sexta-feira, 13 de abril de 2012

Sempre uma primeira vez!


Pra tudo na vida, como diz meu título aí em cima, existe uma primeira vez! Até semana passada, com quase trinta anos, eu nunca tinha colocado os pés (ou melhor, o traseiro) numa Business Class. E quem me conhece, sabe bem que eu não desembolsei nem um centavo por isso. Mesmo que eu tivesse a grana, não pagaria. Acho (desculpe os mais abastados) uma afetação. Ta bom! Com exceção daqueles que precisam realmente dormir no desconforto de um avião para trabalhar no dia seguinte ou que têm algum problema de tamanho ou saúde.
Eu gosto mesmo é de voar de Easy Jet, Ryanair, German Wings ou qualquer outra lata velha que voe. É mais emocionante. Pelo mesmo motivo também não gosto de andar de táxi durante as estadias. Pois então. Eu que sempre viajo ouvindo as rifas das raspadinhas promocionais da  Ryanair, com os olhos lacrimejando por causa do ambiente azul-amarelão, dando cotoveladas para conseguir um espaço no bagageiro da aeronave e com calça fusô e aquela belezura dos sapatos crocs para sobreviver ao aperto do ar, fui parar no conforto da Business.
Culpa do overbooking da Lufthansa que quase destruiu meu feriado da Páscoa. Vou pular a parte do chilique e do furdúncio na hora do embarque, afinal como a própria atendente disse “toda companhia vende mais passagens que a capacidade do avião”. É porque ela não voa de Easy Jet. Isso nunca me aconteceu nos teco- tecos. Apesar de bem contente com o pedido de desculpas da companhia, fiquei pasma ao ver o avião decolar com as tais cadeiras vazias na Business (aquelas destinadas ao nosso conforto, só para o apoio de casacos e bolsas) e gente lá no aeroporto esmolando por um assento. Momento jeca-tatu: eu nem sabia que na Business a poltrona do lado fica mesmo vazia, somente com uma etiqueta “para o seu conforto”.

 Quase chamei a aeromoça para dizer que eu não me importaria se alguém atrapalhasse o meu bem-estar ali do lado. Bom, depois que todos nós estávamos acomodados e a aeronave partiu, percebi que o meu lanchinho ia ser deveras mais incrementado. Para um vôo rápido de uma hora, salmão defumado com cream cheese, cuscuz marroquino com groselha seca, omelete com presunto parma e mousse de chocolate. Momento jeca-tatu 2: tudo de louça, porcelaninhas brancas. Nada daquela quentinha de alumínio com tampa de papelão que eles dão aos pobres mortais! E sem a retórica: “massa ou carne”? O melhor de tudo é ser o primeiro a desembarcar sem ter que ficar batendo a cabeça para resgatar a mala de mão.
Algo atípico aconteceu nessa viagem. Depois disso tudo, ainda fomos para o hotel de traslado. Calma. Antes que alguém atire a primeira pedra (afinal, eu sempre digo que translado é a maior queimação de filme), o hotel oferecia o serviço de graça e não há trens ou linhas de ônibus que liguem o centro ao aeroporto. E entre pegar uma carona gratuita ou pagar um táxi....
Voltei para casa de classe econômica. Nem as “quentinhas” serviram. Só um croissant frio, de queijo....Eu queria ter tirado uma foto das loucinhas brancas pra deixar aqui no post, mas não quis dar na cara que não estava habituada a tanto mimo!  Essa aí de cima não foi clicada com a nossa máquina.
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Obs.: dedico o post a um amigo do meu tio que chamaria isso de atitude proletária da juventude. Pena que não deu tempo dele ouvir isso para poder fazer piada!  


quinta-feira, 12 de abril de 2012

A polêmica Günter Grass


Desde semana passada, quando o prêmio Nobel de literatura alemã publicou seu poema “was gesagt werden muss” (o que deve ser dito) no caderno de cultura do jornal “Süddeutsche Zeitung“, a poeira não baixa e o autor não deixa mais as páginas do jornal do mundo inteiro. Pensei até em traduzir o poema, mas acabei encontrando duas boas versões em português, no site da Revista Cult e de um grupo pró-Palestina. Tem momentos em que a situação é tão complicada que é melhor ficar quieto e só observar. A questão Israel-Palestina é uma delas. Eu sempre tive a impressão que é muito difícil criticar a política de Israel aqui na Alemanha sem ser chamado de anti-semita. Acontece o tempo todo com os grupos de esquerda (die Link), por exemplo. Pra mim, que cresci e estudei no Brasil, a crítica não faz o menor sentido. Como grupos de esquerda podem ser anti-semitas? O mesmo tem acontecido com Günter Grass. Não sei se posso chamá-lo de um “ícone da esquerda alemã”, mas meu primeiro contato com o autor foi por conta dos seus textos sobre a reunificação do país. Acusado pela revista “Der Spiegel” e seu ex-chefe de redação Rudolf Augstein de ser contra o processo político da época, Grass defendia uma reunificação menos acelerada para que os grupos de oposição na Alemanha Oriental tivessem tempo de se consolidar. Assim como Habermas, ele não achava democrático a RDA ser anexada à Alemanha Ocidental. Em seu livro- diário de 1990, Grass relata todo o processo com um olhar digno em relação à história dos cidadãos da Alemanha oriental. Mas essa é uma outra discussão.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Um outro olhar (2)


