia do autor, a Berliner Ernsemble. A linda construção de estilo neobarroco foi inaugurada em 1892 e ostenta um interior decorado com lustres, veludos e espelhos. No encalço de Brecht, você ainda pode visitar a casa onde ele viveu, em Chausseestrasse, e comer no restaurante ao lado, com receitas austríacas que eram preparadas por sua mulher. Na realidade, não é preciso muito esforço para se deparar com arte e agitos. Basta flanar. No Mercado de pulgas que rola aos domingos no Mauerpark, nunca se sabe que maluquice vai ocorrer. Performances de artistas de rua, karaokê, teatro improvisado, abraços de graça, protestos? Isso é Berlim. E ela tem o dom de sempre surpreender você.

Aproveite o pit stop em Frankfurt

        A chegada à Alemanha em voos diretos do Brasil pode ser em Munique (cidade incluída neste roteiro) ou Frankfurt, o que é bem mais provável, já que a metrópole é um dos grandes hubs da Europa e destino da maioria das rotas saídas de São Paulo (SP). Portanto, já que você estará lá, aproveite para conhecê-la também.
Com arranha-céus envidraçados e arquitetura moderna, ela é bem diferente das vizinhas e até por isso costuma ser renegada pelos turistas. Mas Frankfurt não tem apenas esse lado urbano e arrojado: ela guarda um dos mais belos centros históricos do país. É o Römerberg, uma praça rodeada de casinhas típucas para lá de charmosas. Erguidas originalmente nos séculos 14 e 15, essas construções foram arrasadas na Segunda Guerra, mas refeitas exatamente como eram no período medieval. Também estão por ali a Fonte da Justiça, de 1543, a Igreja Alte Nikolaikirche e a linda Catedral de São Bartolomeu, cuja torre do relógio é avistada de vários pontos. Enfrente os 328 degraus que levam ao seu topo e você será recompensado com um senhor visual. 
Mais um panorama bacana se tem da Main Tower, um arranha-céu moderno com um restaurante panorâmico no 560 andar. Outra praça atraente é a An der Hauptwache, onde está o café Hauptwache, que ocupa uma fofa construção barroca de 1729. A casa, que serve especialidades da cidade e do país, fica em meio ao Zeil, calçadão repleto de lojas, e é uma bem-vinda parada depois das compras, oferecendo delícias como Frankfurter würstchen (salsicha de Frankfurt) e apfel strudel (torta de maçã). Se você tiver mais um dia, pode até dar uma esticada a Heidelberg, burgo medieval do século 12 e uma das cidades mais bonitas da Alemanha. Está a apenas 90 km de Frankfurt (40 minutos de trem) e rende um ótimo passeio bate e volta.

Dia. 5 POTSDAM.  Castelos e parques idílicos à beira do Rio Havel

             Antiga residência dos reis da Prússia (território que deu origem à Alemanha moderna) e, por isso mesmo, dona de um elegante panorama, no qual se sucedem um grande número de palácios e parques, a cidade de Potsdam, a 37 km de Berlim e considerada Patrimônio da Unesco, é o passeio preferido dos turistas nos arredores da capital. E é muito prático chegar lá: basta embarcar nos trens do sistema S-Bahn, que atende a região metropolitana de Berlim. São 46 minutos de viagem desde a estação Alexanderplatz, ou 40 minutos a partir da Berlin Hauptbahnhof. 
O cartão-postal de Potsdam é o Palácio Sanssouci, de estilo rococó e erguido no alto de uma colina, nos anos de 1740, para ser o refúgio de verão de Frederico, o Grande (1712-1786), monarca que, como nenhum outro, marcou a cidade: em seu reinado, floresceram os castelos e parques que tanto fazem a fama local. Tanto quanto visitar o requintado interior do Sanssouci, que conserva o mobiliário e muitas obras de arte da época do rei, o negócio é curtir o parque do palácio, cheio de árvores e plantas raras. Repare nas laterais da escadaria que conduzem à construção real, onde há grades verdes cercando mudas muito bem cuidadas. Se o sol apertar, os bancos protegidos por bucólicos arcos recobertos por folhagens convidam ao descanso. 
A cidade também oferece um centrinho charmoso, com destaque para o quarteirão holandês, área com 134 casas de tijolos vermelhos, datadas de 1734. Conhecida como “pequena Amsterdã”, o pedaço é uma pedida e tanto para um pitstop em seus inúmeros cafés, lojinhas e restaurantes. Para esticar o momento relax, outra delícia, muitas vezes ofuscada pelo brilho do Palácio Sanssouci, é o Parque Babelsberg. Quando o outono se aproxima (fim de setembro), a área verde vira um show de cores, com as folhas vermelhas e amarelas das árvores tingindo o ambiente. Também contribuem para a gostosa atmosfera os cafés e restaurantes que ocupam o antigo castelo e as diversas ruínas que existem no parque, alguns propiciando vista para o Rio Havel. 
Outro símbolo do bairro de Babelsberg é o estúdio de cinema homônimo, que é o mais antigo do mundo entre os complexos do gênero – está na ativa desde 1912. Sua era de ouro foi nos anos de 1920, quando recebeu as filmagens, por exemplo, do clássico Metropolis, dirigido pelo austríaco Fritz Lang. Nessa mesma época, a cidade atraiu outro ilustre morador, o genial físico Albert Einstein. De 1929 a 1933, antes de partir para os Estados Unidos, onde acabou fixando residência, Einstein morou na Vila de Caputh, em uma casinha de madeira vermelha que segue de pé até hoje e que pode ser vista por quem pega o ônibus 607.

