quinta-feira, 25 de julho de 2013

Auschwitz e seus rostos



                Esta é Czeslawa Kwoka! Eu gostaria de contar sua história, mas não sei absolutamente nada sobre ela. O único fato conhecido é que chegou em Auschwitz em 13 de dezembro de 1942 e por lá perdeu a vida em 12 de março de 1943. Somente três meses! Uma garotinha polonesa de 14 anos, com uma faixa xadrez em torno do cabelo. Qual era sua comida favorita, o que ela gostava de ler e como se distraía nas longas noites de inverno? Será que alguém hoje, em algum lugar do mundo, ainda é capaz de responder tais perguntas? O que sobrou desta criança além de uma foto em um memorial? Visitar Auschwitz é sempre uma experiência estranha e não é bem pelos 110 mil sapatos de prisioneiros ou pelos restos de cabelos cortados das vítimas, mas sim porque lá as pessoas têm rostos. Mais interessante do que a sensação de cruzar o portão de Birkenau e ver os longos trilhos do trem, mostrado por Spielberg na lista de Schindler, é encontrar as imagens das pessoas que (sobre)viveram e morreram ali. Ainda me pergunto se Czeslawa vive na memória de alguém ou se todos que poderiam contar alguma coisa sobre seu jeito, personalidade ou gostos também foram exterminados. Que tipo de mulher ela teria se tornado se tivesse sobrevivido? Apesar de trágico, Auschwitz se tornou um local “turístico”, mesmo que a entrada seja somente acompanhada por um guia em uma visita guiada de 4 horas, nas opções mais enxutas. Há lojas de souvenires, mesmo que só com livros, pequenas coisas para comer ou beber. Por isso, acho importante encontrar rostos, afinal não se trata de 6 milhões de exterminados, mas também da Czeslawa e de seus olhos pretos desolados.

             Desta sua colega (aí em cima) eu sequer sei o nome. Só recordo de seus olhos úmidos e chorosos. Alguns adultos ou mesmo idosos ainda mantinham um olhar firme, um fio quase extinto de dignidade, mesmo que emoldurada. Cabeças raspadas, levemente erguidas, pupilas fitando a câmera como se de algum modo essas pessoas soubessem que ficariam o resto da vida presas naqueles retratos, olhando o que aconteceria ao mundo que fez aquilo com elas. Já outros pareciam mais fracos e tomados pelo cansaço. Embaixo de cada retrato está a data de chegada no campo e da respectiva morte. Tentei evitar um pouco daqueles olhares, todos pendurados naquele corredor, talvez por vergonha do mundo, mas analisava todas as datas. Quando achava eventualmente alguém que resistira por um ano ou um pouco mais, superava o receio e encarava longamente sua imagem. Seria esta pessoa mais forte que as outras, mais resistentes à injustiças? O que ela teria feito para agüentar assim tanto tempo? É possível "comemorar" alguns meses a mais de vida naquelas condições? Sem perceber exclamei, “poxa, que azar!, este aqui faleceu dias antes da libertação”. Envergonhei-me. Talvez aquele prisioneiro nem quisesse ter sobrevivido, já estivesse apático a tudo, mas há sempre aquela sensação de “morrer afogado na beira da praia”.  Será que algum daqueles rostos eram donos de uma das 3.800 malas, muitas marcadas com o nome do “viajante”, dos 12 mil utensílios de cozinha, óculos ou próteses dentárias? Se pudessem escolher, será que elas gostariam de passar a eternidade ali, nos corredores do mesmo local onde perderam a vida, olhando para as curiosas gerações futuras?  


