quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Vulcões no Sul da Itália

Umas das experiências imperdíveis na Sicília ou na região da Campânia é visitar, cara a cara, os famosos vulcões. Aqueles que parecem mesmo desenho animado, com uma cratera gigante para gente se dependurar e olhar lá para baixo. Gases sulfurosos, fumacinhas e até mesmo lavas brilhante fazem parte dos passeios, realizados por trilhas ou barcos. É só escolher o brutamontes certo. 

O Etna e suas 300 crateras

O monte Etna é a montanha mais alta da Itália ao sul dos alpes. Com 3.329 metros de altura, impõe uma presença marcante para quem perambula pelas ruas de Catania ou na praça principal de Taormina. Trata-se do maior vulcão em constante atividade da Europa. Erupções ocorrem com frequência, principalmente das quatro crateras principais e das rachaduras ao longo do grandalhão. A mais devastadora foi em 1669, quando um rio de lava destruiu 16 vilas e matou quase 16 mil pessoas. Enquanto turistas saçaricam entre as trilhas de pedras vulcânicas, 120 unidades de controle sísmico monitoram os humores do Deus do Fogo. Uma pequena fresta de onde as lavas fumegantes eclodiram, em 2001, ainda está aberta, embora bem menor que à época do pequeno incidente. Hoje, até umas pequenas flores ousam renascer ali do lado. E quem acha que o moço anda bem comportado, engana-se. Em 2007, uma nuvem de fumaça subiu 40 metros de altura, fechando o aeroporto de Catania. Melhor ter cuidado! Contrate um guia especializado em trilhas que possa explicar cada peculiaridade da montanha e explore as mais de 300 crateras (algumas triplas) espalhadas pela região. Além de chegar em locais mais inóspitos, um guia nos ajuda a fugir de tempestades típicas do verão, caminhando no sentido oposto de inesperadas nuvens carregadas e trovoadas. 

Vulcano e seu perfume de ovo podre


Esta ilha vulcânica pertence ao conjunto das sete ilhas eólicas, no mar Tirreno. Desembarcar por ali já é uma baita experiência só pelo cheiro esquisitão. Rochas amareladas e um aroma primoroso de enxofre, capaz de penetrar em qualquer narina, até mesmo nas mais entupidas. Os romanos achavam que a ilha era a chaminé da oficina do Deus Vulcão. Seja lá como for, o bacana é mesmo escalar até a cratera a 391 metros acima do mar. A caminhada leva cerca de uma hora. Enquanto o sol castiga (não há uma mísera sombrinha), a paisagem para o mar e ilhas deslumbra. Antes de começar a jornada, uma placa avisa sobre o real perigo de envenenamento para aqueles que se aproximam demais das fontes de emissões de gases. Não que seja lá muito possível, a fumaça amarelona fede mais que ovo podre. Leve um pregador de roupas para apreciar a imensidão da cratera sem sentir náuseas.

Stromboli e o cuspe de lavas 

Se você é daqueles que só acredita vendo, pois bem. O Stromboli também faz parte das ilha eólicas (é a mais nova delas) e é um vasto vulcão embaixo da água. A ponta que emerge do mar como uma pirâmide solta fumaças acinzentadas a cada vinte minutos. É um brutamontes permanentemente ativo. A última erupção, de 2007, abriu mais duas crateras no topo. Já as de 2002-2003 aumentaram o tamanho do buracão principal de 35 para 125 metros. Curioso é que apesar de mau- humorado, sua ira nunca destruiu a cidade em si. Desde o período neolítico, as vilas sempre saíram pela tangente. Ao chegar de barco, repare que um lado da montanha tem vegetação bem verdinha, enquanto o outro mais parece uma duna de areias negras. A base é uma praia deliciosa de pedras vulcânicas, tanto que se trata do programa favorito de verão dos estilistas Dolce e Gabbana, os quais adquiriram uma casinha de veraneio por aqui. Apesar do aspecto idílico, a vida por lá não é das mais fáceis. Toda comida só chega por ferry e não há estradas que atravessam a ilha. A Ginostra, vilazinha na costa ocidental com somente 36 casas, recebeu energia elétrica há poucos anos. Para escalar até o topo é obrigatório contratar um guia. Um passeio bastante popular é subir três horas de trilha para ver o por do sol lá de cima. Ao anoitecer espera-se até que a coisa estoure e jorre suas lavas. Outra opção bastante legal é esperar as erupções no mar a bordo de um barco. Enquanto o show não acontece, a galera vai de grapa no deck! E para os que já estão se imaginando jogando Sonic 1, fase 2, calma lá. Dá para ver as lavas explodirem, fiapos desenharem no céu e serem rapidamente encobertos por fumaça. Não é uma tempestade avassaladora. Caso contrário esta que vos fala não estaria postando.

