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segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Turismo na Cisjordânia impulsiona economia e protege palestinos de abusos

O guia turístico Samer Kokaly fala sobre os benefícios da ida de visitantes aos territórios palestinos


                                             Regina Cazzamatta/Opera Mundi

Samer Kokaly é gerente de operações da ATG (Grupo de Turismo Alternativo, na tradução do inglês), uma agência de turismo palestina sem fins lucrativos, fundada em 1995 em Beit Sahour. Os tours são organizados em conjunto com a agência de Israel Green Olive (Azeitona Verde), coordenada por judeus pacifistas. Entre os principais objetivos da instituição estão o aumento da presença internacional na região, a diminuição dos estereótipos presentes no Ocidente em relação aos palestinos e o incentivo de visitas à Palestina como forma de dinamizar a economia local e fazer um contraponto ao turismo de massa em Israel.

Nascido na Palestina, Kokaly estudou turismo em Thessaloniki, na Grécia. Após retornar em 1992, começou a trabalhar em uma agência em Tulkarm, a cerca de 2,5 horas de Beit Sahour. Devido à distancia e aos inúmeros pontos de controle, os famosos check points, que tinha de enfrentar para chegar ao trabalho, acabou se demitindo. Em entrevista a Opera Mundi, Kokaly conta como é o dia a dia dele e das pessoas afetadas pelo conflito, e explica porque o turismo serve como proteção para milhares de palestinos afetados pela repressão.

OM: Como vocês organizam esses encontros entre ambos os grupos se os palestinos não têm autorização para entrar em Israel e os israelenses não podem, por sua vez, entrar em território palestino?
SK: Israelenses judeus não podem entrar nas áreas A, sob total controle palestino. Os árabes que vivem em Israel sim. A alegação é sempre segurança. Enfim, os israelenses podem vir até a Cisjordânia, somente nos assentamentos da área C, sob controle de Israel. Como é mais difícil para a gente ir até lá, eles vêm até a Cisjordânia. Uma vez por mês nos reunimos. Infelizmente, muitos israelenses e palestinos não se encontram como pessoas. Há crianças palestinas e israelenses que nunca se viram. Esse encontro entre árabes e judeus só ocorre nas fronteiras. Mas é claro que eles não conversam, não se abraçam, não apertam as mãos. Um monte de gente inocente (israelense e palestino) paga um preço muito caro por esse conflito.

OM: Você poderia explicar quais são os principais objetivos e propostas da ATG?
SK: A ideia é promover a imagem da Palestina e dos palestinos. Convidar as pessoas a virem até aqui, a encontrar os habitantes locais e passar mais tempo com eles. O turismo sempre foi monopolizado pelo Ministério do Turismo de Israel. As agências internacionais israelenses organizam todos os tours, os turistas fazem tudo em Israel, gastam todo dinheiro por lá, dormem, comem e vêm à Palestina somente para ir à Belém durante uma tarde ou uma manhã. Às vezes, eles sequer comem por aqui. Isso afeta nossa economia. Mas, mais importante que isso, se trata de ter contato com as pessoas. Muitos turistas descem do ônibus com medo, chegam assustados porque escutam o tempo todo de guias turísticos em Israel que aqui é muito perigoso.

OM: E como vocês trabalham isso?
SK: Nós começamos a organizar tours com estadia noturna em cidades como Belém, Nablus, Hebron, Jericó, até mesmo em casas de família. Essa alternativa foi um sucesso. Assim, turistas brincam com as crianças, convivem e percebem que somos normais. É mais barato, além de ser uma ótima oportunidade de conhecer os palestinos. Isso ajuda não só a economia, mas também o entendimento da cultura local. A Cisjordânia é um lugar totalmente seguro. Além do mais, em cidades como Hebron, turistas tornam-se testemunhas. Soldados não espancam ninguém em frente de excursões. Assim, a presença de estrangeiros aqui acaba sendo uma proteção para a própria população. É por isso que os tours israelenses martelam na cabeça das pessoas para elas não virem.



OM: Quais as principais dificuldades que vocês enfrentam para realizar este trabalho?
SK: Por exemplo, para trazer as pessoas de Jerusalém, eu não posso ir até lá buscá-las. Nós temos um carro grande, novo, que seria ideal para trazê-los. Mas eu tenho que mandar um outro veículo, com placa israelense, o que significa mais gastos. Algumas pessoas também não acham o ponto de encontro correto em Jerusalém, não aparecem no local marcado e eu não posso estar lá para controlar essas eventualidades. Algumas medidas e determinações tornam nosso trabalho impossível, enquanto para Israel é tudo tão simples. É um desafio.