Por que as pessoas não podem ser enterradas em um vale? Essa pergunta deveria ser respondida num post anterior  quando contei as esquisitices que já presenciei em cemitérios: http://pekuliaridades.blogspot.de/2012/03/um-outro-olhar.html. Mas à época ainda não tinha deparado com tal questionamento do cronista Miljenko Jergovic em seu livro “Sarajevo Marlboro”. Também não havia visitado a capital da Bósnia- Herzegovina e escalado montanha acima para lembrar do texto e refutar a ideia inicial de que o autor é um "xarope".
Os cemitérios em Sarajevo ficam, em geral, nas montanhas que circundam a cidade. A vista é sempre muito bonita. Lá de cima é possível narrar toda a vida do falecido e apontar tudo o que aconteceu: a padaria que ele trabalhava no bairro de Grbavica, a casa em que morou com a esposa em Kovacici e outras peripécias vivenciadas na região. Assim, somente as crianças, que não tem uma longa história de vida a ser contada ou trapaceiros e ladrões que precisam esconder seus feitos são enterrados no vale. Observação que só faz sentido mesmo para a geografia de Sarajevo. Então tá!.
Eu não ando perseguindo cemitérios, mas é que há tantos na cidade que é praticamente impossível não parar em um deles. As campas também são ligeiramente diferentes. Nunca estive num cemitério islâmico e apesar de detestar tumbas, achei o retângulo branco com uma pequena pirâmide em cima relativamente bonito (Foto). Mas estranho mesmo é perambular pelas tumbas e ver que praticamente todo mundo morreu entre 1992 e 1995, durante a guerra da Bósnia. Só em Sarajevo foram 11.541 vítimas. É uma imensidão de túmulos com essa data. E como não havia espaço suficiente, as tumbas foram cavadas em parques e até mesmo estádios de futebol. As passagens do Alcorão cravadas na pedra são às que se referem aos mártires. 
Hoje os Bosniaks já podem subir as montanhas e contar a história de seus mortos, apontando os pontos da cidade. Durante a guerra até mesmo a cerimônia de sepultamento era complexa. Quem quisesse enterrar seus amigos e familiares tinham de fazê-lo à noite para não ser atingido pelos atiradores de elite escondidos nas montanhas. Para todas essas 11.541 pessoas que repousam sobre as montanhas de Sarajevo, ocorreu um concerto no dia 06 de abril (sexta-feira passada), data em que começou o conflito há vinte anos. Não dava para ver ninguém nas 11.541 cadeiras em frente ao palco, mas vai saber se elas, de fato, não estavam por lá! 


terça-feira, 3 de abril de 2012

Entre Sérvios e Croatas


Já estou queimando a caixola há duas semanas para entender o imbróglio na Bósnia antes de aterrissar por lá - as duas instâncias administrativas, a supervisão internacional, o acordo de paz de Dayton e o sentimento entre croatas, sérvios e islâmicos. Esta é deveras a pior parte! E “entender” foi mesmo um termo presunçoso. Já desisti. Se nem eles mesmos depois de séculos de convivência (do Império Otomano, ao Austro-Húngaro até a extinta Yugoslávia) tem lá as suas dificuldades... Vamos dizer que estou tentando ter uma ideia do que se passa. Independentemente do termo para a minha inspeção, achei, imersa entre filmes e livros, uma crônica do escritor Semezdin Mehmedinovic, no seu livro Sarajevo Blues, que relata algumas lembranças da guerra (1992-1995) bastante marcantes.
O autor, exilado político nos Estados Unidos desde 1996, afirma contundentemente que “a guerra começou em um domingo”. Ele explica. No dia do descanso semanal ele jogava bola com os amigos. A pelada era um ato religioso. Mas, exatamente naquele domingo, um dos camaradas não compareceu. Ninguém deu muita importância ao fato e o time entrou em campo como sempre. Depois, como de costume, reuniram-se para tomar cerveja até o horário permitido pela partida do último ônibus. A jornada deveria ser curta se não fosse por um grupo de encapuzados parar e invadir o veículo. No meio do tumulto, ele reconhece o amigo, aquele mesmo que não deu as caras na pelada, e atônito pergunta: “ Sljuka, é você”? Antigos parceiros de futebol, adversário na guerra.
No outro dia, o caso era transmitido pela televisão e Mehmedinovic ouvia as declarações de Radovan Karadzic. O impronunciável nome refere-se mesmo ao líder do partido nacionalista sérvio, médico psiquiatra e também (pasmem!) poeta. O autor, indignado com as mentiras espalhadas pelos quatro cantos pelo líder do país, foi a estante de livros do filho. Lá estava a obra de poesias infantis de Karadzic. Começou a rasgá-la com toda a fúria, interrompido pelo choro do garoto que não entendia o motivo daquilo tudo e protestava na tentativa de salvar sua obra infantil predileta. 
Mehmedinovic diz conhecer Karadzic do círculo de escritores. Conta como o líder nacionalista não tinha mesmo uma carreira promissora como escritor (com exceção dos textos direcionados às crianças) e lembra de pequenas conversas. Em uma delas Karadzic contava sobre um filme que tinha assistido na noite anterior: “A escolha de Sofia”. Narrava a performance da Meryl Streep em frente ao dilema imposto por um soldado nazista. Um de seus filhos poderia sobreviver desde que o outro morresse. Mehmedinovic se lembrava sempre deste diálogo quando ouvia casos semelhantes ocorrerem em campos sérvios. Não que o autor tivesse muito tempo para recordar as elucubrações do líder nacionalista. Durante a guerra ele estava mesmo ocupado com sua  sobrevivência.
Só para mostrar como a tal limpeza étnica não fazia sentido, o escritor abriu a lista telefônica para procurar registros do sobrenome “Karadzic”. 10 Karadzic(s) eram de origem islâmica, nove vinham da Sérvia e um da Croácia. A irracionalidade da guerra foi mostrada também por uma boa lista de filmes. O mais recente, “Land of Blood und Honey”, em que Jolie estréia como diretora e lota salas na Berlinale 2012, apesar de não ter concorrido oficialmente. A trama mostra o conflito do soldado sérvio Daniel (Goran Kostic) que mantém um relacionamento com a pintora mulçumana Ajla (Zena Marjanovic) em um dos campos para prisioneiras. O filme é bom, apesar de ter recebido inúmeras criticas de entidades da própria Bósnia, que acusou Jolie de manter a clássica dicotomia do conflito:  os sérvios como 100% do mal e os mulçumanos como 100% oprimidos, sem muito contexto histórico.
O vencedor da Berlinale 2006, “Grbavica, The Land of my Dreams” da diretora bósnia Jasmila Zbanic situa a narrativa no pós guerra. Relatos do conflito de uma garota que descobre que seu pai não era um herói de guerra e sim um soldado estuprador. Deixarei uma listinha de filmes sobre a Guerra da Bósnia e o quão intenso o conflito ainda está presente por lá, conto na volta!

