segunda-feira, 15 de junho de 2015

Sul da Itália: Nápoles, Capri, Pompeia, Vesúvio e vilarejos da Costa Amalfitana como Amalfi, Ravello, Positano, Sorrento e Salerno

Apaixonante Costa Amalfitana

Os suspiros estão garantidos em cada curva da estrada mais cênica da Itália, ladeada por vilarejos mesclados às montanhas, perfeitos para o dolce far niente, e pelas águas cintilantes do Mar Tirreno
Por Regina Cazzamatta (Texto originalmente publicado na Revista Viaje Mais! Junho 2015)

     Dio mio, uau! São exclamações assim que naturalmente saem da boca dos turistas a cada curva vencida na estrada mais cênica da Itália: a Costa Amalfitana. E que sucessão de curvas vertiginosas permeiam o trajeto. É que a baía que avança a partir de Nápoles, em especial no trecho entre Sorrento e Salerno, que se estende por 60 km de puro deslumbre, é atravessada por uma estrada estreitíssima e sinuosa que recorta uma íngreme cadeia de montanhas à beira do Mar Tirreno. O homem também colocou seu talento ali, construindo casas multicoloridas encarapitadas nos precipícios que se erguem vários metros acima do mar, formando vilas minúsculas e charmosas, como presépios fincados nos alucinantes penhascos.
     É, sobram mesmo muitos motivos para a região, a 400 Km ao sul de Roma, ser tão desejada. Mas, antes de suspirar em cada pedacinho desse litoral espetacular, aproveite o pit stop em Nápoles, que dá acesso às maravilhas da Costa Amalfitana, e curta o alegre caos da cidade inventora da pizza, assim como os impressionantes vestígios arqueológicos de Pompeia e Herculano, que por 1.500 anos ficaram escondidas sob a lava lançada pelo Vulcão Vesúvio em 79 d.C. 

Nápoles. Onde todos os clichês italianos se encontram  

Seja apenas como ponto de chegada ou um pit stop repleto de história e recheado com os autênticos sabores italianos, apesar do ritmo um tanto caótico, Nápoles certamente figurará no seu roteiro pela Costa Amalfitana. Equipada com um aeroporto e uma estação de trem, é nela que você chegará a partir de outras cidades da Itália para dar partida rumo à romântica e deslumbrante Costa Amalfitana. 
Inicialmente, cair nas frenéticas ruas de Nápoles pode ser um choque, mas é aos poucos que se reconhece a beleza nesse caos. Na realidade, não se trata de uma cidade particularmente bonita, mas a graça está em seu verdadeiro clima à moda italiana, com tudo o que isso traz de bom. E de ruim. Uma sinfonia de buzinas é a trilha sonora de qualquer caminhada. Lambretas com uma, duas ou até mesmo três pessoas, a maioria sem capacete, circulam pelas ruas que se entrecruzam sem regras no centro histórico, distribuindo intermitentes bip-bips. Ao mesmo tempo, lençóis e roupas estendidos do lado de fora das janelas são responsáveis por colorir, e bagunçar ainda mais, os prédios de Nápoles e garantir uma certa atmosfera de velha cantina italiana. 
Entre toda essa balbúrdia, está uma série de joias, principalmente no centro histórico, tombado pela Unesco em 1995. A área esconde um emaranhado de boas surpresas não só arquitetônicas como culinárias, a exemplo de trattorias, osterias, barraquinhas de pizza frita e peixarias, onde coloridas bacias expõem frutos do mar fresquinhos, que irão parar no seu prato na hora do almoço ou jantar. Delicie-se com a comida fata de Nápoles, pois a cidade que criou a pizza margherita só poderia ser a terra da comida boa. 

Imponência Napolitana

Assim como a gastronomia, outra característica notadamente napolitana é a religiosidade. Não é difícil se deparar com minialtares nas calçadas, ornamentados com imagens de santos. Eles combinam muito bem com o cenário forrado de igrejas, principalmente no centro histórico, onde o destaque é a impressionante Catedral de Nápoles, datada de 1272. Lá dentro, a capela do tesouro, de 1637, guarda pedras preciosas e 54 estátuas de prata, mas o que os moradores consideram ainda mais valioso são os restos mortais de São Genaro, que estaria enterrado ali. 
Outra atração religiosa no centro antigo é o Complexo Monumental San Lorenzo Maggiore. À parte a visita à basílica, explore os subterrâneos da construção, onde ruínas greco-romanas transportam os visitantes à antiga cidade de dois mil anos atrás, mostrando resquícios de fornos, escolas e lavanderias. 
O que consegue ser ainda mais interessante do que San Lorenzo Maggiore, e quiçá de todas as atrações de Nápoles, é o magistral Museu Arqueológico Nacional, que abriga o maior acervo de estátuas romanas do mundo, os melhores mosaicos encontrados nas escavações das antigas cidades de pompeia a Herculano (devastadas pela erupção do Vulcão Vesúvio em 79 d.C) e até uma sala dedicada á arte erótica romana, a qual é proibida para menores de 14 anos. 
Depois dessas boas horas de imersão na cultura e no cotidiano com um quê de bagunçado dos napolitanos, o fim de tarde pede um passeio pela Praça do Plebiscito, onde se impõem o Palácio real e a imponente Igreja de São Francisco de Paula. Aproveite para degustar um encorpado espresso no lendário e requintado Café Gambrinus, num dos cantos da praça. Há mais de 150 anos a casa serve célebres visitantes, incluindo aí os autores Oscar Wilde e Ernest Hemingway e o cantor Luciano Pavarotti. É um lugar e tanto para você provar os doces da região, como o bolo babá (pão-de-ló molhado ao rum) e as tortinhas doces folhadas de ricota, enquanto observa, do conforto das instalações do elegante café, o vaivém dos passantes na praça. 
Outro bom lugar pata flertar com a cidade, e num ritmo ainda mais tranquilo, é o Palácio Real de Capodimonte, afastado do centro histórico, mas mesmo assim com uma localização privilegiada: no alto da montanha. Hoje, a construção se transformou em um monumental museu, que, ao longo de 160 cômodos, espalhados por três andares, distribui uma coleção de pesos pesados das artes, como Rafael, Caravaggio, Ticiano e El Greco. No terceiro andar, dedicado à arte moderna, está aversão de Andy Warhol do Vulcão Vesúvio, que espreita a cidade. Mas não fique só com a pintura. Ao deixar o palácio, você estará no imenso Parque de Capodimonte, que revela a vista do verdadeiro vulcão, imperando todo poderoso na paisagem.  

Nápoles e as redondas

Foi em Nápoles, em 1738, que a primeira pizzaria abriu as portas na Itália, na região de Porta Alba. Foi por aquelas bandas também que nasceu a cobertura margherita. O top pizzaiolo na época, Rafaelle Espósito, quis impressionar o rei Umberto I e sua mulher, Margherita, durante uma visita real, em 1889. Claro que a simples e gostosa invenção, que leva mozarela, tomate e manjericão, cada ingrediente representando uma cor da bandeira da Itália, foi aprovada e, então, batizada com o nome da rainha. 
Hoje, as tradicionais pizzarias de Nápoles são geralmente portinhas escondidas que mal acomodam 50 pessoas. Uma boa recomendação é a lendária Starita, de 1901. Famosa pela versão frita das pizzas, foi lá que Sophia Loren gravou o filme O Ouro de Nápoles , em que fazia o papel de uma pizzaiola instável e adúltera. Prepara-se para esperar cerca de 45 minutos por uma mesa, o que pode ser uma experiência deliciosa. Basta observar o vaivém de lambretas nas ruas e degustar as tais massas fritas com tomate, servidas para quem está à espera de um lugar. Outra boa pedida é a pizzaria Gino Sorbillo. Além de boas margheritas com mozarela de búfala, a casa produz uma cerveja própria.  À noite, em Nápoles, após um agitado dia, é mesmo ótimo se jogar na história de que tudo acaba em pizza. 

