quinta-feira, 14 de maio de 2015

Um roteiro essencial de Viena, Praga e Budapeste — um passeio compacto pelo Leste Europeu

Praga, Viena e Budapeste
O Grande espetáculo da Europa

Mergulhe nas belezas arquitetônicas (e em águas termais também), na história, nos cafés e no mundo das mais finas artes nessas três capitais fenomenais 
Texto originalmente publicado na Revista Viaje Mais! Abril 2015.


O Leste Europeu é uma explosão de história, arquitetura colossal e arte, de toda e qualquer seara. Símbolos máximos dessa vizinhança, Praga e Budapeste, capitais da República Checa e da Hungria, respectivamente, por décadas escondidas sob a Cortina de Ferro, voltaram a reluzir feito ouro, finalmente vivendo a democracia e inundadas pelos investimentos dos parceiros da Comunidade Européia. Com isso, abriram-se aos forasteiros, agora sem reservas nem desconfianças, exibindo-se tão deslumbrantes e imponentes como em seus tempos áureos.

Não é exagero. Você vai ver, e sentir, que o presente é tão suavemente uma extensão do passado ao atravessar a Ponte Carlos IV, que descortina o fabuloso panorama medieval de Praga, dominado por uma centena de torres e pelo castelo encarapitado numa colina. Ou ao ouvir um concerto com peças de Franz Liszt na Igreja de São Matias, em Budapeste, onde ele mesmo tocava — e onde Francisco José e sua bela mulher, Sissi, da poderosa dinastia Habsburgo, foram aclamados imperadores da Áustria e reis da Hungria, selando a formação do Império Austro-Húngaro.

Pela intersecção histórica, e mesmo pela proximidade e facilidade de acesso, a monumental capital austríaca, Viena, que geograficamente está na Europa  Central, também integra este roteiro, perfeito para ser feito de trem. Embarque com a gente e deixe-se levar pelo som das valsas e óperas de Viena, pelo sabor da cerveja checa, pela brisa do emblemático Rio Danúbio, que rasga o panorama de Budapeste...

Praga — a arrebatadora cidade das cem torres

Quando os cafés colocam mesas nas calçadas de Praga e os artistas voltam a se apresentar pelas ruas, em meio ao vaivém intenso de pedestres, é sinal de que a primavera chegou à República Checa. É o tempo em que uma enxurrada de visitantes começa a agitar a capital de 1,3 milhão de habitantes, que recebe todos os anos 8,5 milhões de forasteiros. 
Hoje em dia, a alegre estação, que vai de março a junho e, além de turistas, traz um novo ânimo aos nativos que por meses sofreram com o inverno rigoroso, não lembra em nada o marcante evento conhecido como Primavera de Praga, quando, em 1968, tanques soviéticos invadiram a capital checa para reprimir manifestações populares e defender a manutenção do socialismo. É que os tempos cinzentos esvaneceram-se totalmente no reflorescer da cidade no período pós- Cortina de Ferro, nos anos de 1990, quando Praga começou a se tornar um lugar tão cool e cheio de hipster quanto a multicultural e hypada Berlim. Galerias, restaurantes e lojas fervilham no centro histórico, tombado como Patrimônio Cultural da Unesco desde 1992. Mas as construções antigas não ficam só nesse pedaço. 
Praga toda é praticamente uma sucessão de maravilhosas construções de época passadas, moldada ao longo dos séculos por várias culturas que dominaram seu território. Tudo fruto de já ter sido uma das capitais mais prósperas do continente, sede do Sacro Império Romano Germânico (962-1806) e ponto de intersecção entre as culturas judaica, germânica e da Boêmia (região que se formou no século 11 e, em 1918, deu origem à Checoslováquia, dividida em 1993 em República Checa e Eslováquia). Mas a era de ouro da urbe foi sobretudo no século 14, sob a batuta de Carlos IV, monarca que dá nome à ponte mais borbulhante e famosa da capital. Não tem quem não vá. 
Erguida em 1357 sobre o Rio Moldávia, é só andar por ali que se ganha um dos visuais mais lindos da cidade: a região do castelo, que paira no topo de uma colina, identificada de longe pelas torres monumentais. Elas dominam o cenário, seja qual for a intensidade do formigueiro de gente que se junta nos 520 metros de extensão da ponte. Artistas rascunham caricaturas, expõem telas, tocam violino e até arriscam um tilintar com os dedos sobre taças de cristais molhadas. 

O fuzuê, aliado ao magnífico entorno, pode fazer com que os detalhes da ponte passem despercebidos. Mas não deixe de admirar as 36 estátuas que a ornamentam, como a de Cosme e Damião, além da de São Vito, padroeiro da Boêmia e de Praga, respectivamente. Mas nenhuma concentra tantos turistas quanto a estátua de São João Nepomuceno, que forma até fila. Diz a lenda que o rei Venceslau jogou o sacerdote Nepomuceno da ponte em 1393, como punição por ele ter se negado a revelar as confissões da rainha. Para os supersticiosos, esfregar as mãos na estátua garante o retorno a Praga. Verdade ou não, uma placa dourada marca o ponto onde a tragédia teria ocorrido. 


