Alguém compartilha comigo a sensação de estar sempre perdendo alguma coisa lá fora pelo mundo? Não importa o quanto eu caminhe, conheça ou descubra, há sempre o sentimento de que ainda falta algo. Assim, sobrecarrego sempre a agenda com novos planos, atividades, viagens em um espaço de tempo curtíssimo só para não deixar escapar nem sequer uma mísera experiência ou a possibilidade de conhecer pessoas diferentes. Sabe quando acabamos de chegar, as malas ainda estão pela casa e tudo que queremos é exatamente ficar no nosso canto, mas não resistimos em ir ao encontro com os amigos naquela mesma noite? Ou querer em três meses preparar uma festa de casamento, continuar no trabalho, terminar a pós-graduação, aprender alemão e preparar uma mudança internacional?
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quinta-feira, 15 de agosto de 2013
sexta-feira, 2 de agosto de 2013
Praga de Varsóvia — o bairro alternativo da capital da Polônia
Para não criar falsas expectativas, é preciso
avisar de antemão. Não se trata de um post sobre a capital da República Tcheca
e seu charmoso relógio astronômico. Refiro-me aqui a Praga, de Varsóvia. Sim,
um excêntrico bairro, cheio de mistérios e esquisitices. A área é muitas vezes
ignorada pelos turistas, embora seja somente uma estação de bonde do centro
histórico, bem do outro lado do rio Vístula. Por lá se vê a vida da cidade como
ela é, ou era!
Aqui estão
algumas imagens da pobre, mas charmosa e cheia de personalidade Praga:
http://pekuliaridades.blogspot.de/2013/08/praga-em-varsovia.html
http://pekuliaridades.blogspot.de/2013/08/praga-em-varsovia.html
Perambular
por suas ruas é como estar no set de gravações do Polanski em o Pianista. As
marcas de balas ainda estão nos prédios, de paredes escurecidas e antigas,
especialmente na rua Zabkowska. Embora haja um quê de abandono, sempre cruzamos
com passantes de olhares curiosos, muitas vezes também hostis. Aconselha-se
evitar os pátios das construções e becos durante à noite, mas antes do sol
bater o cartão na saída, bisbilhotar esses esconderijos urbanos é uma
experiência peculiar. Em diversos pátios há um altar com uma Nossa Senhora
Aparecida. Bem brega, daquelas com acolchoados e luzinhas colorida em volta.
Haja fé para tanta estética de mau gosto. Acesa, claro, para iluminar a vida de
todos que entram e saem.
Apesar do
aspecto “caído”, porque ainda não dá para chamar de underground, Praga é o
lugar para se estar. Lá estão os bares e baladas mais bem cotados de Varsóvia,
freqüentado pelos poloneses baladeiros, além da marcante presença de artistas
que não conseguem manter suas galerias nos bairros mais nobres. Mas também não dá
para criar muita esperança. A coisa ainda está longe de ser (o que era)
Montmartre, Brooklyn ou Prenzlauerberg. Embora a biografia do bairro caminhe na
mesma direção que seus primos descolados em outras capitais.
Hoje,
nos portões de uma antiga fábrica de vodka, de tijolinhos vermelhos, já há
anúncios de financiamento de lofts e escritórios. O que acontecerá com a balada
lá dentro (que esquisitamente tem cadeiras de dentistas num quarto sombrio) e o
galpão todo bacana - um misto de ateliê com mercado de pulgas cheio de
bugigangas-, ninguém sabe. É como estar diante da Kulturbrauerei, em Berlim, só
que com muito mais improvisação.
Entre muros e paredes pichadas, o ideal é
terminar a noite no bar Absurdu. A
casa serve os drinks mais fortes (muitas vezes picantes da cidade). Se eu tiver
coragem, ainda postarei minhas caras e bocas durante a degustação de uma vodca
com pimenta tabasco. Depois da virada é que vem o retrogosto para soltar fogo
pelas ventas! Com o efeito, deixamos até de nos importar que a mesa, na
verdade, é uma tábua de máquina de costura, com a engenhoca fincada bem no
meio, o que atrapalharia um “escravos de Jó” com os shots de vodka. Mas isso é
só um detalhe.
