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domingo, 15 de setembro de 2019

A casa do Freud em Londres

Tenho um prazer enorme em bisbilhotar à casa alheia pelas janelas entreabertas. Acho ainda mais interessante se ninguém estiver presente. Assim, posso criar a figura de um personagem, um morador fictício, baseada nos objetos que compõem o cômodo bisbilhotado. A indiscrição é tanta que até já ganhei um livro de fotos de janelas parisienses, exibindo a vida privada da cidade. Por essa mesma lógica, gosto também de visitar museus que outrora foram residências de escritores, artistas ou intelectuais. Já vasculhei os antigos lares de Goethe, Schiller, Nietzsche, Otto Dix, Thomas Mann, Shakespeare, Van Gogh, Picasso... Recentemente, inseri na lista a última morada de Freud, na Maresfield Gardens, número 20, no charmoso bairro de Hampstead, em Londres.

quarta-feira, 19 de junho de 2019

Stonehenge e o solstício de verão




Há coisas nessa vida que costumo chamar de “experiência antropológica”. Dar uma espiadela em coisas “estranhas” para ver se gostamos. E, sim, vale para todas as esferas da nossa existência (por que não?). Ano passado decidi que passaria a madrugada do solstício de verão no Stonehenge. Além de ser de graça (quem mora em Londres entenderá a mão de vaquice), é a única oportunidade de chegar bem pertinho e encostar as mãos, pés, nariz e bunda na estrutura. Cada um com seu fetiche, tenho dito sempre. A única coisa é que dividimos o espaço com toda sorte de malucos (no bom sentido, tá?) que seguem para contemplar as lendas e mistérios da construção desse círculo concêntrico de rochas. Durante um tour oficial, o monumento é protegido e só podemos vê-lo a uma certa distância. Por isso, há vários motivos para se juntar a celebração.

sábado, 4 de maio de 2019

A leveza da idade

Não costumo ter bloqueios para escrever posts. Síndrome da tela vazia do Word só acontece com trabalho. Aliás, posts em geral são a antítese disso. Quando empaco com matérias ou tese, chuto o fantasma A4 pro alto e escrevo qualquer paranoia, comentário ou abobrinha para o blog. É um ótimo laxante de ideias. Mas eis que estou há três semanas evitando abordar minha primeira experiência dando aulas. O problema não é a novidade ou o desafio da experiência em si. Acho que a obstrução tem a ver com o cheiro. Podem seguir com a leitura despreocupados. Não virá nada escatológico. 

sexta-feira, 29 de março de 2019

Bollocks to Brexit


Mais irritante que o „Mind the Gap” em Londres só esse slogan “Keep Calm and Carry On”. Enquanto os franceses queimam carros em protesto contra o planeta, os ingleses são aconselhados a manterem a calma e seguirem em frente. Sério? É muita contenção. O mundo caindo, o Titanic afundando, a casa pegando fogo, o demônio da Tasmânia varrendo a cidade, mas a bela cabeça fria (educadíssima) sempre permanece no devido lugar – “I beg your pardon”, “would you excuse me”? WTF? A vontade é de atirar a xícara de chá fervendo contra a parede, pisar nos scones e sair gritando “ma che porca miséria”! Sério, nem o Buda conseguiria não revirar os olhos assistindo uma discussão no parlamento britânico. Morro de curiosidade para saber se esses políticos têm o mesmo sangue frio quando se trata da vida pessoal deles. Com exceção da May que não deve ter uma.

sexta-feira, 15 de março de 2019

"Um Dia do Nosso Para Sempre"

“Tiraste-me a virgindade da alma. E aos poucos vai retirando a inocência do meu corpo”. Essa frase é de uma escritora portuguesa extremamente jovem, que conheci por acaso em um curso de jornalismo na universidade de Derby, no Reino Unido. Foi a coordenadora do programa que me mostrou seu livro – “Um Dia do Nosso Para Sempre” – editado pela Cultura e já com 30 mil exemplares vendidos. Maria Cunha e Silva passou a publicar textos, poesias e muito do que escrevia no Instagram, aos 16 anos. Logo angariou mais de 30 mil seguidores e com a admiração desse público jovem e fiel bateu nas portas da editora para realizar seu sonho!  

