domingo, 12 de abril de 2020

Ressureição

Em um domingo de Páscoa, ela chegou a conclusão que Natal é superestimado. Nascimento de Jesus... grande merda. Qualquer um nasce, até Bolsonaros nascem. Foda mesmo é ressuscitar, essa ela queria ver (ou crer). Apesar de extremamente religiosa, dependendo do dia, resolveu, por assim dizer, ser uma católica devota e comemorar a Páscoa apesar das condições restritas impostas pelo corona vírus e a peste enviada por causa dessa geração Easy Jet. A culpa só poderia mesmo ser deles. Se criassem raízes em seus bairros, comprassem casa, cassassem, reproduzissem e morressem no seu vaso, não espalhariam essa bodega. Mas não era o momento de apontar os dedos. Ninguém “normal” pensou em culpar os libertinos pelo surto da Aids nos anos 80.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Flaneurs de Instagram: diário de quarentena

Quando saí da Alemanha há duas semanas, as ruelas da pequena Erfurt, capital do Estado da Turíngia, já estavam fantasmagóricas. O aeroporto de Nuremberg operava de modo improvisado, com parte da infraestrutura interditada. Ao chegar em Londres, encontrei algo excepcionalmente distante do cenário narrado em O Homem da Multidão. Allan Poe também deve estar lá com José Saramago no céu dos escritores, observando de camarote celestino essa mutação do espaço urbano moderno.

quinta-feira, 26 de março de 2020

Ressuscitem o Saramago!


Se existisse um céu de escritores, José Saramago estaria mesmo por lá, bem puto da vida aliás, pisoteando enraivecido uma harpa angelical e irritante. Provavelmente, baseado no Evangelho Segundo Jesus Cristo, chamaria Deus de uma grande ingrato, vingativo e lazarento. Aquela mente genial pensou numa situação hipotética em que todos ficavam cegos e nos deu o brilhante “Ensaio sobre a Cegueira”. Anos depois, em “Ensaio sobre a Lucidez”, mostrou o que ocorreria se uma população inteira votasse em branco. Se nós brasileiros lêssemos mais, resolveríamos a dicotomia do ódio ao PT ou o voto num acéfalo nazistinha desse modo. Mas sem política. De volta à literatura. Saramago ainda criou em “As Intermitências da Morte” uma narrativa em que ninguém mais morria, e se assim o quisesse seria necessário atravessar a fronteira do hipotético país. Tudo isso pra dizer que estou aqui na minha quarentena londrina, fazendo uma reivindicação com a cúpula espiritual para que ressuscistem o Saramago. Nem ele previu que um vírus batizado com nome de cerveja deixaria a população mundial (com algumas exceções, em casos de países com governantes menos pensantes que lombrigas parasitárias) trancafiada em suas casas. 

sexta-feira, 20 de março de 2020

Covid-19 e a epopeia para defender uma tese em meio ao pandemônio


Terminar o doutorado é um rito de passagem que marca sim (desculpa a chorumela) a vida acadêmica das pessoas. É um momento importante e eu tinha certeza que escreveria um post traduzindo meus agradecimentos para o português ou, sei lá, gritando para toda a Internet o quanto estava aliviada. Mas o pânico que eu sentia em imaginar a sabatina dos examinadores foi, ao longo dos últimos sete dias, transformando-se no desespero da dúvida se a prova aconteceria ou não. Aconteceu. Foi um gol de pênalti marcado no último milésimo de minuto do segundo tempo em final de copa do mundo. A última vez que segundos fizeram a diferença na minha vida, um avião da TAM despencou no meio da 23 de maio em São Paulo e meu carro conseguiu parar antes do fogaréu.

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

A curiosidade matou o gato! Quem é esse sádico revisor?

Dar asas às minhas paranoias é uma fonte inesgotável de posts. Vamos dizer ao “meu fantástico mundo de Bob” para não parecer assim tão patológica! É fácil criar histórias com as compras de supermercado dos outros, os livros que as pessoas leem no ônibus ou as manias que deixam transparecer mesmo quando tentam esconde-las. Ah, quase esqueci. A playlist do Spotify é um manancial de diversão e elucubrações disparatadas. Como esse cara legal consegue escutar esse sujeito tão chato? Quem gosta de Brian Eno anyway? Trilha sonora pra sal de frutas, mais entediante que filosofar o nada. Pra mim, ficar matutando essas coisas é uma distração off-line interessante, um processo quase terapêutico. Claro, se estamos plantados na fila do caixa, sentados no metrô abarrotado ou entediados numa sala de espera. O problema é quando essas distrações começam a atrapalhar sua produção diária. 

terça-feira, 12 de novembro de 2019

Berlim: 30 anos depois da queda do muro


Esse post parece mais um Déjà-vu. Já escrevi reportagens sobre os vinte anos da queda do muro, posts sobre os 25 e aqui estou eu de novo 30 anos depois. Embora seja um dos maiores acontecimentos do século 20, nem Freud explica essa minha obsessão. Tenho lembranças do ocorrido, numa perspectiva claramente infantil de uma criança de seis anos. Meu jantar que não vinha, minha avó paralisada em frente a TV e a Globo anunciando a musiquinha do plantão. Coisas estranhas da vida. Mal imaginava à época que moraria por quase dez anos em cidades na Alemanha Oriental e completaria grande parte da minha vida acadêmica por lá. Só queria mesmo ser astronauta, pintora ou aeromoça pra poder viajar.  

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Cambridge em um Fim de Semana

A cidade é uma boa opção para um passeio de fim de semana, um aconchego bucólico de outono quando cansamos da caótica e intensa moça londrina. Mas é difícil desassociar o destino no condado de Cambridgeshire com seu clima estudantil e os nomes mais cabeçudos da história inglesa. Tanto que um grande número de colleges compõe a lista dos pontos turísticos mais visitados por aqui. Ao pisar no centro histórico, a capela da King’s College domina o reino do conhecimento (e estampa os panos de pratos mais bregas do interior britânico). Um ícone da arquitetura gótica, com vitrais coloridíssimos e teto de abóbodas brancas, é um must-see dos guias de viagem. Mas, diferente de outros países europeus, a universidade aqui não mantém as portas abertas para a sociedade civil. Well, ao menos que se abra a carteira! Em Berlim, podemos entrar na Humboldt, passear pelos corredores, admirar os dizeres de Marx gravados no mármore sem nenhum problema. Por outro lado, em Cambridge, o hobby dos porteiros é barrar visitantes na entrada como se fossem homens-bombas no Heathrow. Há inclusive histórias constrangedoras de professores questionados à entrada por não se encaixarem no padrão de vestimenta “lorde inglês”. Fato é que o total de 31 colleges, embora nem todos abertos à visitação, pode ser um problema pro bolso.

domingo, 15 de setembro de 2019

A casa do Freud em Londres

Tenho um prazer enorme em bisbilhotar à casa alheia pelas janelas entreabertas. Acho ainda mais interessante se ninguém estiver presente. Assim, posso criar a figura de um personagem, um morador fictício, baseada nos objetos que compõem o cômodo bisbilhotado. A indiscrição é tanta que até já ganhei um livro de fotos de janelas parisienses, exibindo a vida privada da cidade. Por essa mesma lógica, gosto também de visitar museus que outrora foram residências de escritores, artistas ou intelectuais. Já vasculhei os antigos lares de Goethe, Schiller, Nietzsche, Otto Dix, Thomas Mann, Shakespeare, Van Gogh, Picasso... Recentemente, inseri na lista a última morada de Freud, na Maresfield Gardens, número 20, no charmoso bairro de Hampstead, em Londres.