O castelo que é uma Cidade 

O túmulo de Nepomuceno está na fascinante Catedral de São Vito, dentro do Castelo de Praga, alcançado pela Ponte Carlos IV e outro must see da cidade. Desde o século 9, a nação é governada dali — Carlos IV, os Habsburgo e o dramaturgo Václav Havel, o mais amado dos presidentes (ele foi o último mandatário da Checoslováquia e o primeiro da nova República Checa), dirigiram o país protegidos por aquelas muralhas. Não é uma fortificação qualquer, mas o maior burgo do mundo, esparramado por 570 metros de comprimento e 128 metros de largura, medição atestada pelo Guinnes, o livro dos recordes. É um colosso, com área equivalente a sete campos de futebol, e recheado de palácios, torres, museus, galerias, um convento e antigos calabouços. São muitas atrações, mas algumas são imperdíveis. Uma é a troca da guarda, que rola todos os dias, de hora em hora, mas a mais pomposa é a que ocorre ao meio-dia, ao som de uma banda marcial. Outra é a própria Catedral São Vito, dona de enormes torres góticas e obra-prima desse estilo arquitetônico, construída a partir de 1344. 
Nessa bateção de perna, estique até a charmosa e pitoresca Viela Dourada, situada ao norte das muralhas. Repleta de casinhas coloridas e com portas baixas, ela abrigou a guarda do castelo no século 16 e, posteriormente, ouvires e alquimistas. Legiões de turistas saçaricam pelo caminho e circulam por cômodos das moradias, que hoje exibem armaduras e roupas muy antigas. Mas a residência para a qual todos voltam os olhos é a de número 22. Foi ali que o escritor Franz Kafka, morou em 1916 e 1917. Não foi o misticismo o motivo que o levou a viver na rua dos alquimistas do burgo, e, sim, a necessidade de um lugar sereno para escrever. Claro que quem visita a casa encontra para comprar uma série de obras do autor, traduzidas em diversos idiomas. 
Uma vez imerso no mundo dos livros, vale muitíssimo conferir a biblioteca do Mosteiro Strahov, ainda na Cidade Alta, ao lado do castelo. Se você assistiu aos filmes Casino Royale ou A Liga Extraordinária, talvez seja capaz de bater o olho e reconhecê-la, já que ambos têm cenas gravadas ali. O espaço é formado por dois salões barrocos tomado por prateleiras de madeira entalhadas e folhadas a ouro, as quais são forradas de livros antiqüíssimos. Some a isso os afrescos esplêndidos no teto, os globos terrestres e as tantas esculturas e o resultado é o deslumbre dos visitantes, mesmo que só da porta, porque não se pode entrar nos salões. 
Os apaixonados por literatura podem se embrenhar mais um pouquinho nesse mundo em Malá Strana (Cidade Baixa), fora dos domínios do castelo, visitante o ótimo Museu Franz Kafka. O complexo recria a Praga da época do autor e relaciona a cidade à vida e aos textos do escritor judeu, que frequentava o bairro judaico da capital, o Josefov, o qual remonta ao século 13 e reuniu essa comunidade até o século 18. Por lá, além dos prédios art noveaus dos anos 1990, restaram seis de suas 16 sinagogas originais, entre elas a Antiga Sinagoga, que, adepta do estilo gótico, não tem nada de nova: foi eregida em 1270 e é o mais antigo templo dessa religião em funcionamento na Europa. 
Cafés cheios de História
Praga é assim, um museu de arquitetura a céu aberto, onde estruturas góticas, barrocas e modernas coexistem sem problema. Enquanto uns suspiram com o salão barroco da biblioteca ou com o primor gótico da Catedral de São Vito, outros, enquanto degustam um bom espresso, apreciam os detalhes cubistas presentes no Grand Café Orient. Pioneiro com essa estética na cidade, o prédio de 1912 é um perfeito exemplo do estilo e conta até com uma exposição sobre o movimento, disposta em três andares. 
Outro café legal de visitar é o Slavia, onde Kafka costumava ir e que, nos anos de chumbo do comunismo, continuou a reunir escritores, além de artistas, jornalistas, estudantes e demais dissidentes do regime. 
Tal tipo de estabelecimento tem papel importante na história local. No começo do século 20, a cidade abrigava pelo menos 150 cafés. Mas, a partir e 1948, com a instauração do socialismo, o governo passou a não ver com bons olhos o fato de os moradores freqüentarem esses locais, prática considerada particularmente burguesa e que, ainda por cima, favorecia as conspirações contra o regime. Assim, todos os cafés foram fechados durante esse período, e o ressurgimento deles também faz parte do renascimento cultural da capital. É um momento para relaxar e saborear a bebida, e nenhum garçom, independentemente do tempo que você está ali, trará a conta antes de você pedir ou ficará mostrando o cardápio repetidamente. 

Praga contestadora e moderna

Para curtir o lado mais contemporâneo da cidade, a boa é ir ao Museu Kampa, com obras modernas do século 20, das abstratas às cubistas. A arte moderna toma conta também das ruas e tem no polêmico artistas checo David Cerny, de 47 anos, o seu grande representante. É dele as esculturas dos homens que urinam no mapa da República Checa, disposta em frente ao Museu Franz Kafka, e a de um enorme cavalo de cabeça para baixo montado pelo venerado São Venceslau, no Palácio Lucerna, que hoje funciona como galeria comercial. Na peça de Cerny,  o santo está sentado na barriga de um cavalo morto, numa peculiar releitura deste que é o padroeiro da Boêmia, a qual enfeita a Praça Venceslau, onde a imponente figura católica cavalga o animal e tem outros santos a seus pés. 
A Praça Venceslau, na Nove Mesto (Cidade Nova), é, na realidade, um bulevar onde se passaram alguns dos principais momentos da história checa. Em 1968, foi palco do “desfile” dos tanques russos que tomaram a capital na Primavera de Praga e do trágico protesto em que o estudante Jan Zayéc ateou fogo ao próprio corpo para se manifestar contra o regime — em frente ao Museu Nacional, uma cruz marca o local onde isso correu. Num dos últimos episódios dessa história, o bulevar foi cenário para um final feliz: da varanda da casa de numero 36, Václav Havel, último presidente da então Checoslováquia, anunciou o fim do comunismo no país e sua dissolução, criando a República Checa e a Eslováquia, num discurso marcado pela frase “o amor e a verdade venceram sobre a mentira e o ódio”.
Como é de praxe em Praga, a Cidade Nova, que abriga o bulevar Venceslau, não é nova: remonta a 1348. Ma o nome faz sentido se ela for comparada ao quarteirão principal do centro histórico, do século 10, onde se destaca a igreja gótica de Nossa Senhora de Tyn, onde estão os restos mortais do astrônomo dinamarquês Tycho Brahe (1546-1601), que viveu em Praga e lá, junto de Johannes Kepler, revolucionou o entendimento do sistemas solar. 
A igreja Tyn fica a poucos passos do relógio astronômico da Staromestké Namestique (Praça da Cidade Velha). E é moleza localizar a pitoresca atração: é só ir em direção à grande torre que domina a praça ou focar no ponto que aglutina uma porção de gente, que está ali para ver e ouvir o tilintar desse relógio bem diferente, em que o horário é marcado pelas figuras dos 12 apóstolos. Na parte superior, estão as estátuas que representam pecados: a vaidade (com um espelho em mãos), a avareza (com o saco de dinheiro), o esqueleto da morte e a invasão pagã, representada por um turco. Na parte de baixo, as virtudes se denotam pelas figuras de um poeta, um anjo, um astrônomo e um filósofo.  
Há 600 anos é assim: de hora em hora, essa parafernália realiza um show mecânico em que, ao fim do badalar dos sinos, os apóstolos aparecem um a um na janelinha do relógio. Há quem assista ao espetáculo a partir de restaurantes da praça, com um café em mãos, ou sentado no chão, para também não perder a variedade de apresentações de artistas de rua. Seja como for, o relógio pode ser a deixa para você se lembrar que é hora de continuar a jornada a outras fascinantes cidades desta poção da Europa. 

A Milenar Tradição Cervejeira

Para acompanhar as receitas típicas do país — carne de porco empanada, ensopados e embutidos diversos —, nada como uma cerveja checa, considerada uma das melhores do mundo. Grande parte da bebida lá produzida é de baixa fermentação (lagers), e a cerveja (pivo, em checo) clara é chamada de svetlé, enquanto a escura é denominada tmavé ou cerne.
Embora haja mais de 1 mil cervejarias no país, três companhias dominam o mercado: a Pilsner Urquell, de Pilsen; a Staropramen, de Praga; e a Budweiser, do sul da Boêmia (criada muito antes da Budweiser norte-americana). As loiras produzidas por essas gigantes são facilmente encontradas nos restaurantes e tabernas de Praga, e muitos estabelecimentos também oferecem rótulos das produtoras menores. 
Entre as cervejarias mais bacanas para esvaziar uns canecos estão a Hostinec U Kalicha, a ihomestsky Pivovar e a Minipivovar U Flekú, que remonta ao século 15. Muitas mantêm o velho clima de taberna, com mesas enormes de madeira, decoradas com velas, e ambiente escuro e rústico. Para petiscar, o típico presunto checo com pepino em conserva é uma boa. 

