- Home
- Viaje Mais
- Alemanha
- Alpes da Bavária
- Alpes de Berchtesgaden e Munique
- Berlim
- Berlim-Hamburgo
- Bósnia
- Budapeste
- Cisjordânia
- Colombia
- Dublin
- Espanha:Santiago+Galícia
- Israel-Palestina
- Lago da Constança-Bodensee
- Leste Europeu
- Londres Low Cost
- Marrakesh-Marrocos
- Munique
- Nova Zelândia
- Polônia: Varsóvia e Cracóvia
- Portugal:Alentejo
- Praga
- Rota Romântica + Munique
- Rússia
- Sicília-Palermo, Cefalú, Taormina, Catânia e Ilhas Eólicas
- Sul da Itália: Costa Amalfitana,Capri, Nápoles e Pompeia
- Transilvânia-Romênia
- Turíngia
- Vale do Reno
- Diário de Viagem
- UK-Londres
- Causos e Contos
- Costumes Alemães
- Weekend
- Fotografia
sexta-feira, 28 de setembro de 2012
quinta-feira, 27 de setembro de 2012
Os sonhos do Muhammad
Este não é meu primeiro post sobre desejos alheios. Já escrevi um contando sobre sonhos estapafúrdios de amigos, conhecidos e pessoas bem próximas. http://pekuliaridades.blogspot.de/2012/05/o-sonho-dos-outros.html. Mas eis que desta vez não me contive em falar de novo da vida dos outros e compartilhar os anseios do Muhammad. E antes que alguém feche a janela, cansado dessa discussão sobre o filme da inocência muçulmana, isso aqui não tem nada a ver com o profeta. O Muhammad é um jovem de 21 anos, com cara de garoto e comportamento de homem “de honra” como diria minha avó. Ele mora com a família em Hebron, na antiga avenida Al-Shuhada, cercado por assentamentos de colonos judeus. Sua casa é uma das únicas naquela rua fantasma, hoje chamada de Abraão. Todas as outras propriedades foram fechadas e confiscadas ao longo dos anos com a chegada dos colonos. Uma das ocupações do jovem é sua loja de cerâmica na garagem da residência, bem em frente a um posto de controle, cercado de soldados israelenses. Aliás, ele já está acostumado ao escrutínio ferrenho, afinal, o direito de ir e vir por aquelas bandas é um pouco complexo. Estima-se que, bem no coração da cidade antiga, haja 400 colonos e cerca de 5 mil soldados para protegê-los. Os palestinos que restaram naquela região, como o Muhammad, precisam ser revistados três vezes, em diferentes pontos, só para chegar à Mesquita do Abraão.
Muhammad já ficou mais de três horas em um posto de controle por não dizer seu nome, já levou uns safanões de colonos, spray de pimenta no rosto, passou por interrogatórios antes de cruzar o check point para o hospital e tantas outras coisas que fazem da sua vida um roteiro de documentário do conflito Israel-Palestina. Apesar da pouca idade, ele é casado com uma moça de Belém e, como a renda da lojinha não é lá essas coisas, Muhammad oferece almoços para turistas em Hebron. Na verdade, a mãe e a esposa preparam o rango e ele recebe os visitantes, responde perguntas, conversa e conta sobre o seu dia a dia. “Estava boa a comida”, pergunta. “Que bom, mas não fui eu que fiz”, confessa. Já ofereceram dinheiro pela casa da família dele, mas o pai recusou. Já conformado, Muhammad fala que não entendia a recusa do seu progenitor, afinal ele tinha tantos sonhos e a quantia de dinheiro oferecida seria suficiente não só para deixar aquela cidade, mas também realizar outros projetos. Seria a solução para uma rotina longe daquele distrito dividido em diversas áreas administrativas, dos postos de controle a cada quilometro e da humilhação imposta pelos colonos.
Hoje ele compreende um pouco mais. “Não posso e não vou fugir”, diz. “Essa é a minha casa, minhas raízes estão aqui”. Uma holandesa pergunta o que ele quer ser. Ele dá de ombros. Como assim ser alguma coisa? Ele tem uma lojinha, a visita dos turistas, a esposa, aprende inglês por meio de filmes e é essa a sua vida. De jeans, camiseta, um sorriso maroto, ele diz que não reza as cinco vezes por dia e conta como ele conheceu a esposa no dia do casamento. Relata tudo com muita naturalidade. “Aquela é a minha avó, a quarta esposa do meu avó”, diz, apontando para um retrato de uma senhora com a cabeça coberta por um lenço florido rosa e óculos enormes de armação redonda. Cercado por olhares incrédulos de estrangeiros, um pouco mais desprendidos em relação à família, raízes ou religião, o Muhammad, no fundo, só sonha em levar uma vida normal. Ali mesmo, sem ter que ir embora pra isso.
Hoje ele compreende um pouco mais. “Não posso e não vou fugir”, diz. “Essa é a minha casa, minhas raízes estão aqui”. Uma holandesa pergunta o que ele quer ser. Ele dá de ombros. Como assim ser alguma coisa? Ele tem uma lojinha, a visita dos turistas, a esposa, aprende inglês por meio de filmes e é essa a sua vida. De jeans, camiseta, um sorriso maroto, ele diz que não reza as cinco vezes por dia e conta como ele conheceu a esposa no dia do casamento. Relata tudo com muita naturalidade. “Aquela é a minha avó, a quarta esposa do meu avó”, diz, apontando para um retrato de uma senhora com a cabeça coberta por um lenço florido rosa e óculos enormes de armação redonda. Cercado por olhares incrédulos de estrangeiros, um pouco mais desprendidos em relação à família, raízes ou religião, o Muhammad, no fundo, só sonha em levar uma vida normal. Ali mesmo, sem ter que ir embora pra isso.
Marcadores:
Causos e Contos,
conflito,
cultura,
Diário de Viagem,
Hebron,
Muhammad,
Oriente Medio,
palestina,
soldados,
sonhos,
turismo,
viagem
segunda-feira, 24 de setembro de 2012
Turismo na Cisjordânia impulsiona economia e protege palestinos de abusos
O guia turístico Samer Kokaly fala sobre os benefícios da ida de visitantes aos territórios palestinos
Regina Cazzamatta/Opera Mundi
Samer Kokaly é gerente de operações da ATG (Grupo de Turismo Alternativo, na tradução do inglês), uma agência de turismo palestina sem fins lucrativos, fundada em 1995 em Beit Sahour. Os tours são organizados em conjunto com a agência de Israel Green Olive (Azeitona Verde), coordenada por judeus pacifistas. Entre os principais objetivos da instituição estão o aumento da presença internacional na região, a diminuição dos estereótipos presentes no Ocidente em relação aos palestinos e o incentivo de visitas à Palestina como forma de dinamizar a economia local e fazer um contraponto ao turismo de massa em Israel.
Nascido na Palestina, Kokaly estudou turismo em Thessaloniki, na Grécia. Após retornar em 1992, começou a trabalhar em uma agência em Tulkarm, a cerca de 2,5 horas de Beit Sahour. Devido à distancia e aos inúmeros pontos de controle, os famosos check points, que tinha de enfrentar para chegar ao trabalho, acabou se demitindo. Em entrevista a Opera Mundi, Kokaly conta como é o dia a dia dele e das pessoas afetadas pelo conflito, e explica porque o turismo serve como proteção para milhares de palestinos afetados pela repressão.
OM: Como vocês organizam esses encontros entre ambos os grupos se os palestinos não têm autorização para entrar em Israel e os israelenses não podem, por sua vez, entrar em território palestino?
SK: Israelenses judeus não podem entrar nas áreas A, sob total controle palestino. Os árabes que vivem em Israel sim. A alegação é sempre segurança. Enfim, os israelenses podem vir até a Cisjordânia, somente nos assentamentos da área C, sob controle de Israel. Como é mais difícil para a gente ir até lá, eles vêm até a Cisjordânia. Uma vez por mês nos reunimos. Infelizmente, muitos israelenses e palestinos não se encontram como pessoas. Há crianças palestinas e israelenses que nunca se viram. Esse encontro entre árabes e judeus só ocorre nas fronteiras. Mas é claro que eles não conversam, não se abraçam, não apertam as mãos. Um monte de gente inocente (israelense e palestino) paga um preço muito caro por esse conflito.
OM: Você poderia explicar quais são os principais objetivos e propostas da ATG?
