sexta-feira, 9 de julho de 2010

Alemanha X Espanha

Foi triste ver o desapontamento das pessoas ontem em Berlim. Apesar do autocontrole alemão, muitos não conseguiram esconder a decepção e lágrimas nos olhos. Na Ku´damm a comunidade espanhola festejava, embalada pelo som das afinadas vuvuzelas. Engraçado como a copa do mundo aflora o espírito nacionalista. No jornal da meia noite, uma catalã enrolada na bandeira espanhola dizia – “nós seremos campeões do mundo”. Coisa de maluco mesmo. Embora seja bom ver as divergências superadas, ou esquecidas, nem que seja brevemente.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Chute nas Regras


Li uma reportagem bem legal na Spiegel sobre o caos nas cidades da Alemanha após a queda do Muro de Berlim. Os fatos já são bem conhecidos, mas fiquei surpresa com a criatividade e o rebolado que os alemães tiveram, apesar dos problemas e reclamações, para acomodar todas as pessoas que chegavam do leste. E olha que não foram poucas.  No ano de 1989 a antiga “República Federal da Alemanha” recebeu 350 mil descendentes de alemães da Polônia, 202 mil da ex-União Soviética e Romênia, além de 120 mil pedidos de asilo político. Sem contar com  a própria população da DDR que veio de mala e cuia.

Em Hamburgo barcos, campings e até casas suspeitas no distrito da luz vermelha viraram acomodações. Ta, isso foi mesmo um eufemismo para não dizer bordéis. No estado de Nordrhein Westfalen (capital Düsseldorf),  fábricas vazias e hospitais também entraram na dança. Cada um se virou como pôde. Outras cidades, por exemplo, mobilizaram albergues da juventude e escola de polícia. Hans Christoph Hoppensack, diretor do Senado à época, declarou ao ser informado que teria de reativar alguns bunkers da Segunda Guerra Mundial: “é uma catástrofe”.  Caótica ou não a medida foi tomada em Frankfurt e os claustrofóbicos bunkers sem janelas e mau ventilados foram mobiliados com camas e cadeiras. 

É bacana ler não como a abertura foi festejada, mas sim como algumas regras bobas do dia a dia foram quebradas.  Não sei porque aqui tem bem mais graça atravessar fora da faixa, andar de bicicleta na contramão ou passar no farol vermelho. Isso se tornou pequenos prazeres do cotidiano. É como comer bolo de vó com café forte e fresco durante a tarde.  Sem mais digressões. Só para se ter uma ideia, pessoas do Leste puderam assistir peças de teatro e cinema de graça em Frankfurt.  Outro ponta pé momentâneo nas regras: imagina só utilizar o transporte público (S-Bahn, U-Bahn, ônibus, trens, Tram) em Hamburgo sem tíquete! E se o controle viesse era só mostrar a identidade DDR.  Mais legal que tudo, em Lübeck, até estacionar o carro em lugar proibido foi permitido.  Queria ter idade para ter visto!

Mas por hora me contento com  a corridinha no farol vermelho.


segunda-feira, 24 de maio de 2010

Carnaval das Culturas


Berlim é uma cidade com pretensões "Multi-Kulti" como eles mesmos dizem por aqui. Dos 3,5 milhões de habitantes, cerca de 500 mil são imigrantes de pelo menos 170 nacionalidades diferentes. É realmente uma salada para ninguém botar defeito. Nem é preciso justificar porque o Carnaval das Culturas, que este ano comemora a décima quinta edição, tem super a ver com o clima da capital. Durante quatro dias, nos arredores de Neuköhln e Kreuzberg, há desfiles de carros alegóricos, barracas de comidas internacionais, shows e apresentações paralelas. Durante a celebração, crianças correm com camisetas do Brasil, outras usam o terceiro olho indiano ou se fantasiam com vestidos espanhóis. É como se os berlinenses levantassem uma bandeira branca e toda a cidade fizesse uma pausa para os problemas relacionados à imigração. Não se fala em integração da comunidade turca, problemas econômicos com a Grécia ou até mesmo do tráfico de garotas do leste europeu. No ano passado (nossa primeira experiência), a comemoração recebeu 1,5 milhão de visitantes e 5.500 ativistas.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Para um casal de amigos

21.05.2009

Um boteco é o lugar para qualquer assunto ser problematizado, relativizado e sem o menor pudor, esquecido. Tá bom, não importa o quão profunda é a conversa - ela serve mesmo como pano de fundo para rodadas e rodadas de cerveja, sem grandes pretensões acadêmicas. Quando o tal bar é próximo a uma universidade, a coisa piora. Parece que não faltam idéias para polemizar. A atmosfera propicia horas de efervescentes discussões políticas, de estilo de vida, pós – modernidade e por aí vai.