Outros Encantos da República Checa

  Praga é uma beleza, sem dúvida, mas, se puder passar mais tempo na República Checa, ha outras cidades lindas para visitar. Uma é Karlovy Vary, a 140 km da capital, uma região montanhosa próxima à fronteira com a Alemanha. Trata-se de um balneário de águas termais quentes e salgadas. Destaque para o Moser, museu dedicado aos famosos vidros e cristais da Boêmia. Ali, pode-se ver a produção numa fábrica e, claro, fazer compras. 
Outra boa pedida é Pilsen, onde fica uma das produtoras de cerveja mais famosa do país: a Pilsner Urquell, em operação desde 1842 e que criou uma das cervejas mais populares no mundo. Para os amantes da bebida, um museu conta a saga da produção da loira e seus hábitos de consumo. E, se não tiver exagerado nas doses, encare os 301 degraus que dão acesso ao topo da torre da igreja de São Bartolomeu e desfrute de uma visita inigualável.
Já em Kutná Hora, a 80 KM de Praga, o lance é visitar o inusitado ossuário de Sedlec, cuja matéria-prima — isso mesmo, ossos — foi parar na decoração de uma igreja. Com a peste negra no século 14 e a superlotação do cemitério local, as ossadas de 40 mil pessoas foram colocadas no subsolo de um templo. Em 1866, a aristocracia checa clamou pela organização do ambiente: foi quando surgiu a ideia de usar os ossos na decoração da igreja. Um tanto macabro, mas com um toque de beleza. 

Viena – A monumental capital que a dinastia Habsburgo concebeu para ser a sede de seu império 

Se ao meio dia o relógio astronômico entra em cena no centro histórico de Praga, turistas se reúnem na região mais antiga de Viena, no mesmo horário, por uma razão semelhante. Ali, o relógio Anker também dá seu show: ao som de um órgão, as 12 figuras que indicam as horas, como a do imperador romano Júlio Cesar, ganham “vida” e se movimentam no relógio, como que dando as boas-vindas aos forasteiros. Um desejo que os moradores também expressam através do simpático cumprimento gruß gott, singela saudação que também signifique “Deus abençoes você”. 
Mas há outras razões, literalmente grandiosa, para os turistas se aglomerarem no centro antigo da soberba capital da Áustria. A vizinhança é a que carrega mais fortemente, como em nenhuma outra cidade do Leste Europeu — embora a disputa seja acirrada com Budapeste — capital da Hungria , as lembranças da magnitude da dinastia dos Habsburgo, família que esteve no poder entre 1279 e 1918, parte desse tempo comandando o poderoso Império Austro-Húngaro, e fez Viena o epicentro de seu reinado. Assim, a capital brilha com palácios monumentais (no plural mesmo, já que há três estupendos complexos que serviram à  família real), igrejas portentosas, casas de ópera fabulosas e uma porção de museus e parques que, à beira do icônico Rio Danúbio, abrigam até as ilhas, nas quais os nativos se esbaldam nos meses quentes do ano. 
Nada espelha tão bem essa obsessão dos Habsburgo por imponência, beleza e perfeição como o complexo Hofburg, residência de inverno da família por mais de 600 anos. Formado por 18 edificações, 19 pátios e uma sucessão de obras de arte, não é para menos que ainda seja a casa de moradores ilustres, como o presidente austríaco, Heinz Fischer, que hoje comanda uma próspera e bem sucedida república. 
Como o presidente é uma suave extensão do glorioso passado, é muito fácil imaginar o Hofburg nos tempos do império. É só passar pela Câmara de Prata, que reúne as refinadas louças e pratarias outrora usadas pela família real; pelos aposentos do kaiser (imperador) Francisco José (1830-1916); e pelo museu dedicado à sua mulher, a imperatriz Elisabeth da Bavária, a Sissi (1837-1898), que é a parte mais bacana do tour. Por meio de jóias e roupas, além de objetos e materiais que apresentam a rotina de exercícios físicos da soberana, a mostra explora a construção do mito em torno da bela Sissi, conhecida pela extrema vaidade e cuidados com o corpo. 
Nos cômodos de trabalho de Francisco José, por exemplo, está uma das pinturas mais famosas de Sisi, em que ela exibe os longos cabelos castanhos caídos sobre um vestido branco. Outra peça que enaltece a galhardia da soberana é uma escultura em tamanho natural, a qual impressiona por demonstrar a finíssima cintura mantida pela nobre até a sua morte, aos 61 anos: meros 50 centímetros! Ainda hoje, o fascínio é tanto em torno da imperatriz que é comum encontrar, nas visitas escolares feitas no complexo, diversas garotinhas vestidas de princesa. 
Na toada de explorar os lugares do palácio que tanto encantavam Sissi e Francisco José, você vai passar pela Escola Espanhola de Equitação, cujos cavalos da raça lipizzaner, que em outros tempos fora montados pelo imperador, hoje realizam concorridas apresentações de balé eqüestre. O casal real também passava o tempo nas deslumbrante Biblioteca Nacional. Ali, são 7 milhões de itens, incluindo preciosidades como globos terrestres antiquíssimos  e mapas e atlas confeccionados em papiro.
Mas, em termos de curiosidade, nenhum ambiente supera a Igreja Augustinenkirche, mais um anexo do conjunto palaciano. É que uma das “vantagens” de ser um Habsburgo era ter o coração retirado do corpo após a morte. Por conta desse costume, a cripta do templo conserva tal membro de 54 pessoas da família, enquanto os corpos propriamente desses sangues azuis estão na cripta da Stephansdom (Catedral de Santo Estevão), terceira igreja mais alta da Europa. 
Aproveite que o clima de antigamente nunca se afasta da capital — nas ruas, é comum topar com jovens vestidos como nos tempos da corte, com perucas e calça bufante, divulgando apresentações eruditas tão associadas a Viena — e siga do complexo de Hofburg para a Stephansdom de carruagem. Você pode pegar uma delas na frente do palácio e, dada a empolgação dos turistas com o tour, é certo que tal costume, que perdura desde 1670, residirá por longo tempo.
Ainda antes de chegar à catedral, suas torres se impõem no cenário. A torre sul por exemplo, espeta o céu a 137 metros de altura e oferece um panorama magnífico de Viena. No entanto, não é fácil chegar lá em cima: é preciso vencer 343 degraus, desafio que também traz de recompensa uma primorosa vista dos 230 mil mosaicos multicoloridos que compõem o templo.
Na vizinhança da igreja, no numero 5 da rua Domgasse, outro nome austríaco de peso convida para uma visita: o gênio da música clássica Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791). Na casa em que ele viveu entre 1784-1787 e onde escreveu clássicos como a ópera As Bodas de Fígaro, funciona um museu que, por meio de móveis, roupas e objetos da época, além de recursos áudio- visuais, conta sobre sua vida pessoal e familiar e, claro, sobre sua genial forma de compro e tocar. 