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Londres, mudanças e um baú de inutilidades sentimentais

É difícil fazer a vida caber em uma mochila. Ainda mais quando se envelhece. Ao sair de casa há dez anos, enchi duas malas e segui viagem. Na verdade, deixei com muito zelo tudo que estimava na casa da minha mãe. Levei coisas que poderiam ser deixadas pelo caminho, sem importância. Com o passar dos anos, era até interessante visitar o Brasil e reencontrar objetos que eu mal lembrava da existência no meu dia a dia. Deixei-os guardado porque um dia foram importantes. CDs dos meus dezesseis anos, agendas da adolescência cheias de sonhos e intrigas, vestidos longos de festas antigas, textos da faculdade, livros, retratos do primeiro mochilão, bichos de pelúcia, presentes antigos.

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Brick Lane`s Street Art

Porque por aqui não há resquícios do engomadinho do Dória! East London continua coloridíssima, cheia de street art (nos entornos da Brick Lane), com sua porção de restaurantes indianos, cheiro de curry, boutiques vintages, cafés, lojas de música e livrarias. E, sim, muito grafite!

domingo, 15 de julho de 2018

O que você faria se...

... se recebesse o diário de um desconhecido? Em uma manhã de junho, provavelmente ensolarada, a senhora Fátima recebeu em Londres um pacote enviado da Espanha. Não era para ela, mas para algum dos seus vizinhos. O problema é que quase três semanas depois, ninguém nunca apareceu para buscar o envio. A Fátima está até hoje com aquela geringonça trambolhenta no meio da sua sala. Só pode. Seu nome, o bairro que mora e essa coisa solícita de ajudar o próximo recebendo caixas para os moradores me fazem crer que ela tenha um background islâmico. Difícil só dizer se ela usa burca, somente um véu ou anda com a cabeleira solta. Fato é que sei muito pouco sobre essa mulher. Nem eu, nem o Royal Mail temos a mínima ideia de quem é a Sr. Fátima ou exatamente onde ela mora. Who the f... is Fatima?

terça-feira, 10 de abril de 2018

Jane Austen em Bath

Essa cidadezinha de pouco mais de 80 mil habitantes, a poucas horas de Londres, é um exemplo de arquitetura georgiana na Inglaterra e a única declarada como Patrimônio Cultural da Unesco, desde 1987. E a moradora mais proeminente por essas bandas foi ela mesmo – Jane Austen. A escritora que retratou a vida das mulheres no início do século 19, morreu sem ver nenhuma de suas obras publicadas com seu nome verdadeiro. Havia um certo preconceito à época contra escritoras do sexo feminino. Para colocar o problema de modo educado. 

segunda-feira, 2 de abril de 2018

PUBs: uma instituição cultural britânica


Não há nada mais inglês que os PUBs. Acho que nem a própria rainha. Imagine um local onde você frequenta para ler o jornal, escrever, tomar uma (duas, três, dez) pints, jogar um quizz, encontrar os amigos, bater um rango, assistir esportes na TV, tomar um chá quentinho, ouvir bandas ao vivo ou até mesmo tirar um sarro da rainha. Poderia ser a sala da sua casa, não? Um PUB não é lá muito diferente, ainda mais esses de bairro. Sofás com almofadas, carpetes, prateleira de livros antigos, lareira e todo mundo conversando um com os outros. A coisa é tão séria que várias estações de metrô receberam nomes de Pubs históricos. Sem contar os estabelecimentos descritos nas obras de Dickens.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Londres: Manual de Adaptação

Pisei em 2018 com a promessa de que deixaria Londres finalmente entrar no meu coraçãozinho. Em alguns meses fará um ano que mudei e ainda continuo numa relação de amor e ódio com essa capital britânica. Dá até para embaralhar os posts bem-me-quer e malmequer. Como é possível gostar e detestar tanto alguma coisa? Sentir atração e repulsa ao mesmo tempo? A maluca aqui não sou eu, mas sim essa cidade exageradamente cheia de opções e preços salgados. Isso inclui aluguéis, transportes, baladas e restaurantes.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Londres e Imprevistos cotidianos

ou como a Europa anda muito da esquisita...