OM: Quais são, em sua opinião, os principais preconceitos e estereótipos em relação à Palestina?
SK: Infelizmente muitas pessoas acham que a Palestina está cheia de terroristas. É difícil lutar contra a propaganda de Israel. É a mesma coisa se eu te perguntar sobre o Afeganistão. Qual a primeira imagem que vêm a sua cabeça? Eu fico feliz de provar o contrário e mostrar como o povo palestino é um dos mais hospitaleiros e amigáveis do mundo. Muitos até brincam com britânicos, norte-americanos, israelenses, dizendo “olha, a gente não gosta muito do seu governo, mas gostamos de você”. Nós não temos problemas com religião ou nacionalidade, até mesmo com Israel. Nosso problema é com o governo de Israel e não com os israelenses, judeus ou não.


OM: Você poderia descrever os tipos de abusos mais comuns durante os tours?
SK: Os soldados param um grande número de jovens que passam pelo controle. Claro, que não todos e isso também depende de cada soldado. Mas, em geral, eles pedem o RG, colocam o garoto na parede e o deixam lá por segundos ou por cinco horas, sob sol, chuva. É humilhante, não consigo entender. Como eles querem a aceitação e o respeito desses jovens se eles são humilhados o tempo todo? Às vezes eu tento conversar com os soldados que aceitam me dirigir a palavra. Alguns me tratam bem, não me inspecionam o tempo todo. Mas tinha um que não gostava de mim de jeito nenhum. Ele me fazia tirar até o anel, meu crucifixo e até mesmo meus óculos. Eles querem te humilhar porque eles acham que têm o poder.

OM: Algum turista já presenciou esse tipo de tratamento?
SK: Sim. Uma vez eu estava com turistas na casa de uma família palestina e dois homens, com cerca de 30 anos, passaram pelo check point e foram colocados contra a parede. O celular de um deles tocou. Ele atendeu: “Oi mãe”. O soldado o mandou desligar. Ele respondeu: “Não posso, estou falando com a minha mãe”. Então, o soldado insistiu. Quando o rapaz se recusou novamente a desligar, foi atingido por um soco. Humilhado na frente da comunidade e dos turistas, ele automaticamente deu três socos no rosto do policial, que caiu para trás, de costas no chão. Imediatamente, quatro soldados sacaram as armas e apontaram o gatilho em direção à cabeça dele. Eu tinha certeza que ele estava morto. Uma senhora francesa saiu correndo, brava, em direção aos soldados. Atrás dela foram os turistas com suas câmeras, fazendo imagens. Isso salvou a vida dele.

A presença de turistas na região, especialmente em Hebron, é uma grande proteção aos Palestinos. E, às vezes, eu penso. O que esse homem fez? Ele atendeu o telefone! Ele não tinha uma arma. Talvez ele fosse um pacifista, talvez ele refletisse sobre questões de paz, a gente nunca sabe. Eu não acho que depois disso ele pensará mais em paz.

                                               Regina Cazzamatta/Opera Mundi

Turistas estrangeiros provam pratos típicos da Palestina durante almoço em visita à casa de uma família na Cisjordânia

OM: Como é a relação com os colonos?
SK: Há muitos episódios. Uma vez, garotos na faixa dos 18, 19 anos entraram em uma loja. O comerciante perguntou se podia ajudá-los, achando que quisessem comprar algo. Eles disseram: “não, nós estamos no nosso lugar, na nossa casa”. O vendedor respondeu; “não, não, esta é minha loja”. Os garotos revidaram dizendo que tudo aquilo era a terra natal deles. O palestino os expulsou. Mas, antes de sair, um dos garotos espirrou spray de pimenta no rosto dele. Para ir ao hospital, ele precisa passar pelo controle e ir até a delegacia. Ele foi retido, entrevistado e investigado. Só depois liberado para ir ao hospital. Imagine, alguém com dores tendo que falar com policiais e passar por interrogatórios. E o pior de tudo é que não se sabe o nome desses colonos, embora haja câmeras por todos os lados. Isso é o que eu chamo de lei militar.

OM: Existe um caminho para a paz?
SK: Conversar. Sinceramente, eu acho que a solução dos dois Estados não existe mais, pois a política de Israel e a expansão na Cisjordânia tornaram isso impossível. É impraticável ter um Estado em cinco áreas diferentes sem nenhuma conexão uma com a outra. Porém, a ideia de um só Estado é distante, pois Israel quer um estado judeu puro.