Storm (2009), de Hans-Christian Schmid.
Grbavica, The Land of my Dreams (2006), de Jasmila Zbanic.
Gori Vatra (2003), de Pjer Zalica.
No Man´s Land (2001), de Danis Tanovic.
Land of Blood und Honey (2012), de Angelina Jolie.



sábado, 31 de março de 2012

Um outro olhar


       Nunca gostei muito de cemitérios. Também conheço poucos que gostem. Se tiver tumbas, pior ainda. Coisa de mal gosto, macabra. Tudo bem, já encarei o Père-Lachaise em Paris para visitar o Morrison, o Kardec, a Piaf, além de outros cemitérios por aí. Os da Escandinávia parecem parques. São até bonitos. Mas depois que meu pai faleceu, passei a freqüentar mais e por outros motivos (pelo menos enquanto estava na cidade) o condomínio daqueles que se foram. Desculpe pelo eufemismo! Fato é que, ao longo de tantas idas e vindas, comecei a notar coisas curiosas, intrigantes e até, por que não, engraçadas.

       Sem sacanagem, os “vizinhos do meu pai” se chamam Virgulino e Brisolino. Percebi essa esquisitice quando estava arrumando as flores no chão e não consegui imaginar o quão “puto” meu pai ficaria se soubesse disso. Pois bem. Também juro que não é brincadeira: o coveiro encarregado de regar os vasos de flores do meu pai durante a semana, até o próximo domingo, se apresenta como o “Sombra”. Mesmo a administração do cemitério se refere a ele assim.

       Comecei depois disso a olhar algumas placas para ver se achava mais nomes engraçados. Não tive lá muito sucesso. Acabei encontrando mesmo um casal que morreu junto no mesmo dia. Só pode ter sido acidente, né? A poucas quadras dali, está um bebê que viveu menos de um mês e seu irmão gêmeo que agüentou somente alguns dias a mais. Siameses que não sobreviveram a cirurgia da separação? Eu sei que é feio especular sobre a morte alheia, mas está lá bem no meio do caminho. Parece estranho, mas dá para elucubrar bastante sobre a vida dos que partiram só pelo que as famílias deixam sobre suas novas casas: ursinhos de pelúcia, cata-ventos, sapos de gesso, plaquinhas de madeira e por aí vai. Acho todas as coisas muito simpáticas. Cada qual com seu estilo. Mas tenho que admitir minha repulsa pelas flores de plástico. Será que é tão difícil assim lidar com a morte que precisamos desses objetozinhos irritantes, exibindo sua fria eternidade?

         Em uma das minhas visitas fui surpreendida por uma salva de palmas. Enquanto eu conversava com o meu pai, ocorria um enterro alguns metros dali. Os aplausos serviam de trilha sonora para a descida do caixão. Minutos antes, quando a família subia a rampa em procissão rumo a sepultura, tive que dar uma cotovelada no marido que  olhava a cena atônito e ameaçava rebolar os quadris cantarolando: “e atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu”. Sei lá, né! Cada louco com a sua mania. E por falar em louco, em um outro velório de um conhecido, a família substituiu as palmas pela canção “Maluco Beleza”. A terra caía sobre o caixão e os amigos cantarolavam: “Enquanto você se esforça pra ser um sujeito normal”... A pedido do próprio falecido, ainda em vida, lógico! No dia do velório do meu pai (que muito estranhamente aconteceu no dia do aniversário da minha mãe), acho que enterraram algum fanático por escola de samba. Pelos menos a bateria estava toda lá em peso. Não, eles não soltaram o samba. Pudera! Mas só davam no tambor (Bummm) de forma mais cerimonial. Sambista ou budista, sei lá.

           Fiquei pensando agora como não seria entrevistar o Sombra. Se eu, em apenas três semanas, vi tantas coisas assim, imagina ele com vários anos de carreira e expertise! Pautinha para dia de finados? Não, sério. Cada um deve ter lá o seu jeito de superar a dor, não? Eu, por exemplo, desci até a floricultura do cemitério e pedi um buque de rosas para presente. Rosas vermelhas, grandes e cheia de fitas. Quando o pobre funcionário percebeu que eu ia subir sentido às campas, olhou assustado para a chefe e exclamou se justificando: “ela disse que era presente”! A moça posicionada bem em frente ao caixa riu e respondeu: “não deixa de ser, não”! Piscou e apresentou a facada. Nunca compre flores no próprio cemitério! Dava para ter bancado uma caixa enorme de chocolates da Kopenhagen, apesar do presente não ser apropriado para a ocasião.