Quem já não se viu em uma situação assim? Não, não me refiro ao conteúdo, mas sim à conversa boêmia. Pois é. O que defendíamos já mudou, já nem sabemos mais nossa posição (talvez isso seja mais radical entre nós jornalistas). Esse vício que se perpetua durante os anos universitários fica na memória como nossos bons momentos e pronto. Não lembramos mais de muita coisa mesmo. Pra mim não foi diferente. Só me recordo de um único tema em pauta numa quinta-feira à noite do terceiro ano de graduação que rendeu muitas “saideiras". É, a palavra perde o sentido quando não é levada a sério e as pessoas não vão embora.

Entre tantas baboseiras que gostávamos de levar à mesa-redonda, a daquela noite era o amor como construção social. Ih? Sem preocupações, não vou começar a escrever aqui o pouco que aprendi sobre os textos do Nietzsche. Também não me perguntem o que eu achava. Não lembro! Mecanismo de defesa? Talvez!

Esta noite de quinta-feira veio à tona quando pensei em escrever uma crônica para um casal de amigos que completa um ano de casados nessa semana. Sim, eles se conheceram na mesma escola elitista de um bairro do centro expandido de São Paulo há dez anos. Namoraram, brigaram, voltaram, noivaram, viajaram, juntaram grana, casaram.

Mas o que faz duas pessoas tão diferentes se entenderem tão bem? Ele gosta de números, física, astronomia. Ela gosta de história, cinema, literatura. Ele é esportista, ela sedentária de carteirinha. Ele é disciplinado, organizado. Ela convive com crises de rotina. Ele é calmo, tranqüilo e ponderado. Ela é tagarela, agitada e ansiosa. Ele gosta de dormir cedo. Ela assiste TV até tarde. Sinceramente, não sei. Acho que nem eles.

Namoraram durante a adolescência, durante os badalados anos de faculdade. A vida a dois não combina com o individualismo cotidiano? Eles não se importaram e foram em frente! Sonharam juntos, aprenderam a fazer planos a dois, saíram de mochila nas costas, currículos no bolso e começaram a vida. No fundo eles surpreenderam e foram surpreendidos com esse papo de casamento. Há tanto tempo juntos, valorizavam a amizade e a cumplicidade. O papel era só detalhe, formalidades do mundo burocrático. Até persuadiam os amigos à não assinarem. Mesmo assim, riram, aproveitaram e se emocionaram. Foram pegos pela tradição.

Até onde vai? Ninguém sabe. Nem eu, nem eles. Todos nós torcemos.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Imbróglio de Nacionalidades


Neste último sábado, fomos  convidados por um casal alemão  (muito gente boa) para uma rodada de fondue, às 19h. Éramos em três brasileiros, dois mexicanos, dois espanhóis, três alemães e um húngaro. O problema é que, antes do encontro, o grupo de latinos resolveu dar uma passadinha na festa do vinho no vilarejo de “Werder, an Havel” (logo mais escrevo um post sobre a celebração) . A vila é bem próxima de Potsdam, onde supostamente deveríamos aparecer por volta  das 19h.  A combinação foi um pouco desastrada. Leia-se: vinho de morango, framboesa, maça e derivações (se é que podemos chamar isso de vinho); feriado do dia primeiro de maio (passeatas e tropas de choque por toda esquina) e um grupo alegre de amigos tentando entrar nos poucos trens disponíveis e lotados na estação da vila, talvez um pouco menor que Pirapora.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Rumo a Moskovsky Volzal



Em quase cinco horas de viagem dá para escrever pelo menos um post. Na verdade já estamos indo para São Petersburgo e só fiz dois textos sobre Moscou, mas é que essa coisa de sair cedo e só voltar à noite para o hostel nos deixa bem quebrados. Por isso, acho que misturarei todos os relatos e experiências daqui para frente. Ainda vou contar sobre nossas observações dominicais dentro das igrejas ortodoxas, aventuras gastronômicas e comentários sobre os novos ricos de Moscou, mas agora vou falar do trajeto da viagem em si.

