terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Irlanda, Dublin: um roteiro pela capital irlandesa


 Dublin – Diversão em meio a cervejas e livros
(Texto originalmente publicado na revista Viaje Mais! Fev. 2013)

Terra da Guinness e de escritores da estirpe de James Joyce e Oscar Wilde, a capital irlandesa é um convite à cultura e à boemia, elevadas à máxima potência durante o St. Patrick´s Festival.

Por Regina Cazzamatta

Você pode nunca ter pensado em viajar para a capital irlandesa, Dublin. Mas se já tiver cantado e dançado à exaustão ao som do U2, ido a um pub para tomar uma pint de Guinness e lido os clássicos como O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, ou mesmo Drácula, de Bram Stocker, então já está íntimo de algumas especialidades da inebriante cidade: musica, literatura e cerveja da melhor qualidade.
É muita tradição cultural e etílica, associada a uma trajetória de quase dois mil anos desde sua fundação, que legou Dublin a uma série de construções dos mais variados períodos. Mas se tudo isso não fez seu coração palpitar a ponto de convencê-lo a colocar os pés lá, talvez a celebração do St. Patrick´s Festival o faça mudar de ideia.
Realizada todos os anos em março – normalmente entre os dias 14 e 18, como será em 2013 – a festa tem seu ponto alto no dia 17, feriado nacional em homenagem à possível data de morte de St. Patrick (ou São Patrício em português), padroeiro da Irlanda e grande símbolo nacional. O evento tem desfiles de artistas, dançarinos e grupos de músicos que sai da Praça Parnell, na O`Connell Street. Segue  margeando pontos turísticos, como a Trinity College, universidade fundada em 1592 e dona de uma biblioteca de obras raras, e o Castelo de Dublin, cartão-postal local.
No percurso de 2,5 KUM, embalado pelo som da gaita de frole irlandesa, pelo menos 500 mil pessoas, entre moradores e visitantes, assistem ao corso ou o acompanham. Boa parte usa chapelões e roupas verdes (muitas são uma alusão aos leprechauns, duendes de barbas e cabelos vermelhos que fazem parte da lenda do país). E estar em Dublin na época do St. Patricks Festival tem outra vantagem:  março é um dos meses mais secos do ano, já que na capital irlandesa o clima é bastante inconsistente (chove tanto quanto em Londres).
Festejar em meio à muvuca faz parte do espírito do St. Patrick´s Day, mas para curtir o evento sem tanta agitação o ideal é procurar os pub mais afastados, fora do centro. Esses bares são uma instituição tão enraizada e respeitada que, só em Dublin (com uma população de 500 mil habitantes) há cerca de mil deles. Revestidos por carpetes, móveis de madeira, grandes sofás e lareiras e normalmente rústicos, os pubs têm como toque de modernidade a presença de muitas TVs.
Assim, enquanto as pints (copo de 568 ml), sobretudo de Guinness, se esvaziam nas mesas, alguns assistem à disputa de esportes típicos de lá, como o hurling, jogado com taco de madeira é uma espécie de mistura de futebol americano e hóquei sobre grama, e o futebol gaélico, em que vale até pegar a bola com a mão.
Mas antes que se possa levar a caneca de cerveja à boca, o atendente do pub ou um freguês irlandês qualquer pode exclamar “ainda não”, já que a Guinness precisa de um tempinho para estar totalmente assentada e apresentar seu real sabor. E é aí que se percebe que há um ritual para a degustação de uma legítima stout, gênero a que pertence a famosa cerveja. Ela tem gosto forte, pois o malte é tostado – daí a coloração escura – e o teor alcoólico fica entre 7% e 8%, quase o dobro de uma cerveja pilsen brasileira.
Possivelmente em nenhum outro lugar do mundo uma marca de cerveja (caso da Guinness, produzida desde 1759) representa tanto a identidade nacional – para citar uma mera comparação, o desenho de uma harpa está tanto no brasão de armas da Irlanda como no rótulo da bebida.
Quem quer saber mais sobre esse ícone irlandês pode visitar a Guinness Storehouse, construída em 1904 e na ativa até hoje – diariamente sai e lá cerveja para abastecer 3 milhões de pints, nos mercados nacional e internacional. Alem da fábrica, o complexo tem uma área dedicada aos visitantes. Nela, é contada a história da bebida, e é detalhada uma série de momentos da produação e armazenamento.Durante o tour, pode-se ver rótulos, propagandas e outros matérias que mostram a “cara” da Guinness ao longo dos anos. Também se aprende que, ao contrario do que é dito popularmente, a água usada para fazer a cerveja não vem do Rio Leffey, que corta Dublin, mas da Montanha Wicklow, nos arredores da capital.
Um dos espaços mais concorridos é a Guinness Academy, no qual turistas aprendem a tirar uma pint perfeita. Quem não fizer o “treinamento” pode usar o ingresso para provar a bebida no Bar Gravity, o pub mais alto da cidade, a 44 metros de altura e com uma bela vista de Dublin. Lá, os barmans, além de tirarem bebida nos rígidos padrões de qualidade, ainda fazem aparecer o trevo da sorte, outro símbolo do país, junto à espuma.