SK: A ideia é promover a imagem da Palestina e dos palestinos. Convidar as pessoas a virem até aqui, a encontrar os habitantes locais e passar mais tempo com eles. O turismo sempre foi monopolizado pelo Ministério do Turismo de Israel. As agências internacionais israelenses organizam todos os tours, os turistas fazem tudo em Israel, gastam todo dinheiro por lá, dormem, comem e vêm à Palestina somente para ir à Belém durante uma tarde ou uma manhã. Às vezes, eles sequer comem por aqui. Isso afeta nossa economia. Mas, mais importante que isso, se trata de ter contato com as pessoas. Muitos turistas descem do ônibus com medo, chegam assustados porque escutam o tempo todo de guias turísticos em Israel que aqui é muito perigoso.
OM: E como vocês trabalham isso?
SK: Nós começamos a organizar tours com estadia noturna em cidades como Belém, Nablus, Hebron, Jericó, até mesmo em casas de família. Essa alternativa foi um sucesso. Assim, turistas brincam com as crianças, convivem e percebem que somos normais. É mais barato, além de ser uma ótima oportunidade de conhecer os palestinos. Isso ajuda não só a economia, mas também o entendimento da cultura local. A Cisjordânia é um lugar totalmente seguro. Além do mais, em cidades como Hebron, turistas tornam-se testemunhas. Soldados não espancam ninguém em frente de excursões. Assim, a presença de estrangeiros aqui acaba sendo uma proteção para a própria população. É por isso que os tours israelenses martelam na cabeça das pessoas para elas não virem.
OM: Quais as principais dificuldades que vocês enfrentam para realizar este trabalho?
SK: Por exemplo, para trazer as pessoas de Jerusalém, eu não posso ir até lá buscá-las. Nós temos um carro grande, novo, que seria ideal para trazê-los. Mas eu tenho que mandar um outro veículo, com placa israelense, o que significa mais gastos. Algumas pessoas também não acham o ponto de encontro correto em Jerusalém, não aparecem no local marcado e eu não posso estar lá para controlar essas eventualidades. Algumas medidas e determinações tornam nosso trabalho impossível, enquanto para Israel é tudo tão simples. É um desafio.
OM: Quais são, em sua opinião, os principais preconceitos e estereótipos em relação à Palestina?
SK: Infelizmente muitas pessoas acham que a Palestina está cheia de terroristas. É difícil lutar contra a propaganda de Israel. É a mesma coisa se eu te perguntar sobre o Afeganistão. Qual a primeira imagem que vêm a sua cabeça? Eu fico feliz de provar o contrário e mostrar como o povo palestino é um dos mais hospitaleiros e amigáveis do mundo. Muitos até brincam com britânicos, norte-americanos, israelenses, dizendo “olha, a gente não gosta muito do seu governo, mas gostamos de você”. Nós não temos problemas com religião ou nacionalidade, até mesmo com Israel. Nosso problema é com o governo de Israel e não com os israelenses, judeus ou não.
OM: Você poderia descrever os tipos de abusos mais comuns durante os tours?
SK: Os soldados param um grande número de jovens que passam pelo controle. Claro, que não todos e isso também depende de cada soldado. Mas, em geral, eles pedem o RG, colocam o garoto na parede e o deixam lá por segundos ou por cinco horas, sob sol, chuva. É humilhante, não consigo entender. Como eles querem a aceitação e o respeito desses jovens se eles são humilhados o tempo todo? Às vezes eu tento conversar com os soldados que aceitam me dirigir a palavra. Alguns me tratam bem, não me inspecionam o tempo todo. Mas tinha um que não gostava de mim de jeito nenhum. Ele me fazia tirar até o anel, meu crucifixo e até mesmo meus óculos. Eles querem te humilhar porque eles acham que têm o poder.
OM: Algum turista já presenciou esse tipo de tratamento?
SK: Sim. Uma vez eu estava com turistas na casa de uma família palestina e dois homens, com cerca de 30 anos, passaram pelo check point e foram colocados contra a parede. O celular de um deles tocou. Ele atendeu: “Oi mãe”. O soldado o mandou desligar. Ele respondeu: “Não posso, estou falando com a minha mãe”. Então, o soldado insistiu. Quando o rapaz se recusou novamente a desligar, foi atingido por um soco. Humilhado na frente da comunidade e dos turistas, ele automaticamente deu três socos no rosto do policial, que caiu para trás, de costas no chão. Imediatamente, quatro soldados sacaram as armas e apontaram o gatilho em direção à cabeça dele. Eu tinha certeza que ele estava morto. Uma senhora francesa saiu correndo, brava, em direção aos soldados. Atrás dela foram os turistas com suas câmeras, fazendo imagens. Isso salvou a vida dele.
A presença de turistas na região, especialmente em Hebron, é uma grande proteção aos Palestinos. E, às vezes, eu penso. O que esse homem fez? Ele atendeu o telefone! Ele não tinha uma arma. Talvez ele fosse um pacifista, talvez ele refletisse sobre questões de paz, a gente nunca sabe. Eu não acho que depois disso ele pensará mais em paz.
Regina Cazzamatta/Opera Mundi
Regina Cazzamatta/Opera Mundi
Samer Kokaly é gerente de operações da ATG (Grupo de Turismo Alternativo, na tradução do inglês), uma agência de turismo palestina sem fins lucrativos, fundada em 1995 em Beit Sahour. Os tours são organizados em conjunto com a agência de Israel Green Olive (Azeitona Verde), coordenada por judeus pacifistas. Entre os principais objetivos da instituição estão o aumento da presença internacional na região, a diminuição dos estereótipos presentes no Ocidente em relação aos palestinos e o incentivo de visitas à Palestina como forma de dinamizar a economia local e fazer um contraponto ao turismo de massa em Israel.
Nascido na Palestina, Kokaly estudou turismo em Thessaloniki, na Grécia. Após retornar em 1992, começou a trabalhar em uma agência em Tulkarm, a cerca de 2,5 horas de Beit Sahour. Devido à distancia e aos inúmeros pontos de controle, os famosos check points, que tinha de enfrentar para chegar ao trabalho, acabou se demitindo. Em entrevista a Opera Mundi, Kokaly conta como é o dia a dia dele e das pessoas afetadas pelo conflito, e explica porque o turismo serve como proteção para milhares de palestinos afetados pela repressão.
OM: Como vocês organizam esses encontros entre ambos os grupos se os palestinos não têm autorização para entrar em Israel e os israelenses não podem, por sua vez, entrar em território palestino?
SK: Israelenses judeus não podem entrar nas áreas A, sob total controle palestino. Os árabes que vivem em Israel sim. A alegação é sempre segurança. Enfim, os israelenses podem vir até a Cisjordânia, somente nos assentamentos da área C, sob controle de Israel. Como é mais difícil para a gente ir até lá, eles vêm até a Cisjordânia. Uma vez por mês nos reunimos. Infelizmente, muitos israelenses e palestinos não se encontram como pessoas. Há crianças palestinas e israelenses que nunca se viram. Esse encontro entre árabes e judeus só ocorre nas fronteiras. Mas é claro que eles não conversam, não se abraçam, não apertam as mãos. Um monte de gente inocente (israelense e palestino) paga um preço muito caro por esse conflito.
OM: Você poderia explicar quais são os principais objetivos e propostas da ATG?
SK: A ideia é promover a imagem da Palestina e dos palestinos. Convidar as pessoas a virem até aqui, a encontrar os habitantes locais e passar mais tempo com eles. O turismo sempre foi monopolizado pelo Ministério do Turismo de Israel. As agências internacionais israelenses organizam todos os tours, os turistas fazem tudo em Israel, gastam todo dinheiro por lá, dormem, comem e vêm à Palestina somente para ir à Belém durante uma tarde ou uma manhã. Às vezes, eles sequer comem por aqui. Isso afeta nossa economia. Mas, mais importante que isso, se trata de ter contato com as pessoas. Muitos turistas descem do ônibus com medo, chegam assustados porque escutam o tempo todo de guias turísticos em Israel que aqui é muito perigoso.
OM: E como vocês trabalham isso?