terça-feira, 23 de julho de 2013

Lembranças de Viagem


      É difícil evitar, mesmo no caso dos mais comedidos, não trazer algumas recordações da tão esperada viagem de férias, certo? Mas, em vez de abarrotar as malas com aqueles souvenires chatos, caros e que todo mundo tem, dá para “mirabolar” algumas idéias bem criativas e, o mais importante, sem desperdiçar as valiosas verdinhas. Conheço uma pessoa, por exemplo, que coleciona rótulos de cerveja. Assim, ao degustar uma gelada fora de sua terra natal, o logo da bebida vai direto para a sua carteira. Bacana mesmo é escolher as versões mais locais possíveis, que não sejam exportadas e consumidas mundo afora. Por que não experimentar e guardar depois como lembrança o rótulo da Taybeh Beer, Polar, Glacial ou da Sarajevsko?
        Copos com logos legais também não precisam ser comprados. Tem um monte de garçom generoso que dá de presente aos turistas simpáticos. Um outro casal de amigos teve uma ideia genial para recordar suas andanças pelo mundo. Eles compram vinhos, aqueles específicos para envelhecer na garrafa, trazem para casa e só abrem depois de dez anos, talvez olhando as fotos tiradas durante o passeio. Vale o lembrete: todo recipiente com líquido deve ser despachado na mala! É bom também evitar o Duty Free que não terá uma pessoa para ajudá-lo a escolher a bebida por um valor acessível e ideal para esperar tanto tempo. Mas antes que alguém desconfie da ideia ou do preço desse hábito, dá para encontrar vinhos bons na Europa por coisa de 15 ou 20 euros. A mesma quantia dada a um boné ou uma camiseta! Para quem não é muito chegado em vinho, uma boa pedida são outras bebidas nacionais para sentir o gostinho do país: Pálinkas (um brand de frutas húngaro), Limoncello (licor italiano), Ouzu (bebida grega à base de anis) ou até, por que não?, uma vodca russa ou polonesa!  
         Gosto ainda de trazer jornais com a data que estive na cidade. Independentemente da língua, já que a proposta não é necessariamente lê-los. Colunas inteiras escritas no alfabeto cirílico, árabe, hebreu, chinês ou japonês! Experimente só ler uma revista (mesmo que só as imagens) de trás para frente em Israel! Para que souvenir? Elas estão ali, todas especiais e disponíveis na cadeira do avião! Os mais ousadinhos podem comprar Playboys por aí.  E nada que mexa mais com os sentidos e as lembranças do que uma boa música. Um CD escolhido a dedo de canções locais não ocupa espaço na bagagem e garantirá memórias por um longo tempo. Peça dicas aos moradores da cidade!
          Há coisas ainda mais simples, tiradas da própria natureza. As folhas das árvores ficam vermelhas, bem vermelhinhas, durante o outono Europeu. É só colocá-las entre as páginas de algum livro. E que tal pedrinhas brancas das praias no sul da França, blocos de sal do Mar Morto, um punhado de areia do deserto ou das dunas do Nordeste? Só não vale arrancar tulipas dos canteiros na primavera! Os mercados de rua também são um arsenal de lembranças. Degustou um prato especial, gostou e quer relembrar o aroma daquela iguaria? Corra nos mercadões da cidade e leve os temperos para perfumar o retorno ao lar!

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Spacekid Headcup Weimar


Todo feriado do dia 01 de maio tem passeata de neo-nazista marcada. Tem também os protestos da esquerda para tentar impedir a extrema direita. Aí eles se encontram... Em Berlim, a coisa costumava ficar pesada. Embora esse ambiente não seja lá muito propício para estrangeiros, não dá para morar por aqui e não ir bisbilhotar o que se passa, certo? Uma vez na capital fiquei ao lado do cara com banquinho da Reuters e outro da DPA. Gente neutra. Quando eles saíram correndo, sai atrás. Entrei na estação Alexanderplatz e, em seguida, a polícia bloqueou todas as entradas. Não sei mais o que houve do lado de fora. Peguei o S-Bahn pra bem longe da muvuca, sem pronunciar uma palavra, por via das dúvidas. Semana passada já recebi os email do grupo da universidade que organizava as contra-passeatas em Erfurt, mas não me animei muito não.