Entra e Sai de Pubs
                     Para seguir bebendo Guinness e outras cervejas irlandesas, o endereço mais conhecido é o bairro do Temple Bar, repleto de bares, cafés, restaurantes, lojas vintage, livrarias, sebos e galerias repaginadas nos anos de 1990. Também é popular o mercado de comida do bairro, que, realizado aos sábados, oferece uma vasta opção de iguarias prontas para ser saboreadas.


Boêmia por natureza, o que lhe rendeu o apelido de Temple Barf (barf é vômito em inglês), a região concentra os pubs mais famosos da capital. É o caso da construção vermelha que nomeia o bairro, certamente um dos locais mais fotografados e estampados em cartões postais. Por isso, não espere encontrar preços modestos por lá. Ao lado, o Oliver St. John Gogarty pode até não ser muito freqüentado pelos nativos, pois não é originalmente rústico nem antigo (mas é bem planejado para parecer como tal). 


Ainda assim, o movimento da casa é grande graças às apresentações de boa musica irlandesa (a partir das 14h). Das 23h às 23h30, há shows de dança típica, quando a musica é interrompida para que um casal sapateie no tablado de madeira. O pequeno espetáculo mostra a arte como ela é praticada nas cidades do interior e escolas do país antes de passar pelos filtros da Broadway. Está longe de ser uma produção do grupo Riverdance, que tornou a dança irlandesa um fenômeno mundial, mas vale a pena.

Cerveja e Literatura
                Ainda no Temple Bar, a Porter House Brewing Company, decorada com rótulos e garrafas de diversos estilos e anos, produz uma série de cervejas. Além de saborear os tipos ale (mais avermelhada), Porter (um pouco mais fraca que a stoutI) e outros gêneros, é possível levá-las para casa. Outra boa pedida é o tradicional e pitoresco pub Stag´s Head, na região da Merrion Square, freqüentado por estudantes da Trinity College. A casa de 1770 foi repaginada em 1895 (e permanece do mesmo jeito desde então). Beber ali ganha um clima especial quando se imagina estar na mesma poltrona ou sofá usados um dia por James Joyce (1882-1941), grande expoente da literatura irlandesa e autor de clássicos como Ulisses e Dublinenses.
                      Mas não foi só o Stag´s Head que, com uma “ajuda” de Joyce, ficou famoso: diversos pontos de Dublin ganharam atenção especial daqueles que leram os relatos do escritor ou que pelo menos sabem que ele retratou Dublin muito bem. Nas palavras de Joyce, se a cidade fosse banida do mapa, seria possível reconstruí-la por meio de Ulisses. Assim, o Temple Bar, o Castelo de Dublin, a Grafton Street e vários outros lugares não estão apenas registrados na grande obra literária, mas de fato existem e encantam quem passeia  pela chuvosa cidade. Prova disso são as celebrações no dia 16 de junho, o Bloom´s Day (uma referencia a Leopold Bloom, protagonista de Ulisses), espécie de St. Patrick´s Day para os aficionados por literatura em geral.
Dublin, classificada pela Unesco como a cidade da literatura, também é o berço de uma lista invejável de escritores contemplados com prêmios Nobel – George Bernard Shaw, William Butler Yeats, Samuel Beckett e Seamus Heaney-, sem contar com Bram Stocker, criador da mais famosa história de vampiro, e o polêmico Oscar Wilde. As casas dos dois últimos ainda existem: ficam na Kildare Street 36 e na Merion Square North 1, respectivamente (são indicadas com placas). A região da Merrion Square conta ainda com belas construções da era georgiana  museus, a exemplo dos de Arqueologia, de História Natural e da National Gallery. Mas é mesmo a estátua de Oscar Wilde, uma escultura colorida bem em frente à casa do autor, retratando-o com uma leve cara de deboche, tão típica de seus personagens, que recebe mais atenção dos turistas.

