domingo, 11 de setembro de 2011

Traidores são os que declaram guerras imorais, diz desertor dos EUA que lutou no Iraque


Em 21 de abril de 2007, o soldado norte-americano André Shepherd, de 34 anos, fez as malas, sacou todo o dinheiro que tinha na conta bancária e deixou o apartamento em Ansbach, Alemanha, onde há uma base militar dos Estados Unidos. Motivo: ele se recusou a voltar ao Iraque. Para Shepherd, a guerra é ilegal e uma violação dos direitos humanos. 

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Ressuscitem a Norma


Quarta de manhã. O dia começa como sempre às 8h numa pequena cidade da Alemanha. Enquanto escova os dentes, despeja a água quente no coador. Aos poucos o café pinga na garrafa térmica azul de listrinhas. Ela corre ao banheiro e termina sua limpeza bucal no local adequado. Tudo transcorre normalmente. Café preto, torradas com geleia e iogurte. O marido sai atrasado, o barulho do trem partindo entra pelas janelas abertas do apartamento. A casa está em silêncio, ela liga o computador. Alguns minutos para carregar - iTunes, iFotos, caixa de e-mail -, esse HD externo deixou o Mac com a mesma velocidade de um PC-XT. Impaciência. Troca de roupa, penteia os cabelos e volta para sua mesa. Caixa de entrada atolada. Devem ser as fotos de divulgação pedidas no dia anterior. Espera... Espera... Abre o Firefox. Checagem matinal do Facebook. Mural de um amigo: “quem matou a Norma”. Deve ser “piada interna”, pensa. Não, impossível, 875 pessoas “curtiram” a página oficial da pergunta. Mural do segundo colega: “o assassino da juíza armou agora uma emboscada para Norma”. Mural do terceiro conhecido: “plano bem-feito”.
Preocupa-se. Jornalista não pode estar por fora de nada. Nunca mais arrumará outro emprego formal desse jeito. Só pode ser uma ministra da Dilma. Mais um caiu! Outro caso de corrupção. Talvez trate-se de alguma garota universitária, seqüestrada e estrangulada pelo ladrão impaciente. “Que matou a Norma?”. Também pode ser um novo romance policial na lista dos mais vendidos. Queima de arquivo? Existe alguma CPI da Norma que ela nunca tomou conhecimento? Paranóia. Hesitou. Solução rápida e eficaz. Por que não perguntar no Twitter quem é a “dita cuja”? Não! Definitivamente não! Pode queimar o filme. E se ela for a  substituta da Fátima Bernardes? Abriu então o Twitter. Conversa entre mãe e filho.
-       @filho: filho, quem matou a norma?
-       @mãe: sei lá eu, mãe.
-       @filho: moleque, você passa o dia na internet e ainda não descobriu isso!
Desculpa-se com sua própria consciência pela intromissão na intimidade do lar alheio, ela sempre respeitara as normas dos bons costumes, mas era um caso de extrema urgência. De volta a pesquisa. Checa as twittadas de quem matou a Norma: “não interessa para você, palhaço” (termômetro da irritação na casa dos 80%); “o que ficou para a Jandira” (agora colocaram um terceiro na jogada!) e “quem matou a norma culta?”. Chega a vez do You Tube. Nessa altura do campeonato, ela estava convicta. A Norma era mais uma morena que andava de Cross Fox amarelo, aparecia no Luciano Huck e postava vídeos próprios deitada sobre uma banheira cheia de pétalas de rosas, enquanto passava mel sobre o corpo! Crime passional? Absolutaaaaaa....  
Hipótese descartada. Quem aparece à La Bin Laden em vídeo secreto é um garoto metido a sambista. “Tudo isso me apavora, estão dizendo aí que eu matei a Norma” (...) “Estava em casa numa boa e veio uns mano aí perguntar se eu matei a tal coroa”. Dez mil pessoas assistiram à declaração terrorista. Só ela tinha pegado o trem assim tão atrasada. E-mails baixados. Chegaram as benditas fotos! Nenhuma notícia do Brasil, ainda era muito cedo por lá. Só alguns amigos com insônia que de vez em quando mandam notícias. Dessa vez, nem eles. Só e-mails @gmx.de. Um de uma amiga, que acabara de se mudar para a Conakry, capital da Guinea. Será que ela sabe quem é a tal Norma? E se não existir Globo Internacional na África?
Enquanto Adorno revira-se na tumba, algum médium começará em breve a psicografar pistas sobre o assassino. Devaneios. Ficção x Realidade. Um brinde às normas do mundo moderno! Enfim, mistério descoberto. Coração partido. Norma é uma ficção. 8h33. Agora a tranqüila protagonista começara de fato a trabalhar. Invadida pela aconchegante sensação de que poderia voltar sem problemas para a terra natal e conversar com as pessoas no balcão da padaria, salão de beleza ou na fila do supermercado. Um brinde a verdadeira, mesmo que ficcional, Norma. 