        Em uma visita a um cemitério em Stockholm, indicado pelo guia Lonely Planet, passamos por um túmulo com a foto de um belo rapaz. Foi inevitável. Paramos lá em frente e começamos a comentar que só poderia ser acidente de carro e como a vida, às vezes, é ingrata. Não ficamos ali mais que alguns segundos, quando demos de cara com a família do moço. Fizemos um sinal da cruz, trocamos olhares e saímos sem falar nada para que eles não notassem nosso perfil de turista curioso. O pai, a mãe e possivelmente o irmão abriram as cadeiras de plástico (tipo de praia) e sentaram lá com o filho. No Père-Lachaise uma moça misteriosa, bonita, com batom vermelho e véu na cabeça colocava comida sobre uma das tumbas!

         Bom, e hoje a família está reunida (novamente!) para velar a bisa que depois de dar com o “pau de macarrão” em muita gente, resolveu ir cozinhar (aos 92 anos!) spaghetti com braciola no céu. Se alguém ver mais alguma peculiaridade por lá, não esqueçam de compartilhar! Rá!
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Obs.: não citarei nomes para não invadir a esfera privada alheia. Mas daria um outro post sobre pedidos estranhos que sempre escuto: ser enterrado de meias, servir pão de queijo e vinho quente no velório, ser doado para faculdades de medicina, repousar direto na terra sem caixão e por aí vai! Ainda perguntarei ao Sombra se ele já foi testemunha de outras bizarrices!

quinta-feira, 29 de março de 2012

Do Cáucaso ao Afeganistão

Para segurar a franja caída na testa, a senhora na faixa dos 40 anos usava um lenço azul marinho com flores coloridinhas. Enquanto abria a massa sobre uma mesa verde musgo, cheia de farinha, dava instruções às outras garotas. As explicações eram curtas, dadas somente por meio de palavras soltas, não chegavam a formar uma frase completa. Edilia vem do Cáucaso, mora em um apartamento para refugiados com os três filhos homens e o marido, em Weimar, na rua Ettersburger. “Tenho quatro filhos, porque meu marido também é como uma criança”, diz. Sobre os problemas em sua região, ninguém entra em detalhes. É difícil identificar pelos traços se ela poderia vir da Tchetchênia, da Óssetia do sul ou do norte. Dona de traços marcantes, semelhante aos da Glória Pires, ela está mesmo preocupada em preparar seu Pelmeni, aquela massa cozida, recheada com carne, e coberta por molho branco azedo. Ela trouxe um livro de receitas russas para mostrar às amigas.
Uma delas, do Afeganistão, ajuda a cortar a massa em rodelas. Como não há fôrmas apropriadas, ela usa mesmo a boca de um copo de vidro. De tempos em tempos, Edilia mostra como se faz, ressaltando que é preciso pressão para conseguirmos círculos de massa bem definidos. De cabelos pretos enrolados, na altura dos ombros, a moça do Afeganistão ajuda na preparação da guloseima sobre saltinhos pretos, bem arrumada de calça jeans e blusa verde limão. Um leve batom avermelhado marca seus traços, pelo menos até começar a comilança. Ela tenta me ensinar a pronunciar seu nome corretamente. Uma outra garota do Afeganistão,  bem magrinha, de pouca estatura e com olhos um pouco mais puxados, dá risada da minha pronuncia horrível. Edilia só escuta e comenta: “olha aí as duas terroristas amigas do Osama”. Elas riem. Rapidamente Edília pergunta às colegas do Afeganistão se elas realmente acreditam que Bin Laden esteja morto. “Pra mim ele continua escondido, mas agora lá nas montanhas do Paquistão”, diz contundente. Silêncio. Assunto complicado transmitido em alemão por falantes do russo e do persa. Ruído na comunicação. Todas se focam novamente na preparação dos pelmenis.
Trata-se de um dia de diversão. Duas vezes por mês, elas se reúnem (sem os maridos) para uma tarde de receitas e bate papo. Problemas políticos e burocracia não entram na pauta. Os únicos homens que caminhavam pela sala, tinham um e três anos. Um deles era filho de uma moça do Irã. Quieta, ela só observava. De vez em quando, conversava em persa com as duas companheiras do Afeganistão. Ao notarem minha cara de perplexidade, elas me explicaram as semelhanças e diferenças entre o persa de cada região. Algo como o alemão na Suíça ou na Áustria. A Iraniana balbuciava poucas palavras na língua germânica. A Anne, que acompanha as reuniões, tentava marcar uma excursão para o próximo mês. Com olhar de interrogação, a afegã, segurando o filhinho no colo, perguntou o que era uma excursão. Depois de tudo esclarecido, elas traduziam em persa para a iraniana do jeito que dava.
Nessa altura do campeonato, Edilia já estava jogando seus pelmenis na água quente. Quando voltou à mesa cheia de farinha, uma das moças já tinha aberto a outra massa. Ela olhou, amassou tudo com as mãos, fez outra bola e começou a abrir a massa de novo. “Estava muito fina”, reclamou. Quando terminou, raspou as mãos umas nas outras, as bateu no avental, olhou pra mim e disse: “como você não é alemã?”. Atordoada porque eu tinha pele clara, ela ouvia uma das alemãs explicar a miscigenação do Brasil. “Mas você sabe sambar, então?”. Tive de decepcioná-la mais uma vez. “Eu sei, as mulheres (normais) não fazem isso, né?”. Como não entendi bem qual a definição de normal disse que não sabia bem. 
Depois de todas se sentarem à mesa, com exceção de Edilia que não parava de limpar e cozinhar mais e mais, todas voltaram pra conversa. Mesmo de longe, a cozinheira oficial vinha à mesa dar alguns conselhos. “Você deveria ter mais um bebê”, disse a iraniana, que chacoalhava a cabeça em tom de negativa. “Esses garotos crescem, saem por aí com as mulheres, e não querem mais saber das mamas”, esclareceu a razão do conselho. Perto das 19h30, elas limparam tudo voando. Uma varria, a outra lavava as louças, outras embrulhavam os 50 quilos de comida que sobrara. Muitas delas não ficam fora de casa à noite. As quatros mulheres saíram então correndo, com sacolas e carrinhos de bebês em direção ao ponto de ônibus. Agora só no próximo mês.