sábado, 6 de julho de 2013

Berlim Comunicativa



        Hoje é um daqueles dias que classifico típico da “geração Easy Jet”.  Acordar numa cidade, deixar as malas em qualquer luggage room, andar o dia inteiro, entrar em algum trem ou avião e chegar cansada para dormir em outra capital. A vida anda meio acelerada, o tempo caminha a passos gigantes. De volta a Berlim, custa-me acreditar que já não moro aqui há dois anos. Enfiada na longa e lenta linha U2 sentido Mitte, naquela sensação de “caminho da roça” decidi visitar o museu de comunicação. Não sabia bem onde ficava, mas graças ao meu aparato tecnológico, computador nas costas e smartphone em mãos, achei sem grandes dificuldades a Leipizger Straße. É uma travessa da Friedrichstraße, dava para ter achado sem a ajuda da BVG e seu aplicativo, só perguntando pra alguém mesmo.

domingo, 30 de junho de 2013

Marcha dos mindinhos


Quando era mais nova achava bem do esquisito esse papo do Brás Cubas de que as “botas apertadas são uma das maiores venturas da Terra”, mas com o tempo passei não só a entender, como também a concordar. Libertar os dedos espremidos e esmagados pela botina numa sensação prazerosa de liberdade e alivio é uma metáfora que serve é bem pra muita coisa.

sábado, 22 de junho de 2013

Budapeste: Leste Europeu


Budapeste – Muito Mais do que a Paris do Leste Europeu
(Texto originalmente publicado na revista Viaje Mais! Jun. 2013)

Boa parte da beleza da capital da Hungria, cortada pelo Rio Danúbio, vem das influências parisienses em sua arquitetura. Mas, com séculos de história, moldada por um vaivém de invasores, a cidade exibe muitos outros tesouros.     

  Uma caminhada às margens do mítico Rio Danúbio, em Budapeste, ladeado por construções majestosas, como o Parlamento, e por alguns edifícios quadradões dos tempos comunistas, dá razão à frase que você provavelmente ouvirá na capital da Hungria: “Se você for de Paris a Budapeste, pensará que está em Moscou. Mas, se for de Moscou a Budapeste, pensará que está em Paris”. Tudo bem que há um exagero na comparação com Moscou. Isso porque as constantes renovações estão dando cabo do aspecto sem graça que ainda paira em algumas regiões da cidade, a qual, em 1989, deixou cair a Cortina de Ferro socialista. O que não é difícil de constatar é que, de fato, em muitos pontos da capital, não falta um quê da Cidade Luz, o que justifica a alcunha de “Paris do Leste Europeu” dada a Budapeste.

     Tal qual sua “musa”, Budapeste exibe uma cena cultural agitada, bulevares em constante burburinho e café tradicionais. E, claro, um magnífico patrimônio arquitetônico, bastante influenciado pelos moldes parisienses e erguido tardiamente para os padrões europeus: sobretudo nas três décadas do século 19. É que, nesse período, a cidade era uma das capitais do poderoso Império Austro-Húngaro. E para exibir um visual à altura da outra capital, a deslumbrante, rica, culta e musical Viena, Budapeste recebeu vultosos investimentos para que se modernizasse e desabrochasse em termos de arquitetura. A partir daí, pipocou a construção de edifícios grandiosos e belíssimo: o Parlamento, inspirado no londrino Palácio de Westminster e um dos cartões-postais locais; a Casa de Ópera, ponto de encontro da sociedade para apreciar ópera e musica erudita; o Palácio das Artes; e outras construções de respeito, compondo um dos conjuntos mais bonitos e harmônicos da Europa. 
          Mais do que visuais encantadores, vigiados aqui e ali pelo Rio Danúbio e entremeados por muitos capítulos da história, os bons vivants ainda viverão experiências caprichadas em Budapeste. Entre elas, degustar vinhos de grande qualidade – apesar da produção pequena, a Hungria tem fabricantes respeitados – e comer em restaurantes estrelados sem gastar os tubos; fazer compras na maior rua do comércio local, a Váci Utca; e descansar tantas descobertas nas frequentadíssimas termas. Banhar-se nas água quentes que brotam do solo é um hábito tão corrente, que dizem por lá, tanto quanto um bar e café prediletos, os moradores também têm sua terma favorita. Mas deixe o relax à moda húngara para o fim da viagem. Antes é preciso deixar-se levar pelas ruelas, praças e pontes que conduzem às atrações essenciais, como o Bairro do Castelo (Var Negyed, em húngaro), nas colinas da cidade.