E ao sair
arrependido da bebedeira, dá sempre pra pedir um perdão para a nossa senhora
que ilumina o trabalho do Barman. É sério! Se a fila estiver grande, não se
preocupe, há outros oratórios perto do banheiro!
quinta-feira, 25 de julho de 2013
Auschwitz e seus rostos
Esta é Czeslawa
Kwoka! Eu gostaria de contar sua história, mas não sei absolutamente nada sobre ela. O único fato conhecido é que chegou em Auschwitz em 13 de dezembro de
1942 e por lá perdeu a vida em 12 de março de 1943. Somente três meses! Uma garotinha polonesa de
14 anos, com uma faixa xadrez em torno do cabelo. Qual era sua comida favorita,
o que ela gostava de ler e como se distraía nas longas noites de inverno? Será
que alguém hoje, em algum lugar do mundo, ainda é capaz de responder tais
perguntas? O que sobrou desta criança além de uma foto em um memorial? Visitar
Auschwitz é sempre uma experiência estranha e não é bem pelos 110 mil sapatos
de prisioneiros ou pelos restos de cabelos cortados das vítimas, mas sim porque
lá as pessoas têm rostos. Mais interessante do que a sensação de cruzar o
portão de Birkenau e ver os longos trilhos do trem, mostrado por Spielberg na
lista de Schindler, é encontrar as imagens das pessoas que (sobre)viveram e morreram
ali. Ainda me pergunto se Czeslawa vive na memória de alguém ou se todos que
poderiam contar alguma coisa sobre seu jeito, personalidade ou gostos também
foram exterminados. Que tipo de mulher ela teria se tornado se tivesse
sobrevivido? Apesar de trágico, Auschwitz se tornou um local “turístico”, mesmo
que a entrada seja somente acompanhada por um guia em uma visita guiada de 4
horas, nas opções mais enxutas. Há lojas de souvenires, mesmo que só com
livros, pequenas coisas para comer ou beber. Por isso, acho importante encontrar rostos, afinal não se trata de 6 milhões de exterminados, mas também
da Czeslawa e de seus olhos pretos desolados.
Para algumas imagens do memorial:
http://pekuliaridades.blogspot.de/2013/07/horrores-de-auschwitz-birkenau.html
http://pekuliaridades.blogspot.de/2013/07/horrores-de-auschwitz-birkenau.html
Desta sua colega (aí em cima) eu sequer sei o
nome. Só recordo de seus olhos úmidos e chorosos. Alguns adultos ou mesmo idosos ainda mantinham um
olhar firme, um fio quase extinto de dignidade, mesmo que emoldurada. Cabeças raspadas, levemente
erguidas, pupilas fitando a câmera como se de algum modo essas pessoas soubessem que ficariam o resto da vida presas naqueles retratos, olhando o que
aconteceria ao mundo que fez aquilo com elas. Já outros pareciam mais fracos e
tomados pelo cansaço. Embaixo de cada retrato está a data de chegada no campo e
da respectiva morte. Tentei evitar um pouco daqueles olhares, todos pendurados
naquele corredor, talvez por vergonha do mundo, mas analisava todas as datas. Quando
achava eventualmente alguém que resistira por um ano ou um pouco mais, superava
o receio e encarava longamente sua imagem. Seria esta pessoa mais forte que as
outras, mais resistentes à injustiças? O que ela teria feito para agüentar
assim tanto tempo? É possível "comemorar" alguns meses a mais de vida
naquelas condições? Sem perceber exclamei, “poxa, que azar!, este aqui faleceu
dias antes da libertação”. Envergonhei-me. Talvez aquele prisioneiro nem quisesse ter
sobrevivido, já estivesse apático a tudo, mas há sempre aquela sensação de “morrer
afogado na beira da praia”. Será que algum daqueles rostos eram donos de uma
das 3.800 malas, muitas marcadas com o nome do “viajante”, dos 12 mil
utensílios de cozinha, óculos ou próteses dentárias? Se pudessem escolher, será
que elas gostariam de passar a eternidade ali, nos corredores do mesmo local
onde perderam a vida, olhando para as curiosas gerações futuras?
terça-feira, 23 de julho de 2013
Lembranças de Viagem
É difícil evitar, mesmo no caso dos mais
comedidos, não trazer algumas recordações da tão esperada viagem de férias,
certo? Mas, em vez de abarrotar as malas com aqueles souvenires chatos, caros e
que todo mundo tem, dá para “mirabolar” algumas idéias bem criativas e, o mais
importante, sem desperdiçar as valiosas verdinhas. Conheço uma pessoa, por
exemplo, que coleciona rótulos de cerveja. Assim, ao degustar uma gelada fora
de sua terra natal, o logo da bebida vai direto para a sua carteira. Bacana
mesmo é escolher as versões mais locais possíveis, que não sejam exportadas e
consumidas mundo afora. Por que não experimentar e guardar depois como
lembrança o rótulo da Taybeh Beer, Polar, Glacial ou da Sarajevsko?