OM: Como visitantes e turistas podem ajudar?
SK: (longa respiração). Eles são a maior ajuda, já que perdemos a esperança nos governos. É preciso mudar uma geração inteira. Antigamente eu tinha o agendamento de um grupo a cada duas ou três semanas. Agora, cada semana eu tenho quatro grupos, grupos grandes. Mais pessoas estão vindo aqui pra ver, o que é bom. Elas contam o que viram para amigos, parentes, famílias. Eu acho que nosso caso ficou 64 anos sem solução porque ninguém sabia direito o que estava acontecendo. As pessoas só ouviam sobre Israel e Palestina na mídia, que fala o que ela bem entende. Agora as pessoas estão viajando mais, vendo com os próprios olhos, o acesso e troca de informação está mais fácil.

Somos pessoas normais, que acreditam na paz. Nós não somos combatentes, terroristas. Há pessoas normais nesse país que merecem viver em paz. 
Entrevista Original publicada em:
http://operamundi.uol.com.br/conteudo/entrevistas/24437/turismo+na+cisjordania+impulsiona+economia+e+protege+palestinos+de+abusos.shtml

domingo, 11 de setembro de 2011

Traidores são os que declaram guerras imorais, diz desertor dos EUA que lutou no Iraque


Em 21 de abril de 2007, o soldado norte-americano André Shepherd, de 34 anos, fez as malas, sacou todo o dinheiro que tinha na conta bancária e deixou o apartamento em Ansbach, Alemanha, onde há uma base militar dos Estados Unidos. Motivo: ele se recusou a voltar ao Iraque. Para Shepherd, a guerra é ilegal e uma violação dos direitos humanos. 

sábado, 13 de agosto de 2011

Muro de Berlim: alemães lembram os 50 anos da construção da barreira

Meio século atrás, durante a madrugada do dia 12 para 13 de agosto de 1961, policiais e soldados da antiga RDA (República Democrática Alemã) bloquearam as fronteiras entre Berlim Ocidental e Oriental com cercas de arame farpado. Começava a construção do Muro de Berlim, de 160 quilômetros, que dividiu a capital por 28 anos. Desde a criação da RDA, em 1949, até o bloqueio oficial das fronteiras, 2.686.942 pessoas fugiram para Berlim Ocidental. Após o início da construção do muro, outras 51.624 partiram. 

Schirner Pressebild-Agentur 
Construção do muro no setor fronteiriço Linden- Ecke Zimmerstraße (18/08/1961)

Para relembrar o episódio, dezenas de exposições, festivais, apresentações, filmes e debates temáticos tomam conta da capital alemã no mês de agosto, em uma parceria das organizações Stiftung Berliner Mauer e Landesgesellschaft Kulturprojekte Berlin GmbH. Os 24 painéis com imagens em preto e branco do Muro de Berlim, por exemplo, espalhados em 19 pontos do centro da capital alemã, até 28 de agosto, não passaram despercebidos pelos moradores e visitantes da cidade. 

“Queremos pensar nas vítimas e lembrar daqueles que carregam a responsabilidade pelas mortes. Ao mesmo tempo recordamos o forte sentimento de pertencimento entre os berlinenses, mantido mesmo durante a separação”, disse o prefeito de Berlim Klaus Wowereit, durante a vernissage em 15 de junho. A data para a abertura da mostra a céu aberto não foi coincidência. 

Jürgen Homuth/Stiftung Berliner Mauer
Exposição externa do Memorial do Muro de Berlin, onde antigamente passava a barreira 

Praticamente todos os bairros da cidade têm algo a oferecer. O memorial de refugiados Marienfeld, no bairro de Tempelhof-Schöneberg, inaugurou a exposição “Desaparecidos e Esquecidos. Campos de Refugiados em Berlim Ocidental”. Em cartaz até 30 de dezembro, a exibição retrata como funcionava os mais de 80 campos de refugiados, a vida dessas pessoas e a Berlim do pós-guerra. Na antiga torre de controle chamada Schlesischer Busch, exatamente na fronteira entre os bairros de Kreuzberg e Treptow, uma coleção de imagens mostra, somente nos dias 13 e 14 de agosto, fatos históricos anteriores e posteriores ao muro. 