Dia 6 e 7. Dresdem. A silhueta barroca do Elba

         Se em Potsdam o soberano mais lembrado é Frederico, o Grande, em Dresden, a 192 km de Berlim, o nome que você mais vai ouvir é o de Augusto, o Forte (1670-1733). O inovador, e mulherengo, rei foi o responsável pela criação das edificações mais monumentais da cidade, como a Igreja das Mulheres (Frauenkirche) e a construção barroca mais arrebatadora da Alemanha, o Palácio Zwinger. Com tamanha imponência e esplendor, não é à toa que Dresden já mereceu o título de “Florença do Norte”. 
Ao passear pelas margens do Elba, rio que corta essa metrópole de 530 mil habitantes, contemplando o visual dominado por deslumbrantes prédios barrocos, mal dá para imaginar que toda essa maravilha foi – e continua sendo  totalmente reconstruída, já que a cidade foi reduzida às cinzas poucos meses antes do fim da Segunda Guerra: em 13 de fevereiro de 1945, Dresden foi fortemente bombardeada pelos aliados. Contudo, com toda a objetividade e persistência tão peculiares aos alemães, a vizinhança reergueu-se. E hoje se exibe praticamente tal qual em seus momentos áureos. Assim, ao circular, por exemplo, pelo Palácio Zwinger, dá para se sentir nos tempos da corte de Augusto, o Forte.
O estupendo palácio foi criado para receber festas e propiciar o lazer da realeza. Jardins milimetricamente desenhados, inúmeras fontes e um “exército” de estátuas de anjinhos rechonchudos e gárgulas ornamentam os quatro cantos da construção, onde, atual mente, não é raro se deparar com apresentações de balé, música ou coral. E, entre os cliques aqui e um concerto acolá, as visitantes do sexo feminino, sobretudo, fazem travessuras, como deixar uma marca de batom no bumbum da escultura de um anjo parrudo, de certa forma remetendo às peripécias amorosas que constam da biografia do mulherengo rei Augusto, que, felizmente, também entrou para história por gostar das artes. 
Prova disso é que o palácio abriga seis museus, com destaque para a Galeria de Pintura dos Antigos Mestres (Gemäldegalerie Alte Meister), que guarda em seu acervo Madona, de Rafael, além de obras de Boticelli, Tintoretto e Rembrandt, compradas por Frederico Augusto II, filho de Augusto. 
O Zwinger, porém, está longe de ser a única construção suntuosa que emoldura o Elba. Como uma das margens do rio concentra o centro histórico, as andanças – ou pedaladas, já que há ciclofaixas ao longo do Elba, ou, ainda, tours de barco – revelam muitos outros prédios magníficos. Logo ao lado do palácio está a ópera de Dresden, onde já se apresentaram nomes imortais da música clássica alemã, como Wagner e Strauss. Também soberbo é o castelo (Residenzschloss) local. Antiga sede do governo da Saxônia (região onde está Dresden e que por muitos séculos foi um Estado independente), o complexo, que também foi a residência oficial da realeza do século 12 até 1918, merece ser visto por dentro, já que guarda tesouros como a pomposa coleção de cerâmicas e de joias.  
É tanto zelo com a estética que mesmo os muros do centro antigo ganham status de obra de arte. Perto da monumental igreja lutera - na Frauenkirche – que ruiu quase totalmente nos bombardeios de 1945 e em cujo subsolo foram mantidos esculturas, partes de paredes e outros objetos do templo que sobreviveram aos ataques –, exibe-se o maior mosaico de porcelana do mundo. Ele foi feito com 25 mil pastilhas e se estende por 102 metros, mostrando os 93 príncipes que mais se destacaram na história da Saxônia. Os icônicos Augusto, o Forte, e Frederico Augusto II, seu filho, estão bem no meio do painel. 