Vesúvio e os sítios arqueológicos de Pompeia e Herculano

Se a ira do Stromboli sempre respeitou o espaço da sua própria cidade, o mesmo não se pode dizer do Vesúvio, na baía de Nápoles. Este aqui jogou mesmo as lavas no ventilador e botou pra quebrar com a erupção de 79, soterrando a cidade de Pompeia e Herculano com uma massa de gases, pedregulhos e fogo. Desde então já entrou em erupção mais de 30 vezes. A última foi em 1944. Nada que possa tirar a tranquilidade de quem o observa tranquilamente de Sorrento, de Nápoles ou voltando de barco de Capri. A grande moral deste cuspidor de fogo avassalador é que toda ira é auto destrutiva! O destempero de 79 não trucidou somente Pompeia, mas a própria cratera vesuviana, que de 3000 metros foi reduzida a 1281.

Peidorreiros subterrâneos 

sábado, 15 de agosto de 2015

Toscana: Degustar um Siepi

     Para tudo existe uma primeira vez na vida! Por exemplo quando embarquei, mesmo que por acidente, em uma classe executiva da Lufthansa. Foi uma experiência inusitada e diferente para quem só voa no aperto da Ryanair. Hoje será novamente um dia especial, a primeira vez que abrirei (e degustarei) uma garrafa do super toscano Siepi, do Castello di Fonterutoli, uma vinícola localizada a 5Km da charmosa cidade Castellina in Chianti, na província de Siena. 
     A garrafa foi adquirida durante uma degustação de vinhos na Toscana, organizada pela ARDB Brasil, mas está guardada a sete chaves esperando o melhor momento para ser aberta. E hoje não faltam motivos. Meu pai comemoraria este sábado 58 anos, não fosse as surpresas da vida. Além disso, busquei esta semana o último documento do processo para tirar a cidadania italiana — o RG ou a Carta D´ Identita. O passaporte já havia saído, mas queria comemorar com tudo em mãos. Superstição minha. 

     Comemorar e brindar a um tio maluco que há trinta anos pesquisa a história da família, descobrindo até assassinatos entre os antepassados, passionais como o eram. A uma mãe que comprou a ideia desenfreada da filha e embarcou duas vezes para Itália em menos de três meses para dar entrada no processo, resmungando que nunca gastou tanto dinheiro para guardar a relíquia na gaveta! (Ela até sabe que será útil no futuro, mas não quer dar o braço a torcer!). Ao meu pai que me ensinou que qualquer sonho é sonho, mesmo os mais estrambólicos. A equipe de profissionais no Brasil e na Itália que agilizou o processo em consulados e comunes aguentando pacientemente minha ansiedade, perguntando se tudo realmente sairia como planejado. 
        De volta ao vinho que me espera! O castelo de Fonterutoli pertence à família Mazzei desde 1435 e possui uma vinícola dividida em cinco diferentes áreas — Fonterutoli, Siepi, Badiola, Belvedere e Caggio. Além da osteria Fonterutoli, que conta com o talento de um chef lindíssimo (foto acima), a casa ainda oferece diversas degustações. Foi nesta ocasião que pela primeiríssima vez aproveitei os míseros 100 ml da minha taça de Siepi, safra 2011. Notas de chocolate amargo, forte e um retrogosto duradouro e contínuo. Nosso sommelier então descreveu as características da bebida: 50% da tradicional Sangiovese (produzida na região de Chianti) e 50% Merlot, envelhecido dezoito meses em um barril francês de carvalho, e engarrafado em junho de 2103. Poderia ali ficar por 20 anos, mas não terei paciência para tanto! Segundo a Gambero Rosso, uma espécie de Vejinha italiana, trata-se de “um dos 50 vinhos que mudou o estilo dos vinhos italianos”. 