Pompeia e Herculano – Testemunhas da ira do Vesúvio


Quem vê o Vulcão Vesúvio tão altivo e tranquilo junto da Baía de Nápoles mal pode imaginar as “peripécias” que ele já aprontou por ali — e a mais séria delas ocorreu em 70 d.C. Uma pesadíssima erupção, mais as cinzas, as pedras e os gases vindos das entranhas do gigante, soterrou cidades como Pompeia e Herculano. Aqueles que tentaram fugir foram atingidos por pedras incandescentes, e os se esconderam morreram sufocados. Esses locais desapareceram do mapa por mais de 1.500 anos, escondidos sob uma espessa camada de rochas e cinzas liberadas durante o “ataque” do vulcão. Pompeia só foi redescoberta em 1594, durante a construção de um aqueduto, e Herculano, mais tarde ainda: em 1709.
Décadas depois, as duas foram “desenterradas” e, no caminho para Sorrento, agora são sítios arqueológicos imperdíveis. Herculano, a 13 Km de Nápoles, é menor, mais ficou até mais preservada por ter sido fossilizada pela mistura de lama e cinzas. Algumas ruínas são de casas de nobres, de uma rua comercial e de banhos termais que ainda revelam o piso de mármore e de mosaicos. 
Já Pompeia, a 23 km de Nápoles, é mais pop e ostenta espaços como o Lupanare, que era um bordel com camas de pedra e afrescos eróticos nas paredes. Também está ali bem preservado o Grande Teatro, com mias de 5 mil lugares. Mas nada é mais aflitivo do que o jardim dos fugitivos, que traz réplicas dos corpos petrificados pela mistura letal de cinzas e rochas, que invariavelmente têm as mãos curvadas sobre o rosto. 
A erupção ocorrida no ano 79 foi tão violenta que também destruiu o cume do Vesúvio, criando uma cratera de dimensões assustadoras, a qual pode ser visitada. Em frente à estação de trem Ercolano-Scavi, perto do Herculano, partem ônibus para lá, o Vesúvio Express. Do estacionamento, são 860 metros até a cratera, num trajeto íngreme e pontuado pelas cinzas de antigas explosões (desde a grande erupção, o gigante se manifestou 30 vezes, a ultima delas em 1944). Um leve cheiro de enxofre acompanha os visitantes, que não se importam com o odor e se deslumbram com a fumaça que sai das rochas.
Enquanto o Vesúvio dorme são outros romãs que seduzem ainda mais quem passeia pela região: o do amarelíssimo limão siciliano, o dos frutos do mar e o das pizzas e massas recém-saídas do forno. São esses, principalmente, que ficam na memória depois que se aproveita as delicias de Nápoles e de seu entorno. 

Sorrento – O início de um sonho chamado Costa Amalfitana 

Para zigue-zaguear pelos vilarejos da Costa Amalfitana, é comum os turistas se fixarem em cidades como Sorrento, a 26 Km de Pompeia e onde a estrada ganha os penhascos e o casario colorido que tanto fazem sua fama. Encimada numa colina, a cidade brilha com um cenário à moda antiga e os resorts, ainda que as praias, de pedra e não de areia, não sejam assim tão especiais. Os banhistas têm apenas um pequeno espaço no porto Marina Grande para se refestelar ao sol, mas a presença de bons restaurantes e cafés à beira-mar compensa. 
O centrinho fica na parte alta de Sorrento, e a chegada ali é por um charmoso elevador. O desembarque é no Parque Villa Comunale, um terraço romântico que descortina um estupendo panorama do mar. Ao lado, a Igreja São Francisco, com o pátio preenchido por arcos e buganvíleas e em meio ao zunzunzum da ruela São Cesário, é uma bela surpresa com os afrescos ainda originais. Já a Basílica de Santo Antônio, do século 11, exibe pinturas romanas, fragmentos de edificações antigas e um altar repleto de... limões, fruta deliciosamente recorrente em toda a costa. Não à toa faz parte de várias receitas e, se quiser comprar iguarias preparadas com ela, vá a loja Limonoro. Desde 1905, a casa produz uma porção de guloseimas que levam limão, com os bombons de chocolate recheados com o típico licor limoncello. 

Também dá para começar o tour em Salerno

      No outro lado da baía que envolve a Costa Amalfitana está Salenro, onde também é possível iniciar a viagem vindo de Nápoles ou Pomepeia, fazendo o roteiro no sentido oposto ao mostrado nessa reportagem. A cidade, segunda maior da Campânia (tem cerca de 135 mil moradores e só perde para Nápoles, que tem perto de 1 milhão de habitantes), é muito procurada por oferecer uma ótima conexão de ferries para as vilas vizinhas e, assim, os turistas basicamente só chegam e saem por ali, sem ficar um tempo para explorar o lugar. Mas eles não sabem o que estão perdendo. O calçadão da praia é repleto de gente fazendo jogging – ou se dirigindo para os restos que servem apetitosos frutos do mar. A comida também é o chamariz nas trattorias do centro histórico, que revela igrejas medievais como a catedral de Salerno, uma das mais bonitas da Itália. Num dia de sol, visite o Castelo Arechi, que, pairando a 263 metros de altitude, descortina um panorama sublime do Golfo de Salerno. São ruinas que passaram por uma longa restauração e, reabertas em 2009, agora têm um museu que apresenta as descobertas arqueológicas da região. 

Positano — “O” lugar para desempenhar a arte do dolce far niente 

Se a Costa Amalfitana seduziu você já nos primeiros quilômetros rodados em Sorrento, prepara-se para atingir o auge do encantamento no trecho seguinte, que leva a Positano. São meros 17 Km de trajeto, mas que trajeto: há vários mirantes dispostos a muitos metros acima das águas do Tirreno, que parece ter águas mais azuis e tranquilizadoras do que qualquer outro mar do mundo. Com essa pintura acompanhando a viagem, é impossível não parar em todos os deques disponíveis, fazendo com que a rota, que, num dia de trânsito normal, seria feita em cerca de meia hora, facilmente ultrapasse uma hora.
Outro impacto é se encontrar “cara a cara” com Positano. É que o casario colorido que de cima a baixo invade a montanha garante um irretocável clima de faz de conta à cidade, como se ela mal tivesse moradores e transeuntes. E o movimento nem sempre é muito nítido também porque Positano tem uma única rua-avenida, que por 4 Km se entende, ou melhor, se enrola feito um caracol para atravessar a cidade. 
E como alcançar as redondezas onde tal rua não passa? Só há escadarias e vielas com íngremes subidas e descidas — onde os carros não circulam —, como a Via dei Mineli. Ela leva à praia, a qual, no canto direito, é pública (no quanto esquerdo, ela é reservada para quem quiser alugar guarda-sol e espreguiçadeiras). Na beira mar, todo mundo se junta, mas cada um curte o dolce far niente no seu estilo. Uns torram ao sol. Outros, ou melhor, outras se mantêm de vestido longo e chapéu. E outros se sentam nos restaurantes da orla e, enquanto almoçam, praticam o people watching.