DO OUTRO LADO DO RIO
Um empolgante contraste com toda a opulência histórica de Dresden se dá na outra margem do Elba, na chamada Cidade Nova (Neu -stadt). Esse é um bairro alternativo e animado, cheio de bares, cafés, lojas de roupas e acessórios “diferentes” e galerias de arte que ocupam casas coloridas, acessadas por passagens insuspeitas que levam a pátios com instalações e esculturas, como funis gigantes. Enquanto o centro histórico se reergueu mantendo o pé no passado, é em Neutstadt que rolam os experimentalismos de artistas e estudantes.
E não foi só o gênio humano que talhou a silhueta exuberante do Elba. Enquanto Dresden nunca deixa de impressionar com a sucessão de monumentos e construções barrocas, a região de Sächsische Schweiz – a “Suíça da Saxônia”, alcançada com os trens do sistema S-Bahn – compete de igual para igual ao exibir desfiladeiros naturais com formatos esplêndidos. A região dominada por cadeias montanhosas se estende até a República Tcheca, mas é mesmo em solo alemão, nos arredores da vila de Rathen, que você vai se deparar com um dos panoramas mais bonitos: um labirinto suspenso entre os desfiladeiros e uma ponte com 305 metros de altura, que encantam os visitantes desde 1851, quando foi erguida. Outro ponto alto, literalmente, é a fortaleza no vilarejo de Königstein, que por 330 anos funcionou como prisão. Mais do que a exposição, o local vale pelo visual esplêndido, em que o Rio Elba recorta os penhascos e desfiladeiros. 

Dia 08 e 09. COLÔNIA. Da catedral ao carnaval e à água de colônia, uma cidade cheia de símbolos

          Em Colônia, na porção oeste do país, assim como se dá em Dresden (cidade da qual dista 574 km), é um rio, no caso o Reno, que marca o contorno do município. É ele que corre sob a Ponte Hohen zollern, dona de arcos de ferro em forma de semicírculo, conduzindo a visão até o ponto alto, literalmente, da paisagem: a magistral catedral gótica de Colônia. Essa linda imagem fica presa à memória, assim como a do sem-fim de cadeados trancados no gradil da ponte, que prometem não deixar o amor escapar. 
Tal panorama especialíssimo, porém, não é o único emblema da cidade. Vida noturna vibrante e compras sofisticadas, sem contar os vários ícones locais – como o carnaval, a cerveja kölsch e a perfumada água de colônia –, também são um convite a explorar a urbe, fundada pelos romanos em 38 a.C. Essa origem explica muitos aspectos da realidade local, como a predominância do catolicismo na região e das igrejas de estilo românico, a maioria construída entre 1150 e 1250 e espalhada pelo centro. Uma das mais bonitas é a dedicada a São Martim, no antigo mercado de peixes, que, toda sóbria, destoa das casinhas coloridas que enfeitam a beira do Reno.
Mas o coração espiritual e geográfico da cidade está mesmo na praça da Catedral de Colônia (Kölner Dom), uma das maiores de estilo gótico na Europa, erguida entre 1278 e 1880. Ali dentro, entre tantas maravilhas, destaca-se o santuário dos três reis magos, atrás do altar principal, onde fica a bela urna em que, acredita-se, estão guardados seus restos mortais. E basta andar alguns passos para dar de cara com um completo contra ponto a esse imponente e icônico marco arquitetônico. Na mesma praça, o Museu Ludwig é uma meca da arte pós-moderna. O acervo abriga trabalhos de pesos-pesados da pop art norte-america na, como Andy Warhol e Roy Fox Lichtenstein, entre outros artistas dos séculos 20 e 21. O clima moderninho e descolado – bares da moda, galerias, lojas alternativas e restaurantes badalados – também dá o tom no Bairro Belga (Belgisches Viertel): é como encontrar um pouco da atmosfera criativa e tresloucada de Berlim em plena Colônia.
CERVEJA E CARNAVAL
Para interagir com os moradores e mais uma vez confirmar que os alemães sabem ser informais e divertidos, a boa é fazer um pit stop, especialmente à noite, numa das cervejarias e provar a kölsch. Essa é a loira produzida unicamente na cidade (e também nome de uma marca local de cerveja), a qual é clara, de alta fermentação e com teor alcoólico mediano (4,8%), servida num copo de 200 mililitros que parece um tubo de ensaio. Garçons passam com bandejas com os copinhos encaixados em grades, como velas em um candelabro, sempre a postos para substituir seu copo vazio por um cheio. Quando não quiser mais beber, é só tampar a boca do copo. Com o passar das horas, os bebedores ficam, é óbvio, mais falantes e alegres, situação ainda mais evidente durante o famoso carnaval local. 
Ainda que os nativos não tenham aquela ginga, Colônia celebra um carnaval nos moldes do brasileiro, com desfiles, carros alegóricos, marchinhas e pessoas fantasiadas – e com roupas quentinhas, já que a folia começa no inverno, e com precisão germânica, em 11 de novembro (11/11), às 11h11. 
O diferencial fica por conta das apresentações teatrais de comédia e de um desfile que, à parte envolver dança e música, rende uma chuva de doces atirados carinhosamente na plateia. É um evento tão importante para quebrar o gelo do inverno que a temporada de festanças é chamada de a quinta estação do ano. Caso esteja lá nessa época, prepare-se para entornar muita Kölsch e soltar a frase Köln alaaf!, falada na hora de virar o caneco e que significa algo como mandar tudo para dentro. 
Mas, se você prefere um cheiro mais agradável do que o da cerveja, o lugar que não pode faltar entre seus passeios está na rua Clockengasse. Ali é vendida a água de colônia – um clássico local – da marca 4711, a mais famosa entre as produzidas na cidade, cujo nome remete ao número da casa onde o produto é fabricado desde os tempos em que Napoleão ocupou a cidade e organizou as ruas numerando as construções. A loja tem ainda um belo relógio que, de hora em hora, exibe soldadinhos em marcha.