SK: Nós começamos a organizar tours com estadia noturna em cidades como Belém, Nablus, Hebron, Jericó, até mesmo em casas de família. Essa alternativa foi um sucesso. Assim, turistas brincam com as crianças, convivem e percebem que somos normais. É mais barato, além de ser uma ótima oportunidade de conhecer os palestinos. Isso ajuda não só a economia, mas também o entendimento da cultura local. A Cisjordânia é um lugar totalmente seguro. Além do mais, em cidades como Hebron, turistas tornam-se testemunhas. Soldados não espancam ninguém em frente de excursões. Assim, a presença de estrangeiros aqui acaba sendo uma proteção para a própria população. É por isso que os tours israelenses martelam na cabeça das pessoas para elas não virem.
OM: Quais as principais dificuldades que vocês enfrentam para realizar este trabalho?
SK: Por exemplo, para trazer as pessoas de Jerusalém, eu não posso ir até lá buscá-las. Nós temos um carro grande, novo, que seria ideal para trazê-los. Mas eu tenho que mandar um outro veículo, com placa israelense, o que significa mais gastos. Algumas pessoas também não acham o ponto de encontro correto em Jerusalém, não aparecem no local marcado e eu não posso estar lá para controlar essas eventualidades. Algumas medidas e determinações tornam nosso trabalho impossível, enquanto para Israel é tudo tão simples. É um desafio.
OM: Quais são, em sua opinião, os principais preconceitos e estereótipos em relação à Palestina?
SK: Infelizmente muitas pessoas acham que a Palestina está cheia de terroristas. É difícil lutar contra a propaganda de Israel. É a mesma coisa se eu te perguntar sobre o Afeganistão. Qual a primeira imagem que vêm a sua cabeça? Eu fico feliz de provar o contrário e mostrar como o povo palestino é um dos mais hospitaleiros e amigáveis do mundo. Muitos até brincam com britânicos, norte-americanos, israelenses, dizendo “olha, a gente não gosta muito do seu governo, mas gostamos de você”. Nós não temos problemas com religião ou nacionalidade, até mesmo com Israel. Nosso problema é com o governo de Israel e não com os israelenses, judeus ou não.
OM: Você poderia descrever os tipos de abusos mais comuns durante os tours?
SK: Os soldados param um grande número de jovens que passam pelo controle. Claro, que não todos e isso também depende de cada soldado. Mas, em geral, eles pedem o RG, colocam o garoto na parede e o deixam lá por segundos ou por cinco horas, sob sol, chuva. É humilhante, não consigo entender. Como eles querem a aceitação e o respeito desses jovens se eles são humilhados o tempo todo? Às vezes eu tento conversar com os soldados que aceitam me dirigir a palavra. Alguns me tratam bem, não me inspecionam o tempo todo. Mas tinha um que não gostava de mim de jeito nenhum. Ele me fazia tirar até o anel, meu crucifixo e até mesmo meus óculos. Eles querem te humilhar porque eles acham que têm o poder.
OM: Algum turista já presenciou esse tipo de tratamento?
SK: Sim. Uma vez eu estava com turistas na casa de uma família palestina e dois homens, com cerca de 30 anos, passaram pelo check point e foram colocados contra a parede. O celular de um deles tocou. Ele atendeu: “Oi mãe”. O soldado o mandou desligar. Ele respondeu: “Não posso, estou falando com a minha mãe”. Então, o soldado insistiu. Quando o rapaz se recusou novamente a desligar, foi atingido por um soco. Humilhado na frente da comunidade e dos turistas, ele automaticamente deu três socos no rosto do policial, que caiu para trás, de costas no chão. Imediatamente, quatro soldados sacaram as armas e apontaram o gatilho em direção à cabeça dele. Eu tinha certeza que ele estava morto. Uma senhora francesa saiu correndo, brava, em direção aos soldados. Atrás dela foram os turistas com suas câmeras, fazendo imagens. Isso salvou a vida dele.
A presença de turistas na região, especialmente em Hebron, é uma grande proteção aos Palestinos. E, às vezes, eu penso. O que esse homem fez? Ele atendeu o telefone! Ele não tinha uma arma. Talvez ele fosse um pacifista, talvez ele refletisse sobre questões de paz, a gente nunca sabe. Eu não acho que depois disso ele pensará mais em paz.
Regina Cazzamatta/Opera Mundi
Turistas estrangeiros provam pratos típicos da Palestina durante almoço em visita à casa de uma família na Cisjordânia
OM: Como é a relação com os colonos?
SK: Há muitos episódios. Uma vez, garotos na faixa dos 18, 19 anos entraram em uma loja. O comerciante perguntou se podia ajudá-los, achando que quisessem comprar algo. Eles disseram: “não, nós estamos no nosso lugar, na nossa casa”. O vendedor respondeu; “não, não, esta é minha loja”. Os garotos revidaram dizendo que tudo aquilo era a terra natal deles. O palestino os expulsou. Mas, antes de sair, um dos garotos espirrou spray de pimenta no rosto dele. Para ir ao hospital, ele precisa passar pelo controle e ir até a delegacia. Ele foi retido, entrevistado e investigado. Só depois liberado para ir ao hospital. Imagine, alguém com dores tendo que falar com policiais e passar por interrogatórios. E o pior de tudo é que não se sabe o nome desses colonos, embora haja câmeras por todos os lados. Isso é o que eu chamo de lei militar.
OM: Existe um caminho para a paz?
SK: Conversar. Sinceramente, eu acho que a solução dos dois Estados não existe mais, pois a política de Israel e a expansão na Cisjordânia tornaram isso impossível. É impraticável ter um Estado em cinco áreas diferentes sem nenhuma conexão uma com a outra. Porém, a ideia de um só Estado é distante, pois Israel quer um estado judeu puro.
OM: Como visitantes e turistas podem ajudar?
SK: (longa respiração). Eles são a maior ajuda, já que perdemos a esperança nos governos. É preciso mudar uma geração inteira. Antigamente eu tinha o agendamento de um grupo a cada duas ou três semanas. Agora, cada semana eu tenho quatro grupos, grupos grandes. Mais pessoas estão vindo aqui pra ver, o que é bom. Elas contam o que viram para amigos, parentes, famílias. Eu acho que nosso caso ficou 64 anos sem solução porque ninguém sabia direito o que estava acontecendo. As pessoas só ouviam sobre Israel e Palestina na mídia, que fala o que ela bem entende. Agora as pessoas estão viajando mais, vendo com os próprios olhos, o acesso e troca de informação está mais fácil.
Somos pessoas normais, que acreditam na paz. Nós não somos combatentes, terroristas. Há pessoas normais nesse país que merecem viver em paz.
OM: Como é a relação com os colonos?
SK: Há muitos episódios. Uma vez, garotos na faixa dos 18, 19 anos entraram em uma loja. O comerciante perguntou se podia ajudá-los, achando que quisessem comprar algo. Eles disseram: “não, nós estamos no nosso lugar, na nossa casa”. O vendedor respondeu; “não, não, esta é minha loja”. Os garotos revidaram dizendo que tudo aquilo era a terra natal deles. O palestino os expulsou. Mas, antes de sair, um dos garotos espirrou spray de pimenta no rosto dele. Para ir ao hospital, ele precisa passar pelo controle e ir até a delegacia. Ele foi retido, entrevistado e investigado. Só depois liberado para ir ao hospital. Imagine, alguém com dores tendo que falar com policiais e passar por interrogatórios. E o pior de tudo é que não se sabe o nome desses colonos, embora haja câmeras por todos os lados. Isso é o que eu chamo de lei militar.
OM: Existe um caminho para a paz?
SK: Conversar. Sinceramente, eu acho que a solução dos dois Estados não existe mais, pois a política de Israel e a expansão na Cisjordânia tornaram isso impossível. É impraticável ter um Estado em cinco áreas diferentes sem nenhuma conexão uma com a outra. Porém, a ideia de um só Estado é distante, pois Israel quer um estado judeu puro.
OM: Como visitantes e turistas podem ajudar?
SK: (longa respiração). Eles são a maior ajuda, já que perdemos a esperança nos governos. É preciso mudar uma geração inteira. Antigamente eu tinha o agendamento de um grupo a cada duas ou três semanas. Agora, cada semana eu tenho quatro grupos, grupos grandes. Mais pessoas estão vindo aqui pra ver, o que é bom. Elas contam o que viram para amigos, parentes, famílias. Eu acho que nosso caso ficou 64 anos sem solução porque ninguém sabia direito o que estava acontecendo. As pessoas só ouviam sobre Israel e Palestina na mídia, que fala o que ela bem entende. Agora as pessoas estão viajando mais, vendo com os próprios olhos, o acesso e troca de informação está mais fácil.