Budapeste do Alto

     O Bairro do Castelo é um dos pontos mais visitados de Budapeste. A 170 metros acima do nível do Danúbio – que está longe de ser azul, como sugere o titulo da mais conhecida valsa do compositor austríaco Johann Strauss -, o platô abriga os mais importantes museus e monumentos medievais da capital. O passeio começa ainda aos pés do monte, na bonita Ponte das Correntes, outro símbolo local. Inaugurada em 1849 e decorada com imponentes leões, a estrutura foi a primeira a ligar as cidades de Buda e de Peste. Isso mesmo. Até 1873, peste, na parte plana e com cara mais “moderna”, e Buda, o lado antigo, com direito a muralhas e parcialmente erguido nas colinas, eram municípios independentes, unidos pouco depois da anexação da Hungria ao IMPÉRIO Austro-Húngaro para “encorpar” uma das sedes da monarquia.
     Dá para chegar a pé ou de ônibus ao topo do morro, mas o jeito mais divertido é a bordo do clássico funicular bordô com detalhes amarelos que deixa os visitantes na entrada do Palácio real. O castelo foi refeito pelo menos seis vezes nos últimos séculos e, na parte detrás, ainda se avistam as ruínas do edifício que remonta ao período medieval. Atualmente, o espaço abriga dois importantes museus, a Galeria Nacional e o Museu de História de Budapeste, e ainda a Biblioteca Nacional. A visita à galeria vale não só pela importantes coleção dedicada às pinturas do gótico tardio, mas pela possibilidade de conhecer artistas húngaros e o retrato de diversas histórias e tradições do país. Alem dos quadros com a recorrente temática da batalha contra os turcos otomanos – um dos muitos povos que ocuparam a Hungria -, há alguns trabalhos que mostram homens virando baldes d´água em camponesas. O que pode parecer uma simples brincadeira é uma tradição ainda hoje posta em prática na Páscoa, a locsolás. A premissa é que as moças são como flores e, como tal, desabrocham na primavera, ficando ainda mais belas quando recebem água. Por isso, as jovens costumavam levar baldes inteiros de água na cabeça ou eram até jogadas no rio. Atualmente, porém, a diversão foi reduzida a alguns pingos d´água para celebrar o fim do inverno.

     Outras atrações nessas bandas são as cavernas subterrâneas, escavadas pelas nascentes termais que abastecem os complexos de banhos quentes da cidade (veja o Box na pág. 115). Para saber tudo sobre as termas de Budapeste, clique aqui.  Ao longo dos 28 Km, há 200 cavernas que se entrelaçam no subsolo, uma parte formada naturalmente e outra aberta pelo homem para servir de abrigo durante as guerras. Algumas, como a que está perto do castelo, podem ser visitadas. De volta às ruas de Buda e com a bem-vinda luz do dia como companhia, siga para o Portão de Viena, ornado com a icônica águia virada para Peste e que marca a entrada da cidade medieval. Um dos pontos é a Praça Trinity, onde está a “diferentona” Igreja de São Mateus. Nela se destaca o lindo telhado de mosaicos coloridos, seguindo o formato de flores e que junta a robusta base que remonta ao século 13; a decoração gótica, do século 15; e alguns detalhes deixados pelos otomanos, que a usaram como mesquita.
      Com esse aspecto único, o templo foi palco de diversas coroações. Uma delas foi a do casal Francisco José I e Elizabeth da Baviera, a bela Sissi, aclamados imperadores da Áustria e reis da Hungria, pacto que selou a dupla monarquia em 1867, formando o Império Austro- Húngaro. Foi então que surgiram dois Estados e dois parlamentos, com sede em Viena e Budapeste. O acordo durou até 1918, quando o término da Primeira Guerra Mundial trouxe o fim do império, que se fragmentou em países como – finalmente – a Hungria. Ao lado da Igreja de São Mateus está o Buda Hill, o primeiro hotel de luxo da Budapeste pós-guerra. O projeto arquitetônico foi bem-sucedido ao combinar uma estrutura moderna com as ruins de um mosteiro dominicano do século 13. Os vitrais de mosaico do templo vizinho refletem nos vidros alaranjados do hotel, formando um magnífico jogo de imagens.