DIAS 10 A 12. ROTA ROMÂNTICA: Viva um conto de fadas ao longo de 400 km

          O destino final deste roteiro é Munique, mas, em vez de partir direto para a capital da cerveja, a ideia é, de Colônia, se dirigir a Würzburg, a 300 km de distância e onde se inicia a encantadora Rota Romântica, de modo a descer aos poucos em direção ao sul do país. Seguindo essa tática, você terá um bônus e tanto: em meio à suspirante paisagem entrecortada por vales, rios e montanhas, surgem mágicas cidades e vilarejos, como a própria Würzburg, além de Füssen – casa do soberbo Castelo Neuschwanstein – e Rothenburg-ob-der-Tauber, graciosa e perfeitinha feito um presépio de Natal. 
Três dias são ideais para curtir, com certa calma, os principais destinos da rota, onde não faltam charmosas construções enxaimel, igrejas vistosas e castelos que parecem saídos de um conto de fadas. Há quem faça a viagem com os trens regionais. Outros alugam um carro. E até as bicicletas são cada vez mais usadas para chegar às lindas cidadezinhas, já que a vizinhança pode ser atravessada por uma ciclovia de 460 km totalmente demarcada para os que seguem na magrela. 
Seja qual for o meio de transporte escolhido, Würzburg é um adorável ponto para começar a descobrir os encantos da Rota Romântica. Conhecido pela produção de vinhos, o lugar enche os olhos dos visitantes com o Residenz, palácio barroco, de 1720, às margens do Rio Main e mais uma portentosa construção alemã tombada pela Unesco. A monumental escadaria arqueada conduz à suntuosa residência de 350 cômodos, que hoje abriga sobretudo órgãos do governo. A entrada só é permitida num tour organizado pelo complexo, que revela lindezas como o grande salão, a capela, objetos de ouro e tapeçarias. Na margem oposta do rio, concorre pela atenção a Fortaleza de Marienburg, que junta ainda um palácio e uma igreja que remonta ao ano 1.000.