      Para acompanhar, um menu surpresa de três pratos preparado pelo maridão que acaba de me expulsar da cozinha! 
        Salute!
A atualização do jantar que acompanhou o bendito Siepi, com making of e tudo!



quarta-feira, 15 de julho de 2015

O que fazer em Londres

Top Ten experiências na capital britânica 

Como toda metrópole que mereça tal título, a capital inglesa oferece uma avalanche de pontos turísticos, exposições, restaurantes, baladas, bares e botecos. E, claro, que cada um tem sua lista favorita das coisas mais bacanudas para ticar no roteiro. Afinal, gosto não se discute, certo? Mas a lista aqui é mais em relação às experiências do que necessariamente de pontos turísticos. Sabe aquele momento que já riscamos todas as obrigações e então podemos finalmente flanar despreocupadamente pela cidade? O único inconveniente são os preços salgados, em valiosas libras. A capital esfola como uma menina mimada da realeza ou como uma escort tentando tirar suas calças (metaforicamente, claro!).

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Gilberto Gil, Caetano Veloso e o surto expatriado

        Em uma visita à São Paulo, perguntaram-me certa vez o que eu mais sentia falta do Brasil depois de alguns anos fora de casa. Pensei, torci o nariz e respondi: “a música”. Meu interlocutor me olhou extremamente desapontado, como se esperasse uma resposta como a família, os amigos, o calor do nosso povo, as belas praias, a garota de Ipanema ou sei lá qual pataquada do gênero. Não que eu não sinta saudade das pessoas, mas em tempos de internet a comunicação anda bem mais fácil (para não falar até invasiva).  Mas enfim... Fato é que ninguém compartilha comigo aqui, mesmo conhecendo e gostando de música brasileira, a carga cultural, histórica e até mesmo emocional de cantar “alguma coisa acontece no meu coração”.... ou “começou a circular o expresso 2222”....

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Sul da Itália: Nápoles, Capri, Pompeia, Vesúvio e vilarejos da Costa Amalfitana como Amalfi, Ravello, Positano, Sorrento e Salerno

Apaixonante Costa Amalfitana

Os suspiros estão garantidos em cada curva da estrada mais cênica da Itália, ladeada por vilarejos mesclados às montanhas, perfeitos para o dolce far niente, e pelas águas cintilantes do Mar Tirreno
Por Regina Cazzamatta (Texto originalmente publicado na Revista Viaje Mais! Junho 2015)

     Dio mio, uau! São exclamações assim que naturalmente saem da boca dos turistas a cada curva vencida na estrada mais cênica da Itália: a Costa Amalfitana. E que sucessão de curvas vertiginosas permeiam o trajeto. É que a baía que avança a partir de Nápoles, em especial no trecho entre Sorrento e Salerno, que se estende por 60 km de puro deslumbre, é atravessada por uma estrada estreitíssima e sinuosa que recorta uma íngreme cadeia de montanhas à beira do Mar Tirreno. O homem também colocou seu talento ali, construindo casas multicoloridas encarapitadas nos precipícios que se erguem vários metros acima do mar, formando vilas minúsculas e charmosas, como presépios fincados nos alucinantes penhascos.
     É, sobram mesmo muitos motivos para a região, a 400 Km ao sul de Roma, ser tão desejada. Mas, antes de suspirar em cada pedacinho desse litoral espetacular, aproveite o pit stop em Nápoles, que dá acesso às maravilhas da Costa Amalfitana, e curta o alegre caos da cidade inventora da pizza, assim como os impressionantes vestígios arqueológicos de Pompeia e Herculano, que por 1.500 anos ficaram escondidas sob a lava lançada pelo Vulcão Vesúvio em 79 d.C. 

Nápoles. Onde todos os clichês italianos se encontram  

Seja apenas como ponto de chegada ou um pit stop repleto de história e recheado com os autênticos sabores italianos, apesar do ritmo um tanto caótico, Nápoles certamente figurará no seu roteiro pela Costa Amalfitana. Equipada com um aeroporto e uma estação de trem, é nela que você chegará a partir de outras cidades da Itália para dar partida rumo à romântica e deslumbrante Costa Amalfitana. 
Inicialmente, cair nas frenéticas ruas de Nápoles pode ser um choque, mas é aos poucos que se reconhece a beleza nesse caos. Na realidade, não se trata de uma cidade particularmente bonita, mas a graça está em seu verdadeiro clima à moda italiana, com tudo o que isso traz de bom. E de ruim. Uma sinfonia de buzinas é a trilha sonora de qualquer caminhada. Lambretas com uma, duas ou até mesmo três pessoas, a maioria sem capacete, circulam pelas ruas que se entrecruzam sem regras no centro histórico, distribuindo intermitentes bip-bips. Ao mesmo tempo, lençóis e roupas estendidos do lado de fora das janelas são responsáveis por colorir, e bagunçar ainda mais, os prédios de Nápoles e garantir uma certa atmosfera de velha cantina italiana. 
Entre toda essa balbúrdia, está uma série de joias, principalmente no centro histórico, tombado pela Unesco em 1995. A área esconde um emaranhado de boas surpresas não só arquitetônicas como culinárias, a exemplo de trattorias, osterias, barraquinhas de pizza frita e peixarias, onde coloridas bacias expõem frutos do mar fresquinhos, que irão parar no seu prato na hora do almoço ou jantar. Delicie-se com a comida fata de Nápoles, pois a cidade que criou a pizza margherita só poderia ser a terra da comida boa. 