Biblioteca Jedi
                Em uma cidade que respira literatura, uma visita obrigatória é a biblioteca da antiga Trinity College, a universidade de maior prestígio do país, que guarda o Livro de Kells. Todos os anos, 500 mil pessoas encaram uma senhora fila para ver o manuscrito do ano 800 produzido por monges celtas do Mosteiro St. Colmcille, na Escócia. A obra contem os quatro Evangelhos do Novo Testamento escritos em latim e ilustrados artisticamente à mão, relíquia que, na Idade Media, passou por um jogo de rouba e esconde até ser entregue aos cuidados da universidade de 1661.

                Outra atração de peso é a Long Room, sala de 65 metros de comprimento onde estão os 200 mil livros mais antigos da Trinity College. Mesmo quem nunca pisou nessa área pode ter a sensação de já tê-la visto. “O cineasta George Lucas fez uma foto da biblioteca e a usou em Star Wars”, explica um dos guardas da sala. A partir daí, o espço é lembrado como a biblioteca dos Jedis (personagens da saga Guerra nas EstrelasI).  Na biblioteca há ainda uma das poucas cópias da proclamação de independência da Irlanda, de 1916, lida pelo escritoe e ativista político Patrick Pearse no começo do levante. O movimento foi reprimido por tropas britânicas, adiando por décadas a separação entre o que hoje são a República da Irlanda (ou Eire, em irlandês) e a Irlanda do Norte (parte do Reino Unido),  o que ocorreu em 1949.
Aproveite a visita e faça também o tour de meia hora guiado pelos estudantes da Trinity, que explicam a função de cada prédio, os rituais universitários e, claro, citam os figurões que lá se graduaram, como os escritores Oscar Wilde, Samuel Beckett e Jonathan Swift.

A Misteriosa Molly Malone

             O maior burburinho da cidade é ali perto, na Grafton Steert, rua exclusiva aos pedestres reconhecida pelo piso avermelhado e pelos prédios de estilo georgiano – como a loja de departamentos Brown Thomas. Quando os dublinenses dizem que vão ao “centro”, se referem a esse bulevar, que combina belas e tentadoras vitrines com apresentações de músicos.
No início da rua, destaca-se uma estátua de ferro dedicada a Molly Malone. Mais uma escultura icônica da cidade, ninguém sabe se a moça realmente existiu. Ainda assim, a personagem faz parte do imaginário irlandês, e não há criança por ali que não saiba cantar os versos : “In Dublin fair city/where the girls are so pretty/I firt set my eyes/on sweet Molly Malone” (Na atrativa Dublin/onde as garotas são tão bonitas/a primeira coisa que vi/ foi a Molly Malone).
                  Conta a lenda que a formosa menina vendia peixes e mexilhões num período em que a fome assolou o país, por causa de uma praga que devastou as plantações de batata, catástrofe que realmente ocorreu – só em 1847, morreram cerca de 1 milhão de pessoas por desnutrição. Nesse cenário, o destino da garota foi trágico: segundo a canção, ela morreu de febre antes que alguém pudesse salvá-la.
Enquanto a estátua de Molly serve de pit stop para os visitantes no início da Grafton Steert, o parque Stephen´s Green oferecer momentos de descanso no fim da rua. Se o tempo ajudar, será possível observar os moradores relaxando ali, aproveitando os aguardados raios de sol. Ao caminhar pelo agradável parque, mal dá para imaginar que, durante a Idade Média, ele servia de palco para as execuções por enforcamento ou fogueira. 
Castelo e Catedral
E já que a época medieval foi evocada, para explorar o que restou desse período as melhores paradas são o castelo que tem o nome da cidade, a Igreja de St. Patrick e a fotogênica e icônica catedral, erguida a partir de 1030. E para degustar uma cerveja num pub que remonta a essa antiguidade toda, passe no Brazen Head, um dos mais antigos de Dublin, datado de 1198 e cujas prateleiras estão cheia de livros – para não desperdiçar tal acervo, a casa promove saraus de leitura de textos clássicos.
Embora seja um pouco afastado do centro, o Brazen Head é próximo ao Rio Lyffey, com acesso pela Lower Bridge. Tanto quanto para beber uma stout, uma boa ideia é tomar ali um típico café da manhã irlandês, à base de salsicha, ovos, bacon, tomate e feijão com molho de tomate adocicado, e então explorar o pedaço. É uma boa oportunidade de conhecer as pontes que cruzam o rio – a Ha´penny Bridge, toda branca com candelabros, é uma das mais bonitas. Outra opção para aproveitar as águas e a brisa do Liffey é um passeio de barco rumo às docas. Por lá, projetos arquitetônicos moderníssimos, dos anos de 1990, fizeram da região um belo espaço à beira-rio, com prédios de vidro e fachadas inovadoras. Um ponto alto é a Samuel Beckett Bridge, do arquiteto catalão Santiago Calatrava, também branca e em forma de harpa, o símbolo nacional.
Para materializar um pouco tudo o que foi visto em Dublin, a Carrolls Irish Gift Store, cuja principal unidade fica ao sul da O´Connell Bridge, será um pit stop e tanto. O espaço oferece todo tipo de lembrança, entre produtos oficiais da Guinness, CDs de musica irlandesa, bijoux com motivos celtas, símbolos da sorte, como trevos verdes e miniatures de leprechauns, guloseimas....
Ao fim da estada, especialmente para quem conseguir vivenciar as festividades em torno do St. Patrick, o dia 17 de março nunca mais será igual – ainda que sua cidade de origem tenha pubs animados e até organize uma festa no St.Patrick´s Day. E se a Guinness terá o mesmo sabor depois da viagem, é difícil dizer. Os ingredientes da cerveja servida no Brasil serão os mesmos, mas o cuidadoso ritual para tirá-la à perfeição, no clima e na tradição como os irlandeses apreciam, só em Dublin mesmo.