Estou bem contente porque nunca tinha viajado de ICE (Inter City Express). Normalmente, vamos mesmo de trens regionais que são mais baratos e vagarosos feito tartarugas. Mas como o Rublo está bem menos valorizado em relação ao Euro (1 para 39) as passagens do trem rápido nem custaram os olhos da cara. Com uma velocidade de 180 quilômetros por hora, alcançaremos São Petersburgo em apenas quatro horas e cinquenta minutos. Com a lata velha noturna dos vagões regionais a viagem seria de pelo menos nove horas.

Partimos da estação Leningradskiy. Aliás, não sei porque, mas sempre acho partidas de trem tristes. Esse quadro de pessoas na plataforma dando tchau e os vagões se afastando cada vez mais rápido. Bobeira! Mas de qualquer modo, esse momento na Rússia é bem diferente com relação à Alemanha. Aqui é uma bagunça, para não dizer uma zona mesmo. Os familiares sobem no trem, ajudam os passageiros a colocarem as malas no bagageiro, a pendurarem os casacos e depois ficam meia hora se abraçando e batendo papo. A cinco minutos da partida, uma gravação (aquelas de companhia de transporte) avisa que os acompanhantes devem desembarcar. Tá, eu assumo que meu russo não melhorou em uma semana, mas o anúncio também é repetido em inglês. Aliás, ta aí mais uma vantagem de viajar de trem ligeirinho. Os nomes das paradas também são traduzidos.

Em Berlim, o trem para na plataforma por menos de cinco minutos. Se não ficarmos espertos, ele sai sem você e sua malas. Os bilhetes nem são checados na porta. Nós o apresentamos só mesmo depois da partida E quem não tem passagem fica choramingando a partida de amigos e familiares do lado de fora. Bom, mas já deu para notar por posts anteriores que a galera russa é bem mais calorosa.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Coitado do Lenin

Ontem visitamos o túmulo do Lenin (como todos os turistas de Moscou), mas confesso que achei a experiência bem estranha. O mausoléu fica na Praça Vermelha, encostado no muro do Kremlin . Após deixar câmeras fotográficas e celulares do lado de fora (isso é bem sério), passamos por detectores de metais e partimos para ver o espetáculo do presunto. Tá, esse comentário foi meio grotesco, mas é literalmente isso. O coitado do Lenin queria ser enterrado ao lado da mãe em São Petersburgo, mas acabou embalsamado na capital. Após sua morte em 1924 e um velório que mobilizou a população por semanas ao longo do inverno, Stalin decidiu que o corpo do líder comuna seria um ícone da revolução e contratou dois químicos para brecar o processo de putrefação. Hoje parece mais um boneco de cera do Madame Tussauds. 

Pelo menos quatro guardas que também parecem estátuas decorativas da tumba pedem silêncio e ordenam que as mãos geladas dos turistas sejam retiradas dos bolsos. Eu até entendo a demonstração de respeito e apesar de eu não ter nada de comunista (quem me conhece sabe) acho sim que as teses do Lenin e sua figura em si como intelectual merece certa reverência. Mas me soa tudo muito falso. Poxa, já o forçaram a ser um símbolo da eternidade e ele ainda está enterrado bem de frente ao GUM. Trata-se de um mega centro de consumo para novos ricos de Moscou, ultra requintado com marcas como Dior, Versace, Bulgari e por aí vai. Mas é bem em frente mesmo. Tá certo, o tal shopping já existia na era soviética, mesmo que com filas enormes e prateleiras vazias. Mas é peculiar sim sair do Armani Café e dar de cara com a casa da imortalidade leninista. Só faltava cobrar ingresso! Mas graças a Deus (e mesmo que ateu, qualquer camarada concordaria) ainda não tiveram essa ideia. 

Ao menos tiraram o corpo do Stalin da mesma tumba, que perturbou a paz de Lenin de 1953 a 1961! Mas isso só porque uma antiga Bolchevique chamada Madame Spiridonova sonhou que Lenin estava reclamando da presença de Stalin ao seu lado! Só tem maluco nesse lugar. Aliás alguém sabia que o nome do Lenin era mesmo Vladimir Ilych? Bom, tenho de admitir que ainda não vi nenhuma camiseta, chaveirinhos e essas parafernálias toda com a imagem do falecido. Será que não venderia ou é respeito mesmo?