Já o Museu de História da Alemanha, no centro de Berlim, expande a temática para o continente dividido e mantém em cartaz até 03 de outubro o trabalho dos fotojornalistas alemães Thomas Hoepker e Daniel Biskup, com retratos desde a construção do muro até o fim do socialismo real. São 280 fotografias reunidas sobre o título “Sobre a Vida” (Über Leben, em um jogo de palavras com überleben, isto é, sobreviver). Hoepker, que nasceu em Munique, em 1936, retrata o estilo de vida da RDA de 1959 a 1991. 

Thomas Hoepker 
Criança no muro de Berlim, Berlim Ocidental (1963). Na placa: "vá embora, setor soviético" 

Em contraposição, Biskup, nascido em Bonn, em 1962, clicou os momentos de ruptura social não só na Alemanha Oriental, mas também na União Soviética e na antiga Iugoslávia. Ainda com a data em mente, o museu desenvolveu uma segunda exposição especial. Há 20 anos, a curadoria reúne e coleciona fotos da história e dos hábitos de vida no país. Cerca de 250 imagens dos últimos anos do século XIX até o fim da RDA em 1990 estão expostas de modo cronológico, intituladas como “O Século XX – Pessoas, Lugares, Tempo”. Hoje, a entrada será gratuita para ambas exposições. 

Exatamente na mesma data, a cidade de Berlim, acompanhada do prefeito Wowereit, se reunirá das 10h às 19h em torno do Memorial do Muro de Berlim, na Bernauerstraße, na divisa entre Mitte e Wedding, para diversas atividades. O espaço que tradicionalmente exibe fotos e uma vasta gama de documentos sobre o Muro de Berlim, ampliará a área externa de exposições. 

Grenzläufte e.V. 
Antiga Torre de Controle Schlesischer Busch, em Berlim 

Para aqueles que desejam entender como era viver em uma cidade dividida, as artistas Tamiko Thiel e Teresa Reuter fizeram uma reconstrução virtual de parte da barreira de concreto. Por meio de técnicas de realidade virtual como simulação, animação, viagem no tempo e interação, visitantes podem curtir a criação até 28 de agosto, no espaço de artes Bethanien, em Kreuzberg.  Outro projeto das artes visuais é o Cinema de Fronteira de Berlim, que exibirá filmes com essa temática em diversos pontos da cidade. O cinema de fronteiras trazia para as telas problemas como as fugas berlinenses, a vida no pós-guerra, assim como a propaganda da Guerra Fria, mas desapareceu subitamente após a construção do muro e até hoje ainda é pouco difundido. 

Há também uma exposição na Galeria Zero, em Kreuzberg, a partir do dia 13. No acervo, fotos, pôsteres de filmes, trechos de algumas películas e entrevistas. Intitulada como “Vibrações na Cortina de Ferro – A História do Cinema de Fronteiras de Berlim 1950-1961”, a mostra pode ser vista até 13 de setembro. De 02 a 09 de setembro, o cinema Arsenal, na Potsdamer Platz exibirá filmes do gênero. Na lista constam títulos como No Ocidente nada Novo, Um Romance de Berlim e Ela dançou somente um verão. 

Regina Cazzamatta para Opera Mundi: http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticia/MURO+DE+BERLIM+ALEMAES+LEMBRAM+OS+50+ANOS+DA+CONSTRUCAO+DA+BARREIRA_14207

sábado, 23 de julho de 2011

Apesar de apelo da ONU, Alemanha nega pedidos para receber refugiados da Líbia



Desde o começo da crise na Líbia, em março deste ano, pelo menos 1,6 mil pessoas morreram no Mediterrâneo durante a travessia na esperança de alcançar a Ilha de Lampedusa, na Itália. Segundo diversas organizações para refugiados, cerca de um milhão de pessoas deixaram o país – aproximadamente 900 mil encontraram abrigo na Tunísia ou no Egito e 40 mil conseguiram chegar à Itália. Até o momento, 11.230 barcos vindos da Líbia e 23.230 da Tunísia alcançaram a costa italiana. 



Enquanto isso, os países da União Européia discutem o abrigo e distribuição dos refugiados. As condições deles são precárias. No campo de Choucha, por exemplo, a cinco quilômetros da fronteira entre Tunísia e Líbia, quatro mil pessoas esperam há mais de três meses autorização para partir. Abrigados no deserto e com pouca perspectiva, relatos de falta de medicamento, comida e água são comuns. Para reforçar o apelo da agência de refugiados da ONU, a UNHCR (sigla em inglês), a organização alemã Pro Asyl lançou no mês passado uma campanha para pedir a aceitação de 11 mil refugiados no continente. E-Mails, cartazes e um apelo direto ao presidente do conselho europeu, Herman von. Rompuy, foram uma das ferramentas utilizadas. Sem sucesso. 