Moda Positana

Como um dos pontos mais badalados da costa, alfaiates e comerciantes, nos anos 1960, identificaram uma demanda por acessórios e roupas que representassem o clima e o estilo de Positano. Começaram, então, a criar peças de linho, incluindo toalhas e lençóis bordados à mão. E foram ajudados por estilistas como Benetton e Fiorucci, que passavam as férias na cidade e mostraram como tingir os produtos. O resultado foi a criação da “moda positana”, conferida na loja Antica Sartoria, endereço certo dos visitantes fashionistas. 
Saçaricando pelas ruazinhas, você também vai topar com butiques finas, galerias de arte e lojas que vendem coloridas peças de cerâmica, como jarros, copinhos de limoncello e minimurais de azulejos, sempre presentes na decoração de toda sorte de estabelecimentos. E o caso do café e restaurante La Zagara, onde as refeições são degustadas sobre coloridíssimas mesas de mosaico. Além de adquiri os produtos típicos, você precisa visitar a Igreja de Santa Maria Assunta, uma das mais populares para casamentos, que guarda a imagem de uma Virgem Maria negra, de inspiração bizantina.
E assim, ao conhecer a suspirante vila em caminhadas morro acima para curti uma baita vista do litoral, ao se deliciar com as fresquíssimas receitas locais e ao se jogar na praia para desfrutar da arte de não fazer nada, a frase de John Steinbeck, autor de As Vinhas da Ira, cunhou há mais de 60 anos se mostrará mais atual do que nunca: “Positano nos toca profundamente. É um lugar de sonho, que quando você está lá não parece de verdade, mas, depois que você parte, se torna incrivelmente real”. E deixa muita saudade. 

Capri — hedonista e perfumada 

Ao longo da história, o sul da Itália foi castigado por algumas catástrofes causadas pelo Vesúvio. Mas, para compensar a fúria do vulcão, as redondezas também foram moldadas com formações “pacíficas” e igualmente soberbas, como as que emolduram a elegante ilha de Capri. É um microcosmo mediterrâneo, alcançado de barcos desde Positano (e também de Sorrento, Amalfi e Salerno) e queridinha desde os tempos do Império Romano. Foi nela que o imperador Tibério, desconfiado de que seria assassinado por opositores em Roma, mandou construir, em 27 d.C., 12 vilas no alto da montanha. E se mandou para lá. A mais suntuosa delas, a Villa Jovis — que xige um bom par de pernas para ser alcançada — ainda mantém sues resquícios de pé, 353 metros acima do nível do mar. O governante foi só a primeira personalidade que caiu de amores por Capri. Escritores como o chileno Pablo Neruda e o alemão Thomas Mann também se renderam aos encantos da ilha. Até o ator Leonardo di Caprio já foi visto bebericando uns expressos por lá. E é mesmo esse o clima local: VIP. 
Da marina Grande, no porto de Capri, sem os principais passeios de barco em torno da ilha, os quais escancaram o quão generosa a natureza foi com o pedaço. É tanta formação caprichada que é difícil escolher a mais bonita. Há o arco natural, portal de pedra onde, na passagem da embarcação, os enamorados devem se beijar para que, reza a lenda, o amor perdure para sempre; a Punta Tragara, que fica de cara para os icônicos Faraglioni, rochedos de calcário que brotam no meio do mar; e a Ponta Carena, onde está o segundo farol mais alto do país.
No trajeto, navega-se pelas grutas Branca e Verde, de águas límpidas e transparentes. Mas o ponto alto é mesmo a magnífica Grota Azzura (gruta azul). Uma fila de embarcações se concentra em frente a ela e, então, botes pequenos buscam os visitantes nos barcos maiores e os levam até a gruta, processo que pode demorar mais de uma hora por conta da quantidade de turistas. Mas quem se importa sabendo do show que está por vir? 
A entrada da caverna tem 1,3 metro. O barqueiro, concentrado, observa o correr das águas e, enfim, rema gruta adentro. E então o “milagre” acontece: o túnel, estreito do lado de fora, se abre num salão rochoso, em que a luz do sol entra pela fenda se reflete na água, a qual, forrada por uma areia branquinha gera um efeito de azul fosforescente inacreditável. O espetáculo seria ainda mais encantador se não houvesse tantas canos ali ao mesmo tempo, mas, ainda assim, é maravilhoso. 
 
Ao retornar à Marina Grande — que tem, à direita, a Bagno di Tiberio, uma das praias mais procuradas de Capri -, um funicular conduz os visitantes ao centrinho. Nas estreitas ruas, há lojas de marcas badaladas, o vaivém de carinhos, ao estilo dos de golfe, dos hotéis de luxo transportando as malas dos hospedes, e atrações como o Jardim de Augusto, criando  mando deste que foi o primeiro imperador romano, que encanta, claro, pelas flores, mas também pelos bancos de mosaico e o visual estonteante para os rochedos Faraglioni. Perto dali, também com vista primorosa dessas formações o Mosteiro Certos adi San Giacomo é outro oásis de tranquilidade. Conta-se que, em 1949, um monge dali criou a fórmula do primeiro perfume de Capri. Com autorização do papa, revelou-a a um químico, que achou o aroma promissor e construiu um laboratório para produzi-lo. Nascia assim a conhecida perfumaria Carthusia Certosa. 
Para que o cheirinho das férias na ilha esteja sempre por perto, compre um vidro do perfume Ária de Capri. A essência de limão e laranja, associada a notas de mimosa e pêssego, certamente reconduzirá você aos marcantes dias passados na região. Então, é só fechar os olhos e recordar os momentos em que se via o sol nascer da varanda, com uma xícara de cappuccino em mãos, ou se contemplava o crepúsculo na praia, com a água do mar lambendo os pés. 

Amalfi — Poderosa na Idade Média, idílica e pacata hoje

Cruzar a estrada que conecta os vilarejos, superestreia e com curvas fechadas, uma atrás da outra, dá um certo friozinho na barriga. Mas ainda bem que o cenário sedutor não dá trégua, especialmente entre Positano e Amalfi. Ali, surgem diversas praias, quer dizer, boa parte delas são enseadas minúsculas, praticamente escondidas entre os paredões e acessadas apenas por longas escadarias. Como tais sequências de degraus não são vistas da estrada tampouco há placas que as indique, siga esta dica: pare sempre que você vir uma fileira de carros estacionados no acostamento. É grande a chance de encontrar uma inusitada, e linda, faixa de areia perdida nas falésias.

O zigue-zague do trajeto também é reconfortado pela tranquilidade e beleza de Amalfi, que recepciona os visitantes com um colorido degradê de casas, parte delas cenicamente empilhadas por um terreno mais plano, num vale ladeado pelas portentosas escarpas do Monte lattari. 
Hoje tão pacata e bucólica, mal dá para acreditar que Amalfi foi uma grande potencia marítima na Idade Média, rivalizando com as poderosas repúblicas de Veneza e Genova. A supremacia era tanta que ela era capital da próspera República Amalfitana, que criou um código de leis marítimas seguido em todo o mediterrâneo e que tinha a própria moeda, aceita da Grécia à África. 
Uma testemunha desse passado glorioso é o complexo da catedral, que conserva o Mosteiro do Paraíso, onde fica o cemitério da antiga nobreza amalfitana, e a Basílica do Crucifixo, hoje um museu que guarda tesouros como uma mitra (insígnia religiosa que os sacerdotes usam na cabeça) do século 13, ornamentada com folhas de ouro e uma infinidade de pérolas. Outra atração é a cripta, que guardaria os restos mortais de Santo André, padroeiro da cidade. 
Como fica no centrinho, a escadaria da catedral é um ponto de encontro de moradores e turistas. A turma também adora jogar conversa fora   —  tomar um bom espresso, claro — na confeitaria Andrea Pansa, ao lado da igreja. Se bem que, quando o sol bate forte, uma boa são os sucos de frutas da Sporta Marina, as quais são cultivadas no quintal do proprietário. A casa ocupa uma portinha perto da catedral, que, se você não prestar atenção, passa batido. 
O que nunca passa despercebido é a quantidade de limões sicilianos, cujos pés naturalmente enfeitam as vielas — e boa parte das lojinhas também. É automático querer pegá-los, já que muitos têm quase o tamanho de uma bola de futebol de salão. Mas não faltam avisos para os forasteiros não botarem as mãos nas frutas. Com essa fartura, o limão vai parar não só nas receitas, mas também em sabonetes, perfumes e no licor limoncello, cujas garrafinhas pintadas à mão, trazendo a cena de Amalfi, são um suvenir típico da cidade. 
Nas ruas, também é recorrente se deparar com miniaturas, como se fossem presépios montados em fontes ou colocados nas fendas das montanhas. As figuras representam profissões comuns dos vilarejos, como padeiro e pescador, e são uma espécie de artesanato típico que embeleza ainda mais o centrinho. 