Somos pessoas normais, que acreditam na paz. Nós não somos combatentes, terroristas. Há pessoas normais nesse país que merecem viver em paz.
Entrevista Original publicada em:
http://operamundi.uol.com.br/conteudo/entrevistas/24437/turismo+na+cisjordania+impulsiona+economia+e+protege+palestinos+de+abusos.shtml
Marcadores:
ATG,
cisjordânia,
conflito Israel-Palestina,
Green Olive,
Hebron,
muro da separação,
Opera Mundi,
Oriente Medio,
palestina,
Reportagens,
turismo,
viagem
quarta-feira, 12 de setembro de 2012
O pé de azeitonas e o sentido das coisas.
Sou uma pessoas bastante urbana, nascida e criada
em São Paulo, sem muito contato com a natureza virgem, capaz de tirar boas
risadas de amigos “da roça”, como eles mesmo se denominam, só por confundir uma
casa de um João de barro com um formigueiro suspenso. Não sou a única. Conheço
pessoas que acreditaram, por exemplo, que pamonha dava em árvores e outras
crianças que não se conformavam com o silêncio de uma galinha. “Acabou a
pilha”, resmungava. Se eu fosse menino teria jogado bolinhas de gude no carpete
e empinado pipa no ventilador.
E o que o pé de azeitonas tem a ver com tudo isso?
Eu nunca tinha visto um até os 29 anos. E eu as adoro! Sou capaz de comer um
vidro em questão de segundos. Por que algumas coisas passam tão desapercebidas?
A gente abre a cerveja, o vinho, cozinha a massa, experimenta para ver se as
tais bolotas calóricas são de “fazer careta” e a vida continua. Nunca parei
para pensar onde elas estavam antes de pararem no vidro e, em seguida, na minha
barriga!
Foi preciso ir até Jerusalém, caminhar pelo Monte
das Oliveiras (eu gosto mais do termo Monte das Olivas) para então a ficha cair
ou o criador dar um peteleco nas minhas orelhas. Claro que o morro só pode se
chamar assim! Olha para frente! Entendi o recado divino. De que adianta ficar
elucubrando sobre os conflitos entre Israel e Palestina, o governo eleito do
Hamas na faixa de Gaza em 2006, a ocupação de Jerusalém oriental e sua
declaração como capital se eu sequer sabia reconhecer um pé de azeitona? Para
mim eles mais pareciam uma muda gigante de alecrim! Reparem na foto. Porque pé
de alecrim eu conheço do supermercado!
Logo elas que estavam ali há mais de dois mil
anos. Fiquei mais inconformada ainda no pátio da igreja de “Todas as Nações”,
quando placas indicavam a idade das tais árvores. Se o salvador realmente
existiu, aqueles pés de azeitona o viram chegar de burrito pelo mesmo morro e
entrar na cidade. Sim, elas estavam ali quando Poncio Pilatus “lavou as mãos” e
certamente foram testemunhas da crucificação. Há uma eternidade elas cuidam do
nosso bom colesterol e (assumo) mereciam mais zelo e atenção da minha parte. Não
é exagero. Tive vontade de beijar as árvores e abraçar seus troncos com a mesma devoção
que os peregrinos se jogavam fervorosamente sobre a pedra onde Jesus teria sido
limpo, na Igreja do Santo Sepulcro. De hoje em diante, toda vez que for
abocanhar uma azeitona farei uma curta reverência. Dependendo da qualidade,
talvez até um minuto de silêncio.
Quantos pés de azeitona passaram pela minha vida
imperceptíveis? Só sei que elas não são molinhas e gostosas como no vidro. Naquele
calor de rachar o coco, elas ficam duras e amargas. Ou deve haver algum
procedimento entre o galho e o vidro que eu provavelmente desconheço! Trouxe
para casa um ramo do pé como souvenir e o coloquei dentro de um livro para
nunca confundi-lo com um ramo de alecrim seco.
quarta-feira, 15 de agosto de 2012
Na outra margem do rio
(ilustração do blogueiro e designer Gustavo)
Hoje meu pai completa 55 anos, agora dentro da sua canoa “para nunca mais saltar”, cursando o rio solto solitariamente. Reli o conto do Guimarães hoje, depois de muitos anos, e me simpatizei ainda mais com o garoto- narrador. Enquanto ele ficou lá com as “bagagens da vida”, o pai desertou para a “outra sina do existir”. E de tempos em tempos, ele repetia: “foi pai que um dia me ensinou a fazer assim”. Dessa frase veio o clique, a lembrança das DEZ coisas que eu só poderia mesmo ter vivenciado com o meu pai. Afinal, cada um aprende do seu jeito.
1. Escola pra que se temos o Ibirapuera? Embora isso gere até hoje olhares de reprovação, foram tardes imperdíveis que eu não tinha vontade de ir à escola (ao jardim da infância, na verdade) e acabava aceitando a proposta de ir ao parque balangar um pouco sob as árvores. Segredo que eu achava ficar só entre a gente!
2. Jogar Sonic de madrugada. Com menos de dez anos eu já descobrira todos os truques para matar os Robotniks e terminar a fita. Jogávamos a primeira fase umas cinqüenta vezes para acumular o maior número de vidas possíveis. Isso no fundo chama-se persuasão! Ninguém dorme antes do fim do jogo!
3. Uma afogada para cada ano. Puxar as orelhas no dia do aniversário era chato. Nada como levar oito “caldos”, um após o outro, para ganhar fôlego, quando está se aprendendo a nadar!
4. Ir ao Rio só para voar. Hoje em dia é comum as crianças já nascerem dentro de aeronaves, mas na década de 80.... Ao se dar conta que aos 6 anos eu nunca tinha andado de avião, disse: “ Vamos pro Rio”. Visitamos uma tia, mas voltamos de ônibus porque a passagem devia ser cara.
5. Sem fingir ser bom exemplo ou o adulto perfeito. O mais legal de ganhar de surpresa a casa do pônei, depois de já ter desistido do brinquedo e entendido que não caberia no orçamento do mês, é ouvir a explicação dada à família inteira: “eu troquei a etiqueta do preço com a de uma boneca mais barata e a caixa não percebeu”!. Rá. Acho que foi por isso que introduziram os códigos de barra!
6. Choque de temperatura faz bem a saúde. Sair da sauna e competir quem tem coragem de pular na piscina fria primeiro. Muitas vezes eu não tinha a opção, já que ia mesmo carregada a tiracolo.
7. Estratégia. Aprender a jogar xadrez não era só saber mover as peças. Eu tinha que tentar prever os três próximos lances. “Você tomará cheque mate em mais duas ou três jogadas”. Batata. Nunca ganhei uma partida! Outra: pra que equação de segundo grau se dá para explicar o Teorema de Pitágoras, virando o livro de ponta cabeça e traçando minúsculos quadradinhos dentro do próprio retângulo?
8. Pra que a pressa. Ir te buscar na balada às 6h, sem resmungar, e levar todas as amigas para tomar café da manhã no Franz Café antes de levar cada uma pra sua casa.
9. Manter suas convicções até o fim. Isso significa acreditar em Terra dos Gigantes e que a gente pode sim chegar até lá voando (literalmente).
10. Dá pra se viver com pouco. Pra que levar saco de dormir e protetor solar para caminhada (ou maratona) se existem inúmeras árvores pelo caminho? Esses apetrechos só pertencem ao nosso mundo e, em sua palavras, é uma “trigonometria errada”.
1. Escola pra que se temos o Ibirapuera? Embora isso gere até hoje olhares de reprovação, foram tardes imperdíveis que eu não tinha vontade de ir à escola (ao jardim da infância, na verdade) e acabava aceitando a proposta de ir ao parque balangar um pouco sob as árvores. Segredo que eu achava ficar só entre a gente!
2. Jogar Sonic de madrugada. Com menos de dez anos eu já descobrira todos os truques para matar os Robotniks e terminar a fita. Jogávamos a primeira fase umas cinqüenta vezes para acumular o maior número de vidas possíveis. Isso no fundo chama-se persuasão! Ninguém dorme antes do fim do jogo!
3. Uma afogada para cada ano. Puxar as orelhas no dia do aniversário era chato. Nada como levar oito “caldos”, um após o outro, para ganhar fôlego, quando está se aprendendo a nadar!