Copos com
logos legais também não precisam ser comprados. Tem um monte de garçom generoso
que dá de presente aos turistas simpáticos. Um outro casal de amigos teve uma
ideia genial para recordar suas andanças pelo mundo. Eles compram vinhos,
aqueles específicos para envelhecer na garrafa, trazem para casa e só abrem
depois de dez anos, talvez olhando as fotos tiradas durante o passeio. Vale o
lembrete: todo recipiente com líquido deve ser despachado na mala! É bom também
evitar o Duty Free que não terá uma
pessoa para ajudá-lo a escolher a bebida por um valor acessível e ideal para
esperar tanto tempo. Mas antes que alguém desconfie da ideia ou do preço desse
hábito, dá para encontrar vinhos bons na Europa por coisa de 15 ou 20 euros. A
mesma quantia dada a um boné ou uma camiseta! Para quem não é muito chegado em
vinho, uma boa pedida são outras bebidas nacionais para sentir o gostinho do
país: Pálinkas (um brand de frutas húngaro), Limoncello (licor italiano), Ouzu
(bebida grega à base de anis) ou até, por que não?, uma vodca russa ou polonesa!
Gosto
ainda de trazer jornais com a data que estive na cidade. Independentemente da
língua, já que a proposta não é necessariamente lê-los. Colunas inteiras
escritas no alfabeto cirílico, árabe, hebreu, chinês ou japonês! Experimente só
ler uma revista (mesmo que só as imagens) de trás para frente em Israel! Para
que souvenir? Elas estão ali, todas especiais e disponíveis na cadeira do
avião! Os mais ousadinhos podem comprar Playboys por aí. E nada que
mexa mais com os sentidos e as lembranças do que uma boa música. Um CD
escolhido a dedo de canções locais não ocupa espaço na bagagem e garantirá
memórias por um longo tempo. Peça dicas aos moradores da cidade!
Há coisas
ainda mais simples, tiradas da própria natureza. As folhas das árvores ficam
vermelhas, bem vermelhinhas, durante o outono Europeu. É só colocá-las entre as
páginas de algum livro. E que tal pedrinhas brancas das praias no sul da
França, blocos de sal do Mar Morto, um punhado de areia do deserto ou das dunas
do Nordeste? Só não vale arrancar tulipas dos canteiros na primavera! Os
mercados de rua também são um arsenal de lembranças. Degustou um prato
especial, gostou e quer relembrar o aroma daquela iguaria? Corra nos mercadões
da cidade e leve os temperos para perfumar o retorno ao lar!
quarta-feira, 10 de julho de 2013
Spacekid Headcup Weimar
Todo feriado do dia 01 de
maio tem passeata de neo-nazista marcada. Tem também os protestos da esquerda
para tentar impedir a extrema direita. Aí eles se encontram... Em Berlim, a
coisa costumava ficar pesada. Embora esse ambiente não seja lá muito propício
para estrangeiros, não dá para morar por aqui e não ir bisbilhotar o que se
passa, certo? Uma vez na capital fiquei ao lado do cara com banquinho da
Reuters e outro da DPA. Gente neutra. Quando eles saíram correndo, sai atrás. Entrei
na estação Alexanderplatz e, em seguida, a polícia bloqueou todas as entradas.
Não sei mais o que houve do lado de fora. Peguei o S-Bahn pra bem longe da
muvuca, sem pronunciar uma palavra, por via das dúvidas. Semana passada já
recebi os email do grupo da universidade que organizava as contra-passeatas em
Erfurt, mas não me animei muito não.
sábado, 6 de julho de 2013
Berlim Comunicativa
Hoje é um daqueles dias que classifico típico
da “geração Easy Jet”. Acordar
numa cidade, deixar as malas em qualquer luggage room, andar o dia inteiro, entrar em algum trem ou
avião e chegar cansada para dormir em outra capital. A vida anda meio acelerada,
o tempo caminha a passos gigantes. De volta a Berlim, custa-me acreditar que já
não moro aqui há dois anos. Enfiada na longa e lenta linha U2 sentido Mitte,
naquela sensação de “caminho da roça” decidi visitar o museu de comunicação. Não
sabia bem onde ficava, mas graças ao meu aparato tecnológico, computador nas
costas e smartphone em mãos, achei sem grandes dificuldades a Leipizger Straße.
É uma travessa da Friedrichstraße, dava para ter achado sem a ajuda da BVG e
seu aplicativo, só perguntando pra alguém mesmo.
domingo, 30 de junho de 2013
Marcha dos mindinhos
Quando era mais nova achava bem do esquisito esse papo do Brás Cubas de que as “botas apertadas são uma das maiores venturas da Terra”, mas com o tempo passei não só a entender, como também a concordar. Libertar os dedos espremidos e esmagados pela botina numa sensação prazerosa de liberdade e alivio é uma metáfora que serve é bem pra muita coisa.
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