domingo, 29 de janeiro de 2012

SP-160


São Paulo, 8h da manhã. A Avenida 23 de Maio e Marginais Pinheiro e Tietê já estão congestionadas.  A maioria das crianças está na escola, seus pais já chegaram aos escritórios e as principais manchetes do dia já foram lidas. A falida polícia continuará na “cracolândia”, o FMI precisa de um fundo de 500 bilhões para socorrer a crise europeia e a perícia ainda investiga o naufrágio do cruzeiro na costa italiana. A esta altura os pregões da Bovespa e da Nasdaq já estão abertos. Tensão no mundo árabe aumenta o preço do petróleo.  Malabaristas já começaram o expediente nos faróis da Faria Lima e Avenida Paulista.

Nesse meio tempo,  um homem perdido na multidão em busca da posse da sua individualidade, à la Baudelaire, deixa sua casa. Sozinho, mesmo que rodeado por uma barulhenta cidade com 17 milhões de habitantes. Olha de vez em quando jornais atirados ao chão. Não que ele se interesse pelas notícias. Mais importante é o cabeçalho com a data do ano. Contra a corrente dos 7 milhões de carro da frota paulistana ele vai a pé. Da rua Vapabuçu, sentido avenida dos Bandeirantes rumo à Imigrantes, ele cruza religiosamente todos os dias a Serra do Mar. Apesar do fluxo de veículos, o ar parece mais puro e a natureza mais viva. Todos os dias, ida e volta ao longo de muitos anos.  O tempo que ele demora para ir e voltar é suficiente para que milhares de executivos cheguem de ponte aérea ao Rio de Janeiro, compareçam a suas reuniões e voltem para seus escritórios na capital paulista.

Quando os bancários já assumiram seus caixas, os executivos suas mesas e os médicos deixaram os plantões, ele sai no seu mundo paralelo em busca de um sentido para aquilo tudo. Comia o que a natureza local tinha a oferecer. Não era lá muita coisa. O sol às vezes castigava, queimava, ardia. Nem sempre havia água. Mas ele seguia como se aquela caminhada fosse uma superação daquele cotidiano frenético, o qual ele tentava evitar. Uma afirmação desesperada em nome de uma liberdade fictícia. Observava o ecossistema e suas duras regras. Deixava sua casa sem água, sem comida, sem mochila, sem protetor solar. A única coisa que levava consigo, às vezes, eram sacos plásticos de lixo. Os animais mortos, atropelados pelos carros em alta velocidade, atirados no meio da pista, mexiam com ele. Era impossível dar um descanso decente para cada um deles. Seria como remar contra a maré. Todos os dias, algum bichinho perdia a vida ali, na dura realidade da pista de concreto, na radicalização da vida urbana. Então, ele os cobria com um saco plástico para preservar a dignidade daqueles corpos já sem vida. Um ato de piedade, bom senso ou até mesmo loucura para muitos.

Um dia, às 21h15 de 19 de janeiro, chegou sua vez. Era o risco que corria por atrapalhar o fluxo da vida e o cotidiano de todos aqueles veículos. Não precisou ser coberto por um plástico para ser protegido do descaso do mundo. Foi resgatado, mesmo que depois de alguns minutos sob a forte chuva de verão. A realidade ficava cada vez menos peculiar. A vida era incerta, as idéias confusas. As lembranças pararam no tempo. Mas mesmo assim o pregão das bolsas de valores abriu pontualmente no dia seguinte como se nada além do usual tivesse se passado na rodovia SP-160.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Marrocos: Marrakesh, um reveillón do deserto do Saara e os encantos das Montanhas Atlas


Marrocos
Para ir além de Marrakesh 
(Texto originalmente publicado na revista Viaje Mais! Nov.2011)

(Regina Cazzamatta)

Depois de perambular pelas ruas e mercados da famosa cidade marroquina, aventure-se num tour que conjuga as gélidas montanhas da Cordilheira do Atlas e o deserto do Saara