Imponência Napolitana

Assim como a gastronomia, outra característica notadamente napolitana é a religiosidade. Não é difícil se deparar com minialtares nas calçadas, ornamentados com imagens de santos. Eles combinam muito bem com o cenário forrado de igrejas, principalmente no centro histórico, onde o destaque é a impressionante Catedral de Nápoles, datada de 1272. Lá dentro, a capela do tesouro, de 1637, guarda pedras preciosas e 54 estátuas de prata, mas o que os moradores consideram ainda mais valioso são os restos mortais de São Genaro, que estaria enterrado ali. 
Outra atração religiosa no centro antigo é o Complexo Monumental San Lorenzo Maggiore. À parte a visita à basílica, explore os subterrâneos da construção, onde ruínas greco-romanas transportam os visitantes à antiga cidade de dois mil anos atrás, mostrando resquícios de fornos, escolas e lavanderias. 
O que consegue ser ainda mais interessante do que San Lorenzo Maggiore, e quiçá de todas as atrações de Nápoles, é o magistral Museu Arqueológico Nacional, que abriga o maior acervo de estátuas romanas do mundo, os melhores mosaicos encontrados nas escavações das antigas cidades de pompeia a Herculano (devastadas pela erupção do Vulcão Vesúvio em 79 d.C) e até uma sala dedicada á arte erótica romana, a qual é proibida para menores de 14 anos. 
Depois dessas boas horas de imersão na cultura e no cotidiano com um quê de bagunçado dos napolitanos, o fim de tarde pede um passeio pela Praça do Plebiscito, onde se impõem o Palácio real e a imponente Igreja de São Francisco de Paula. Aproveite para degustar um encorpado espresso no lendário e requintado Café Gambrinus, num dos cantos da praça. Há mais de 150 anos a casa serve célebres visitantes, incluindo aí os autores Oscar Wilde e Ernest Hemingway e o cantor Luciano Pavarotti. É um lugar e tanto para você provar os doces da região, como o bolo babá (pão-de-ló molhado ao rum) e as tortinhas doces folhadas de ricota, enquanto observa, do conforto das instalações do elegante café, o vaivém dos passantes na praça. 
Outro bom lugar pata flertar com a cidade, e num ritmo ainda mais tranquilo, é o Palácio Real de Capodimonte, afastado do centro histórico, mas mesmo assim com uma localização privilegiada: no alto da montanha. Hoje, a construção se transformou em um monumental museu, que, ao longo de 160 cômodos, espalhados por três andares, distribui uma coleção de pesos pesados das artes, como Rafael, Caravaggio, Ticiano e El Greco. No terceiro andar, dedicado à arte moderna, está aversão de Andy Warhol do Vulcão Vesúvio, que espreita a cidade. Mas não fique só com a pintura. Ao deixar o palácio, você estará no imenso Parque de Capodimonte, que revela a vista do verdadeiro vulcão, imperando todo poderoso na paisagem.  

Nápoles e as redondas

Foi em Nápoles, em 1738, que a primeira pizzaria abriu as portas na Itália, na região de Porta Alba. Foi por aquelas bandas também que nasceu a cobertura margherita. O top pizzaiolo na época, Rafaelle Espósito, quis impressionar o rei Umberto I e sua mulher, Margherita, durante uma visita real, em 1889. Claro que a simples e gostosa invenção, que leva mozarela, tomate e manjericão, cada ingrediente representando uma cor da bandeira da Itália, foi aprovada e, então, batizada com o nome da rainha. 
Hoje, as tradicionais pizzarias de Nápoles são geralmente portinhas escondidas que mal acomodam 50 pessoas. Uma boa recomendação é a lendária Starita, de 1901. Famosa pela versão frita das pizzas, foi lá que Sophia Loren gravou o filme O Ouro de Nápoles , em que fazia o papel de uma pizzaiola instável e adúltera. Prepara-se para esperar cerca de 45 minutos por uma mesa, o que pode ser uma experiência deliciosa. Basta observar o vaivém de lambretas nas ruas e degustar as tais massas fritas com tomate, servidas para quem está à espera de um lugar. Outra boa pedida é a pizzaria Gino Sorbillo. Além de boas margheritas com mozarela de búfala, a casa produz uma cerveja própria.  À noite, em Nápoles, após um agitado dia, é mesmo ótimo se jogar na história de que tudo acaba em pizza. 