Informações Gerais

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Uma imagem real


Uma certa manhã ela acordou com 70 anos.  A pele não era mais assim tão rígida, os cabelos encurtaram e a textura das mãos denunciavam o que ela tentara esconder ao longo da vida por meio dos artefatos da vaidade feminina. Como passara rápido! Já vi muitos ficarem velhos e manterem o espírito jovem. Mas esta moça manteve a carcaça jovem e a alma envelhecida. Cansaço, fadiga! A vida não tinha sido fácil, nem valia a pena narrar os percalços das mulheres daquele tempo. Estava prestes a morrer afogada na luta contra o inevitável. As sobrancelhas eram marcadas por uma maquiagem definitiva que lhe dava um ar mutante, quase artificial. O batom vermelho, levemente borrado, já não ressaltava a beleza, mas revelava o aspecto histérico, alheio ao mundo e à realidade. Aquele olhar poderia ter inspirado Munch a pintar o Grito. Para ela não seria um problema, desde que se tornasse uma musa.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Let it go!


Uma vez, um homem se perdeu em meio as pedras do litoral da Jureia. Caminhava, olhava o mar, saltava de rocha em rocha e não achava o caminho de volta para casa - seja lá qual fosse seu conceito de casa. Fazer uma trilha sem água, comida, mapa ou uma mochila nas costas deixa a narrativa um pouco inverossímil, mas isso é, exatamente, o que torna o personagem, de certo modo, tão especial. Ele tinha um espírito aventureiro, pelo menos quando era jovem. Ao envelhecer, talvez possamos chamar a mesma atitude de desprendimento. Demorou alguns dias para que ele achasse a trilha de volta. Olhava o céu desconfiado, nutria um ressentimento pelos urubus, voando alto sobre sua cabeça pesada, como se os pássaros só estivessem por ali, esperando ele padecer. Ao voltar para casa, cansado e castigado pela natureza, contou seu método para prosseguir sem deixar o mar levá-lo: pensava na imagem da filha.

sábado, 26 de janeiro de 2013

O método, a Alemanha e uma relação de amor e ódio


Antes de embarcar de mala e cuia rumo à terras germânicas, o professor Kucinski, que dava aula na pós-graduação da PUC de jornalismo econômico, me perguntou que raios eu faria na Alemanha, afinal os brasileiros costumam estranhar bastante a vida por lá (ou por aqui). De fato, mesmo após 4 anos, continuo levantando as sobrancelhas, em tom de indagação, para muita coisa que observo. Mas, apesar das diferenças culturais, podemos dizer que fizemos alguns amigos. Engraçado é que praticamente a maioria deles tiveram alguma experiência no exterior. Estudaram, trabalharam, lecionaram em Londres, EUA, Brasil, África, Canadá e por aí vai. A observação serve até mesmo para professores que entram na lista dos favoritos. Não que a gente indague: „você já morou fora da Alemanha? Então pode ser meu amigo”. Essas coisas nós descobrimos com o passar do tempo, conforme a troca de experiências acabam sendo mais frequentes.  