O verde reluzente das águas

A despeito do movimento e do glamour que envolve a vizinhança, Amalfi ainda preserva sua essência de vila de pescadores. E, como tal, nada como explorá-la num tour de barco, que passa pelas “modestas” casas com elevadores privativos para a praia e propriedades como a Vila Sophia Loren e a mansão do dono da fabricante de champanhes Moet & Chandon. 
O barco para de tempos em tempos e se aproxima de alguns rochedos, quando o condutor mostra “imagens” naturais formadas nas pedras. “Use a imaginação”, diz aos mais céticos, apontando para a possível forma de uma mãe abraçando o filho. Outras formações, porém, são mais facilmente identificadas, como a pedra do elefante com sua imensa tromba. Depois, o barco se aproxima do Fiorde de Furore, fenda gigante que corta o Monte Lattari e é o maior do sul da Europa. O clímax do passeio, no entanto, é a chegada à Grotta dello Semeraldo (gruta da esmeralda), no vilarejo de Conca dei Marini, a 4 Km de Amalfi, e também alcançada por terra, com um ônibus que sai da estação Sponda, em Positano. 
Um elevador conduz até a entrada da gruta. Ali, a luz do sol passa por uma pequena fenda e ilumina a caverna e a água, que, devido à refração, cria o radiante efeito que deixa água com tons verde-esmeralda, envolta por estalagmites e estalactites que alcançam 24 metros. 
Barqueiros, com pequenos botes, levam os turistas para um rápido passeio pelo espaço. E alguns, para ninguém se esquecer de que está fazendo um passeio à la Veneza, soltam o vozeirão e entoam trechos da clássica música O Sole Mio.  

Ravello — Terraço para o Infinito

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Um roteiro essencial de Viena, Praga e Budapeste — um passeio compacto pelo Leste Europeu

Praga, Viena e Budapeste
O Grande espetáculo da Europa

Mergulhe nas belezas arquitetônicas (e em águas termais também), na história, nos cafés e no mundo das mais finas artes nessas três capitais fenomenais 
Texto originalmente publicado na Revista Viaje Mais! Abril 2015.


O Leste Europeu é uma explosão de história, arquitetura colossal e arte, de toda e qualquer seara. Símbolos máximos dessa vizinhança, Praga e Budapeste, capitais da República Checa e da Hungria, respectivamente, por décadas escondidas sob a Cortina de Ferro, voltaram a reluzir feito ouro, finalmente vivendo a democracia e inundadas pelos investimentos dos parceiros da Comunidade Européia. Com isso, abriram-se aos forasteiros, agora sem reservas nem desconfianças, exibindo-se tão deslumbrantes e imponentes como em seus tempos áureos.

Não é exagero. Você vai ver, e sentir, que o presente é tão suavemente uma extensão do passado ao atravessar a Ponte Carlos IV, que descortina o fabuloso panorama medieval de Praga, dominado por uma centena de torres e pelo castelo encarapitado numa colina. Ou ao ouvir um concerto com peças de Franz Liszt na Igreja de São Matias, em Budapeste, onde ele mesmo tocava — e onde Francisco José e sua bela mulher, Sissi, da poderosa dinastia Habsburgo, foram aclamados imperadores da Áustria e reis da Hungria, selando a formação do Império Austro-Húngaro.

Pela intersecção histórica, e mesmo pela proximidade e facilidade de acesso, a monumental capital austríaca, Viena, que geograficamente está na Europa  Central, também integra este roteiro, perfeito para ser feito de trem. Embarque com a gente e deixe-se levar pelo som das valsas e óperas de Viena, pelo sabor da cerveja checa, pela brisa do emblemático Rio Danúbio, que rasga o panorama de Budapeste...

Praga — a arrebatadora cidade das cem torres

Quando os cafés colocam mesas nas calçadas de Praga e os artistas voltam a se apresentar pelas ruas, em meio ao vaivém intenso de pedestres, é sinal de que a primavera chegou à República Checa. É o tempo em que uma enxurrada de visitantes começa a agitar a capital de 1,3 milhão de habitantes, que recebe todos os anos 8,5 milhões de forasteiros. 
Hoje em dia, a alegre estação, que vai de março a junho e, além de turistas, traz um novo ânimo aos nativos que por meses sofreram com o inverno rigoroso, não lembra em nada o marcante evento conhecido como Primavera de Praga, quando, em 1968, tanques soviéticos invadiram a capital checa para reprimir manifestações populares e defender a manutenção do socialismo. É que os tempos cinzentos esvaneceram-se totalmente no reflorescer da cidade no período pós- Cortina de Ferro, nos anos de 1990, quando Praga começou a se tornar um lugar tão cool e cheio de hipster quanto a multicultural e hypada Berlim. Galerias, restaurantes e lojas fervilham no centro histórico, tombado como Patrimônio Cultural da Unesco desde 1992. Mas as construções antigas não ficam só nesse pedaço. 
Praga toda é praticamente uma sucessão de maravilhosas construções de época passadas, moldada ao longo dos séculos por várias culturas que dominaram seu território. Tudo fruto de já ter sido uma das capitais mais prósperas do continente, sede do Sacro Império Romano Germânico (962-1806) e ponto de intersecção entre as culturas judaica, germânica e da Boêmia (região que se formou no século 11 e, em 1918, deu origem à Checoslováquia, dividida em 1993 em República Checa e Eslováquia). Mas a era de ouro da urbe foi sobretudo no século 14, sob a batuta de Carlos IV, monarca que dá nome à ponte mais borbulhante e famosa da capital. Não tem quem não vá. 
Erguida em 1357 sobre o Rio Moldávia, é só andar por ali que se ganha um dos visuais mais lindos da cidade: a região do castelo, que paira no topo de uma colina, identificada de longe pelas torres monumentais. Elas dominam o cenário, seja qual for a intensidade do formigueiro de gente que se junta nos 520 metros de extensão da ponte. Artistas rascunham caricaturas, expõem telas, tocam violino e até arriscam um tilintar com os dedos sobre taças de cristais molhadas. 

O fuzuê, aliado ao magnífico entorno, pode fazer com que os detalhes da ponte passem despercebidos. Mas não deixe de admirar as 36 estátuas que a ornamentam, como a de Cosme e Damião, além da de São Vito, padroeiro da Boêmia e de Praga, respectivamente. Mas nenhuma concentra tantos turistas quanto a estátua de São João Nepomuceno, que forma até fila. Diz a lenda que o rei Venceslau jogou o sacerdote Nepomuceno da ponte em 1393, como punição por ele ter se negado a revelar as confissões da rainha. Para os supersticiosos, esfregar as mãos na estátua garante o retorno a Praga. Verdade ou não, uma placa dourada marca o ponto onde a tragédia teria ocorrido. 