Mais Palácios Esplendorosos 

Embora não faltem referências e homenagens a vários austríacos famosos —  o compositor Johann Strauss (1825-1899), autor da valsa O Danúbio Azul, e o pai da psicanálise Sigmund Freund (1856-1939), são mais alguns deles —, é mesmo o legado da dinastia Habsburgo que encanta os turistas na cidade. Assim, mesmo que você tenha gastado a sola do tênis no Hofburg, é preciso conhecer os outros palácios vienenses, como o Schönbrunn, dono de um dos interiores barrocos mais bem preservados da Europa considerado Patrimônio da Unesco.
Dos 1.441 quartos, 40 podem ser visitados, incluindo alguns aposentos usados pelo kaiser Francisco José e sua amada Sisi e a elaborada sala dos espelhos. Ali, Mozart fez sua primeira apresentação musical para a corte da rainha Maria Theresa, em 1762, quando tinha seis anos, revelando ao mundo seu virtuosismo precoce. Séculos depois, a tradição musical permanece, e o palácio recebe concertos noturnos até hoje
Fazendo jus à imponência do complexo real, o jardim do Schönbrunn por si só já vale a visita. Na primavera e no verão, flores de diversas espécies e formatos colorem o gramado. No outono e inverno tons de cinza se misturam com o vaivém das gaivotas e dos esquilos. Independentemente do clima, o negócio é guardar energia para alcançar o Café Gloriette, no topo do morro onde está o Schönbrunn. 
Outrora o refúgio onde a rainha Maria Teresa descansava longe dos olhares da corte, a elegante construção também é a pedida para o relax dos visitantes, que ali podem  saborear bebidas e doces tipicamente vienenses, como o melange (café com um pouquinho de leite e finalizado com creme) e a emblemática Sachetorte, torta feita com pão de ló de chocolate, recheio de geleia de damasco e cobertura de chocolate. Tudo fica ainda mais gostoso com o visual contemplado das mesas externas do café, que descortinam um panorama incrível de Viena, com o Schönbrunn e as torres da catedral de Santo Estevão  mais ao longe.
O Belvedere, que fecha a tríade dos palácios de Viena, também está longe de passar desapercebido. À monumentalidade da construção, a contento para servir de residência de verão dos Habsburgo, o complexo associa a maior coleção de trabalhos do artista austríaco Gustav Klimt no mundo — e ponha nessa conta o quadro O Beijo, sua obra máxima. Na realidade, são dois palácios, o superior e o inferior, e ali você se entretém passeando pela sucessão de quartos e salões, os quais abrigam exposições de arte, e, claro, pelo gigantesco jardim, que mais uma vez convida a um aprazível piquenique.

Quarteirão dos Museus

Além do Belvedere, há obras de Klimt expostas no museu Leopold, um dos que integram o Museumsquartier (MQ).  Trata-se de um dos projetos culturais mais audaciosos da Europa, juntando no mesmo espaço outros museus de peso, como o de História da Arte, História Natural, Artes Moderna (o Mumok) e Contemporânea (chamado de Kunsthalle) e o centro de arquitetura Com essa vibe cult, a vizinhança atraiu galerias e livrarias, mas não só: bares e restaurantes pipocam no pedaço, reunindo um público descolado que também ocupa os estilosos, e concorridos, bancos de cor berrante que se espalham ao longo do Museums Quartier.
Outro destaque cultural de Viena é o museu Albertina, colado ao palácio Hofburg e que exibe uma senhora coleção de artes gráficas, além de obras de artistas impressionistas e pós-impressionistas franceses. Tanto quanto o acervo, atrai o inusitado projeto arquitetônico que arremata a frente do tradicional edifício, uma espécie de asa de avião prateada que, suspensa, se alonga até o pátio. Ideia genial ou de gosto duvidoso? Há aguerridos defensores dos dois lados.
É, quase um século depois da queda dos Habsburgo, Viena vive bem o presente e segue rumo ao futuro. Mas não tem jeito: esta é, e oxalá continue sendo, uma cidade com ares imperiais. Afinal, só a capital austríaca para realizar, sem destoar da atmosfera à volta, um refinado baile anual de gala embalado por valsas e operetas na Staatsoper, a majestosa ópera da cidade. Quando preparado para a festa, não há maior salão de valsa no globo, que recebe 7 mil pessoas, entre políticos, membros das realezas europeias, artistas e celebridades, os quais pagam até €18.500 por um lugar no camarote. Diante dessa oportunidade memorável, o negócio é ter um bom par para rodopiar até às 5h da matina, quando a noite de gala se encerra ao som de O Danúbio Azul.
Quem não estiver por lá à ocasião do baile, realizado na quinta-feira de Cinzas, tampouco tem bala na agulha para participar no evento pode assistir às apresentações de ópera e balé da Staatsoper, casa da renomada Orquestra Sinfônica de Viena. Mas planeje-se para compra ingressos com antecedência, os quais, como o baile, são concorridíssimo. 

E, para fechar o roteiro de modo tão romântico quanto ao som de uma valsa de Strauss, nada como um passeio, com algodão doce em mãos, na colorida  roda-gigante do Prater, principal área verde de Viena e endereço do parque de diversões mais conhecido da capital. 

Para comer e beber à moda vienense
Os cafés, muito bem antigos e que ocupam opulentos salões no centro histórico, são uma instituição vienense e, uma vez neles é preciso ser específico ao pedir um café. O Melange leva um pouco de leite e é finalizado com creme; o verlängerter  é diluído em água; e o Maria Theresia é feito com licor de laranja e chantilly. Vale prová-los no Café Central (Herrengasse, 14), que, reza a lenda, teve Trotsky e Lênin, grandes nomes da revolução Russa, como fregueses.
Para acompanhar o café, uma das opções é a Sachertorte, torta de chocolate e recheio de geleia de damasco cuja receita, de 1832, foi inventada pelo cozinheiro Herr Sacher a pedido do duque Von Metternich. Hoje, o café Hotel Sacher (Philharmoniekerstraße, 4), que já foi conduzido pela viúva do cozinheiro, é o único da Áustria que pode usar o termo “original” para definir sua receita.

Outro estabelecimento que é a cara da região são os heuringen, a versão local dos biergartens alemães e que servem vinho. Em endereços como o Weingut Schlösinger, nos arredores de Viena, você se senta sob árvores, em mesas coletivas. Se for inverno, tudo funciona no salão interno. Geralmente há música típica ao vivo, num clima informal, e as casa mais tradicionais não servem pratos quentes para não concorrer com os restaurantes (gaststätte). E, para saborear comida tradicional caseira, escoltada por uma boa cerveja, a pedida são os beisln (botecos). Um lugar legal para almoçar e provar tal bebida feita naquelas bandas é a cervejaria Salm Bräu (Rennweg,8). 