Nunca pensei tanto no Stefan Zweig como esse final de ano. Não por sua frase célebre – “Brasil o país do futuro” – afinal, a otimista observação sempre foi vista com gracejos irônicos sobre esse “Zukunft” imaginário! Tempo é uma questão de perspectiva mesmo. Provavelmente porque somos brasileiros e não desistimos nunca! Rá. Mas, dessa vez, não é o Brasil e sua cara de peroba, mais sem graça e estúpida que as pegadinhas do malandro, que não me tiram o autor austríaco da cachola. Há uns três anos li “O Mundo de Ontem, Recordações de um Europeu” (acho que é esta a tradução) em que ele descreve suas andanças pela Europa “livre, leve e solto”. Como diria Caetano “sem lenço, sem documento”. Perambulações antes da Primeira Guerra Mundial, quando passaportes não eram necessários. Na verdade, o livro mostra essa estrutura toda se rompendo e as consequências das bizarrices políticas do século XX na vida pessoal do autor. Ainda assim, não parece um sonho poder ir e vir sem ter que apresentar documentos, extrato bancário, cor da calcinha, estilo de depilação, estatura e toda sua vida pessoal? Dreamer...

terça-feira, 31 de outubro de 2017

O túmulo do Marx em Londres

... uma história do dia das bruxas 

Preciso de um título “googlável”, mas ao escrevê-lo já sinto uma náusea similar a de um vegetariano preso em um açougue de um zouk marroquino. SEO é uma desgraça, não? Um mal necessário da blogosfera, o balde de água fria em qualquer aspirante a escritor de qualquer bodega. Queria mesmo titular este post como “as incongruências do mundo”, mas isso afastaria o leitor ainda mais do que esse gigante nariz de cera! Portanto, vamos logo ao assunto. Halloween! Gosto tanto da ocasião como  de chuchu, tartarugas, samambaias e aquela lata sem gosto de marrom glacê. Em alto e bom tom, não fede, nem cheira. Tem tanto tempero quanto comida de hospital. Um carnaval com toques de horror onde a garota propaganda é aquela abóbora bochechuda com o mesmo sorriso amarelo desde que o Thomas Jefferson trabalhava na declaração da independência dos EUA. E antes que algum sabichão venha falar das origens celtas da celebração – blá... E o que o Marx tem a ver com isso tudo? Ainda chego lá. Por enquanto, só torturando o desocupado leitor, descontando nele a miséria de ter que abrir a porta e ver crianças histéricas perguntando “doce ou travessura”...

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

London Skyline


Londres é bem famosa pelo seu visual cinzento, com ares de viúva chorosa, mau-humorada, sempre de preto e dona de humores instáveis e neblinosos. Mas, exageros à parte, a capital tem surpreendido nos últimos dias com seus entardeceres multicoloridos. Passo o dia brigando com a tese e lá pelas 17h-18h, quando vou apreciar minha xícarazinha de expresso, começa o cair da noite em diferentes tons.   

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Londres e coincidências estranhas II

Faz tempo que planejo escrever um post turístico sobre a capital inglesa – tipo a Londres da realeza, os mercados mais descoladinhos, grafites secretos, os canais perto das docas, o que fazer “na faixa” e por aí vai–, mas sempre aparece algum “maluco” (no melhor sentido da palavra) e me desvirtua da ideia inicial. 

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Melhor de Londres – a metrópole da coexistência


Depois de uns 40 dias de adaptação, desde que deixei a bolha do bem estar social alemão e cai de paraquedas na capital inglesa, minha convivência com a cidade tem melhorado bastante. Estava disposta a não me deixar seduzir por esse centro financeiro global, ávido, hostil e ligeiramente arrogante, mas alguns desafios nos instigam além do normal. Especulação imobiliária e excessos de serviços financeiros são, sem dúvida, uma faceta local. Abro as janelas de manhã e tomo café com os edifícios do Bank of America, Citibank, Barclays e HSBC me observando. Canary Wharf – o centro financeiro londrino – está logo aqui com todas suas empresas, lojas, restaurantes, bares e todo um setor terciário à disposição, sem contar com a intersecção de transportes. É prático, pena que não provoca ou atrai suficientemente.