Pompeia e Herculano – Testemunhas da ira do Vesúvio


Quem vê o Vulcão Vesúvio tão altivo e tranquilo junto da Baía de Nápoles mal pode imaginar as “peripécias” que ele já aprontou por ali — e a mais séria delas ocorreu em 70 d.C. Uma pesadíssima erupção, mais as cinzas, as pedras e os gases vindos das entranhas do gigante, soterrou cidades como Pompeia e Herculano. Aqueles que tentaram fugir foram atingidos por pedras incandescentes, e os se esconderam morreram sufocados. Esses locais desapareceram do mapa por mais de 1.500 anos, escondidos sob uma espessa camada de rochas e cinzas liberadas durante o “ataque” do vulcão. Pompeia só foi redescoberta em 1594, durante a construção de um aqueduto, e Herculano, mais tarde ainda: em 1709.
Décadas depois, as duas foram “desenterradas” e, no caminho para Sorrento, agora são sítios arqueológicos imperdíveis. Herculano, a 13 Km de Nápoles, é menor, mais ficou até mais preservada por ter sido fossilizada pela mistura de lama e cinzas. Algumas ruínas são de casas de nobres, de uma rua comercial e de banhos termais que ainda revelam o piso de mármore e de mosaicos. 
Já Pompeia, a 23 km de Nápoles, é mais pop e ostenta espaços como o Lupanare, que era um bordel com camas de pedra e afrescos eróticos nas paredes. Também está ali bem preservado o Grande Teatro, com mias de 5 mil lugares. Mas nada é mais aflitivo do que o jardim dos fugitivos, que traz réplicas dos corpos petrificados pela mistura letal de cinzas e rochas, que invariavelmente têm as mãos curvadas sobre o rosto. 
A erupção ocorrida no ano 79 foi tão violenta que também destruiu o cume do Vesúvio, criando uma cratera de dimensões assustadoras, a qual pode ser visitada. Em frente à estação de trem Ercolano-Scavi, perto do Herculano, partem ônibus para lá, o Vesúvio Express. Do estacionamento, são 860 metros até a cratera, num trajeto íngreme e pontuado pelas cinzas de antigas explosões (desde a grande erupção, o gigante se manifestou 30 vezes, a ultima delas em 1944). Um leve cheiro de enxofre acompanha os visitantes, que não se importam com o odor e se deslumbram com a fumaça que sai das rochas.
Enquanto o Vesúvio dorme são outros romãs que seduzem ainda mais quem passeia pela região: o do amarelíssimo limão siciliano, o dos frutos do mar e o das pizzas e massas recém-saídas do forno. São esses, principalmente, que ficam na memória depois que se aproveita as delicias de Nápoles e de seu entorno. 

Sorrento – O início de um sonho chamado Costa Amalfitana 

Para zigue-zaguear pelos vilarejos da Costa Amalfitana, é comum os turistas se fixarem em cidades como Sorrento, a 26 Km de Pompeia e onde a estrada ganha os penhascos e o casario colorido que tanto fazem sua fama. Encimada numa colina, a cidade brilha com um cenário à moda antiga e os resorts, ainda que as praias, de pedra e não de areia, não sejam assim tão especiais. Os banhistas têm apenas um pequeno espaço no porto Marina Grande para se refestelar ao sol, mas a presença de bons restaurantes e cafés à beira-mar compensa. 
O centrinho fica na parte alta de Sorrento, e a chegada ali é por um charmoso elevador. O desembarque é no Parque Villa Comunale, um terraço romântico que descortina um estupendo panorama do mar. Ao lado, a Igreja São Francisco, com o pátio preenchido por arcos e buganvíleas e em meio ao zunzunzum da ruela São Cesário, é uma bela surpresa com os afrescos ainda originais. Já a Basílica de Santo Antônio, do século 11, exibe pinturas romanas, fragmentos de edificações antigas e um altar repleto de... limões, fruta deliciosamente recorrente em toda a costa. Não à toa faz parte de várias receitas e, se quiser comprar iguarias preparadas com ela, vá a loja Limonoro. Desde 1905, a casa produz uma porção de guloseimas que levam limão, com os bombons de chocolate recheados com o típico licor limoncello. 