      Um bom lugar para admirar esse contraste é do Bastião dos Pescadores, fortaleza bastante visitada tanto por sua bela estrutura como pela completa vista que descortina de Budapeste. O nome faz alusão aos pescadores que, na Idade Media, também se empenhavam em ali formar uma primeira linha de defesa do castelo. Já as sete grandiosas torres que dominam a construção representam as setes tribos magiares, nome dado ao povo húngaro na língua local, que chegaram à Bacia dos Cárpatos no ano 896. Em frente ao complexo, a escultura de Santo Estevão, primeiro rei da Hungria, que cristianizou o país, completa o cenário histórico.

Símbolos Nacionais

       Ao contemplar a paisagem dali do Bastião dos Pescadores, uma construção com uma imensa cúpula avermelhada, ladeada por torres pontiagudas, se impõe na outra margem do Danúbio, em Peste. Trata-se do Parlamento Húngaro, que dali ou de pertinho, os turistas não se cansam de fotografar. Para os nativos, porém, mais do que a imponência do edifício  e sua importância política, o Parlamento é um lugar de respeito e até adoração. É que a construção guarda, na área do marcante domo central, a coroa do rei Estevão, que subiu ao trono do ano 1000, considerada símbolo nacional. Para vê-la, é preciso juntar—se à visita oficial oferecida pela casa. “A coroa é como uma pessoas, a quem juramos lealdade e respeito”, diz a guia, enquanto os guardiões, a cada cinco minutos, saúdam a peça com movimentos de espada e dizeres em húngaro.
      Durante o tour, a guia também fala sobre a importância da localização da maior edificação do país. “É um contraponto à grandiosa estrutura do castelo, em Buda, e um sinal de mudança política, em que os princípios democráticos se opõem á aristocracia”, explica. Ela conta ainda que o  parlamento, alem de ter 700 cômodos, é uma minicidade. “Aqui há de farmácia a salão de cabeleireiro”, comenta. Na mesma região, na Praça Szent István, encontra-se a Basílica de São Estevão, a mais importante da Hungria. Se no Parlamento vê-se a coroa usada pelo rei Estevão, no templo está a mão direita mumificada do monarca, santificado pela igreja por ter consolidado o cristianismo no país. No entanto, olhando a caixa de vidro onde o membro é conservado, mal dá para perceber que aquilo é uma mão, coisa bem compreensível, já que o rei morreu no ano 1038. Impressionante mesmo são as fotos do processo de mumificação, também exibidas ali.

Traumas Históricos
      Se o passado longínquo da Hungria é motivo de orgulho nacional, o mesmo não se pode dizer da história recente do país. As feridas deixadas pelos nazistas e comunistas são intensamente expostas em locais como a Casa do Terror (Terror Háza), onde há uma bem estruturada e interativa mostra permanente chamada Dupla Ocupação. Autenticidade não falta ao espaço, que abrigou a “casa lealdade”, antiga sede do Partido Nazista húngaro e, mais tarde, da policia secreta comunista, a Ávo. No pátio do prédio, um tanque soviético e fotos de vitimas de perseguição e seus torturadores recepcionam os visitantes. No subsolo estão as antigas celas, algumas tão pequenas que sequer é possível ficar agachado, além de solitárias e quartos com paredes chias de espuma para abafar os gritos de quem estava sendo “interrogado”. A sala destinada a explicar a Revolução de 1956 – iniciada em 23 de outubro daquele ano, quando os 50 mil universitários protestaram contra os desmandos soviéticos e exigiram mudanças no governo – traz vídeos com as passeatas e a brutal repressão russa. Entre os símbolos que marcaram a revolta , destaca-se a bandeira da Hungria com um buraco no meio, assim representada por causa da retirada da foice e do martelo comunistas.
      O passado difícil e sangrento também se faz notar à beira do romântico e esplendoroso Danúbio, onde 60 pares de sapatos antigos, forjados em ferro, relembram os judeus que foram fuzilados e caíram nas águas do rio. As atrocidades do período nazistas também são contadas no Museu Judaico da Sinagoga, na Rua Dohany, onde há uma sala destinada ao Holocausto. Mais leve de visitar é o grande salão do museu que exibe relíquias religiosas e objetos usados durante as festividades judaicas. Em termos arquitetônicos, o templo também dá um show, pois é a maior sinagoga da Europa e a segunda maior no mundo, atrás apenas da Emanuel-El, em Nova York. No lado norte dela, há um Memorial do Holocausto, com o monumento Árvores da Vida, cujas folhas de metal exibem os nomes das vitimas locais do regime nazista e os campos onde elas perderam suas vidas, em 1944 e 1945