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Avalanche de presepadas


Não posso negar. Sempre que o inverno chega, e com ele os primeiros flocos de neve, fico encantada. Coisa rápida, questão de dois dias. Tudo porque a beleza dura pouco e logo é substituída por aquele lamaçal e pelo branco monótono da paisagem. Não sei como esquimó consegue enxergar tantos tons para a mesmíssima cor! Sem contar os problemas que a bendita branquicela nos causa. Há quatro anos, estava prestes a encarar meu primeiro inverno. Levantava às 6h da manha e às 7h já estava com os pés para fora de casa em uma escuridão de filme de terror.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Cisjordânia: Hebron e o conflito entre Israel e Palestina

Tour Leva Visitantes à Dividida Cisjordânia
(Texto originalmente publicado na revista Viaje Mais! Nov. 2012)


Diferentemente de outras regiões como Jerusalém ou Tel Aviv, cidades da Cisjordânia – com exceção de Belém, onde está a Basílica da Natividade, não estampam cartões postais pelo mundo. Enquanto a bolha urbana de Tel Aviv faz esquecer os desentendimentos políticos, distritos como Hebron reproduzem nas ruas claramente o conflito Israel-Palestina.  
Não há perigo em visitar o lugar porque empresas de turismo como a palestina ATG (Alternative Tourism Group) e a israelense de ativistas judeus Green Olive Tours trabalham em conjunto para quebrar este estereótipo. Pode-se trocar a palavra perigoso por tenso, pois os tours abordam assuntos espinhosos como os assentamentos ilegais, o tratamento que a população recebe de soldados israelenses e a demolição de casas palestinas.
No programa está a visita a campos de refugiados, ao muro da segregação, aos assentamentos de colonos judeus, além de almoço em casa locais. O encontro com famílias palestinas ou até mesmo a hospedagem é vista como uma tática por essas empresas para superar preconceitos. Turistas brincam com as crianças, conversam com o casal, convivem com os locais e percebem que estão entre pessoas comuns. A proposta desses grupos de turismo não é só dinamizar a economia local, mas também promover a imagem da Palestina.

Roteiro em Israel: Jerusalém, Tel Aviv, Jaffa, Massada, Mar Morto, além de cidades do litoral norte como Haifa, Akko e Rosh Hanikra


Reza e diversão na Terra Santa

(Texto originalmente publicado na revista Viaje Mais! Nov. 2012)


A sagrada Jerusalém e a profana Tel Aviv são apenas duas entre as várias atrações que tornam o pequeno país do Oriente Médio um destino que surpreende

Regina Cazzamatta

Discórdias entre judeus e palestinos à parte, o turismo da Terra Santa não conhece o termo crise – de janeiro a agosto de 2012, 2,3 milhões de visitantes colocaram os pés nesse canto místico e enigmático o mundo. Apesar de quase 70% das excursões à região terem motivações religiosas, profanos e hedonistas não terão do que se queixar. Há muito o que ver por aquelas bandas, da bíblica Jerusalém à high-tech Tel Aviv, passando pelas maravilhas dos minerais do Mar Morto até a dividida e perturbadora Hebron.
Jerusalém, pela sua importância histórica, é o principal destino. Peregrinos, turistas e estudantes, religiosos e ativistas políticos fazem da polêmica e fascinante cidade um local bastante intrigante. Ali convivem cristãos, judeus e muçulmanos – juntos e ao mesmo tempo separados, já que a cidade antiga está dividida em áreas. Sagrada para as três maiores religiões monoteístas do mundo, é o local da crucificação de Jesus Cristo, da subida de Maomé aos céus e da destruição dos dois templos sagrados do judaísmo.
Chegar a Jerusalém durante o shabat – o sétimo dia do Gênesis, o descanso semanal de 24 horas para os judeus, contando do pôr do sol de sexta ao de Sábado – pode ser uma experiência marcante. O silêncio nos bairros judaicos é penetrante. Poucas pessoas são vistas pelas ruas e até mesmo  transporte público deixa de circular. No interior das muralhas do centro antigo, construídas pelo sultão Suleiman, o Magnífico, de 1537 a 1542, durante o Império Otomano, os olhos ficam curiosos diante da imensidão de expressões culturais e religiosas. O ícone da cidade, o Domo da Rocha, com uma enorme cúpula dourada, impera sobre o Monte do Templo. Razões para peregrinação não faltam por ali. Acredita-se que lá Adão foi criado, Abraão quase sacrificou seu próprio filho Isaac e foram erguidos e destruídos o primeiro e o segundo templos sagrados do judaísmo.
Praticamente em frente ao Domo está a mesquita Al-Aqsa, com capacidade para 5 mil fiéis. Conta-se que ali Maomé ascendeu aos céus para encontrar-se com Alá. Infelizmente, o acesso ao interior dos dois templos é permitido somente aos muçulmanos. Ainda assim, caminhar pelo Monte do Templo é uma vivência única, capaz de fazê-lo esquecer todas as divergências da região. Chão de pedra, fontes e árvores enormes dão um toque bucólico ao local. Sem contar com a bela vista para o Monte das Oliveiras. Vale lembrar que este é o lugar mais sagrado no mundo para os muçulmanos, depois das cidades Meca e Medina. Fiéis são vistos sentados em grupos, só de homens ou só de mulheres, sob às sombras das árvores. Muitos rezam em voz alta, um cantarolado suave que quebra o silêncio e completa o aspecto sagrado do local.