Também dá para começar o tour em Salerno

      No outro lado da baía que envolve a Costa Amalfitana está Salenro, onde também é possível iniciar a viagem vindo de Nápoles ou Pomepeia, fazendo o roteiro no sentido oposto ao mostrado nessa reportagem. A cidade, segunda maior da Campânia (tem cerca de 135 mil moradores e só perde para Nápoles, que tem perto de 1 milhão de habitantes), é muito procurada por oferecer uma ótima conexão de ferries para as vilas vizinhas e, assim, os turistas basicamente só chegam e saem por ali, sem ficar um tempo para explorar o lugar. Mas eles não sabem o que estão perdendo. O calçadão da praia é repleto de gente fazendo jogging – ou se dirigindo para os restos que servem apetitosos frutos do mar. A comida também é o chamariz nas trattorias do centro histórico, que revela igrejas medievais como a catedral de Salerno, uma das mais bonitas da Itália. Num dia de sol, visite o Castelo Arechi, que, pairando a 263 metros de altitude, descortina um panorama sublime do Golfo de Salerno. São ruinas que passaram por uma longa restauração e, reabertas em 2009, agora têm um museu que apresenta as descobertas arqueológicas da região. 

Positano — “O” lugar para desempenhar a arte do dolce far niente 

Se a Costa Amalfitana seduziu você já nos primeiros quilômetros rodados em Sorrento, prepara-se para atingir o auge do encantamento no trecho seguinte, que leva a Positano. São meros 17 Km de trajeto, mas que trajeto: há vários mirantes dispostos a muitos metros acima das águas do Tirreno, que parece ter águas mais azuis e tranquilizadoras do que qualquer outro mar do mundo. Com essa pintura acompanhando a viagem, é impossível não parar em todos os deques disponíveis, fazendo com que a rota, que, num dia de trânsito normal, seria feita em cerca de meia hora, facilmente ultrapasse uma hora.
Outro impacto é se encontrar “cara a cara” com Positano. É que o casario colorido que de cima a baixo invade a montanha garante um irretocável clima de faz de conta à cidade, como se ela mal tivesse moradores e transeuntes. E o movimento nem sempre é muito nítido também porque Positano tem uma única rua-avenida, que por 4 Km se entende, ou melhor, se enrola feito um caracol para atravessar a cidade. 
E como alcançar as redondezas onde tal rua não passa? Só há escadarias e vielas com íngremes subidas e descidas — onde os carros não circulam —, como a Via dei Mineli. Ela leva à praia, a qual, no canto direito, é pública (no quanto esquerdo, ela é reservada para quem quiser alugar guarda-sol e espreguiçadeiras). Na beira mar, todo mundo se junta, mas cada um curte o dolce far niente no seu estilo. Uns torram ao sol. Outros, ou melhor, outras se mantêm de vestido longo e chapéu. E outros se sentam nos restaurantes da orla e, enquanto almoçam, praticam o people watching.

Moda Positana

Como um dos pontos mais badalados da costa, alfaiates e comerciantes, nos anos 1960, identificaram uma demanda por acessórios e roupas que representassem o clima e o estilo de Positano. Começaram, então, a criar peças de linho, incluindo toalhas e lençóis bordados à mão. E foram ajudados por estilistas como Benetton e Fiorucci, que passavam as férias na cidade e mostraram como tingir os produtos. O resultado foi a criação da “moda positana”, conferida na loja Antica Sartoria, endereço certo dos visitantes fashionistas. 
Saçaricando pelas ruazinhas, você também vai topar com butiques finas, galerias de arte e lojas que vendem coloridas peças de cerâmica, como jarros, copinhos de limoncello e minimurais de azulejos, sempre presentes na decoração de toda sorte de estabelecimentos. E o caso do café e restaurante La Zagara, onde as refeições são degustadas sobre coloridíssimas mesas de mosaico. Além de adquiri os produtos típicos, você precisa visitar a Igreja de Santa Maria Assunta, uma das mais populares para casamentos, que guarda a imagem de uma Virgem Maria negra, de inspiração bizantina.
E assim, ao conhecer a suspirante vila em caminhadas morro acima para curti uma baita vista do litoral, ao se deliciar com as fresquíssimas receitas locais e ao se jogar na praia para desfrutar da arte de não fazer nada, a frase de John Steinbeck, autor de As Vinhas da Ira, cunhou há mais de 60 anos se mostrará mais atual do que nunca: “Positano nos toca profundamente. É um lugar de sonho, que quando você está lá não parece de verdade, mas, depois que você parte, se torna incrivelmente real”. E deixa muita saudade. 