Pouco antes de o avião pousar no aeroporto internacional de Marrakesh, a segunda maior cidade do Marrocos, é possível admirar uma parte da estonteante Cordilheira do Atlas, aos pés da qual o local foi construído. Ainda mais próximo do momento da aterrissagem, dá para  ver uma vastidão de casas rosadas, que permitem entender por que Marrakesh é conhecida como a “cidade vermelha” e “pérola do sul”.
Nesse instante, a imaginação fala mais alto e as imagens das histórias infantis relacionadas às exóticas regiões desérticas vêm à cabeça, incluindo tapetes voadores, dunas e mais dunas de areia, passeios de camelo, encantadores de cobras, comerciantes oferecendo toda sorte de mercadorias... Mas a presença de alguns desses símbolos é somente uma prévia do que as confusas e misteriosas ruas do centro histórico, ponto da cidade chamado pelos marroquinos de medina, podem oferecer.
Localizada na porção central do Marrocos, Marrakesh vale a viagem não só pelas atrações histórico-culturais tombadas pela Unesco, mas também pelos passeios que exploram suas paisagens para lá de extremas e diversificadas, que incluem vales rochosos, o Deserto do Saara e a Cordilheira do Atlas, cujo ponto mais alto ultrapassa os 4 mil metros de altitude.
 Fundada entre os anos de 1070 e 1072 pelos berberes da Dinastia Almoravid - povo com uma cultura de mais de 4 mil anos e que vivia principalmente no Marrocos e no Senegal, antes da chegada dos árabes-, Marrakesh foi um importante centro político e cultural. As reminiscências desse período ainda estão lá na região da medina e na principal praça local, a Djemaa El-Fna.
Djemaa El-Fna
Caminhar nessa movimentada área dá a impressão de que se está participando de um show de auditório. Adestradores de macacos fazem gracejos com seus animais; serpentes das mais diversas espécies (sempre há najas no grupo) rastejam sobre o chão, levantam o olhar e mostram a língua sob o som das flautas de seus donos; malabaristas amontoam-se em pirâmides, fazem shows, arriscam acrobacias e até engolem fogo, enquanto tatuadores de hena esperam as clientes debaixo de seus guarda-sóis. Por todos os cantos da praça, há “iscas” para turistas curiosos.
Em troca de alguns dirhams, o dinheiro marroquino, os mais corajosos podem até tirar fotos com uma cobra enlaçada ao pescoço - a gorjeta também dá direito a uma bênção em nome de Alá. Porém, antes de sair disparando inúmeros cliques, é de bom-tom pedir para tirar fotografias. E então, quando receber a autorização, o preço da brincadeira será anunciado.
Junto e Misturado
Não são somente os forasteiros que circulam por Djemaa El-Fna. A área é bastante frequentada pelos locais e, por isso mesmo, fornece uma excelente oportunidade para observar as diversas facetas desta cidade tão influenciada pela cultura árabe e islâmica.
Mulheres de burca, somente com os olhos à mostra, se misturam àquelas com roupas ocidentais e cabelos ao vento. Outras evitam as vestes mulçumanas e , em termos religiosos, usam só um lenço sobre a cabeça – modernas, elas cruzam as ruas da medina a bordo de mobiletes. Mas nem todas estão pela praça só de passagem: muitas param para curtir as atrações do pedaço como a pescaria de refrigerantes, semelhante à das nossas festas juninas, quando diferentes itens podem ser fisgados.
 Bastante popular entre os nativos também são as rodas de gnawa, uma mistura de sons religiosos dos povos subsaarianos, berberes e árabes. Se um flash incomodar os músicos, certamente eles mostrarão o chapéu de moedas, de um jeito aborrecido, pedindo uma recompensa. Por outro lado, eles podem até lhe oferecer um banquinho de plástico caso percebam que o viajante está interessado em escutar e conhecer melhor o ritmo.


No entorno da praça, há diversos cafés e restaurantes com terraço, que propiciam uma espetacular e avermelhada vista do pôr do sol, regada a chá de hortelã. Um pouco antes da noite cair, além das coloridas barracas que vendem frutas secas e sucos, pequenos restaurantes das redondezas montam tendas do lado de fora do empreendimento. Geralmente com preços bem camaradas, a experiência é um convite ao pecado da gula e é embalada pela mistura de temperos aromáticos, azeites, carnes e peixes.
Para os que não sucumbem diante da possibilidade de experimentar um prato diferente, há opções exóticas como as sopas de caramujo ao vapor e ensopado de cérebro de carneiro. Você poderá experimentar um prato delicioso quando o garçom lhe trouxer fumegantes tajines, ensopados que vão para a brasa dentro de um recipiente de barro em forma de cone. Os tajines mais tradicionais são os de frango com limões sicilianos e azeitonas.
Versões sofisticadas do prato, com carnes suculentas, são encontradas no restaurante Tangia (14 Derb Jedid, Mellah). A casa também entretém a clientela refinada com apresentações de dança do ventre e moças que equilibram velas e lustres sob suas cabeças.
Comer e dormir num riad


Outra experiência gastronômica muito recomendada é o cuscuz marroquino, preparado com sêmola de trigo, condimentos e carnes ao gosto do freguês, que pode ser desde aves até carneiro, sem contar as versões vegetarianas.
Bons lugares para degustar as iguarias marroquinas são os restaurantes dentro dos riads. Mansões antigas, esses complexos são divididos em quatro partes e têm um pátio interno, onda há uma fonte ao centro. Localizados dentro da medina, tais casarões pertenceram a ricos comerciantes, conselheiros ou membro da família real marroquina. Com o passar do tempo, as propriedades foram vendidas e transformadas pelos europeus como uma nova forma de hospedagem.
Em Marrakesh, estão os mais preservados e exuberantes de todo o norte da África, datados do século 17. Atrás dos grossos tijolos de barro, um oásis de tranqüilidade e silêncio invade essas mansões-hotéis. Mesmo localizadas na medina, é como se toda a agitação dos mercados e o vibrante cotidiano do centro ficassem para trás.