Budapeste – Um feliz encontro nas margens do Rio Danúbio 

  O romancista húngaro György Konrad, nascido em 1933, disse certa vez: “O motivo, eu desconheço, mas Budapeste é simplesmente uma cidade de encontros”. Ele tem razão. O lugar surgiu da união de dois opostos: da montanhosa região de Buda com a plana Peste, em 1873, cortadas pelo icônico Rio Danúbio. Na época uma das sedes do Império Austro-Húngaro (a outra, você viu aqui, era Viena), a nova cidade se embelezou com toda a pompa, passando a concorrer com a irmã poderosa. Traduzindo: era notória a vontade de Budapeste de separar-se dessa monarquia e tornar-se a capital de seu próprio país. Para tanto, não economizou esforços para abrir largas avenidas, uma novidade na época, e erguer construções magníficas, como a cênica Ponte das Correntes, que enfeita o Danúbio.  
Outra marca da hoje capital húngara — nos moldes atuais, o país surgiu, e fez de Budapeste sua capital, em 1918 — é o constante clima de romance. A atmosfera vem da fantástica simbiose entre arquitetura e natureza, que faz do pôr do sol à beira-rio, ou navegando nele, um programa imbatível. Ao entardecer, as pontes iluminadas, que unem Buda a Peste, formam guirlandas de luzes que dão ainda mais charme ao visual.
Para os turistas, tamanho brilho e beleza deixa em segundo plano a história recente do país e os duros anos de comunismo que Budapeste tem em comum com Praga. A queda da Cortina de Ferro, em 1989, teve uma importância ainda maior na Hungria. Nesse ano, o país, que havia séculos era dominado ou influenciado por outras nações, conseguiu a almejada liberdade. 

Muitas atrações em Buda
A nação, finalmente, vem se refazendo à sua maneira, mas é inegável que a longa história de conflitos e invasões deixou marcas indeléveis por lá. Os 160 anos de domínio turco (1526-1686) trouxeram os banhos termais como herança. Já os Habsburgo, aquela família baseada em Viena e que comandou o Império Austro-Húngaro, brindaram o país com o renascimento cultural e intelectual.
Essas influências são notadas na atração numero 1 de Budapeste, o imenso Palácio Real, no qual se impõe uma cúpula esverdeada. Reinando sobre Buda a 170 metros de altura, o complexo é tombado pela Unesco como Patrimônio Cultural da Humanidade. Arrasado na guerra de libertação contra os turcos, o palácio foi reconstruído pelos Habsburgo e hoje abriga importantes atrações: a Galeria nacional Húngara, o Museu de História de Budapeste e a Biblioteca Nacional.
São muitas as formas de chegar ao complexo, mas o mais agradável é a bordo do funicular. Uma charmosa cabine de 1870, bordô e amarela, sobe lentamente, revelando aos poucos o suspirante visual da Ponte das Correntes, tomada por esculturas de imponentes leões sobre o Danúbio. Datada de 1849, ela é a ponte mais antiga, e, com certeza, a mais linda da cidade.
Uma vez no topo, onde está o castelo, os turistas transitam pelas colunas e escadarias dos jardins, assistem à troca de guarda e flanam pelas ruas imperais. Ao lado do complexo, os suspiros vêm da vista de mais um símbolo local, o Parlamento, a partir do Bastião dos Pescadores. Trata-se de uma plataforma panorâmica que, no verão, conta até com um café com mesinhas ao ar livre.
Essa espécie de mirante, de 1905, ganhou seu nome em alusão aos pescadores — sim, pescadores — que dali protegiam o castelo na Idade Media. As sete torres da construção representam a chegada à região das sete tribos magiares (nome dado ao povo húngaro), no século 9. Em frente ao Bastião, uma grande estátua do rei Estevão, que cristianizou o país, observa os deslumbrados transeuntes. 
Ao circular pelo monumento-mirante, ganha-se mais um presente: a vista, com riqueza de detalhes, do reluzente telhado de mosaicos multicoloridos da Igreja de São Matias. De estilo neogótico, ela é uma obra-prima nos quesitos afrescos vitrais e artes Eclesiásticas. Consulte as noites em que há concertos por lá, tradição que se iniciou em 1867 com Franz Liszt, compositor clássico mais famoso da Hungria. Também foi no suntuoso templo, em 1867, que o casal Habsburgo mais cultuado — o imperador Francisco José e sua linda Sissi — foi coroado reis da Hungria e Imperadores da Áustria, selando a dupla monarquia que formou o Império Austro-Húngaro. 

  Em Buda, os passeios rendem porque as principais atrações ficam relativamente próximas, de modo que dá para fazer quase tudo a pé. Assim, aproveite essa facilidade e vá da Igreja de São Matias para a Casa de Vinhos Húngara. Depois desse avalanche de deleites visuais, nada como um pit stop ali para aguçar o paladar e conhecer a vinicultura do país por meio das centenas de garrafas armazenadas na adega subterrânea. Uma dica: não dá para sair de Budapeste sem provar, e levar, o vinho Tokaji, tão típico que é até citado no hino nacional. 


Relax, e até balada, nas termas

Deixar o vinho amolecer o corpo é uma boa forma de relaxar em Budapeste. A outra, experiência das mais tradicionais, é ir a uma das dezenas de termas espalhadas pela cidade. Só na capital literalmente fervilham 70 milhões de litros de água em 118 fontes termais. Rica em magnésio, cálcio e ácido carbônico, a água, garantem por lá, melhora as dores nas juntas e a artrite, além de ajudar na circulação do sangue.
Esses benefícios podem soar como um espaço para tratamentos de saúde da terceira idade, mas o clima é completamente diferente. Os húngaros, incluindo os jovens, disputam partidas de xadrez dentro das piscinas e... até caem na balada. Isso porque diversas termas organizam festanças uma vez por mês, geralmente aos sábados, às 22h. O ingresso para o agito dá direito às piscinas, ao uso das cabines para se trocar e até a drinques. Quem quer conhecer esses complexos e ainda curtir as baladas de Budapeste tem aí um programa dois em um. E é uma boa forma de mistura. Dentro d’água, o pessoal em trajes de banho e com copos em mãos curte musica eletrônica, e luzes coloridas são lançadas em direção à piscina.
Entre as termas mais famosas estão a do Hotel Gellérd, considerada a mais elegante e refinada. O ambiente é primoroso, preenchido por estátuas de cupidos apaixonados jorrando água. Já a Rudas é a mais turca das termas e, às sextas e aos sábados, fica aberta até de madrugada. A Széchnyi, em Peste, é a mais popular: tem a água mais quente da capital, que jorra até 70º C, e é um dos maiores complexos termais da Europa.