      O topo do Monte Gellért, ao lado da colina onde está o Palácio Real – e onde hoje casais e outros turistas passeiam encantados por conta do ponto de vista que oferece de toda a cidade -, é mais um ponto que representa inúmeros conflitos em que a Hungria se envolveu nos últimos séculos. Antes da ditadura comunista em cena, os “bonzinhos” dos soviéticos construíram em 1947, ali no alto, na Szabadság (Praça da Liberdade), estátua de uma mulher segurando um ramo de folhas. Erguido em frente à antiga cidadela, a gigantesca obra celebra a libertação de Budapeste da ocupação alemã. No fim, saiu um dominador ruim e entrou outro pior. Ou vice-versa. Já a fortificação ao redor da qual o monumento foi erguido pelos austríacos, foi feita para prevenir levantes de independência em 1848 e 1849. As muralhas, porém, nunca tiveram serventia, graças à virada política e ao acordo de dupla monarquia entre Áustria e Hungria.

Renascimento Cultural

      Apesar da contrariedade em integrar o Império Austro-Húngaro, foi justamente nesse período que Budapeste desabrochou economicamente, intelectual e culturalmente. Os grandes bulevares, inspirados nos de Paris; a Ópera que reunia a fina flor da sociedade para apreciar a música de compositores como o húngaro Franz Liszt (1811-1866); o Palácio das Artes; e o Parlamento foram erguidos durante o governo que juntou os dois vizinhos. Também é dessa época a confeitaria Gerbeaud, que desde 1870 funciona na agitada praça Vörösmarty, em Peste. O espaço, que ainda mantém o aspecto aristocrático de outrora por conta dos lustres enormes e tapeçarias, é ponto de encontro da elite de Budapeste, que ali se reúne para degustar as mais famosas tortas e doces da cidade. Só de olhar a colorida torre criada com macarons, disposta sobre o balcão, já se fica com água na boca.

      Outro estabelecimento dos antigos e muito bem conceituado é o New York Café, de 1894, que ostenta luxuosos relógios e arcos dourados. A casa funciona junto de um hotel, onde as pessoas fazem fila para poder saborear o deliciosos bufê de café da manha, servido até meio-dia. Já o tradicional restaurante Gundel, o mais famoso da cidade desde 1894, serve clássicos da culinária húngara, como peixes e goulash, caldo à base de carne bovina ou suína e que leva batata, cenoura, cebola e páprica, muito usado nas receitas do país. Entre as iguarias que não devem ser ignoradas estão os kürtöskalácsI, pães em forma de rolo, assados e cobertos com açúcar e canela (a cobertura também pode ser de chocolate, baunilha ou amendoas). Qualquer barraca de comida nas praças ou cafés da agitada rua de compras Váci Utca oferecem o doce, criado na Transilvânia – que pertenceu à Hungria e hoje é parte da Romênia – para aproveitar as sobras de pão do dia anterior. Prove também os vinhos húngaros, especialmente os das marcas Gere e Bock. Para experimentar esses e outros rótulos, uma boa pedida são as degustações da loja Magyar Borok Háza (Casa de Vinhos Húngaros), situada arás do Bastião dos Pescadores.