 Mais do que se hospedar luxuosamente à moda marroquina, os riads são um meio de conhecer melhor a cultura local e usufruir de serviços personalizados. Em outras palavras, o complexo possibilita um grande contato com os locais, que ficam muito contentes quando o visitante pronuncia alguma palavra em árabe, como shukran (obrigado), apesar de o francês, por conta do país ter colonizado o Marrocos, ser bem difundido entre eles.
Outra vantagem de ficar nesses hotéis é que ali costuma-se oferecer massagens e típicos tratamentos à base de lama, chamados hammas. Aproveite porque é mesmo tradição ser “empanado” e rolado na lama. Alem dos riads, tais terapias são oferecidas em casa de banho encontrada por toda cidade. A diferença é que nessas a freqüência avassaladora é de nativos.
Uma vez numa casa de banho, o primeiro procedimento é lavar o corpo com um sabonete negro. A seguir, a tebbaya (atendente de banho) enche um balde de madeira com água quente e o despeja sobre a cabeça do freqüentador. Então ela abre um saquinho com o produto à base de lama e o mistura com água, obtendo uma pasta, que é aplicada por todo o corpo e fica agindo por alguns minutos.
O tratamento, uma espécie de esfoliação, é utilizada pelos berberes há milênios e parece surtir efeito. Quando aliado a massagens relaxantes, a combinação é perfeita.  Em relação aos Riads, os preços das casa de banho pública costumam ser mais baratos, mas é preciso levar colchão de plástico, chinelo e toalha. Sem contar as barreiras lingüísticas, afinal, é bem provável que a assistente de banho lhe dê as instruções em árabe.
Paciência para pechinchar
E é bom mesmo estar bastante relaxado antes de entrar nos souqs, mercados centrais situados nas estreitas ruas da medina, onde negociação, herança indelével dos árabes, é a palavra-chave. Isso porque preços fixos existem apenas em poucas lojas, que trabalham em cooperativas.
Para entrar nesse “jogo de sedução”, é preciso alguns dias de treino para passar a tratar o processo da pechincha como um desafio instigante, e não como sinônimo de cansaço e estresse. Por isso, não perca a cabeça e tente aproveitar para adquirir produtos locais como lenços típicos, luminárias, artigos, para o preparo de tajines, chás, ervas aromáticas e medicinais, velas, temperos e pedras a preços ínfimos.
Mesmo que o turista diga um “não” convicto diante do valor oferecido, o vendedor segue perguntando: “Você realmente gostou?” ou “Quanto quer pagar por esta peça então?”. Se, na sua opinião, o preço ainda não é satisfatório, deixe a loja, sem medo. Possivelmente, ele correrá atrás do comprador e concordará com sua proposta. Em alguns casos, apos o negócio ser selado, o comerciante pode convidá-lo para um chá no dia seguinte, quando ele mostrará mais produtos. Desta vez, sem compromisso.
Em meio a esse turbilhão de pessoas e conversas, cinco vezes ao dia uma voz, seguida por uma música marcante, ecoa por toda a cidade, chamando os fiéis para a salah (reza). Nesse momento, muitas lojas baixam temporariamente suas portas. Pausas nas negociações regadas a chás.
Entre tapetes e mosaicos
O chamado leva muitos mulçumanos à Mesquita “Koutoubia Minaret”, dona de uma torre de 70 metros, que marca a paisagem da cidade desde o século 12. Embora a entrada seja restritas aos fiéis, é possível passear pelos jardins e observar o movimento. Também em templos menores dentro dos souqs, dá para avistar um pouquinho da entrada, decorada com tapetes magníficos, e ver os homens deixando os sapatos do lado de fora, num clima de muita religiosidade e tranqüilidade.

Para saciar a curiosidade de como são os templos por dentro, é recomendável a visita a antiga escola do alcorão “Ali Ben Youssef Medersa”. Fundada no século 14 e em funcionamento até 1962, a escola foi a maior do Norte da África e ainda permanece esplendorosa. Assim, chamam a atenção os balcões de madeira trabalhada e pisos e paredes de mosaicos coloridos. Os 130 quartos serviam de morada aos 900 estudantes, que se debruçavam sobre as leis do Alcorão. E a vida não era fácil: além da disciplina e do intenso ritmo de orações, todos os aprendizes dividiam apenas um banheiro.
Outra mesquita famosa de Marrakesh é a Kasbah, que leva ao mausoléu do sultão Ahmed El- Mansour, morto em 1603. Nesse local, ele mandou constuir cerca de 170 túmulos ricamente ornamentados, dedicados às esposas, empregados e parentes. A mãe do sultão, por sua vez, possui um mausoléu próprio, também decotado com opulência.
Para conhecer mais o estilo de vida dos antigos e megalomaníacos sultões, o Palácio La Bahia (A Bonita) é uma boa pedida. Ali, em uma área de oito hectares, espalham-se 150 deslumbrantes quartos, que abrigavam, no século 19, o harém de Abu Ahmed, que tinha quatro esposas e 24 concubinas.
Durante a visita, o guia local explica a razão para a existência de tantas fontes, jardins e áreas abertas. Como as escolhidas do monarca não participavam da vida pública, não freqüentavam os mercados e não podiam ser vistas por outras pessoas, essas idílicas áreas eram o máximo do mundo externo a que elas tinham acesso. Outra parada interessante é o Museu de Marrakesh, um palácio do século 19 recém- restaurado. A construção é emblemática para a cidade porque, em 1965, ali funcionou a primeira escola para mulheres de Marrakesh.
Rumo às areias do Saara
         Ainda que Marrakesh represente muitíssimo bem todo o exotismo e a “mágica” – ou pesadelo, dependendo do que espera o turista – atribuído ao Marrocos, como atestou o ex-primeiro-ministro britânico Winston Churchill, que em suas memórias rasgou elogios à cidade, a oportunidade de seguir viagem rumo à região central e ao deserto não pode ser desperdiçada.

           Somente se afastando em definitivo do ritmo da cidade, de sua medina e de seus souqs e mesquitas apinhados de gente é que se torna possível captar melhor a cultura dos berberes, principalmente nas regiões montanhosas. Após sobreviverem as invasões árabes e muito mais tardiamente à espanhola e francesa, os berberes mantiveram resquícios de sua cultura em aldeias como as localizadas na Cordilheira do Atlas. A cadeia montanhosa, com uma extensão de 2.400 Km no norte da África – cortando alem do Marrocos, a Argélia e a Tunísia -, é um belíssimo ponto de passagem para se alcançar as areias douradas do deserto. Mesmo segurando-se na poltrona do carro e suando de tensão por causa da tortuosa e estreita estrada de mão dupla, vale a pena encarar o trajeto rumo ao topo da montanha. De Marrakesh, a viagem até o ponto mais alto dura cerca de três horas de carro. Recomenda-se passar a noite em alguma pousada nas montanhas, ver o nascer do sol - deslumbrante e gelado- e só então seguir rumo ao deserto.