Relíquias de Peste

Peste é a parte moderna da capital, mas não é por isso que ela é menos bonita que Buda. Que o diga o grandiosíssimo Parlamento o segundo maior do Velho Continente, construído num ponto escolhido com cuidado, nada aleatório: esse símbolo da democracia húngara fica de frente, separado pelo Rio Danúbio, do antigo castelo, o ícone da antiga monarquia aristocrática. 
O arquiteto responsável pelo projeto, Imre Steindl, reuniu no edifício de 1904 diversos estilos arquitetônicos. O neogótico, o neoromano e o neobarroco conseguem lindamente encontrar nesse palácio aos moldes do de Westminster, em Londres, que abriga o Big Ben. Fora as 700 salas para lá de decoradas, a visita guiada destaca ainda o hall da cúpula, onde a coroa do rei Estevão está guardada e vigiada por guardas. 
Uma outra relíquia está conservada na Basílica de Santo Estevão, não muito longe dali. O “objeto”, entretanto, é um bocado estranho: a mão mumificada do Rei Estevão. Em 1771, o membro foi encontrado na Bósnia e devolvido pela rainha austríaca Maria Teresa à Hungria. Mais legal do que ir até lá para conhecer a relíquia é aproveitar que a acústica ali é melhor do que em qualquer casa de show e conferir um dos concertos que rolam quase todas as noites.
A cerca de 2 Km da basílica está a tradicional rua de compras, a Váci Utca, repleta de restaurantes, pubs, livrarias, joalherias e lojas de roupas, suvenires e do colorido artesanato húngaro. É difícil se conter, mas os menos consumistas podem trocar umas horas de compras pelo passeio no parque Memento, que guarda esculturas incríveis entre as árvores. Uma ampulheta gigante, com oito metros de altura e 60 toneladas, é uma das boa surpresas. É preciso um ano para que toda areia desça, o que ocorre sempre à meia noite do dia 1º de janeiro.
Outra obra, esta um pouco mais polemica, é um memorial dedicado à revolução de 1956, quando tanques russos invadiram Budapeste para reprimir manifestações estudantis. Erguido em 2006, é formado por diversas estacas que representam as vítimas.  Também popular, mas bem mais leve, é a estátua do escritor desconhecido, marcada pelo rosto coberto por uma capa e pela caneta em mãos. A imagem retrata um cronista da corte que escreveu a história dos húngaros, povo que, com o tempo, soube imprimir a Budapeste o romantismo de Praga e a opulência de Viena. 

 Receitas Húngaras no Mercadão e nos Cafés 

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Polônia: Varsóvia, Cracóvia e Auschwitz

Varsóvia — a Fênix polonesa 


          Quando o assunto são os ares despojados e inovadores, não se pode deixar Varsóvia fora do roteiro. Diferente do charmoso clima medieval e romântico da capital da República Tcheca, há também na Polônia uma Praga. Basta cruzar a ponte a partir do centro histórico para chegar em um dos bairros mais cools da capital polonesa. Por lá, as obras de reconstrução pós comunismo ainda não deram as caras, o que confere um aspecto duro de realidade. Ainda assim, o bairro é o local para se estar. A cena de artistas, estudantes, baladas, barzinhos descolados e diferentões é intensa nessa região. Com o baixo preço dos aluguéis, é fácil encontrar ateliês, mercados de pulgas e festas improvisadas.

       Há quem compare o fervilhar de Praga com o antigo clima do Harlem, em Nova Iorque. Pobre, mas sempre sexy. Em meio a essa efervescência cultural, marcas da religiosidade católica polonesa. Santuários com imagens de Nossa Senhora Aparecida, todos kitsch e brilhantes são encontrados a cada quarteirão. Até mesmo nos bares mais malucos, como no Absurdu, aí talvez com um toque mais irônico.
Mas quem quiser curtir a Varsóvia histórica e perfeitinha também não ficará decepcionado. O centro histórico e arredores estão recheados de castelos, igrejas históricas, parques e concertos. Enquanto Viena exibe Mozart e Budapeste orgulha-se de Franz Liszt, aqui a cena é tomada por Chopin. Os restos mortais do compositor estão na belíssima igreja da Santa Cruz. Todos os domingos há também concertos gratuitos no parque tazienki, em frente à estátua do ídolo nacional. Com um jardim esplendoroso, o espaço abriga diversos museus de arte moderna e castelos à beira da água.
Outra visita imperdível é o museu dedicado ao compositor, com uma mostra super interativa, ideal para conhecer mais sobre a vida do artista ou escutar trechos de suas obras mais famosas. Já no quesito ciência, Varsóvia também tem do que se gabar. A pesquisadora Marie Currie, Nobel de física, nasceu na cidade, em uma casinha, transformada atualmente em museu. Já o centro de ciência Copérnico exibe, na frente do prédio, uma estátua do astrônomo com a ilustração do seu modelo de sistema solar desenhada no chão da praça.

Assim como as outras capitais, Varsóvia também conta com um belíssimo castelo real no coração da cidade. Um dos cômodos mais impressionantes e imponentes da estrutura barroca é a sala do trono e os apartamentos do rei. Tudo, no entanto, uma cópia da versão original explodida pelos alemães durante a guerra. Ao passear pela cidade, nota-se que praticamente todos os edifícios históricos mostram uma placa com imagens antigas.
As gravuras foram usadas para a reconstrução e dão uma ideia de quão perfeito ficou o resultado, ao ponto da Unesco tombar o centro histórico em 1980. Após a insurreição de Varsóvia em 1944, um levante de barricadas contra os alemães que durou 63 dias, Hitler ordenou que a bela cidade fosse reduzida às cinzas. Literalmente. Ao fim da guerra, somente 15% da capital estava de pé, e bem capenga. Varsóvia foi varrida do mapa. Cogitou-se até nomear outra cidade como capital da Polônia. Mas hoje crianças saltitam pela praça do centro velho em torno da estátua da sereia, o símbolo da capital. Turistas circulam pelas muralhas da antiga cidade medieval e artistas vendem pinturas, balões e fazem performance pelas ruas.
O trauma que 70 anos depois passa desapercebido a olho nu é melhor compreendido no museu da insurreição de Varsóvia, nos arredores do antigo gueto judeu. A exposição mostra o desespero da cidade por meio de diversas imagens, documentos e relatos. Um avião usado para jogar alimento aos insurgentes chama atenção no primeiro andar. Antes da guerra, Varsóvia possuía a maior população judaica depois de Nova Iorque. A chocante história dos guetos está exibida no segundo andar. É como estar no filme o Pianista, de Polanski, aliás um dos sobreviventes desta tragédia. Outros pontos turísticos referem-se a esse sombrio momento histórico, como o monumento erguido para comemorar os 45 anos do levante e o museu dos judeus poloneses, com uma arquitetura para lá de arrojada.
Mas nenhum outro memorial na Polônia é tão impressionante e assustador quanto o antigo campo de extermínio Auschwitz- Birkenau, em Óswiecim, uma cidade a 40 quilômetros de Cracóvia. Mais de um milhão de judeus, de 27 nacionalidades, perderam a vida aqui. Na entrada, a placa “Arbeit macht frei” (o trabalho liberta) ainda impera sombriamente sobre o portão de ferro.
 Prepare-se para revirar o estômago. Toneladas de cabelos femininos, montanhas de sapatos, roupas, utensílios pessoais e malas ainda com os nomes das vítimas estão em exposição. Um nó maior na garganta ao ver as roupinhas de bebê. Acompanhados de um guia, visitantes entram na sala das latrinas. Os prisioneiros responsáveis por limpá-las pertenciam ao chamado “Scheißekommando”, literalmente o comando da merda. Pode parecer a pior das funções, mas, segundo nosso guia, era uma das melhores. Além de poder ir ao banheiro quando quisessem, esses prisioneiros não passavam o dia sendo mal tratados pelos soldados alemães, que por conta do mau cheiro mantinham-se bem afastados dali. A visita de pelo menos 3,5 horas estará repletas de histórias assim. Fotos das vítimas como a da garotinha de 14 anos, Czeslava Kwoka, conectam os visitantes com o sofrimento dessas pessoas.