4. Ir ao Rio só para voar. Hoje em dia é comum as crianças já nascerem dentro de aeronaves, mas na década de 80.... Ao se dar conta que aos 6 anos eu nunca tinha andado de avião, disse: “ Vamos pro Rio”. Visitamos uma tia, mas voltamos de ônibus porque a passagem devia ser cara.
5. Sem fingir ser bom exemplo ou o adulto perfeito. O mais legal de ganhar de surpresa a casa do pônei, depois de já ter desistido do brinquedo e entendido que não caberia no orçamento do mês, é ouvir a explicação dada à família inteira: “eu troquei a etiqueta do preço com a de uma boneca mais barata e a caixa não percebeu”!. Rá. Acho que foi por isso que introduziram os códigos de barra!
6. Choque de temperatura faz bem a saúde. Sair da sauna e competir quem tem coragem de pular na piscina fria primeiro. Muitas vezes eu não tinha a opção, já que ia mesmo carregada a tiracolo.
7. Estratégia. Aprender a jogar xadrez não era só saber mover as peças. Eu tinha que tentar prever os três próximos lances. “Você tomará cheque mate em mais duas ou três jogadas”. Batata. Nunca ganhei uma partida! Outra: pra que equação de segundo grau se dá para explicar o Teorema de Pitágoras, virando o livro de ponta cabeça e traçando minúsculos quadradinhos dentro do próprio retângulo?
8. Pra que a pressa. Ir te buscar na balada às 6h, sem resmungar, e levar todas as amigas para tomar café da manhã no Franz Café antes de levar cada uma pra sua casa.
9. Manter suas convicções até o fim. Isso significa acreditar em Terra dos Gigantes e que a gente pode sim chegar até lá voando (literalmente).
10. Dá pra se viver com pouco. Pra que levar saco de dormir e protetor solar para caminhada (ou maratona) se existem inúmeras árvores pelo caminho? Esses apetrechos só pertencem ao nosso mundo e, em sua palavras, é uma “trigonometria errada”.
terça-feira, 7 de agosto de 2012
Berlim — dez melhores programas
O que há de mais bacana para fazer em Berlim, além da lista de atrações turísticas indispensáveis? Os dez itens da lista são marcas da capital, coisas que só por lá podem ser experimentadas (com algumas exceções).
1. Festival das Luzes
Sempre no mês de outubro (este ano, do dia 10 ao 21), os principais pontos turísticos da capital alemã recebem projeções de luz. Com o frio do outono, é um bom estímulo para perambular pelas ruas de madrugada e checar mais uma vez o mais do mesmo berlinense: Reichstag, Fernsehturm, Brandenburger Tor, Gendarmenmarkt (foto), Berliner Dom e por aí vai!
sexta-feira, 3 de agosto de 2012
A polícia, um cachorro e a magrela
Um camburão azul e branco chega em
velocidade um pouco acima da média, vira bruscamente a esquerda, sobe na guia
da calçada e breca abruptamente. A porta se abre, dois policiais pulam do
veículo e começam a correr. A cena se passa na minha frente, parada em frente à
faixa de pedestre. Em alguns segundos, imaginei a catástrofe. Meu passaporte
estava em casa. Olhei ao meu redor, faz tempo
que não ouço mais falar em seqüestro relâmpago, assalto à banco ou arrastão. Esfreguei
os olhos com as duas mãos. Abri-os novamente para ter certeza que aquilo não
era uma alucinação. Calma! Não presenciei mais nenhuma tragédia ou aviões
explodindo no céu. Só para relembrar a mazela.
segunda-feira, 30 de julho de 2012
Lago da Constança ou Bodensee: o terceiro maior lago europeu entre Alemanha, Áustria e Suíça
Lago de Constança
Como curtir o verão em águas alemãs, suíças e austríacas.
(Texto originalmente publicado na revista Viaje Mais! Jul. 2012)
Lago de Constança
Como curtir o verão em águas alemãs, suíças e austríacas.
(Texto originalmente publicado na revista Viaje Mais! Jul. 2012)
Tour de barco, atividades náuticas e festivais agitam as cidades às margens do terceiro maior lago europeu, onde não faltam castelos e igrejas medievais, jardins exuberantes e até voos de zepelim
Algumas pessoas lêem jornais e livros a bordo de pequenos barcos ou lanchas estacionados na beira de um lago. Águas que também são um point para pais e filhos, que se divertem nos pedalinhos. Turistas e moradores, sem que se possa definir direito quem é quem, tomam sol juntos, entre as árvores, enquanto crianças correm pelos canteiros floridos. É um típico dia de verão às margens do Lago de Constança (Bodensee, em alemão), o terceiro maior da Europa e compartilhado por Suíça, Alemanha e Áustria. A paisagem da região, no entanto, é ainda mais primorosa do que esse agradável panorama faz supor: ao fundo, ela se completa com os Alpes, cujos picos, que permanecem brancos de neve mesmo no verão, contrastam com os coloridos barcos a vela.
O complemento perfeito para esses aguardados dias de sol e curtição nas águas do Constança é se sentar, ao entardecer, à mesa dos cafés e restaurantes às margens. Os estabelecimentos ficam lotados de pessoas que apreciam o lago enquanto bebericam vinho, cerveja e o popular drinque Aperol Sprizz, feito com prosecco, soda e Aperol, bebida de origem italiana cujo gosto lembra o do Campari. É mais ou menos assim o fim do dia em qualquer cidade à beira deste lago cortado pelo Reno, que, alem do terceiro maior do Velho Continente, ainda ostenta outros superlativos: ele também é o maior lago da Alemanha e dono da maior fonte de água potável da Europa Central. Dos seus 273 Km de margem, 72 km pertencem à Suíça (ao Cantão de Thurgau), 28 km à Áustria (ao Estado de Vorarlberg) e 173 km à Alemanha (Baviera e Baden-Württember).
Por conta da proximidade, dá para tomar café da manhã em um país e almoçar em outro. Há também quem faça todo o percurso de bicicleta, mas para quem não está assim tão em forma, o “pulo” de cidade em cidade de barco ou trem. Sem contar as 425 opções de excursões reunidas no site oficial da região (bodensee.eu). Há atrações para todos os tipos de turistas, como trilhas, esportes aquáticos, spas, passeios de barco e visitas a graciosas cidadelas e igrejas medievais. Para os mais corajosos e abastados, há voos a bordo de um zepelim, que descortina a região do Bodensee a partir do porto de Friedrichshafen. Dependendo do tempo do tour e da região a ser sobrevoada, é preciso desembolsar de € 200 a € 745 euros por pessoa.
Konstanz, o ponto de partida
Um roteiro que dá uma boa mostra dos encantos das redondezas inclui passeios pelas ilhas e províncias no entorno da cidade alemã de Konstanz, centro econômico e cultural da região, com 82 mil habitantes. No porto, dentro da água destaca-se, desde 1993, uma estátua relativamente sensual de 9 metros de altura e 18 toneladas. É a escultura de uma meretriz, Impéria, imortalizada no conto A Bela Impéria, de Honoré de Balzac, publicado no século 19. Por mais inusitado que pareça, a obra é uma homenagem às prostitutas que viveram de 1414 a 1418, durante o concílio que resolveu um longo cisma da Igreja Católica no Ocidente.
Esse trabalho do artista Peter Lenk causou polêmica entre religiosos e conservadores, já que em uma das mãos da voluptuosa moça está o imperador alemão e na outra, o papa. A estrutura se movimenta e, em três minutos, dá uma volta completa em torno de si, permitindo que ela seja perfeitamente avistada não só das margens, mas também do lago.
Por conta da proximidade, dá para tomar café da manhã em um país e almoçar em outro. Há também quem faça todo o percurso de bicicleta, mas para quem não está assim tão em forma, o “pulo” de cidade em cidade de barco ou trem. Sem contar as 425 opções de excursões reunidas no site oficial da região (bodensee.eu). Há atrações para todos os tipos de turistas, como trilhas, esportes aquáticos, spas, passeios de barco e visitas a graciosas cidadelas e igrejas medievais. Para os mais corajosos e abastados, há voos a bordo de um zepelim, que descortina a região do Bodensee a partir do porto de Friedrichshafen. Dependendo do tempo do tour e da região a ser sobrevoada, é preciso desembolsar de € 200 a € 745 euros por pessoa.