 Mesmo para os mais aventureiros, é aconselhável contratar os serviços de uma agência de viagem local. Afinal,percorrer o deserto é uma tarefa complicada, não só pela extrema dificuldade de localização e pelas tempestades de areia, mas também porque é muito fácil ficar atolado. Um guia local não só passa segurança, como também oferece longos bate papos sobre a cultura e as tradições da região. Geralmente, as excursões reúnem pequenos grupos. Além do motorista, mais quatro pessoas dividem caminhonetes 4x4.
        A paisagem é fantástica. É tão grandiosa e isolada que, caso você gritasse, certamente ninguém lhe ouviria. Da Cordilheira do Atlas até o Saara, o caminho vez por outra revela cidades pequenas, vales e oásis. Saindo cedo, dá para fazer diversas paradas pelo caminho e ainda alcançar o deserto antes do pôr do sol.
A primeira pausa é no Kasbah Ait Benhaddou, a 32 Km do município de Ouarzazate. Típicos da região, os kasbahs  são cidadelas com fins de defesa. Eles foram criados e comandados pelas antigas famílias que detinham o poder e ficam em pontos onde já houve interesse comercial por açúcar, sal ou ouro.
Ali, a paisagem já está mais árida, o solo é rachado e bastante pedregoso. É possível que alguns viajantes reconheçam o kasbah de imediato. Tombado pela Unesco, o complexo serviu de cenário para filmes como o Gladiador, Jesus de Nazaré, Lourenço da Arábia e A Jóia do Nilo. Estima-se que a construção de tijolos avermelhados seja do século 11, mas com uma ajudinha de Hollywood, a fortificação está praticamente nova em folha.
De volta a estrada, o guia aponta uma área cheia de pedras. É um cemitério da região que quase passaria desapercebido. Lá, os túmulos femininos são marcados com duas pedras e os masculinos, com três. Não há nomes. “Quando vamos ao cemitério, não importa quem descansa ali”, diz o guia. “Visitamos e oramos por todo mundo”, completa ele.
A próxima cidade no caminho é a Ouarzazate, que exibe o Kasbah Taorirt, onde os povos da Cordilheira do Atlas e dos Vales Draa e Dadis faziam negócios. Nos anos de 1950, a indústria cinematográfica  também descobriu essa pequena cidade, que logrou aos cinéfilos o estúdio Atlas Film Corporaions, que pode ser visitado. Com truques de filmagem, a paisagem da região se transmutou em diversos cenários, como Roma, Tibet, Somália ou Egito. Agora sim: depois dessa explicação, dá para entender por que há dois sarcófagos em frente ao museu do cinema.


Água no deserto de pedra.
          Entre as cidades de Agdz e Zagora, separadas por um trajeto de 95 Km, estão os vales Draa e Dadis, que recebem a águas que desce da Cordilheira do Atlas e produzem um milagre: um oásis em meio ao deserto de pedra, repleto de vegetação. Nesse trecho da estrada, grupos de crianças que, segundo o guia, andam vários quilômetros para chegar à escola, caminham sob o sol, disputando espaço com os carros, já que acostamento é algo inexistente nesse trecho.
Conforme o veículo se aproxima da cidade de M´Hamid, quase na divisa com a Argélia, o controle fica mais acirrado. Guardas fazem sinal de parada, pedem documentos e credenciais do motorista, olham de forma curiosa para os turistas dentro do carro, despedem-se e liberam a passagem. O processo pode ocorrer mais de uma vez. “É normal”, diz o guia. “ Estamos perto demais das fronteiras e, como havia antigamente acirrados conflitos entre Marrocos e Argélia, é natural um controle mais intenso”, explica. De fato, o turismo foi retomado na região nos anos de 1990, já que, antes, a disputa dos dois países pelas areias do Saara Ocidental fazia do território um espaço bastante tumultuado.
Outra marca de M´Hamid é ser o último pit stop para carros e visitantes antes do “ataque” ao deserto. É a derradeira oportunidade, portanto, para comprar água e outros produtos e para que o veículo seja abastecido. Agora são mais 56 Km pela frente, que em off-road vence em cerca de duas horas e meia, dependendo das condições climáticas, até Erg Chigaga. Desse total, 40 Km são percorridos por entre dunas douradas a 300 metros de altura no mítico Deserto do Saara.Mesmo dentro do carro, a imensidão de areia, não importe para qual lado os olhos escolham observar, e um deleite para os sentidos.
Uma rápida “atolada” do veículo na areia até deixa os turistas felizes pela possibilidade de parar no meio do nada, fazer fotos de cartão-postal e rir com o grupo empurrando o carro duna abaixo. Nessa hora há quem diga que a travessia  a bordo de um camelo pouparia tal perrengue, mas os cinco dias a mais, quem sabe até uma semana, não compensam os 15 minutos perdidos.
Não há nada nem ninguém a vista, mas o guia dirige calmo, apreciando, também ele a paisagem. É fácil perder o senso de direção e somente o sol dá uma vaga idéia da localização, quando está à frente, à direita ou a esquerda em relação ao veículo. O guia cai na risada quando indagado se sabe onde está. “Estou em casa”, afirma confiante.

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