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quarta-feira, 3 de março de 2021

Fantasia e Realidade

Uma parte de mim gosta de envelhecer. Só uma parte mesmo. Acho uma tremenda besteira juvenil a maioria das coisas que escrevi anos atrás. Por isso estou aqui preocupada em divertir a Regina do futuro. A melhor parte desse blog é dar motivos pra rir deu mesma daqui alguns meses. Há oito anos (2014) comemorei meu aniversário no meu primeiro colóquio de doutorandos antes mesmo de receber o financiamento para pesquisa. Pisquei e acordei com quase quarenta anos! Quando desejo de volta aquela juventude, esqueço que teria de abrir mão de todo o caminho até aqui – livros, músicas, amigos, viagens, pesquisas, conferências, um milhão de crises existenciais, perdas, mudanças, dúvidas, conquistas. Seria mais jovem, mas bem menos completa e mais amedrontada. Pra apaziguar esse paradoxo o jeito é intensificar a vida antes de cair no divã aos quarenta. Viajar, fazer umas cagadas, mudar mais algumas vezes, cruzar a Transiberiana, fotografar, caminhar, ler mais uns livros, aprender italiano, escrever outras besteiras, virar mestre de yoga, meditação, sei lá. Quando e se o Covid deixar. 

sábado, 6 de junho de 2020

Estratégias de quarentena

Uma das minhas táticas de sobrevivência durante a quarentena foi me inscrever em um curso de crônicas (vai lá, foi bem legal). Mas, paradoxalmente, nunca escrevi tão pouco. Esse blog está menos movimentado que restaurante em tempos de pandemia. Até as moscas escafederam-se. Pode ser o excesso de trabalho? Talvez, mas já encarei fases mais tensas e isso nunca me aconteceu. Mesmo imersa em um mar revolto de artigos para ler e capítulos de tese para finalizar, encontrava uma prancha velha esgarçada para uma pausa. Um tempinho pra escrever despretensiosamente sobre o cotidiano e retomar o fôlego. O problema mesmo é meu superego.

quinta-feira, 14 de maio de 2020

Quarentena, privadas e excrementos

Quando o muro de Berlim despencou, eu não era uma criança de fraldas, mas ainda usava um penico. Não entendia muito de geopolítica e, aparentemente, nem de banheiro. Recordo nitidamente da musiquinha épica do plantão da TV Globo e da minha avó estatelada em frente à televisão. Enquanto a sopa de feijão fervia na cozinha, ela exclamava com seus cabelos esbranquiçados para o meu tio: “viu, o socialismo acabou”!

domingo, 12 de abril de 2020

Ressureição

Em um domingo de Páscoa, ela chegou a conclusão que Natal é superestimado. Nascimento de Jesus... grande merda. Qualquer um nasce, até Bolsonaros nascem. Foda mesmo é ressuscitar, essa ela queria ver (ou crer). Apesar de extremamente religiosa, dependendo do dia, resolveu, por assim dizer, ser uma católica devota e comemorar a Páscoa apesar das condições restritas impostas pelo corona vírus e a peste enviada por causa dessa geração Easy Jet. A culpa só poderia mesmo ser deles. Se criassem raízes em seus bairros, comprassem casa, cassassem, reproduzissem e morressem no seu vaso, não espalhariam essa bodega. Mas não era o momento de apontar os dedos. Ninguém “normal” pensou em culpar os libertinos pelo surto da Aids nos anos 80.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Flaneurs de Instagram: diário de quarentena

Quando saí da Alemanha há duas semanas, as ruelas da pequena Erfurt, capital do Estado da Turíngia, já estavam fantasmagóricas. O aeroporto de Nuremberg operava de modo improvisado, com parte da infraestrutura interditada. Ao chegar em Londres, encontrei algo excepcionalmente distante do cenário narrado em O Homem da Multidão. Allan Poe também deve estar lá com José Saramago no céu dos escritores, observando de camarote celestino essa mutação do espaço urbano moderno.

quinta-feira, 26 de março de 2020

Ressuscitem o Saramago!


Se existisse um céu de escritores, José Saramago estaria mesmo por lá, bem puto da vida aliás, pisoteando enraivecido uma harpa angelical e irritante. Provavelmente, baseado no Evangelho Segundo Jesus Cristo, chamaria Deus de uma grande ingrato, vingativo e lazarento. Aquela mente genial pensou numa situação hipotética em que todos ficavam cegos e nos deu o brilhante “Ensaio sobre a Cegueira”. Anos depois, em “Ensaio sobre a Lucidez”, mostrou o que ocorreria se uma população inteira votasse em branco. Se nós brasileiros lêssemos mais, resolveríamos a dicotomia do ódio ao PT ou o voto num acéfalo nazistinha desse modo. Mas sem política. De volta à literatura. Saramago ainda criou em “As Intermitências da Morte” uma narrativa em que ninguém mais morria, e se assim o quisesse seria necessário atravessar a fronteira do hipotético país. Tudo isso pra dizer que estou aqui na minha quarentena londrina, fazendo uma reivindicação com a cúpula espiritual para que ressuscistem o Saramago. Nem ele previu que um vírus batizado com nome de cerveja deixaria a população mundial (com algumas exceções, em casos de países com governantes menos pensantes que lombrigas parasitárias) trancafiada em suas casas.