O castelo que é uma Cidade 

O túmulo de Nepomuceno está na fascinante Catedral de São Vito, dentro do Castelo de Praga, alcançado pela Ponte Carlos IV e outro must see da cidade. Desde o século 9, a nação é governada dali — Carlos IV, os Habsburgo e o dramaturgo Václav Havel, o mais amado dos presidentes (ele foi o último mandatário da Checoslováquia e o primeiro da nova República Checa), dirigiram o país protegidos por aquelas muralhas. Não é uma fortificação qualquer, mas o maior burgo do mundo, esparramado por 570 metros de comprimento e 128 metros de largura, medição atestada pelo Guinnes, o livro dos recordes. É um colosso, com área equivalente a sete campos de futebol, e recheado de palácios, torres, museus, galerias, um convento e antigos calabouços. São muitas atrações, mas algumas são imperdíveis. Uma é a troca da guarda, que rola todos os dias, de hora em hora, mas a mais pomposa é a que ocorre ao meio-dia, ao som de uma banda marcial. Outra é a própria Catedral São Vito, dona de enormes torres góticas e obra-prima desse estilo arquitetônico, construída a partir de 1344. 
Nessa bateção de perna, estique até a charmosa e pitoresca Viela Dourada, situada ao norte das muralhas. Repleta de casinhas coloridas e com portas baixas, ela abrigou a guarda do castelo no século 16 e, posteriormente, ouvires e alquimistas. Legiões de turistas saçaricam pelo caminho e circulam por cômodos das moradias, que hoje exibem armaduras e roupas muy antigas. Mas a residência para a qual todos voltam os olhos é a de número 22. Foi ali que o escritor Franz Kafka, morou em 1916 e 1917. Não foi o misticismo o motivo que o levou a viver na rua dos alquimistas do burgo, e, sim, a necessidade de um lugar sereno para escrever. Claro que quem visita a casa encontra para comprar uma série de obras do autor, traduzidas em diversos idiomas. 
Uma vez imerso no mundo dos livros, vale muitíssimo conferir a biblioteca do Mosteiro Strahov, ainda na Cidade Alta, ao lado do castelo. Se você assistiu aos filmes Casino Royale ou A Liga Extraordinária, talvez seja capaz de bater o olho e reconhecê-la, já que ambos têm cenas gravadas ali. O espaço é formado por dois salões barrocos tomado por prateleiras de madeira entalhadas e folhadas a ouro, as quais são forradas de livros antiqüíssimos. Some a isso os afrescos esplêndidos no teto, os globos terrestres e as tantas esculturas e o resultado é o deslumbre dos visitantes, mesmo que só da porta, porque não se pode entrar nos salões. 
Os apaixonados por literatura podem se embrenhar mais um pouquinho nesse mundo em Malá Strana (Cidade Baixa), fora dos domínios do castelo, visitante o ótimo Museu Franz Kafka. O complexo recria a Praga da época do autor e relaciona a cidade à vida e aos textos do escritor judeu, que frequentava o bairro judaico da capital, o Josefov, o qual remonta ao século 13 e reuniu essa comunidade até o século 18. Por lá, além dos prédios art noveaus dos anos 1990, restaram seis de suas 16 sinagogas originais, entre elas a Antiga Sinagoga, que, adepta do estilo gótico, não tem nada de nova: foi eregida em 1270 e é o mais antigo templo dessa religião em funcionamento na Europa. 
Cafés cheios de História
Praga é assim, um museu de arquitetura a céu aberto, onde estruturas góticas, barrocas e modernas coexistem sem problema. Enquanto uns suspiram com o salão barroco da biblioteca ou com o primor gótico da Catedral de São Vito, outros, enquanto degustam um bom espresso, apreciam os detalhes cubistas presentes no Grand Café Orient. Pioneiro com essa estética na cidade, o prédio de 1912 é um perfeito exemplo do estilo e conta até com uma exposição sobre o movimento, disposta em três andares. 
Outro café legal de visitar é o Slavia, onde Kafka costumava ir e que, nos anos de chumbo do comunismo, continuou a reunir escritores, além de artistas, jornalistas, estudantes e demais dissidentes do regime. 
Tal tipo de estabelecimento tem papel importante na história local. No começo do século 20, a cidade abrigava pelo menos 150 cafés. Mas, a partir e 1948, com a instauração do socialismo, o governo passou a não ver com bons olhos o fato de os moradores freqüentarem esses locais, prática considerada particularmente burguesa e que, ainda por cima, favorecia as conspirações contra o regime. Assim, todos os cafés foram fechados durante esse período, e o ressurgimento deles também faz parte do renascimento cultural da capital. É um momento para relaxar e saborear a bebida, e nenhum garçom, independentemente do tempo que você está ali, trará a conta antes de você pedir ou ficará mostrando o cardápio repetidamente. 

Praga contestadora e moderna

Para curtir o lado mais contemporâneo da cidade, a boa é ir ao Museu Kampa, com obras modernas do século 20, das abstratas às cubistas. A arte moderna toma conta também das ruas e tem no polêmico artistas checo David Cerny, de 47 anos, o seu grande representante. É dele as esculturas dos homens que urinam no mapa da República Checa, disposta em frente ao Museu Franz Kafka, e a de um enorme cavalo de cabeça para baixo montado pelo venerado São Venceslau, no Palácio Lucerna, que hoje funciona como galeria comercial. Na peça de Cerny,  o santo está sentado na barriga de um cavalo morto, numa peculiar releitura deste que é o padroeiro da Boêmia, a qual enfeita a Praça Venceslau, onde a imponente figura católica cavalga o animal e tem outros santos a seus pés. 
A Praça Venceslau, na Nove Mesto (Cidade Nova), é, na realidade, um bulevar onde se passaram alguns dos principais momentos da história checa. Em 1968, foi palco do “desfile” dos tanques russos que tomaram a capital na Primavera de Praga e do trágico protesto em que o estudante Jan Zayéc ateou fogo ao próprio corpo para se manifestar contra o regime — em frente ao Museu Nacional, uma cruz marca o local onde isso correu. Num dos últimos episódios dessa história, o bulevar foi cenário para um final feliz: da varanda da casa de numero 36, Václav Havel, último presidente da então Checoslováquia, anunciou o fim do comunismo no país e sua dissolução, criando a República Checa e a Eslováquia, num discurso marcado pela frase “o amor e a verdade venceram sobre a mentira e o ódio”.
Como é de praxe em Praga, a Cidade Nova, que abriga o bulevar Venceslau, não é nova: remonta a 1348. Ma o nome faz sentido se ela for comparada ao quarteirão principal do centro histórico, do século 10, onde se destaca a igreja gótica de Nossa Senhora de Tyn, onde estão os restos mortais do astrônomo dinamarquês Tycho Brahe (1546-1601), que viveu em Praga e lá, junto de Johannes Kepler, revolucionou o entendimento do sistemas solar. 
A igreja Tyn fica a poucos passos do relógio astronômico da Staromestké Namestique (Praça da Cidade Velha). E é moleza localizar a pitoresca atração: é só ir em direção à grande torre que domina a praça ou focar no ponto que aglutina uma porção de gente, que está ali para ver e ouvir o tilintar desse relógio bem diferente, em que o horário é marcado pelas figuras dos 12 apóstolos. Na parte superior, estão as estátuas que representam pecados: a vaidade (com um espelho em mãos), a avareza (com o saco de dinheiro), o esqueleto da morte e a invasão pagã, representada por um turco. Na parte de baixo, as virtudes se denotam pelas figuras de um poeta, um anjo, um astrônomo e um filósofo.  
Há 600 anos é assim: de hora em hora, essa parafernália realiza um show mecânico em que, ao fim do badalar dos sinos, os apóstolos aparecem um a um na janelinha do relógio. Há quem assista ao espetáculo a partir de restaurantes da praça, com um café em mãos, ou sentado no chão, para também não perder a variedade de apresentações de artistas de rua. Seja como for, o relógio pode ser a deixa para você se lembrar que é hora de continuar a jornada a outras fascinantes cidades desta poção da Europa. 