Konstanz, o ponto de partida
Um roteiro que dá uma boa mostra dos encantos das redondezas inclui passeios pelas ilhas e províncias no entorno da cidade alemã de Konstanz, centro econômico e cultural da região, com 82 mil habitantes. No porto, dentro da água destaca-se, desde 1993, uma estátua relativamente sensual de 9 metros de altura e 18 toneladas. É a escultura de uma meretriz, Impéria, imortalizada no conto A Bela Impéria, de Honoré de Balzac, publicado no século 19. Por mais inusitado que pareça, a obra é uma homenagem às prostitutas que viveram de 1414 a 1418, durante o concílio que resolveu um longo cisma da Igreja Católica no Ocidente.
Esse trabalho do artista Peter Lenk causou polêmica entre religiosos e conservadores, já que em uma das mãos da voluptuosa moça está o imperador alemão e na outra, o papa. A estrutura se movimenta e, em três minutos, dá uma volta completa em torno de si, permitindo que ela seja perfeitamente avistada não só das margens, mas também do lago.
Como ter habilitação para pilotar barcos é privilégio de poucos, aposte no aluguel de um pedalinho para conferir a vista da cidade vizinha Kreuzlingen, já na Suíça. Mesmo se tratando de um transporte simples, o instrutor dá uma série de avisos: “Não vá para a esquerda por causa da corrente do Reno, não entre no porto e cuidado com os barcos grandes”, explica. Um adesivo a bordo também ensina algumas medidas de segurança. Por exemplo: se o farol emitir luzes laranjas, que piscam intermitantemente, volte rápido para às margens, pois lá vem tempestade. Mas normalmente não há com que se preocupar, pois perigos como chuva e ventania são típicos do inverno. No verão, o lago, assim como o ânimo das pessoas, que, independentemente da idade, aproveitam ao máximo de calor fazendo piqueniques, circulando de barco e se jogando nas atividades oferecidas ao ar livre. Um clima bem diferente do inverno por essas bandas. Ali na vizinhanças do porto, ficam o Memorial Zepelim, em homenagem a Ferdinand Von Zeppelin (1838-1917), o inventor da engenhoca voadora, que nasceu em Konstanz, e o Concert Hall. Essa casa de espetáculos ocupa a área onde já existia a Konzilgebäude (edificação do concílio, em alemão), onde, 1m 1388, Martinho V foi nomeado papa.
Tudo bem que no verão todo mundo só quer aproveitar a vida à beira do lago, mas dar uma andada pelo centro histórico – que abriga a Catedral Munster, na praça homônima, cercada de restaurantes e cafés, - é imprescindível, já que Konstanz é uma cidade relativamente atípica na Alemanha. É que grande parte de seu centro histórico é original, pois, por ficar colada à neutra vizinha Suíça, a cidade passou pela Segunda Guerra Mundial ilesa aos bombardeios.
De fato, a fronteira entre a alemã Konstanz e a suíça Kreuzlingen é praticamente imperceptível – daí que seria impossível bombardear uma sem atingir a outra. E se não fosse pelas formalidades típicas de fronteira, as duas cidades seriam uma só. Há apenas uma passagem que separa um lado do outro, com algumas placas apontando as regras alfandegárias, mas muitas vezes nenhum funcionário está presente para checar os documentos. É tudo tão junto e misturado que, mesmo de barco, o visitante pode precisar de um mapa ou procurar por uma bandeira hasteada para identificar a qual pais pertence a cidade que está vendo ou atracando.
De fato, a fronteira entre a alemã Konstanz e a suíça Kreuzlingen é praticamente imperceptível – daí que seria impossível bombardear uma sem atingir a outra. E se não fosse pelas formalidades típicas de fronteira, as duas cidades seriam uma só. Há apenas uma passagem que separa um lado do outro, com algumas placas apontando as regras alfandegárias, mas muitas vezes nenhum funcionário está presente para checar os documentos. É tudo tão junto e misturado que, mesmo de barco, o visitante pode precisar de um mapa ou procurar por uma bandeira hasteada para identificar a qual pais pertence a cidade que está vendo ou atracando.
Lado Suíço do Lago
Em Kreuzlingen, a borda do Constança é uma espécie de parque, com playgrounds, pássaros e uma vasta vegetação. Há também uma torre de madeira com vista para a cidade e para Konstanz. Os olhos param quando se observa a parte norte da costa, que exibe um suntuoso burgo, de 1598. Completamente destruída durante a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), a edificação foi reformada com o estilo próprio do século 19 e, atualmente, abriga um centro didático e um restaurante.
No entorno do belo conjunto, adornando por fontes e gramados, há jardins e hortas onde são cultivados temperos, e cada plantinha, por menor que seja, tem uma placa com a devida descrição. Se enjoar da paisagem idílica, siga para a lagoa de sapos, bem em frente ao castelo. Dá para escutá-los coaxando – e, por meio de cartazes, aprender sobre as diferentes espécies – enquanto se passeia sobre as pontes de madeira sobre as águas. Parece peculiar, mas cai bem com a atmosfera com jeito de antigamente do lugar, que fica ainda mais bucólico com a companhia das inúmeras margaridinhas amarelas espalhadas pelos campos.
Para Lá e Para Cá de Barco
Com a dose de calmaria já experimentada, é hora de começar a perambular por mais cidades e atrações do lago. Não importa se a partir da porção suíça ou alemã, um passeio com a Weiße Flotte (Frota Branca) é praticamente imperdível. A empresa suíça, alemã e austríaca reúne pelo menos 31 barcos de passageiros que ligam todas as cidades da região e transportam por ano 4,5 milhões de pessoas. Alem do transporte aquático propiciar um panorama muito mais bonito do que quando a viagem é feita de trem, o tour ainda fornece uma melhor noção da geografia do lago, cuja parte oriental é chamada de Obersee. Trata-se da região mais profunda, em que a água alcança 252 metros de profundidade. Já a porção ocidental é a Untersee.
Se, por um lado, o início do passeio independe do país de origem, por outro, importa bastante em qual lado se decide almoçar ou jantar. Um indicador bastante confiável de que estamos na Suíça (que, apesar de usar moeda própria, o franco suíço, no arredores do Lago de Constança aceita o euro) são os preços bem mais salgados de lá. Esteja em mesas suíças ou alemãs, o fato é que não se deve deixar de provar o peixe felchen (pescada), proveniente do lago. Um bom lugar para isso é o Steg 4 Café-Bar, em frente ao porto de Konstanz. Alem de opções rápidas como pizzas, a casa oferece um pot-pourri de peixes da região, servidos com legumes ou salada verde. Sem contar a carta de sorvetes multicoloridos – o de creme com morangos é uma excelente pedida.
A degustação da cerveja local, a Ruppaner, também é obrigatória. E, para os mais aficionados pela bebida, vale a pena uma passada na cervejaria Brauhaus Joh. Albrecht (Konradigasse 2). O típico estabelecimento oferece, alem da gelada produção própria, pratos alemães. Nas mesas ao redor, é comum ouvir conversas num alemão de sotaque mais cantarolado, com palavras e pronúncia bem diferentes. São os suíços que aproveitam não só as férias de verão do lado germânico, mas também os preços mais em conta.
Em Kreuzlingen, a borda do Constança é uma espécie de parque, com playgrounds, pássaros e uma vasta vegetação. Há também uma torre de madeira com vista para a cidade e para Konstanz. Os olhos param quando se observa a parte norte da costa, que exibe um suntuoso burgo, de 1598. Completamente destruída durante a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), a edificação foi reformada com o estilo próprio do século 19 e, atualmente, abriga um centro didático e um restaurante.
No entorno do belo conjunto, adornando por fontes e gramados, há jardins e hortas onde são cultivados temperos, e cada plantinha, por menor que seja, tem uma placa com a devida descrição. Se enjoar da paisagem idílica, siga para a lagoa de sapos, bem em frente ao castelo. Dá para escutá-los coaxando – e, por meio de cartazes, aprender sobre as diferentes espécies – enquanto se passeia sobre as pontes de madeira sobre as águas. Parece peculiar, mas cai bem com a atmosfera com jeito de antigamente do lugar, que fica ainda mais bucólico com a companhia das inúmeras margaridinhas amarelas espalhadas pelos campos.