Embora exista nove portões que ligam as pequenas e tortuosas ruelas da cidade antiga ao Monte do Templo, a entrada dos forasteiros é permitida somente pelo Bab al-Maghariba. Filas fazem parte do passeio, ainda mais quando chegam tours com mais de 40 pessoas de uma só vez. É bom estar com o passaporte em mãos para passar pelo controle. Além da tradicional checagem de bolsas, câmeras e raio X, os guardas também perguntam o país de origem de cada visitante. Apesar do calor, é preciso se vestir com modéstia e cobrir ombros e pernas. Caso as roupas não estejam apropriadas, é possível comprar lenços para cobrir as partes desnudas. 

Muro das Lamentações  

       Na base ocidental do Monte do Templo, judeus rezam com as mãos encostadas no Muro das Lamentações.Considerado uma sinagoga a céu aberto, o espaço é dividido entre homens e mulheres. Muitos beijam as pedras, passam os dedos, batem levemente a testa, enquanto recitam trechos da Tora, o livro sagrado do judaísmo. Construído há 2 mil anos, o muro foi erguido para dar sustentação ao monte, onde imperava o Segundo Templo. O primeiro, da época do rei Salomão, foi destruído pelos babilônios, em 587 a.C. No começo do século 6 a.C, com a dominação persa na região, o povo judeu pôde voltar a Jerusalém e reconquistá-la. Mas, em 70 d.C, o segundo templo também foi reduzido a escombros, desta vez pelos romanos. Muitos foram exilados, marcando o início da Diáspora. Daí entende-se o simbolismo.


            De acordo com a crença judaica, a presença divina nunca abandona o muro. Os homens precisam colocar a kipá sobre a cabeça para se dirigir ao local. Também é importante não dar as costas ao muro e sair em marcha à ré, sempre olhando para ele. O momento mais especial para visitá-lo é no início do shabat, no entardecer da sexta-feira, quando o lugar lota. Entretanto, durante o shabat é proibido fazer fotos e há inúmeros encarregados de fiscalizar o cumprimento da determinação. Mesmo para os cliques mais discretos, há um olhar de reprovador e um pedido para que se guarde a câmera.


Via-Crúcis

Não muito longe do Muro das Lamentações está Via Dolorosa, onde cristãos fazem o caminho que Jesus teria percorrido com a cruz até o calvário. A famosa Via-Crúcis é demarcada por 14 pontos, que representam significantes passagens bíblicas da Paixão de Cristo. A primeira parada é atualmente uma escola islâmica. Por isso, nem sempre é possível visitar o espaço. Muitos grupos de fiéis fazem o percurso levando uma cruz em tamanho real, acompanhados por freiras, cantando e rezando. O ponto nove da trajetória é onde Jesus teria caído pela terceira vez. A partis dali, o caminho segue em sentido à Basílica do Santo sepulcro, onde se encontram as cinco últimas paradas da caminhada.   

Lá dentro, na capela católica, no ponto 11, acredita-se que Jesus tenha sido despido e pregado à cruz. Na capela ortodoxa ao lado, está o topo da montanha onde a cruz teria sido fincada. Há sempre muitos turistas, que se aglomeram em fila para olhar o lugar. No andar de baixo da igreja está a pedra onde Jesus teria tido seu corpo limpo e untado. Muitos se ajoelham, beijam a rocha, colocam lenços, terços, bíblias, fotografias, passam as mãos, rezam, fazem uma pausa e sorriem para a foto. O ponto final é a tumba, onde é preciso esperar um pouco na fila. Só entram quatro pessoas por vez e o tempo de contemplação é curto. Coisa de um minuto ou menos. Em seguida, já se ouve a voz de um padre ortodoxo pedindo para as pessoas deixarem o local. Existe, no entanto, uma teoria alternativa para a crucificação e ressurreição de Jesus, que aponta o Jardim da Tumba, em Jerusalém Oriental, como o local do ocorrido. Embora muitos ignorem essa versão, o espaço (coordenado por membros da igreja protestante) exibe um belo jardim, com pequenas fontes e muita tranqüilidade.



Monte das Oliveiras

       Outro local essencial é o Monte das Oliveiras. Inúmeras árvore, repletas de azeitonas verdinhas, marcam a paisagem – algumas têm cerca de 2 mil anos e se encontram no quintal da Igreja de Todas as Nações. Na paisagem, destoa as cúpulas douradas em forma de cebola da Igreja de Maria Madalena, construída por cristãos ortodoxos.