A Milenar Tradição Cervejeira

Para acompanhar as receitas típicas do país — carne de porco empanada, ensopados e embutidos diversos —, nada como uma cerveja checa, considerada uma das melhores do mundo. Grande parte da bebida lá produzida é de baixa fermentação (lagers), e a cerveja (pivo, em checo) clara é chamada de svetlé, enquanto a escura é denominada tmavé ou cerne.
Embora haja mais de 1 mil cervejarias no país, três companhias dominam o mercado: a Pilsner Urquell, de Pilsen; a Staropramen, de Praga; e a Budweiser, do sul da Boêmia (criada muito antes da Budweiser norte-americana). As loiras produzidas por essas gigantes são facilmente encontradas nos restaurantes e tabernas de Praga, e muitos estabelecimentos também oferecem rótulos das produtoras menores. 
Entre as cervejarias mais bacanas para esvaziar uns canecos estão a Hostinec U Kalicha, a ihomestsky Pivovar e a Minipivovar U Flekú, que remonta ao século 15. Muitas mantêm o velho clima de taberna, com mesas enormes de madeira, decoradas com velas, e ambiente escuro e rústico. Para petiscar, o típico presunto checo com pepino em conserva é uma boa. 

Outros Encantos da República Checa

  Praga é uma beleza, sem dúvida, mas, se puder passar mais tempo na República Checa, ha outras cidades lindas para visitar. Uma é Karlovy Vary, a 140 km da capital, uma região montanhosa próxima à fronteira com a Alemanha. Trata-se de um balneário de águas termais quentes e salgadas. Destaque para o Moser, museu dedicado aos famosos vidros e cristais da Boêmia. Ali, pode-se ver a produção numa fábrica e, claro, fazer compras. 
Outra boa pedida é Pilsen, onde fica uma das produtoras de cerveja mais famosa do país: a Pilsner Urquell, em operação desde 1842 e que criou uma das cervejas mais populares no mundo. Para os amantes da bebida, um museu conta a saga da produção da loira e seus hábitos de consumo. E, se não tiver exagerado nas doses, encare os 301 degraus que dão acesso ao topo da torre da igreja de São Bartolomeu e desfrute de uma visita inigualável.
Já em Kutná Hora, a 80 KM de Praga, o lance é visitar o inusitado ossuário de Sedlec, cuja matéria-prima — isso mesmo, ossos — foi parar na decoração de uma igreja. Com a peste negra no século 14 e a superlotação do cemitério local, as ossadas de 40 mil pessoas foram colocadas no subsolo de um templo. Em 1866, a aristocracia checa clamou pela organização do ambiente: foi quando surgiu a ideia de usar os ossos na decoração da igreja. Um tanto macabro, mas com um toque de beleza. 

Viena – A monumental capital que a dinastia Habsburgo concebeu para ser a sede de seu império 

Se ao meio dia o relógio astronômico entra em cena no centro histórico de Praga, turistas se reúnem na região mais antiga de Viena, no mesmo horário, por uma razão semelhante. Ali, o relógio Anker também dá seu show: ao som de um órgão, as 12 figuras que indicam as horas, como a do imperador romano Júlio Cesar, ganham “vida” e se movimentam no relógio, como que dando as boas-vindas aos forasteiros. Um desejo que os moradores também expressam através do simpático cumprimento gruß gott, singela saudação que também signifique “Deus abençoes você”. 
Mas há outras razões, literalmente grandiosa, para os turistas se aglomerarem no centro antigo da soberba capital da Áustria. A vizinhança é a que carrega mais fortemente, como em nenhuma outra cidade do Leste Europeu — embora a disputa seja acirrada com Budapeste — capital da Hungria , as lembranças da magnitude da dinastia dos Habsburgo, família que esteve no poder entre 1279 e 1918, parte desse tempo comandando o poderoso Império Austro-Húngaro, e fez Viena o epicentro de seu reinado. Assim, a capital brilha com palácios monumentais (no plural mesmo, já que há três estupendos complexos que serviram à  família real), igrejas portentosas, casas de ópera fabulosas e uma porção de museus e parques que, à beira do icônico Rio Danúbio, abrigam até as ilhas, nas quais os nativos se esbaldam nos meses quentes do ano. 
Nada espelha tão bem essa obsessão dos Habsburgo por imponência, beleza e perfeição como o complexo Hofburg, residência de inverno da família por mais de 600 anos. Formado por 18 edificações, 19 pátios e uma sucessão de obras de arte, não é para menos que ainda seja a casa de moradores ilustres, como o presidente austríaco, Heinz Fischer, que hoje comanda uma próspera e bem sucedida república. 
Como o presidente é uma suave extensão do glorioso passado, é muito fácil imaginar o Hofburg nos tempos do império. É só passar pela Câmara de Prata, que reúne as refinadas louças e pratarias outrora usadas pela família real; pelos aposentos do kaiser (imperador) Francisco José (1830-1916); e pelo museu dedicado à sua mulher, a imperatriz Elisabeth da Bavária, a Sissi (1837-1898), que é a parte mais bacana do tour. Por meio de jóias e roupas, além de objetos e materiais que apresentam a rotina de exercícios físicos da soberana, a mostra explora a construção do mito em torno da bela Sissi, conhecida pela extrema vaidade e cuidados com o corpo. 
Nos cômodos de trabalho de Francisco José, por exemplo, está uma das pinturas mais famosas de Sisi, em que ela exibe os longos cabelos castanhos caídos sobre um vestido branco. Outra peça que enaltece a galhardia da soberana é uma escultura em tamanho natural, a qual impressiona por demonstrar a finíssima cintura mantida pela nobre até a sua morte, aos 61 anos: meros 50 centímetros! Ainda hoje, o fascínio é tanto em torno da imperatriz que é comum encontrar, nas visitas escolares feitas no complexo, diversas garotinhas vestidas de princesa. 
Na toada de explorar os lugares do palácio que tanto encantavam Sissi e Francisco José, você vai passar pela Escola Espanhola de Equitação, cujos cavalos da raça lipizzaner, que em outros tempos fora montados pelo imperador, hoje realizam concorridas apresentações de balé eqüestre. O casal real também passava o tempo nas deslumbrante Biblioteca Nacional. Ali, são 7 milhões de itens, incluindo preciosidades como globos terrestres antiquíssimos  e mapas e atlas confeccionados em papiro.
Mas, em termos de curiosidade, nenhum ambiente supera a Igreja Augustinenkirche, mais um anexo do conjunto palaciano. É que uma das “vantagens” de ser um Habsburgo era ter o coração retirado do corpo após a morte. Por conta desse costume, a cripta do templo conserva tal membro de 54 pessoas da família, enquanto os corpos propriamente desses sangues azuis estão na cripta da Stephansdom (Catedral de Santo Estevão), terceira igreja mais alta da Europa. 
Aproveite que o clima de antigamente nunca se afasta da capital — nas ruas, é comum topar com jovens vestidos como nos tempos da corte, com perucas e calça bufante, divulgando apresentações eruditas tão associadas a Viena — e siga do complexo de Hofburg para a Stephansdom de carruagem. Você pode pegar uma delas na frente do palácio e, dada a empolgação dos turistas com o tour, é certo que tal costume, que perdura desde 1670, residirá por longo tempo.
Ainda antes de chegar à catedral, suas torres se impõem no cenário. A torre sul por exemplo, espeta o céu a 137 metros de altura e oferece um panorama magnífico de Viena. No entanto, não é fácil chegar lá em cima: é preciso vencer 343 degraus, desafio que também traz de recompensa uma primorosa vista dos 230 mil mosaicos multicoloridos que compõem o templo.
Na vizinhança da igreja, no numero 5 da rua Domgasse, outro nome austríaco de peso convida para uma visita: o gênio da música clássica Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791). Na casa em que ele viveu entre 1784-1787 e onde escreveu clássicos como a ópera As Bodas de Fígaro, funciona um museu que, por meio de móveis, roupas e objetos da época, além de recursos áudio- visuais, conta sobre sua vida pessoal e familiar e, claro, sobre sua genial forma de compro e tocar. 