A Curva do Danúbio

       Se tiver um pouco mais de tempo, inclua um vilarejo de nome quase impronunciável, Szentendre, na programação. Esse lugar, a meros 20 Km de Budapeste, é famoso nas redondezas por conta da curva do Danúbio (Duna Kanyar), ponto em que o rio corre por um estreito vale. De trem, o trajeto dura cerca de 30 minutos, mas o caminho feito pelos barcos de passeio é infinitamente mais bonito. A cidadezinha, embora constantemente tomada de turistas, mantém o charme provinciano, surpreende pela quantidade de igrejas, como a Catedral Belgrado, inusitadamente pintada de vermelho. E elas são ortodoxas, algo diferente em um país predominantemente católico. Isso se explica pelo fato se Szentendre ter sido fundada por sérvios, tradicionalmente cristãos ortodoxos, que fugiam da invasão otomana pelo sul, durante a Idade Média.
            Nessa pitoresca vizinhança, os turistas circulam pelas barracas de artesanato, comidas típicas, suvenires e roupas, que diariamente se espalham próximas às margens do Danúbio. Ma bom mesmo é bater pernas a esmo – topando com praças como a Fo Ter, que claro, abriga mais uma igreja ortodoxa -, para depois sentar-se à beira do rio para descansar e tomar sol. Ao retornar a Budapeste de barco, você terá o privilégio de sentir uma vez mais a brisa do Danúbio e de admirar a deslumbrante arquitetura da cidade, pomposamente espalhadas às margens do rio. Certamente agora, depois de tamanho contato com a complicada, porém vitoriosa história húngara, você concorde que a capital tem mesmo um bocadinho de Moscou e um punhado de inspiração parisienses. Mas há  toda uma singularidade que faz de Budapeste um esplêndido cartão de visita das belezas do Leste Europeu, que sem a pesada Corina de Ferro comunista cada vez mais soa como o destino da hora do Velho Continente. 




Informações Gerais

As melhores termas de Budapeste

Populares ou sofisticados, banhos termais entram no roteiro

(Texto originalmente publicado na revista Viaje Mais! Jun. 2013)

          Por estar localizada na falha geológica que separa a área montanhosa de Buda e a planície Peste, Budapeste tem a dádiva de contar com um solo do qual brotam, diariamente, 70 milhões de litros de água naturalmente aquecidas, que transformam a cidade em um grande spa metropolitano. São 123 termas, que abastecem piscinas e jacuzzis com água na temperatura entre 21ºC a 78ºC, uma experiência realmente escaldante. É por isso que, na capital, diz-se que cada morador não tem somente um bar ou café favorito, mas também sua casa de banho.

          As ruínas da cidade romana (Aquincum) no distrito de Óbuda, ao lado de Buda, mostram que os romanos já usavam as termas há mais de dois mil anos. Ainda assim, a tradição só se incorporou à rotina local com a chegada dos turcos otomanos, em 1541-1686. A mais turca das termas é a Rudas, em funcionamento há 500 anos. Seu interior é um pouco escuro e moldado com estruturas de ferro, que seguram as antigas colunas e também são o ponto onde os visitantes penduram toalhas. No meio, fica uma grande piscina octogonal, circundada por quatro piscinas menores, para que o freguês siga o ritual de alternar banhos na temperatura de 28º, 30º, 36 e 42ºC. Às sextas e sábados, a casa, que recebe homens e mulheres, abre também durante a madrugada. Já que roupas de banho são obrigatórias, não há razão para acanhamento.

sábado, 15 de junho de 2013

A Festa na Krämerbrücke

Hoje uma porção de pessoas em Erfurt resolveu saçaricar pela cidade em seus trajes medievais. O cenário também estava um pouco diferente do habitual, cheio de barracas de madeira, utensílios de ferro, cerâmica, além de artesanatos e uma multidão de visitantes. Desde 1975, em junho, a cidade abriga por três dias a Krämerbrückfest. No ano passado, cerca de 150 mil pessoas marcaram presença nas estreitas ruas em torno do rio, muitas vestidas à caráter, tomando cerveja em copos de barro! Nem todo mundo gosta de brincar de Games of Thrones, por isso tem também músicos, artistas vestidos de borboletas verdes e até mesmo alemães brincando de índio (ou Adão- Adão). Olha só a foto...