Para Lá e Para Cá de Barco
Com a dose de calmaria já experimentada, é hora de começar a perambular por mais cidades e atrações do lago. Não importa se a partir da porção suíça ou alemã, um passeio com a Weiße Flotte (Frota Branca) é praticamente imperdível. A empresa suíça, alemã e austríaca reúne pelo menos 31 barcos de passageiros que ligam todas as cidades da região e transportam por ano 4,5 milhões de pessoas. Alem do transporte aquático propiciar um panorama muito mais bonito do que quando a viagem é feita de trem, o tour ainda fornece uma melhor noção da geografia do lago, cuja parte oriental é chamada de Obersee. Trata-se da região mais profunda, em que a água alcança 252 metros de profundidade. Já a porção ocidental é a Untersee.
Se, por um lado, o início do passeio independe do país de origem, por outro, importa bastante em qual lado se decide almoçar ou jantar. Um indicador bastante confiável de que estamos na Suíça (que, apesar de usar moeda própria, o franco suíço, no arredores do Lago de Constança aceita o euro) são os preços bem mais salgados de lá. Esteja em mesas suíças ou alemãs, o fato é que não se deve deixar de provar o peixe felchen (pescada), proveniente do lago. Um bom lugar para isso é o Steg 4 Café-Bar, em frente ao porto de Konstanz. Alem de opções rápidas como pizzas, a casa oferece um pot-pourri de peixes da região, servidos com legumes ou salada verde. Sem contar a carta de sorvetes multicoloridos – o de creme com morangos é uma excelente pedida.
A degustação da cerveja local, a Ruppaner, também é obrigatória. E, para os mais aficionados pela bebida, vale a pena uma passada na cervejaria Brauhaus Joh. Albrecht (Konradigasse 2). O típico estabelecimento oferece, alem da gelada produção própria, pratos alemães. Nas mesas ao redor, é comum ouvir conversas num alemão de sotaque mais cantarolado, com palavras e pronúncia bem diferentes. São os suíços que aproveitam não só as férias de verão do lado germânico, mas também os preços mais em conta.
E quando o assunto é turista, a ilha alemã de Mainau, um dos pontos mais populares da região, tem do que se gabar. Todos os anos, passam por lá pelo menos 1,2 milhão de visitantes, que chegam de barco ou de ônibus. Este último – que pode ser usado gratuitamente por quem tem o “certificado de turista”, usualmente distribuído pelos hotéis – deixa o pessoal em terra firma, que precisa atravessar uma ponte de pedestres para alcançar a ilha.
Muitas Flores em Mainau
Mesmo para quem não é muito fá de jardinagem, Mainau merece ao menos uma rápida visita. O lugar ostenta tantas flores que sua atmosfera não parece real, mas sim um colorido e pitoresco quadro. Na primavera, a paisagem é dominada por tulipas das mais diversas cores; no verão, as rosas roubam a cena. Nessas épocas de floração, o cheiro das plantas se espalham no ar, num ambiente que fica ainda mais encantador por conta da beleza dos Alpes emoldurando o cenário.
Na entrada do formoso jardim, os visitantes são recebidos com um arranjo enorme, que representa uma margarida com “corpo” e “rosto” de gente. Há uma profusão tão grande de flores, que, quando se vê um canteiro vazio, bate uma decepção. Ma isso não fica sem explicação, já que, em alguns pontos, há uma placa que diz assim: “Não pense que nosso jardineiro é desatento. Nosso jardim está sendo cuidado, mas as flores brotam em períodos diferentes”. Outro ponto alto da ilha é a estufa de borboleta, também “recheada” de plantas: são mais de 150 tipos. Vá com uma roupa fresca porque o ambiente reproduz fielmente a umidade e o calor de um ambiente tropical. Ali, as borboletas parecem não se assustar com os turistas nem com as lentes das câmeras, já que continuam voando de lá para cá e até pousam na cabeça de algumas pessoas. “São flores que voam”, disse uma senhora quando uma borboleta estacionou em seu boné. Depois, a mulher e os outros visitantes seguiram para um cano do complexo desprovido de toda beleza presente até então, mas nem por isso menos interessante: o varal de casulos.
Muitas Flores em Mainau
Mesmo para quem não é muito fá de jardinagem, Mainau merece ao menos uma rápida visita. O lugar ostenta tantas flores que sua atmosfera não parece real, mas sim um colorido e pitoresco quadro. Na primavera, a paisagem é dominada por tulipas das mais diversas cores; no verão, as rosas roubam a cena. Nessas épocas de floração, o cheiro das plantas se espalham no ar, num ambiente que fica ainda mais encantador por conta da beleza dos Alpes emoldurando o cenário.
Na entrada do formoso jardim, os visitantes são recebidos com um arranjo enorme, que representa uma margarida com “corpo” e “rosto” de gente. Há uma profusão tão grande de flores, que, quando se vê um canteiro vazio, bate uma decepção. Ma isso não fica sem explicação, já que, em alguns pontos, há uma placa que diz assim: “Não pense que nosso jardineiro é desatento. Nosso jardim está sendo cuidado, mas as flores brotam em períodos diferentes”. Outro ponto alto da ilha é a estufa de borboleta, também “recheada” de plantas: são mais de 150 tipos. Vá com uma roupa fresca porque o ambiente reproduz fielmente a umidade e o calor de um ambiente tropical. Ali, as borboletas parecem não se assustar com os turistas nem com as lentes das câmeras, já que continuam voando de lá para cá e até pousam na cabeça de algumas pessoas. “São flores que voam”, disse uma senhora quando uma borboleta estacionou em seu boné. Depois, a mulher e os outros visitantes seguiram para um cano do complexo desprovido de toda beleza presente até então, mas nem por isso menos interessante: o varal de casulos.
O castelo de Mainau e sua igreja barroca são os próximos pit stops do roteiro. Na ala esquerda do palácio ficam os aposentos da família Bernadotte – parentes da família real da Suécia e atuais donos da construção e da ilha – e, na direita, sempre há diversas exposições alem de um café-orquidário. Para os mais vidrados em jardinagem, há detalhes de como as flores são cultivadas e cuidadas.
Bruxas e Tesouros
Do porto de Mainau, a boa é seguir de barco para Meersburg, num trajeto que dura cerca de meia hora. Ao se aproximar da cidade alemã, já se avista a principal atração: o burgo que dá nome ao lugar. Após desembarcar, não há como não o encontrar, já que as românticas e estreitas ruelas conduzem direto ao castelo, que propicia uma verdadeira viagem à época medieval. Estima-se que as muralhas estejam lá desde o século 7 e que, a partir de 1.526, a construção tenha se tornado residência oficial do principado de Konstanz. Uma ponte com chão de pedra e grades de madeira conduz os visitantes ao interior do burgo. Antes de começar a circular pelos antiqüíssimos cômodos, porém, tome um café, acompanhado por algum dos diversos bolos caseiros, no Fürstliches Café, que fica junto ao castelo. Embora o salão de estilo barroco seja bem bonito, ele praticamente não é freqüentado por ninguém no verão.
Bruxas e Tesouros
Do porto de Mainau, a boa é seguir de barco para Meersburg, num trajeto que dura cerca de meia hora. Ao se aproximar da cidade alemã, já se avista a principal atração: o burgo que dá nome ao lugar. Após desembarcar, não há como não o encontrar, já que as românticas e estreitas ruelas conduzem direto ao castelo, que propicia uma verdadeira viagem à época medieval. Estima-se que as muralhas estejam lá desde o século 7 e que, a partir de 1.526, a construção tenha se tornado residência oficial do principado de Konstanz. Uma ponte com chão de pedra e grades de madeira conduz os visitantes ao interior do burgo. Antes de começar a circular pelos antiqüíssimos cômodos, porém, tome um café, acompanhado por algum dos diversos bolos caseiros, no Fürstliches Café, que fica junto ao castelo. Embora o salão de estilo barroco seja bem bonito, ele praticamente não é freqüentado por ninguém no verão.
Bem ao contrário do terraço do castelo, que propicia vista para a cidade e as laterais do burgo e é o lugar mais disputado da construção na alta temporada. A subida até a torre, chamada de Dagobertturm, só pode ser feita na companhia de guias, que lá de cima mostram, pelas quatro janelas, onde está a Suíça, a Áustria e a Alemanha. O tour termina com uma passadinha na câmera de tortura, onde um vídeo exibe a história da perseguição às bruxas na Idade Media. A guia avisa: “Se esse não é seu tema favorito ou te dá pavor, espere do lado de fora”. Apesar das engenhocas de tortura serem assustadoras, vale saber que elas não pertenciam inicialmente ao burgo.