Logo no início, antes da subida realmente começar, está a Tumba da Virgem Maria, outra igreja controlada pelos ortodoxos. A capela é aparentemente pequena e singela por fora, mas ao descer as escadarias longas e acinzentadas, muitas vezes cheias de velas nos degraus, o templo se expande até o memorial. Alem do simbolismo espiritual, o morro oferece a vista mais espetacular da região. De lá, podem ser feiras fotos da cidade antiga. Embora alguns digam que a íngreme caminhada possa ser um pouco cansativa, vale a pena subir a pé, devagar para apreciar o visual em diversos pontos.

        Ao longo da montanha, chamam atenção inúmeras tumbas judaicas, esbranquiçadas e cheia de pedrinhas. Rata-se do maior cemitério em uso do mundo, onde estão enterradas cerca de 150 mil pessoas. Segundo a profecia judaica, o messias voltará no dia do Juízo Final pelo Monte das Oliveiras. Por isso, muitos querem ser enterrados ali para garantir um bom lugar na fila da ressurreição. Outra igreja bastante visitada no Monte das Oliveiras é a do “Pai Nosso”. Ali está a caverna onde Jesus teria ensinado a oração aos seus discípulos. Nas paredes da igreja pode-se ler a reza em mais de cem línguas, entre português, chinês e até mesmo guarani.

Uma boa dica é se hospedar no centro da cidade nova, fora das muralhas, onde estão os melhores restaurantes. 
          Por lá também se encontra o Museu de Jerusalém e seu Santuário do Livro, em forma de jarra branca. A arquitetura escolhida simboliza as jarras em que os rolos de pergaminhos dos escritos sagrados do Antigo Testamento foram encontrados, em uma caverna na região do Mar Morto. Para se despedir de Jerusalém, nada como o espetáculo de luzes da cidadela, onde fica a Torre de David, bem ao lado do portão Jaffa. Durante à noite, projeções luminosas nas ruínas da fortaleza, acompanhadas de musicas, contam de modo quase mágico (e simples) a história da cidade. O show é aberto ao som do que seria a flauta do rei David.


Onde um DJ é sagrado

           Enquanto em Jerusalém as pessoas estão mais ligadas ao sionismo, sua irmã mais nova está bem mais perto do hedonismo: Tel Aviv tem uma agitada vida noturna. Por lá, um DJ é sagrado e comanda diversas casas noturnas, seu templo. Se durante o shabat, Jerusalém praticamente entra em coma, em Tel Aviv PS clubes e bares, muitos deles na região da marina, abrem as portas geralmente por volta da meia noite. Depois de cair na agitadíssima noite, nada como se espreguiçar por horas sob o sol nas cadeiras de praia, dispostas para locação por cerca de 15 shekelim (por volta de € 3). E um mergulho em águas mediterrâneas é indispensável. Pela orla, a moda praia brasileira se destaca nos pés das pessoas em forma de Havaianas. Até mesmo marcas nacionais de biquínis estão à venda na Rua Sheinken, no centro, onde existem diversas butiques descoladas.

              Se a fome apertar, Tel Aviv é o lugar certo para os deleites da culinária. A cidade dita não só a moda do país, mas também domina a cena gastronômica. Judeus imigrantes de várias partes do mundo trouxeram influências da cozinha de origem, o que torna a cena bastante experimental e diversificada. Em alguns restaurantes, se vê na porta com destaque um selo koscher, emitido pelos rabinos. É a certificação de que a comida é preparada de acordo com os ditames do judaísmo. Entre as principais regras, estão quais carnes podem ser ingeridas e o modo de abate do animal. Além disso, carne e laticínios não podem dividir as mesmas panelas, sequer a mesma refeição – embora isso seja mais flexível em Tel Aviv.



Diáspora e Jaffa


            Para entender como os judeus mantiveram sua cultura, mesmo espalhados pelo mundo, uma visita ao Museu da Diáspora é bastante recomendável. Dentro do belo campus universitário, a exibição conta a história da diáspora e ainda explica o significado de muitas festas judaicas, a exemplo do barmitzvá, quando garotos de 13 anos atingem a maioridade religiosa e passam a ser responsáveis por seus atos morais (para as meninas, a cerimônia se chama bat-mitzvá). Outra opção para quem não quer passar o dia na praia é o Museu de Arte de Tel Aviv, quase no fim do Boulevard Rothschild. O prédio de vidro, ao lado de um belo jardim, abriga uma coleção permanente de impressionistas e pós- impressionistas, além de obras da avant-garde do século 20, a exemplo de nomes como Picasso, Matisse, Degas e Pollock.