Assim como outros países da Europa, a Alemanha também não respondeu  aos apelos das organizações. Segundo relatos do canal de televisão alemão ZDF, a Alemanha deve autorizar a entrada de 100 pessoas. Mas, por enquanto, reina a rejeição. “É preciso um grande apoio do governo e do parlamento para que as melhoras exigidas na questão da proteção aos refugiados sejam alcançadas em um nível europeu”, disse Michael Lindenbauer, representante da UNHCR na Alemanha e na Áustria. 

Para a organização Pro Asyl, a Alemanha está “bem protegida” em relação ao problema. A organização não conhece nenhum caso de refugiados que tenha conseguido chegar em solo alemão. Quando eles sobrevivem à travessia, ficam na ilha de Lampedusa. E mesmo que conseguissem alcançar a Alemanha, seriam devolvidos à Itália, de acordo com o regulamento Dublin II. Segundo tal determinação, o asilo deve ser pedido e julgado no estado de entrada, o que coloca grande pressão sobre as zonas fronteiriças. 

Por isso, Lindenbauer fala na necessidade de reformas do conhecido Acordo Dublin II. “É preciso assegurar que nenhum estado da União Européia fuja da responsabilidade em relação aos exilados”, explicou. A própria comissária da União Européia para Assuntos Internos, Cecília Malmström, apelou aos governos para que recebessem 15 mil refugiados. O resultado também foi um fracasso. 

Ao invés disso, os líderes europeus decidiram por um fortalecimento e maior independência da Agência de Controle de Fronteiras, a Frontex. A decisão ainda precisa ser aprovada pelo conselho da União Européia, após a pausa de verão, mas acredita-se que não haverá nenhuma controvérsia. A Frontex existe desde 2005, com sede em Varsóvia, e conta com 300 funcionários e um orçamento, segundo o jornal Frankfurter Allgemeine, de 86 milhões de euros. Sua principal atividade é conter a onda migratória em operações por terra, mar ou nos próprios aeroportos, além de organizar vôos de deportação de imigrantes ilegais. No ano passado, quando a Grécia mostrou-se incapaz de assegurar suas fronteiras com a Turquia, uma operação de cinco meses da Frontex baixou em 70% o número de imigrantes ilegais. 

A partir de então, a agência terá seus poderes ampliados e poderá adquirir equipamentos próprios e não mais emprestá-los dos 11 países membros. Enquanto algumas organizações descrevem a tarefa da Frontex como a de impedir a entrada de refugiados e imigrantes, a União Européia coloca a agência como um “fórum consultivo” dos direitos fundamentais. 

A Pro Asyl trabalha em nome de uma política de acolhimento dos refugiados e se coloca contra o trabalho de defesa por meio da Frontex e a cooperação da Europa com países terceiros, no caso com o governo do Gaddafi. No flyer da campanha, a organização faz um panorama da cooperação de países da União Européia com o governo líbio para conter a imigração ilegal. Em 2007, por exemplo, A Frontex teria enviado uma delegação à Líbia. Durante a visita, o governo de Muamar Kadafi entregou uma lista aos dirigentes com solicitação de novos equipamentos como radares de vigilância, dispositivos de visão noturna, sistema de reconhecimento de imagens e impressões digitais, comunicação por satélite, equipamentos de navegação e caminhões e barcos de patrulha. Segundo dados da rede de televisão ZDF, ainda durante a visita, 60 mil refugiados e imigrantes ilegais foram presos. O termo Nautilus descreve as diversas operações da Frontex ocorridas no mediterrâneo em parceria com a Líbia. 

Números alarmantes 

Os dados referentes à prisões, deportações e repatriações disponíveis pela comissão européia (Eurostat) não faz distinção entre pedidos de asilo político e outros casos de imigração como o de trabalhadores ilegais, por exemplo, o que dificulta uma mensuração precisa de cada caso. Em 2009, a União Européia emitiu 598.755 ordens de deportação  Grécia (126.140), Espanha (103.010), França (88.565), Inglaterra (69.745), Itália (53.440) e Alemanha (14.595). 