Tais equipamentos lá foram colocados depois de 1838, quando a propriedade passou para as mãos de Joseph Von Laßberg, uma importante figura local. Sua riqueza permitiu que ele levasse adiante um hobby: colecionar objetos da Idade Média, incluindo os sinistros aparelhos, entre os quais está uma balança de madeira usada para verificar o peso das bruxas. A ala dos tesouros, onde ficavam os livros sagrados e pinturas está atualmente um pouco vazia. Muitos objetos foram levados após as invasões napoleônicas ou se encontram no Neues Schloss (novo castelo). Esse é um casarão rosa acima do burgo. A vista de seus jardins para o lago e para a própria estrutura monumental de pedras do palácio é maravilhosa.
No porto, observe a Coluna Mágica, também do artista Peter Lenk, aquele da controversa obra Impéria, que fica em Konstanz. Na estátua de Meersburg, estão retratados a poetisa Annette Laßberg (irmã do antigo proprietário do castelo local, aquele que colecionava objetos de tortura) e Franz Anton Mesmer, descobridor do “magnetismo animal” ou mesmerismo, que se refere ao estado de uma pessoa a ser magnetizada. A poetisa é representada como uma gaivota, enquanto Mesmer tem um ímã nas mãos e está sobre um círculo no qual seus inimigos estão presos.
Tais equipamentos lá foram colocados depois de 1838, quando a propriedade passou para as mãos de Joseph Von Laßberg, uma importante figura local. Sua riqueza permitiu que ele levasse adiante um hobby: colecionar objetos da Idade Média, incluindo os sinistros aparelhos, entre os quais está uma balança de madeira usada para verificar o peso das bruxas. A ala dos tesouros, onde ficavam os livros sagrados e pinturas está atualmente um pouco vazia. Muitos objetos foram levados após as invasões napoleônicas ou se encontram no Neues Schloss (novo castelo). Esse é um casarão rosa acima do burgo. A vista de seus jardins para o lago e para a própria estrutura monumental de pedras do palácio é maravilhosa.
No porto, observe a Coluna Mágica, também do artista Peter Lenk, aquele da controversa obra Impéria, que fica em Konstanz. Na estátua de Meersburg, estão retratados a poetisa Annette Laßberg (irmã do antigo proprietário do castelo local, aquele que colecionava objetos de tortura) e Franz Anton Mesmer, descobridor do “magnetismo animal” ou mesmerismo, que se refere ao estado de uma pessoa a ser magnetizada. A poetisa é representada como uma gaivota, enquanto Mesmer tem um ímã nas mãos e está sobre um círculo no qual seus inimigos estão presos.
Outro Castelo em Mannenbach
Embora o burgo de Meersburg seja incrível, há quem diga que o castelo mais bonito de todo o Lago de Constança seja o Schloss Arenenberg, no lado suíço. Para concluir se isso é verdade, é preciso ir até o vilarejo de Mannenbach. De Konstanz ou Kreuzlingen, no sentido Untersee, saem barcos para lá. A viagem é um pouco mais longa, cerca de uma hora, o que também se traduz numa excelente oportunidade para contemplar mais belezas à beira do lago.
Se você for a Mannenbach fora da alta temporada, não se assuste, pois é bem capaz de encontrar poucas pessoas por lá. Em períodos assim, certamente haverá mais vacas e ovelhas nos campos próximos, que chamam tanto a atenção quanto os casarões locais cheios de floreiras na janela. Isso porque os animais, ao se movimentarem, fazem uma bela sinfonia por causa dos sinos que carregam no pescoço. Independente do movimento da cidade, não se perca do objetivo de visitar o castelo, o qual, localizado na parte alta da Mannenbach, propicia vistas magníficas do campo verde e pontuado por ovelhas. Também é vislumbrado lá de cima, mais uma vez, o onipresente lago azul. Por dentro, a construção também impressiona pelas pinturas e pelo classudo mobiliário que ainda conserva.
Aproveite a visita para almoçar no bistrô logo ao lado do palácio, que aceita pagamento em euro. Naquelas cadeiras dispostas ao ar livre, não deixa de experimentar a “cerveja do kaiser”, praticamente impossível de ser encontrada em outra localidade. Se na hora de pegar o barco de volta for preciso esperar algumas horas, aguarde no bar-restaurante do Seehotel Schiff, ao lado do porto, cujas mesas de madeira e cadeiras com almofadas listradas na parte externa são ótimas para descansar as pernas e ocupar os olhos com uma aprazível vista das redondezas. No cardápio, há um menu- degustação de peixes da região (de €50 a €60 por pessoas) e, entre os pratos avulsos, existe uma seleção reduzida de sopas, saladas, tortas e sanduíches.
Embora o burgo de Meersburg seja incrível, há quem diga que o castelo mais bonito de todo o Lago de Constança seja o Schloss Arenenberg, no lado suíço. Para concluir se isso é verdade, é preciso ir até o vilarejo de Mannenbach. De Konstanz ou Kreuzlingen, no sentido Untersee, saem barcos para lá. A viagem é um pouco mais longa, cerca de uma hora, o que também se traduz numa excelente oportunidade para contemplar mais belezas à beira do lago.
Se você for a Mannenbach fora da alta temporada, não se assuste, pois é bem capaz de encontrar poucas pessoas por lá. Em períodos assim, certamente haverá mais vacas e ovelhas nos campos próximos, que chamam tanto a atenção quanto os casarões locais cheios de floreiras na janela. Isso porque os animais, ao se movimentarem, fazem uma bela sinfonia por causa dos sinos que carregam no pescoço. Independente do movimento da cidade, não se perca do objetivo de visitar o castelo, o qual, localizado na parte alta da Mannenbach, propicia vistas magníficas do campo verde e pontuado por ovelhas. Também é vislumbrado lá de cima, mais uma vez, o onipresente lago azul. Por dentro, a construção também impressiona pelas pinturas e pelo classudo mobiliário que ainda conserva.
Aproveite a visita para almoçar no bistrô logo ao lado do palácio, que aceita pagamento em euro. Naquelas cadeiras dispostas ao ar livre, não deixa de experimentar a “cerveja do kaiser”, praticamente impossível de ser encontrada em outra localidade. Se na hora de pegar o barco de volta for preciso esperar algumas horas, aguarde no bar-restaurante do Seehotel Schiff, ao lado do porto, cujas mesas de madeira e cadeiras com almofadas listradas na parte externa são ótimas para descansar as pernas e ocupar os olhos com uma aprazível vista das redondezas. No cardápio, há um menu- degustação de peixes da região (de €50 a €60 por pessoas) e, entre os pratos avulsos, existe uma seleção reduzida de sopas, saladas, tortas e sanduíches.
Como se tudo isso não fosse suficiente para atrair os visitantes, diversas cidades da região promovem grandes festas no verão. A maior e mais famosa é a Seenachtfest, em Konstanz, que em 2012 está marcada para o dia 11 de agosto e é uma tradição que se repete desde 1949. Usualmente, na noite da comemoração, as portas da universidade e seu museus, filarmônicas e galerias permanecem abertas. Os três quilômetros à beira do lago viram cenário para grupos de teatro, músicos e encenações, e o ponto alto da noite é a queima de fogos, uma das maiores da Europa, sempre acompanhada de muita música. O movimento é intenso e, para driblar a muvuca, dá para assistir ao espetáculo luminosos nos barcos da empresa Weißen Flote.
À beira do lago ou dentro dele, estando em águas alemãs, austríacas ou suíças, há inúmeras possibilidades para curtir o Bodensee, ou, em bom português, o Constança. Mas, no fim das contas, quem decide como e em que ritmo o versátil lago será desfrutado, especialmente no verão, é você. Pode-se bater perna e se apaixonar pelas cidadelas medievais, ficar com o queixo caído com a exuberância das tulipas e de outras flores, velejar, passear de barco, provar peixes locais, andar de zepelim... Ou apenas contemplar a plácida paisagem (que até inclui rebanhos de ovelhas e gados) acompanhando o verão passar, o que invariavelmente deixa os moradores e turistas extasiados.
Almanaque
Almanaque
Assinar:
Postagens (Atom)