            Embora essa vibrante cena cultural, artística e gastronômica dê a impressão de uma cidade madura, Tel Aviv é uma pré-adolescente se comparada à vizinha Jaffa. Há 4 mil anos, enquanto a metrópole israelense era somente dunas de areia, o porto de Jaffa já figurava como um dos mais importantes do Mar Mediterrâneo – citações da cidade são encontradas até no Antigo testamento. Atualmente, Jaffa se tornou um reduto descolado, cheio de marcados de pulgas e galerias e artistas, desde pintores e escultores até designers de joias. Já o porto não exibe mais tanta energia, mas ainda assim continua marcando uma das mais belas paisagens do mar e das construções históricas. Bares, restaurantes e o mercado local lotam, formando um típico murmurinho no distrito, tido como mais bacana de Tel Aviv.

            Ao caminhar pela beira da praia de Tel Aviv até Jaffa, onde reside uma maioria cristã e muçulmana, avistam-se moças de lenços e burcas na água, sentadas sob o sol e até mesmo chutando bola. O litoral tem um aspecto mais familiar e sem o mundaréu de cadeiras e bares que marcam a orla de Tel Aviv. Ainda assim, moças de véus e outras de biquíni transitam no mesmo espaço à beira-mar. 

Litoral Norte
          Se em algumas cidades de Israel, a convivência entre árabes e judeus é marcada por segregação, controle e conflito (veja Box na pág.165), em Haifa, o clima é visivelmente mais amistoso. A terceira maior cidade de Israel, tida como uma das mais heterogenias do país, abriga as duas culturas de forma bastante harmônica. Lá, comunidades judaicas seculares vivem, lado a lado, com os árabes de maioria cristã – e não em bairros separados.
Dizem os locais que, enquanto em Jerusalém se reza e em Tel Aviv se festeja, é em Haifa que se trabalha. De fato, a região é um importante vale do silício, com forte presença da IBM e a melhor universidade do pais em tecnologia, eletrônica e medicina. Do litoral, avista-se o Monte Carmel e o  esplendoroso Jardim Baha ´I, tido como uma das maravilhas do mundo moderno. Da base ao topo do morro, 19 terraços repletos de verdes jardins, fontes e portões dourados cortam a paisagem em direção ao porto – uma mescla bem realizada entre natureza e arquitetura. No centro dos jardins está o túmulo de cúpula dourada do fundador da religião monoteísta Baha´I, criada no século 19, na Pérsia, o Bu-ha´ullah. O local é o segundo mais sagrado para os 6 milhões de seguidores da religião espalhados pelo mundo.
Outro porto importante e histórico na região é o de Cesareia, ao sul de Haifa, construído por Herodes, o Grande, durante a dominação do Império Romano, para facilitar o comércio com a Europa. Cesareia foi capital da Judéia e a importância do seu porto, à época, é equiparada ao de Alexandria. Atualmente, a cidade é um grande parque arqueológico, onde se podem ser vistas inscrições no teatro romano local com o nome de Pôncio Pilatos, que morou em Cesareia. Resquícios do anfiteatro, onde os judeus foram assassinados durante a primeira revolta contra os romanos, e das fortificações das cruzadas podem ser observados nas ruínas à beira-mar.
Perto dali, Akko, que se tornou o principal porto e base dos cristãos durante as cruzadas, conquista os visitantes imediatamente. Uma das principais atrações é a cidade subterrânea desses tempos conflituosos. Túneis em direção ao mar, usados como ponto de fuga durante as batalhas, revelam a aventura da época. E a última cidade da costa norte de Israel é Rosh Hanikra, na conturbada fronteira com o Líbano. O destaque do pequeno distrito são os penhascos  à beira-mar, que formaram inúmeras cavernas de águas cristalinas e jogos de luz. O acesso ao penhasco é feito via teleférico e a sensação é como a de entrar na caverna marítima em Capri, na Itália, mas sem precisar estar em um barco. 
Mar Morto e Massada

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Esquisitices dos tempos do Facebook

            Sempre defendo e gosto das redes sociais. Confesso. Quando ouço alemães questionarem o sigilo de dados pessoais e a posse de algumas informações para uso de mercado, tento mostrar o lado legal da coisa. Meus colegas na universidade organizam tudo via Facebook, em um grupo fechado do mestrado, claro! Seminários, troca de textos, resumos, encontros de trabalho e tantas outras coisas. É comum eu receber mensagens: “Estou na biblioteca, alguém está por aqui e vai almoçar na Mensa?” (restaurante da universidade). Sim, festas também entram na lista de atividades. Assim, se eu não fosse membro da rede, ficaria um pouco à parte da coisa.