Mais Palácios Esplendorosos 

Embora não faltem referências e homenagens a vários austríacos famosos —  o compositor Johann Strauss (1825-1899), autor da valsa O Danúbio Azul, e o pai da psicanálise Sigmund Freund (1856-1939), são mais alguns deles —, é mesmo o legado da dinastia Habsburgo que encanta os turistas na cidade. Assim, mesmo que você tenha gastado a sola do tênis no Hofburg, é preciso conhecer os outros palácios vienenses, como o Schönbrunn, dono de um dos interiores barrocos mais bem preservados da Europa considerado Patrimônio da Unesco.
Dos 1.441 quartos, 40 podem ser visitados, incluindo alguns aposentos usados pelo kaiser Francisco José e sua amada Sisi e a elaborada sala dos espelhos. Ali, Mozart fez sua primeira apresentação musical para a corte da rainha Maria Theresa, em 1762, quando tinha seis anos, revelando ao mundo seu virtuosismo precoce. Séculos depois, a tradição musical permanece, e o palácio recebe concertos noturnos até hoje
Fazendo jus à imponência do complexo real, o jardim do Schönbrunn por si só já vale a visita. Na primavera e no verão, flores de diversas espécies e formatos colorem o gramado. No outono e inverno tons de cinza se misturam com o vaivém das gaivotas e dos esquilos. Independentemente do clima, o negócio é guardar energia para alcançar o Café Gloriette, no topo do morro onde está o Schönbrunn. 
Outrora o refúgio onde a rainha Maria Teresa descansava longe dos olhares da corte, a elegante construção também é a pedida para o relax dos visitantes, que ali podem  saborear bebidas e doces tipicamente vienenses, como o melange (café com um pouquinho de leite e finalizado com creme) e a emblemática Sachetorte, torta feita com pão de ló de chocolate, recheio de geleia de damasco e cobertura de chocolate. Tudo fica ainda mais gostoso com o visual contemplado das mesas externas do café, que descortinam um panorama incrível de Viena, com o Schönbrunn e as torres da catedral de Santo Estevão  mais ao longe.
O Belvedere, que fecha a tríade dos palácios de Viena, também está longe de passar desapercebido. À monumentalidade da construção, a contento para servir de residência de verão dos Habsburgo, o complexo associa a maior coleção de trabalhos do artista austríaco Gustav Klimt no mundo — e ponha nessa conta o quadro O Beijo, sua obra máxima. Na realidade, são dois palácios, o superior e o inferior, e ali você se entretém passeando pela sucessão de quartos e salões, os quais abrigam exposições de arte, e, claro, pelo gigantesco jardim, que mais uma vez convida a um aprazível piquenique.

Quarteirão dos Museus

Além do Belvedere, há obras de Klimt expostas no museu Leopold, um dos que integram o Museumsquartier (MQ).  Trata-se de um dos projetos culturais mais audaciosos da Europa, juntando no mesmo espaço outros museus de peso, como o de História da Arte, História Natural, Artes Moderna (o Mumok) e Contemporânea (chamado de Kunsthalle) e o centro de arquitetura Com essa vibe cult, a vizinhança atraiu galerias e livrarias, mas não só: bares e restaurantes pipocam no pedaço, reunindo um público descolado que também ocupa os estilosos, e concorridos, bancos de cor berrante que se espalham ao longo do Museums Quartier.
Outro destaque cultural de Viena é o museu Albertina, colado ao palácio Hofburg e que exibe uma senhora coleção de artes gráficas, além de obras de artistas impressionistas e pós-impressionistas franceses. Tanto quanto o acervo, atrai o inusitado projeto arquitetônico que arremata a frente do tradicional edifício, uma espécie de asa de avião prateada que, suspensa, se alonga até o pátio. Ideia genial ou de gosto duvidoso? Há aguerridos defensores dos dois lados.
É, quase um século depois da queda dos Habsburgo, Viena vive bem o presente e segue rumo ao futuro. Mas não tem jeito: esta é, e oxalá continue sendo, uma cidade com ares imperiais. Afinal, só a capital austríaca para realizar, sem destoar da atmosfera à volta, um refinado baile anual de gala embalado por valsas e operetas na Staatsoper, a majestosa ópera da cidade. Quando preparado para a festa, não há maior salão de valsa no globo, que recebe 7 mil pessoas, entre políticos, membros das realezas europeias, artistas e celebridades, os quais pagam até €18.500 por um lugar no camarote. Diante dessa oportunidade memorável, o negócio é ter um bom par para rodopiar até às 5h da matina, quando a noite de gala se encerra ao som de O Danúbio Azul.
Quem não estiver por lá à ocasião do baile, realizado na quinta-feira de Cinzas, tampouco tem bala na agulha para participar no evento pode assistir às apresentações de ópera e balé da Staatsoper, casa da renomada Orquestra Sinfônica de Viena. Mas planeje-se para compra ingressos com antecedência, os quais, como o baile, são concorridíssimo. 

E, para fechar o roteiro de modo tão romântico quanto ao som de uma valsa de Strauss, nada como um passeio, com algodão doce em mãos, na colorida  roda-gigante do Prater, principal área verde de Viena e endereço do parque de diversões mais conhecido da capital. 

Para comer e beber à moda vienense
Os cafés, muito bem antigos e que ocupam opulentos salões no centro histórico, são uma instituição vienense e, uma vez neles é preciso ser específico ao pedir um café. O Melange leva um pouco de leite e é finalizado com creme; o verlängerter  é diluído em água; e o Maria Theresia é feito com licor de laranja e chantilly. Vale prová-los no Café Central (Herrengasse, 14), que, reza a lenda, teve Trotsky e Lênin, grandes nomes da revolução Russa, como fregueses.
Para acompanhar o café, uma das opções é a Sachertorte, torta de chocolate e recheio de geleia de damasco cuja receita, de 1832, foi inventada pelo cozinheiro Herr Sacher a pedido do duque Von Metternich. Hoje, o café Hotel Sacher (Philharmoniekerstraße, 4), que já foi conduzido pela viúva do cozinheiro, é o único da Áustria que pode usar o termo “original” para definir sua receita.

Outro estabelecimento que é a cara da região são os heuringen, a versão local dos biergartens alemães e que servem vinho. Em endereços como o Weingut Schlösinger, nos arredores de Viena, você se senta sob árvores, em mesas coletivas. Se for inverno, tudo funciona no salão interno. Geralmente há música típica ao vivo, num clima informal, e as casa mais tradicionais não servem pratos quentes para não concorrer com os restaurantes (gaststätte). E, para saborear comida tradicional caseira, escoltada por uma boa cerveja, a pedida são os beisln (botecos). Um lugar legal para almoçar e provar tal bebida feita naquelas bandas é a cervejaria Salm Bräu (Rennweg,8). 

Budapeste – Um feliz encontro nas margens do Rio Danúbio 

  O romancista húngaro György Konrad, nascido em 1933, disse certa vez: “O motivo, eu desconheço, mas Budapeste é simplesmente uma cidade de encontros”. Ele tem razão. O lugar surgiu da união de dois opostos: da montanhosa região de Buda com a plana Peste, em 1873, cortadas pelo icônico Rio Danúbio. Na época uma das sedes do Império Austro-Húngaro (a outra, você viu aqui, era Viena), a nova cidade se embelezou com toda a pompa, passando a concorrer com a irmã poderosa. Traduzindo: era notória a vontade de Budapeste de separar-se dessa monarquia e tornar-se a capital de seu próprio país. Para tanto, não economizou esforços para abrir largas avenidas, uma novidade na época, e erguer construções magníficas, como a cênica Ponte das Correntes, que enfeita o Danúbio.  
Outra marca da hoje capital húngara — nos moldes atuais, o país surgiu, e fez de Budapeste sua capital, em 1918 — é o constante clima de romance. A atmosfera vem da fantástica simbiose entre arquitetura e natureza, que faz do pôr do sol à beira-rio, ou navegando nele, um programa imbatível. Ao entardecer, as pontes iluminadas, que unem Buda a Peste, formam guirlandas de luzes que dão ainda mais charme ao visual.
Para os turistas, tamanho brilho e beleza deixa em segundo plano a história recente do país e os duros anos de comunismo que Budapeste tem em comum com Praga. A queda da Cortina de Ferro, em 1989, teve uma importância ainda maior na Hungria. Nesse ano, o país, que havia séculos era dominado ou influenciado por outras nações, conseguiu a almejada liberdade. 