Capri — hedonista e perfumada 

Ao longo da história, o sul da Itália foi castigado por algumas catástrofes causadas pelo Vesúvio. Mas, para compensar a fúria do vulcão, as redondezas também foram moldadas com formações “pacíficas” e igualmente soberbas, como as que emolduram a elegante ilha de Capri. É um microcosmo mediterrâneo, alcançado de barcos desde Positano (e também de Sorrento, Amalfi e Salerno) e queridinha desde os tempos do Império Romano. Foi nela que o imperador Tibério, desconfiado de que seria assassinado por opositores em Roma, mandou construir, em 27 d.C., 12 vilas no alto da montanha. E se mandou para lá. A mais suntuosa delas, a Villa Jovis — que xige um bom par de pernas para ser alcançada — ainda mantém sues resquícios de pé, 353 metros acima do nível do mar. O governante foi só a primeira personalidade que caiu de amores por Capri. Escritores como o chileno Pablo Neruda e o alemão Thomas Mann também se renderam aos encantos da ilha. Até o ator Leonardo di Caprio já foi visto bebericando uns expressos por lá. E é mesmo esse o clima local: VIP. 
Da marina Grande, no porto de Capri, sem os principais passeios de barco em torno da ilha, os quais escancaram o quão generosa a natureza foi com o pedaço. É tanta formação caprichada que é difícil escolher a mais bonita. Há o arco natural, portal de pedra onde, na passagem da embarcação, os enamorados devem se beijar para que, reza a lenda, o amor perdure para sempre; a Punta Tragara, que fica de cara para os icônicos Faraglioni, rochedos de calcário que brotam no meio do mar; e a Ponta Carena, onde está o segundo farol mais alto do país.
No trajeto, navega-se pelas grutas Branca e Verde, de águas límpidas e transparentes. Mas o ponto alto é mesmo a magnífica Grota Azzura (gruta azul). Uma fila de embarcações se concentra em frente a ela e, então, botes pequenos buscam os visitantes nos barcos maiores e os levam até a gruta, processo que pode demorar mais de uma hora por conta da quantidade de turistas. Mas quem se importa sabendo do show que está por vir? 
A entrada da caverna tem 1,3 metro. O barqueiro, concentrado, observa o correr das águas e, enfim, rema gruta adentro. E então o “milagre” acontece: o túnel, estreito do lado de fora, se abre num salão rochoso, em que a luz do sol entra pela fenda se reflete na água, a qual, forrada por uma areia branquinha gera um efeito de azul fosforescente inacreditável. O espetáculo seria ainda mais encantador se não houvesse tantas canos ali ao mesmo tempo, mas, ainda assim, é maravilhoso. 
 
Ao retornar à Marina Grande — que tem, à direita, a Bagno di Tiberio, uma das praias mais procuradas de Capri -, um funicular conduz os visitantes ao centrinho. Nas estreitas ruas, há lojas de marcas badaladas, o vaivém de carinhos, ao estilo dos de golfe, dos hotéis de luxo transportando as malas dos hospedes, e atrações como o Jardim de Augusto, criando  mando deste que foi o primeiro imperador romano, que encanta, claro, pelas flores, mas também pelos bancos de mosaico e o visual estonteante para os rochedos Faraglioni. Perto dali, também com vista primorosa dessas formações o Mosteiro Certos adi San Giacomo é outro oásis de tranquilidade. Conta-se que, em 1949, um monge dali criou a fórmula do primeiro perfume de Capri. Com autorização do papa, revelou-a a um químico, que achou o aroma promissor e construiu um laboratório para produzi-lo. Nascia assim a conhecida perfumaria Carthusia Certosa. 
Para que o cheirinho das férias na ilha esteja sempre por perto, compre um vidro do perfume Ária de Capri. A essência de limão e laranja, associada a notas de mimosa e pêssego, certamente reconduzirá você aos marcantes dias passados na região. Então, é só fechar os olhos e recordar os momentos em que se via o sol nascer da varanda, com uma xícara de cappuccino em mãos, ou se contemplava o crepúsculo na praia, com a água do mar lambendo os pés. 

Amalfi — Poderosa na Idade Média, idílica e pacata hoje

Cruzar a estrada que conecta os vilarejos, superestreia e com curvas fechadas, uma atrás da outra, dá um certo friozinho na barriga. Mas ainda bem que o cenário sedutor não dá trégua, especialmente entre Positano e Amalfi. Ali, surgem diversas praias, quer dizer, boa parte delas são enseadas minúsculas, praticamente escondidas entre os paredões e acessadas apenas por longas escadarias. Como tais sequências de degraus não são vistas da estrada tampouco há placas que as indique, siga esta dica: pare sempre que você vir uma fileira de carros estacionados no acostamento. É grande a chance de encontrar uma inusitada, e linda, faixa de areia perdida nas falésias.