A próxima parada é a cidade medieval tida como a mais preservada da Europa, o que não é pouca coisa em se tratando do Velho Continente: Rothenburg-ob-der-Tauber, que significa acima do Rio Tauber. Ali, passear pelas vielas de pedra, seja a pé ou em charretes enfeitadas, é como entrar num quadro antigo ou numa fábula infantil. E a comparação é totalmente cabível, já que as fofíssimas construções de Rothenburg inspiraram o cenário do filme Pinóquio, da Disney. E que gracinha é mesmo a arquitetura da cidade, com suas emblemáticas fachwerkhäuser, casinhas com detalhes de madeira e telhado de tijolos vermelhos, enfeitadas por floreiras repletas de rosas vermelhas e envoltas pela antiquíssima, e praticamente intacta, muralha. Com essa preciosa atmosfera medieval, os alemães dizem que, em Rothenburg, pode-se celebrar o Natal o ano todo. Aliás, os mercados natalinos, em dezembro, atraem uma legião de turistas. 
O que já estava sensacional fica definitivamente arrebatador em Füssen, o gran finale da Rota Romântica. A cidade é a casa do Castelo Neuschwanstein, o mais icônico e fotografado da vizinhança. A fabulosa obra foi planejada pelo rei Ludwig II (1845-1886), que ganhou a alcunha de “o maluco”, já que o que deveria ser uma grandiosa residência real, e só, transformou-se numa construção nababesca, um devaneio marcado pela mania de grandeza do monarca. Não à toa, o sonho mirabolante de Ludwig acabou parando no mundo da fantasia: o palácio inspirou Walt Disney a criar o Castelo da Cinderela na Disney de Orlando. 
Apesar dos delírios do soberano, e dos custos altíssimos das obras, é inegável a magnitude dessa ode à beleza e ao orgulho alemão, como comprova, entre tantos outros ambientes, a sala dos menestréis, arquitetada para alimentar a obsessão do rei pelos cavaleiros medievais e pelas óperas de Wagner. Mas foi tanto trabalho para tão pouco proveito por parte do rei... Ludwig II só ocupou a nova casa por 170 dias, pois morreu afogado no Lago Starnberg, sob circunstâncias suspeitas, em 13 de junho de 1886. 
Para conseguir os melhores cliques mostrando o castelo no topo da montanha, cercado de árvores, volte a Füssen, que fica na parte baixa do morro, e se posicione na Ponte Marienbrücke. O visual é deslumbrante, para dizer o mínimo. Depois, aposte numa vagarosa caminhada ao longo do Lago Alpensee, onde dá para fazer um passeio de pedalinho, que mais uma vez propicia uma vista impactante, em diferentes ângulos, das montanhas ao redor e dos castelos – sim, o centrinho de Füssen exibe outro castelo, o Hohenschwangau, de onde o rei louco acompanhava, com uma luneta, a construção de Neuschwanstein.

DIAS 13 A 15. MUNIQUE. Terra da cerveja, da BMW, do time do Bayern, da arte contemporânea...

        Para comemorar o sucesso da viagem, nada como fazer (mais) um brinde em Munique, a capital alemã da cerveja e onde termina este roteiro, com uma maß, aquela canecaça que recebe um litro da loira. Em nenhuma outra cidade do país tradição e novas tendências se misturam tanto. De um lado, os münchners (nativos de Munique) prezam pela cultura regional e passeiam pelos biergartens – pontos que vendem a bebida e oferecem bancos de madeira coletivos sob as árvores – vestidos a caráter, com camisa xadrez e a típica calça curta, além de chapéu pontudo verde e suspensório. Por outro lado, lá está tudo o que há de mais moderno em termos de moda, compras, gastronomia, arte e arquitetura, como comprova a arrojada Allianz Arena, estádio de futebol do poderoso Bayern (e também do TSV 1860, a outra equipe que joga pela cidade). 
Se não houver uma partida quando você estiver lá, dá para fazer um tour pelo campo e pelo museu do Bayern, que reúne fotos e itens que foram usados pelos craques do time. Também estão previstas andanças nos bastidores do estádio, como os vestiários – o destinado ao Bayern é decorado em vermelho, a cor do clube, e cada joga dor tem uma cabine que, em dia de jogo, recebe seus apetrechos e sua respectiva foto. 
A paixão da cidade pelos esportes, e pela velocidade, também é sentida no Parque Olímpico, erguido para os jogos de 1972. Além da estrutura criada para a competição e desfrutada pelos moradores – que podem rolar dentro de bolas de plástico no lago usado nas provas aquáticas ou subir ao topo da torre olímpica, a 182 metros de altura –, a área concentra o moderno complexo da BMW, cujo projeto remete ao motor de quatro cilindros da marca. 
Os veículos da montadora são produzidos nesses espaço, mas o que interessa aos aficionados por automóveis e velocidade são os ambientes e atrações que podem ser visitados: o museu que mostra a evolução dos carros ao longo dos séculos 20 e 21 e o showroomcom modelos que estão entre os mais desejados do planeta, onde os fãs podem entrar nos veículos e encarar corridas simuladas em vídeo games. 
A vibe moderninha se completa nas artes, seara que impressiona não só pela cena criativa que rola na cidade e pelos acervos ali expostos, mas pela própria arquitetura dos museus, como o Brandhorst, com peças dos séculos 20 e 21, e a Pinacoteca do Moderno, o maior museu de arte moderna da Alemanha.

CERVEJA E SALSICHAS