Muitas atrações em Buda
A nação, finalmente, vem se refazendo à sua maneira, mas é inegável que a longa história de conflitos e invasões deixou marcas indeléveis por lá. Os 160 anos de domínio turco (1526-1686) trouxeram os banhos termais como herança. Já os Habsburgo, aquela família baseada em Viena e que comandou o Império Austro-Húngaro, brindaram o país com o renascimento cultural e intelectual.
Essas influências são notadas na atração numero 1 de Budapeste, o imenso Palácio Real, no qual se impõe uma cúpula esverdeada. Reinando sobre Buda a 170 metros de altura, o complexo é tombado pela Unesco como Patrimônio Cultural da Humanidade. Arrasado na guerra de libertação contra os turcos, o palácio foi reconstruído pelos Habsburgo e hoje abriga importantes atrações: a Galeria nacional Húngara, o Museu de História de Budapeste e a Biblioteca Nacional.
São muitas as formas de chegar ao complexo, mas o mais agradável é a bordo do funicular. Uma charmosa cabine de 1870, bordô e amarela, sobe lentamente, revelando aos poucos o suspirante visual da Ponte das Correntes, tomada por esculturas de imponentes leões sobre o Danúbio. Datada de 1849, ela é a ponte mais antiga, e, com certeza, a mais linda da cidade.
Uma vez no topo, onde está o castelo, os turistas transitam pelas colunas e escadarias dos jardins, assistem à troca de guarda e flanam pelas ruas imperais. Ao lado do complexo, os suspiros vêm da vista de mais um símbolo local, o Parlamento, a partir do Bastião dos Pescadores. Trata-se de uma plataforma panorâmica que, no verão, conta até com um café com mesinhas ao ar livre.
Essa espécie de mirante, de 1905, ganhou seu nome em alusão aos pescadores — sim, pescadores — que dali protegiam o castelo na Idade Media. As sete torres da construção representam a chegada à região das sete tribos magiares (nome dado ao povo húngaro), no século 9. Em frente ao Bastião, uma grande estátua do rei Estevão, que cristianizou o país, observa os deslumbrados transeuntes. 
Ao circular pelo monumento-mirante, ganha-se mais um presente: a vista, com riqueza de detalhes, do reluzente telhado de mosaicos multicoloridos da Igreja de São Matias. De estilo neogótico, ela é uma obra-prima nos quesitos afrescos vitrais e artes Eclesiásticas. Consulte as noites em que há concertos por lá, tradição que se iniciou em 1867 com Franz Liszt, compositor clássico mais famoso da Hungria. Também foi no suntuoso templo, em 1867, que o casal Habsburgo mais cultuado — o imperador Francisco José e sua linda Sissi — foi coroado reis da Hungria e Imperadores da Áustria, selando a dupla monarquia que formou o Império Austro-Húngaro. 

  Em Buda, os passeios rendem porque as principais atrações ficam relativamente próximas, de modo que dá para fazer quase tudo a pé. Assim, aproveite essa facilidade e vá da Igreja de São Matias para a Casa de Vinhos Húngara. Depois desse avalanche de deleites visuais, nada como um pit stop ali para aguçar o paladar e conhecer a vinicultura do país por meio das centenas de garrafas armazenadas na adega subterrânea. Uma dica: não dá para sair de Budapeste sem provar, e levar, o vinho Tokaji, tão típico que é até citado no hino nacional. 


Relax, e até balada, nas termas

Deixar o vinho amolecer o corpo é uma boa forma de relaxar em Budapeste. A outra, experiência das mais tradicionais, é ir a uma das dezenas de termas espalhadas pela cidade. Só na capital literalmente fervilham 70 milhões de litros de água em 118 fontes termais. Rica em magnésio, cálcio e ácido carbônico, a água, garantem por lá, melhora as dores nas juntas e a artrite, além de ajudar na circulação do sangue.
Esses benefícios podem soar como um espaço para tratamentos de saúde da terceira idade, mas o clima é completamente diferente. Os húngaros, incluindo os jovens, disputam partidas de xadrez dentro das piscinas e... até caem na balada. Isso porque diversas termas organizam festanças uma vez por mês, geralmente aos sábados, às 22h. O ingresso para o agito dá direito às piscinas, ao uso das cabines para se trocar e até a drinques. Quem quer conhecer esses complexos e ainda curtir as baladas de Budapeste tem aí um programa dois em um. E é uma boa forma de mistura. Dentro d’água, o pessoal em trajes de banho e com copos em mãos curte musica eletrônica, e luzes coloridas são lançadas em direção à piscina.
Entre as termas mais famosas estão a do Hotel Gellérd, considerada a mais elegante e refinada. O ambiente é primoroso, preenchido por estátuas de cupidos apaixonados jorrando água. Já a Rudas é a mais turca das termas e, às sextas e aos sábados, fica aberta até de madrugada. A Széchnyi, em Peste, é a mais popular: tem a água mais quente da capital, que jorra até 70º C, e é um dos maiores complexos termais da Europa.


Relíquias de Peste

Peste é a parte moderna da capital, mas não é por isso que ela é menos bonita que Buda. Que o diga o grandiosíssimo Parlamento o segundo maior do Velho Continente, construído num ponto escolhido com cuidado, nada aleatório: esse símbolo da democracia húngara fica de frente, separado pelo Rio Danúbio, do antigo castelo, o ícone da antiga monarquia aristocrática. 
O arquiteto responsável pelo projeto, Imre Steindl, reuniu no edifício de 1904 diversos estilos arquitetônicos. O neogótico, o neoromano e o neobarroco conseguem lindamente encontrar nesse palácio aos moldes do de Westminster, em Londres, que abriga o Big Ben. Fora as 700 salas para lá de decoradas, a visita guiada destaca ainda o hall da cúpula, onde a coroa do rei Estevão está guardada e vigiada por guardas. 
Uma outra relíquia está conservada na Basílica de Santo Estevão, não muito longe dali. O “objeto”, entretanto, é um bocado estranho: a mão mumificada do Rei Estevão. Em 1771, o membro foi encontrado na Bósnia e devolvido pela rainha austríaca Maria Teresa à Hungria. Mais legal do que ir até lá para conhecer a relíquia é aproveitar que a acústica ali é melhor do que em qualquer casa de show e conferir um dos concertos que rolam quase todas as noites.
A cerca de 2 Km da basílica está a tradicional rua de compras, a Váci Utca, repleta de restaurantes, pubs, livrarias, joalherias e lojas de roupas, suvenires e do colorido artesanato húngaro. É difícil se conter, mas os menos consumistas podem trocar umas horas de compras pelo passeio no parque Memento, que guarda esculturas incríveis entre as árvores. Uma ampulheta gigante, com oito metros de altura e 60 toneladas, é uma das boa surpresas. É preciso um ano para que toda areia desça, o que ocorre sempre à meia noite do dia 1º de janeiro.
Outra obra, esta um pouco mais polemica, é um memorial dedicado à revolução de 1956, quando tanques russos invadiram Budapeste para reprimir manifestações estudantis. Erguido em 2006, é formado por diversas estacas que representam as vítimas.  Também popular, mas bem mais leve, é a estátua do escritor desconhecido, marcada pelo rosto coberto por uma capa e pela caneta em mãos. A imagem retrata um cronista da corte que escreveu a história dos húngaros, povo que, com o tempo, soube imprimir a Budapeste o romantismo de Praga e a opulência de Viena. 

 Receitas Húngaras no Mercadão e nos Cafés