O zigue-zague do trajeto também é reconfortado pela tranquilidade e beleza de Amalfi, que recepciona os visitantes com um colorido degradê de casas, parte delas cenicamente empilhadas por um terreno mais plano, num vale ladeado pelas portentosas escarpas do Monte lattari. 
Hoje tão pacata e bucólica, mal dá para acreditar que Amalfi foi uma grande potencia marítima na Idade Média, rivalizando com as poderosas repúblicas de Veneza e Genova. A supremacia era tanta que ela era capital da próspera República Amalfitana, que criou um código de leis marítimas seguido em todo o mediterrâneo e que tinha a própria moeda, aceita da Grécia à África. 
Uma testemunha desse passado glorioso é o complexo da catedral, que conserva o Mosteiro do Paraíso, onde fica o cemitério da antiga nobreza amalfitana, e a Basílica do Crucifixo, hoje um museu que guarda tesouros como uma mitra (insígnia religiosa que os sacerdotes usam na cabeça) do século 13, ornamentada com folhas de ouro e uma infinidade de pérolas. Outra atração é a cripta, que guardaria os restos mortais de Santo André, padroeiro da cidade. 
Como fica no centrinho, a escadaria da catedral é um ponto de encontro de moradores e turistas. A turma também adora jogar conversa fora   —  tomar um bom espresso, claro — na confeitaria Andrea Pansa, ao lado da igreja. Se bem que, quando o sol bate forte, uma boa são os sucos de frutas da Sporta Marina, as quais são cultivadas no quintal do proprietário. A casa ocupa uma portinha perto da catedral, que, se você não prestar atenção, passa batido. 
O que nunca passa despercebido é a quantidade de limões sicilianos, cujos pés naturalmente enfeitam as vielas — e boa parte das lojinhas também. É automático querer pegá-los, já que muitos têm quase o tamanho de uma bola de futebol de salão. Mas não faltam avisos para os forasteiros não botarem as mãos nas frutas. Com essa fartura, o limão vai parar não só nas receitas, mas também em sabonetes, perfumes e no licor limoncello, cujas garrafinhas pintadas à mão, trazendo a cena de Amalfi, são um suvenir típico da cidade. 
Nas ruas, também é recorrente se deparar com miniaturas, como se fossem presépios montados em fontes ou colocados nas fendas das montanhas. As figuras representam profissões comuns dos vilarejos, como padeiro e pescador, e são uma espécie de artesanato típico que embeleza ainda mais o centrinho. 

O verde reluzente das águas

A despeito do movimento e do glamour que envolve a vizinhança, Amalfi ainda preserva sua essência de vila de pescadores. E, como tal, nada como explorá-la num tour de barco, que passa pelas “modestas” casas com elevadores privativos para a praia e propriedades como a Vila Sophia Loren e a mansão do dono da fabricante de champanhes Moet & Chandon. 
O barco para de tempos em tempos e se aproxima de alguns rochedos, quando o condutor mostra “imagens” naturais formadas nas pedras. “Use a imaginação”, diz aos mais céticos, apontando para a possível forma de uma mãe abraçando o filho. Outras formações, porém, são mais facilmente identificadas, como a pedra do elefante com sua imensa tromba. Depois, o barco se aproxima do Fiorde de Furore, fenda gigante que corta o Monte Lattari e é o maior do sul da Europa. O clímax do passeio, no entanto, é a chegada à Grotta dello Semeraldo (gruta da esmeralda), no vilarejo de Conca dei Marini, a 4 Km de Amalfi, e também alcançada por terra, com um ônibus que sai da estação Sponda, em Positano. 
Um elevador conduz até a entrada da gruta. Ali, a luz do sol passa por uma pequena fenda e ilumina a caverna e a água, que, devido à refração, cria o radiante efeito que deixa água com tons verde-esmeralda, envolta por estalagmites e estalactites que alcançam 24 metros. 
Barqueiros, com pequenos botes, levam os turistas para um rápido passeio pelo espaço. E alguns, para ninguém se esquecer de que está fazendo um passeio à la Veneza, soltam o vozeirão e entoam trechos da clássica música O Sole Mio.  

Ravello — Terraço para o Infinito