Cracóvia — a capital intelectual e espiritual da Polônia.


Embora a maioria dos tours rumo a Auschwitz partam de Cracóvia, há ainda muitas outras razões para visitar esta estonteante cidade. Ao contrário da irmã Varsóvia, ela saiu praticamente ilesa da guerra, uma vez que os alemães estavam preocupados com os rebeldes na capital. Assim, Cracóvia é uma das poucas cidades do país que ainda mantém os ares e a arquitetura dos tempos pré-guerra. A praça do mercado com sua beleza fenomenal, o castelo de Wavell, as 140 igrejas, sinagogas do bairro Kazimierz, museus e galerias são grandes atrativos. Perambular pela Rynek Glówny, a Praça do Mercado, a maior do continente aliás, é um dos passeios mais prazerosos. Repleta de cafés, restaurantes, transeuntes, pombos, carruagens, fontes, músicos e artistas, o quarteirão é um cartão postal de peso.
No hall das confecções, umas edificação do século 14, são vendidos diversas lembrancinhas polonesas. Um passeio subterrâneo pelo Rynek mostra escavações encontradas na praça e reproduz a vida dos mercadores medievais e as principais rotas comerciais do velho continente. Mas para ver o zunzunzum do mercado de camarote, nada melhor como subir na torre do relógio. Outro destaque no quarteirão mais belo da cidade é a basílica mariana, com suas duas torres de diferentes tamanhos e seu interior barroco azulado. A vista da maior torre, de 81 metros, é de tirar o fôlego.  
O poder político e cultural de Cracóvia espelha-se ainda no charmoso e imponente castelo de Wawell, um silencioso guardião de anos de história polonesa. O complexo inclui além de cinco museus, a brilhante catedral de Wawell, testemunha das coroações e funerais mais importantes do país. Em cima da massiva porta de ferro estão pendurados ossos de um animal pré-histórico, que segundo a lenda contêm mágicos poderes. Da torre dos ladrões obtém-se uma vista magnífica das cúpulas da catedral, das muralhas avermelhadas do castelo e do rio Vistula, correndo na planície. A tradição cultural da cidade também está expressa no Collegium Maius, o mais antigo prédio universitário polonês, uma estrutura gótica do século 15. Entre os destaques deste tour pela sabedoria, instrumentos e manuscritos do então estudante Copérnico.
Mas Cracóvia não tem só seu lado dourado. O bairro judaico Kazimierz ainda mantém os resquícios do muro que cercava os guetos durante a ocupação nazista. Ao lado de resquícios de sinagogas, encontram-se, atualmente, cafés, bares e galerias de arte alternativas. É por aqui também que está mais um ponto turístico indispensável — a antiga fábrica do Schindler, imortalizada pelo filme de Steven Spielberg. A mostra conta as atrocidades no nazismo em Cracóvia. Observe a heresia de cartões postais da época em que a elegante praça do mercado passou a se chamar Adolf Hitler!
Mas conhecer a Polônia é assim mesmo. Há exclamações de horror frente aos memoriais históricos, mas também suspiros com as paisagens de contos de fadas. Degustações de vinhos, pálincas, vodcas e cafés; um desfrute dos prazeres musicais e artísticos. Uma bagagem enriquecedora pra quem volta para casa depois de viajar e viver tão intensamente. 


 Vodcarias e Milk Bares 

Na Polônia a bebida da vez é a vodca. Entre as mais populares estão as puras, mas há também deliciosas versões, como as produzidas pela marca Soplica, com limão ou frutas vermelhas. Alguns bares são como vodcarias onde garçons servem inúmeras doses atrás do balcão. Outra invenção interessante para experimentar por esses lados são os restaurantes conhecidos como Milk Bares, como o Mleczny Familijny, em Varsóvia.

Uma tradição da era comunista, tratam-se de cantinas extremamente simples, mas que servem deliciosas comidas típicas e caseiras, a precinhos bem camaradas. Vegetarianos também podem arriscar, já que boa parte dos pratos são à base de laticínios, daí o nome, Milk bares. Há algumas similaridades entre a culinária polonesa e russa como as sopas de beterraba e creme (barszcz). Ou os pierogis, uma espécie de ravióli polonês, recheado com ricota, carnes, batatas, chucrute ou até mesmo frutas. Algumas variações são servidas com creme de leite, outras na manteiga. O restaurante Piorregeria em Varsóvia é especialista no prato e oferece inúmeras versões. Em Cracóvia, o U Babci Malinky também serve pratos típicos. Já para um lindo visual da Praça do Mercado, opte pelo Pod Gruszka e tente conseguir um lugar na janela.


quarta-feira, 1 de abril de 2015

Termas em Budapeste

Na levada de posts sobre banhos pelo mundo, não teve como deixar de fora os 70 milhões de litros de água que jorram de 118 fontes termais na capital da Hungria. Juro que não é nenhuma provocação com a falta de banho paulistana. Quem leu os últimos posts de viagem do blog perceberá que ando com uma fixação por chuás diferentões (saunas na Alemanha e Hammams marroquinos) Claro que há muito o que visitar em Budapeste, mas perder umas boas quatro horas em uma, duas ou até mesmo quatro termas é parte essencial do passeio para conhecer o espírito da cidade. Sem contar que não há melhor remédio para os pés cansados de tanto saçaricar. 

Não há nada de muito complicado e por aqui, ao contrario da Alemanha em algumas ocasiões, todo mundo usa roupas de banho. Dá para alugar um armário em um vestiário comum ou uma cabine para se trocar com mais privacidade. O visitante recebe uma pulseira de plástico. É só passá-la no sensor de uma máquina na entrada para receber o número da cabine. Só a sua pulseira abrirá aquela porta específica. Há pelo menos doze casas na cidade, cinco delas em ambiente externo. Entre as favoritas: 

Gellért — o Taj Mahal dos banhos.

Aberta ao público desde 1918, a Géllert fica no hotel homônimo e é uma belezura. As colunas de mármore, o teto de vidro e as estátuas em volta da piscina dão a sensação de estarmos nadando no jardim do Éden. Tudo bem que a água da piscina central não é lá tão quente, mas um tibum, só para se sentir parte daquela arquitetura, vale a pena. Gostoso mesmo são as termas menores e quentinhas pra chuchu (de 36 a 38 graus) nas laterais. Lá não é para nadar. A ideia é cozinhar como uma sopa de batata. Fontes meiguinhas, com cupidos e leões cuspindo água dão um toque todo especial ao banho. Pena que fecha às 20h.