O comissário de direitos humanos da ONU, Thomas Hammarberg, declarou em seu blog, em 6 de junho, que a Europa tem um papel importante na crise dos refugiados que se instaurou no Mediterrâneo no começo deste ano. “Os governos europeus e as instituições têm muito mais responsabilidade pela crise do que eles responderam até então”, disse. 

Em uma declaração para a imprensa no começo do ano, Christine Buchholz, membro do partido executivo do “Die Link”, partido de esquerda alemão, afirmou que a pobreza da maioria da população na África do Norte não caiu do céu e o governo também teria sua carga de culpa. “O governo alemão apoiou os ditadores norte-africanos, que junto com as companhias ocidentais saquearam as riquezas desses países”. 


Regina Cazzamatta para Opera Mundi:
http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticia/APESAR+DE+APELO+DA+ONU+ALEMANHA+NEGA+PEDIDOS+PARA+RECEBER+REFUGIADOS+DA+LIBIA_13725.shtml

terça-feira, 14 de junho de 2011

Berlim vista e vivida pelos olhos do mundo

A experiência de ser estrangeiro em Berlim virou arte em nova exposição na capital alemã, conhecida pela reputação criativa, dinâmica e cosmopolita. “Based in Berlin”, em cartaz até o dia 24 de julho em cinco pontos diferentes, reúne cerca de 80 artistas que escolheram a metrópole para viver. 


O evento ocorreu entre duas importantes aberturas da cena artística europeia – a 54º Bienal de Veneza, em 8 de junho, e a 42º edição da feira Art Basel, com início no dia 15 deste mês – e convida visitantes de todo o mundo a checar o que há de melhor no circuito berlinense. 


O projeto foi impulsionado pela ideia inicial do prefeito Klaus Wowereit de fazer um pavilhão de arte para Berlim, assim como o Centre Pompidou em Paris. Porém, muitas instituições artísticas sentiram-se preteridas e alguns artistas, por sua vez, instrumentalizados pela política. A oposição desses grupos, aliada aos altos custos da proposta, fez com que a construção fosse deixada de lado. 


Desde novembro de 2010, o grupo visitou mais de 500 ateliês em Berlim e recebeu 1.250 portfólios. Ter residência na capital alemã – daí o nome da exposição – e ser um artista “emergente” foram requisitos que influenciaram os critérios de escolha. A impressão é que o projeto pretende apresentar ao mundo os talentos de amanhã. “Nós queremos criar uma concentração temporal-espacial, condensar muitas atividades artísticas a fazê-las acessíveis a uma grande audiência”, afirmaram os curadores. 

Produto desta intensa discussão, “Based in Berlin” mantém acesa a polêmica sobre o possível pavilhão de arte berlinense. Com um custo aproximado de 1,4 milhão de euros, a exibição teve três conselheiros renomados, o que reforça ainda mais seu peso político. São eles o alemão Klaus Biesenbach, diretor  do MoMA (Museu de Arte Moderna de Nova York), o suíço Hans Ulrich Obrist, da Galeria Serpentine em Londres e Christine Macel, do Centre Pompidou. Eles foram responsáveis pela escolha dos cinco curadores, que encabeçaram a seleção dos artistas. 


Neste aspecto, eles foram bem sucedidos. A programação abrange não só pinturas, desenhos e esculturas, mas também filmes, fotografias, vídeos, textos, performances e instalações, além de workshops e debates. O foco central da exposição está no Ateliê Monbijou, no Mitte, região central de Berlim. Esta será a última exibição do espaço de 1.500 metros quadrados antes da sua demolição em agosto. 


Artistas em ação 


É na casa Monbijou que está, por exemplo, a instalação de três canais de vídeo de Köken Ergun. Trata-se de 12 minutos de imagens de casamentos turcos em Berlim. Nascido em 1976 na Turquia, o artista é um tipo que se pode chamar de cosmopolita. Ergun estudou design de comunicação e teatro em Londres e Istambul e hoje divide um ateliê com outros colegas entre os bairros de Neuköhln e Kreuzberg. 

A dançarina sueca Helga Wretman também escolheu Berlim como sua casa, onde trabalha atualmente como dublê e mora como a maioria de seus pares no bairro de Neuköhln, uma das regiões preferidas pelos artistas ao lado de Moabit e Kreuzberg. O que eles têm em comum, além de apresentar suas obras no “Based in Berlim”? Todos adoram a charmosa improvisação berlinense.  

Para Opera Mundi, 13.06.2011
Em:http://operamundi.uol.com.br/dicas_ver.php

(Regina Cazzamatta, de Berlim)