Mais peculiar que tudo isso é assistir ao show do Bon Jovi logo depois do discurso do Gorbatchev nas comemorações dos vinte anos da queda do muro de Berlim! (http://picasaweb.google.com/reginacazzamatta)

Obs.: a foto não é minha. A temperatura por aqui já está bem mais simpática.



quinta-feira, 8 de abril de 2010

A coisa tá Russa !



Chegamos ontem em Moscou e desde então tenho pensando como deve ser difícil não saber ler e escrever. Coisas simples do dia a dia como pegar ônibus, metrô ou comprar um creme para as mãos tornam-se tarefas complexas. Não diria impossível, mas quase uma epopeia. A capital russa é bastante parecida com São Paulo. Tá, com suas devidas proporções. Aqui a arquitetura é meio exótica, mas eu me refiro ao clima cosmopolita, internacional, trânsito, muvuca, grandes avenidas, uma cidade pulsante e com todas as vantagens e desvantagens de uma metrópole gigante. A linha de metrô é excelente, são 177 estações. O problema é a movimentação e esse alfabeto sinistro. As baldeações não tem o mesmo nome. É isso mesmo. Por exemplo, a Paraíso em São Paulo é chamada assim não importa se chegamos pela linha azul ou verde. Aqui a mesma estação pode ter vários nomes, dependendo do número de intersecções. A mais próxima do Kremlin, por exemplo, tem quatro cruzamentos e portanto quatro nomes diferentes. E tudo em russo! Como meu teclado não é adaptado a essas esquisitices não posso dizer quais, mas isso também não faz diferença. O subterrâneo é gigante, são estações monstruosas. Essa mania de grandiosidade já aparece até no estilo das estações. O Rô cronometrou hoje: demoramos 2 minutos e 27 segundos na mesma escada rolante até chegarmos no patamar de cima, que pode ser a saída ou uma outra linha.

Por todas essas razões estamos bem equipados. Andamos com o guia da Lonely Planet, mapa da região aqui do hostel e mais o caderno Moleskine Moscou. Só que não dá para parar embaixo das placas para tentar traçar paralelos entre o nosso alfabeto e o ciríico. Em questões de segundos somos levados pela massa, como acontece com qualquer mortal na praça das Sé em horário de pico. É tudo muito cheio, apesar dos trens passarem a cada três minutos. A dica é encostar na parede mais próxima e só descolar o traseiro de lá quando souber a direção e nome da estação que deseja embarcar. Isso foi o primeiro impacto e hoje já estamos mais adaptados aos meios de locomoção. Mas vivemos uma epopeia para comprar uma simples passagem de trem. Aqui no meio da rua quase N-I-N-G-U-E-M fala inglês. Os que dizem para você "falo só um pouquinho", querem na verdade avisar: "tá bom eu não falo, mas vou tentar te ajudar". Resumo, eles ouvem a pergunta, respondem tudo em russo e gesticulam até você seguir na direção certa. 

A aventura de hoje era conseguir comprar tíquetes de trem de Moscou para São Petersburgo. E o pessoal do hostel (galera bem solícita e profissional) salvou a nossa pele. A ucraniana da recepção escreveu em um papel tudo o que precisávamos. Assim só entregaríamos para a moça do guichê. Isso foi fácil, o problema foi chegar até o balcão certo. Entramos em três filas diferentes. Na verdade existem duas ou três ferroviárias no mesmo local. E só uma delas têm trem que partem rumo à São Petersburgo. Mostramos o papel para trocentas pessoas, que iam apontando para alguma direção. Assim como uma gincana de "ache as pistas" encontramos o lugar certo. Depois falo sobre a hospitalidade russa. Segundo nosso guia, Moscou é uma das cidades mais antipáticas do mundo. Não concordei com isso, não. Acho que é meu espírito paulistano apressado falando mais alto. Muitos tentam nos ajudar sim. Mesmo que em russo! Com sorrisos e muitos gestos. Bom, mas eu ainda tenho 15 dias para mudar de opinião. 

Visitamos hoje o túmulo do Lenin. Mas como estamos com fuso de sete horas e o Rô arrumou um frila de tradutor de site de albergue e precisa do computador vou parar por aqui. Ah, última observação. O clima está aparentemente normal depois do atentado da semana passada. As estações estão lotadas de policiais (com chapéis escavuscas e bem moleques), mas não sei se isso é mesmo o padrão.