Rudas — a mais turca das termas. 
Mulheres são bem vindas às terças-feiras e aos fins de semana. Nos outros dias, o banho é exclusividade do sexo masculino. Mas, a melhor vantagem da Rudas é que de sexta e sábado, a entrada é para ambos os sexos e o horário de funcionamento é excelente: das 22h às 4h da matina. Assim, aqueles que não abrem mão de uns museus ou uma visitinha ao castelo durante o dia, ainda podem aproveitar o turismo das termas. A piscina central e suas quatro termas laterais foram construídas no século 16, durante as invasões do Império Otomano, e têm quase 500 anos. Barras de ferro seguram a estrutura antiquíssima. As termas nas laterais é uma sequencia de banhos, dos 26 aos 42 graus. E a diferença de temperatura dá aquela relaxada semelhante a de uma sauna. Como o ambiente é bastante escuro e úmido, vou ficar devendo a imagem da casa! Desde setembro de 2014, a Rudas ganhou um espaço exclusivo de hidromassagens com um aspecto mais moderno e novinho.

Széchenyi — o maior complexo de banho europeu 
Construída de 1909 a 1918, em estilo renascentista, trata-se da maior terma desse estilo do velho mundo. A grande piscina central de 38 graus é um deleite. Pessoas jogam xadrez, outros conversam e relaxam em meio a estrutura arquitetônica amarelada. É tão bacana que na primeira vez  não saí de lá e perdi a oportunidade de conhecer as inúmeras termas internas. Foi uma ótima desculpa para voltar! Não é para menos. Imagine a água quente em um ambiente externo, fumaça subindo e condensando com o ar geladérrimo do inverno e o céu cheio de estrelas!  Essa piscina principal fica aberta até às 22h. No inverno dá para se banhar a luz do luar a partir das 17h. Obs.: é bom levar um roupão porque uma hora a gente tem que sair de lá. 

Lukács  e seu efeitos medicinais
Essa terma existe desde os tempos das cruzadas e acredita-se que suas águas possuam resultados muito efetivos. Talvez seja por isso que ela esteja acoplada a um hospital, especializado em reumatismo. O ambiente é lindo, clinicamente limpinho, ornado com pisos de mármore branco e espreguiçadeiras com almofadas e colchão. As termas tem iluminação para deixar a água quentinha e colorida. Tem lá seu quê de banheira de motel, mas sem a prevista sacanagem. Fontes jorram água potável para que os visitantes se hidratem durante os banhos. As águas prometem curar reumatismo, dores nas juntas, doenças degenerativas e uma porção de saracuticos. Apesar dessa descrição de hospital, uma vez por mês a casa prepara a balada das águas. Uma festa eletrônica, com drinks, DJs e trajes de banho!   

segunda-feira, 23 de março de 2015

Banhos marroquinos: Hammams

Imagem do site Hammam Ziani
               
             Escrevi no post anterior sobre o possível choque para aqueles que entram desavisados em uma sauna alemã. E na levada dessa temática de banhos e saunas pelo mundo, aproveito aqui o embalo para contar dos Hammam marroquinos. Em árabe o termo significa banho ou ducha e é algo pensado para o coletivo. A primeira vez que fui ao Marrocos, passei longe dessa experiência. Até esticava o pescoço para bisbilhotar, mas saía de fininho quando alguma funcionária puxava meu braço balbuciando coisas em árabe e tentava me jogar para dentro do balneário. Foi só quando comecei a me preparar para minha segunda visita ao país — rumo a Fez e Casablanca — que resolvi incluir a experiência no roteiro.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Sauna na Alemanha — como encarar o choque cultural

Vamos logo ao ponto sem rodeios. Quem já foi em alguma sauna na Alemanha, seja ela em hotel, piscinas públicas, termas, academias de ginástica ou SPAs não pôde deixar de notar que todo mundo fica lá, relaxando como veio ao mundo. Isso mesmo, peladões, homens e mulheres sem problema algum. Gordos, magros, depilados, peludinhos, seios grandes, pequenos, malhados, sedentários, velhinhas, mocinhas e crianças. E antes que você esboce aquele sorrisinho maroto no canto da boca, é bom saber que não tem absolutamente nenhuma conotação sexual. Conheci colegas nativas que são totalmente contras à cultura do corpo livre (FKK, em alemão), não gostam de freqüentar lagos ou praias nudistas e ainda assim livram-se dos biquínis na sauna. O argumento é a higiene. Afinal, temperaturas altas aliadas ao tecido das roupas de banho significam fungos. Ameacei contar que uso, sim!, maiôs em sauna, quando estou no Brasil, e recebi olhares, não reprovadores, mas um pouco enojados. Um estranhamento semelhante ao nosso quando vemos um alemão manusear, com a mesma mão, dinheiro e comida na barraquinha de salsicha. É claro que você pode manter suas vestimentas, ninguém olhará feio, mas saberá que você é um estrangeiro meio esquisitão. Tipo aqueles gringos que usam sandália com meia na praia. Confesso que nunca consegui ir com um brasileiro (com exceção do meu marido) ou amigos alemães. Mas sempre recomendo aos amigos de visita. Aliás, já levei até primos. Eles entravam e eu saia. Sabe aquela coisa, em Roma como os romanos? É uma experiência interessante para presenciar. Assim, seguem algumas diquinhas para convencer quem está na dúvida.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

E a Berlinale vai de Taxi

                  Pela primeira vez em cinco anos de Berlinale, finalmente, acertamos boa parte dos filmes que venceram as premiações.  Não que dê para escolher muito, já narrei por aqui o “Ó do Borogodó” que é conseguir ingressos. Boa parte comprados online, exatamente três dias antes da exibição, preciosamente às 10h da manhã. Muitas vezes, murros são dados na mesa quando os ingressos escapam do nosso alcance e o computador abre a tela com a mensagem: ESGOTADO. Sim, alles weg em 30 segundos. Inacreditável. Quando morava em Berlim, ficava na fila da Potsdamer Arcade, aos berros no telefone com o marido em casa a postos das compras online. Parecia uma agente maluca no pregão da bolsa dos filmes. Fato é que depois de um tempo, começamos a desenvolver estratégias. Focar nos filmes da competição, excluir os com atores hollywoodianos e contar um pouco com a sorte. O mais perto que havíamos chegado de assistir um premiado durante o festival foi o The Turin Horse em 2011. Que para falar a verdade era bem do esquisito. Mesmo os críticos e os mais dos cinéfilos caiam na risada (angustiante) com as cenas mudas e intermináveis. Veja só aqui como foi o tormento.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Auschwitz — 70 anos de libertação dos sobreviventes: exposição e web documentário de Martin Blume

Martin Blume
Admito que não esperava começar o primeiro post de 2015 com um assunto tão caroço. Voltei das férias no Brasil cheia de ideias, mas com um monte de coisas para fazer e só fui deixando-as anotadinhas no meu novo moleskine. Então me dei conta que hoje celebra-se — ou melhor relembra-se — os 70 anos de libertação dos sobreviventes do campo de concentração em Aschwitz, na Polônia. Já fiz relatos e uma galeria de imagens sobre uma visita ao antigo campo de concentração, hoje um memorial próximo à Cracóvia. Quem se interessar é só clicar aqui para texto e galeria de imagens