sábado, 13 de agosto de 2011

Muro de Berlim: alemães lembram os 50 anos da construção da barreira

Meio século atrás, durante a madrugada do dia 12 para 13 de agosto de 1961, policiais e soldados da antiga RDA (República Democrática Alemã) bloquearam as fronteiras entre Berlim Ocidental e Oriental com cercas de arame farpado. Começava a construção do Muro de Berlim, de 160 quilômetros, que dividiu a capital por 28 anos. Desde a criação da RDA, em 1949, até o bloqueio oficial das fronteiras, 2.686.942 pessoas fugiram para Berlim Ocidental. Após o início da construção do muro, outras 51.624 partiram. 

Schirner Pressebild-Agentur 
Construção do muro no setor fronteiriço Linden- Ecke Zimmerstraße (18/08/1961)

Para relembrar o episódio, dezenas de exposições, festivais, apresentações, filmes e debates temáticos tomam conta da capital alemã no mês de agosto, em uma parceria das organizações Stiftung Berliner Mauer e Landesgesellschaft Kulturprojekte Berlin GmbH. Os 24 painéis com imagens em preto e branco do Muro de Berlim, por exemplo, espalhados em 19 pontos do centro da capital alemã, até 28 de agosto, não passaram despercebidos pelos moradores e visitantes da cidade. 

“Queremos pensar nas vítimas e lembrar daqueles que carregam a responsabilidade pelas mortes. Ao mesmo tempo recordamos o forte sentimento de pertencimento entre os berlinenses, mantido mesmo durante a separação”, disse o prefeito de Berlim Klaus Wowereit, durante a vernissage em 15 de junho. A data para a abertura da mostra a céu aberto não foi coincidência. 

Jürgen Homuth/Stiftung Berliner Mauer
Exposição externa do Memorial do Muro de Berlin, onde antigamente passava a barreira 

Praticamente todos os bairros da cidade têm algo a oferecer. O memorial de refugiados Marienfeld, no bairro de Tempelhof-Schöneberg, inaugurou a exposição “Desaparecidos e Esquecidos. Campos de Refugiados em Berlim Ocidental”. Em cartaz até 30 de dezembro, a exibição retrata como funcionava os mais de 80 campos de refugiados, a vida dessas pessoas e a Berlim do pós-guerra. Na antiga torre de controle chamada Schlesischer Busch, exatamente na fronteira entre os bairros de Kreuzberg e Treptow, uma coleção de imagens mostra, somente nos dias 13 e 14 de agosto, fatos históricos anteriores e posteriores ao muro. 

Já o Museu de História da Alemanha, no centro de Berlim, expande a temática para o continente dividido e mantém em cartaz até 03 de outubro o trabalho dos fotojornalistas alemães Thomas Hoepker e Daniel Biskup, com retratos desde a construção do muro até o fim do socialismo real. São 280 fotografias reunidas sobre o título “Sobre a Vida” (Über Leben, em um jogo de palavras com überleben, isto é, sobreviver). Hoepker, que nasceu em Munique, em 1936, retrata o estilo de vida da RDA de 1959 a 1991. 

Thomas Hoepker 
Criança no muro de Berlim, Berlim Ocidental (1963). Na placa: "vá embora, setor soviético" 

Em contraposição, Biskup, nascido em Bonn, em 1962, clicou os momentos de ruptura social não só na Alemanha Oriental, mas também na União Soviética e na antiga Iugoslávia. Ainda com a data em mente, o museu desenvolveu uma segunda exposição especial. Há 20 anos, a curadoria reúne e coleciona fotos da história e dos hábitos de vida no país. Cerca de 250 imagens dos últimos anos do século XIX até o fim da RDA em 1990 estão expostas de modo cronológico, intituladas como “O Século XX – Pessoas, Lugares, Tempo”. Hoje, a entrada será gratuita para ambas exposições. 

Exatamente na mesma data, a cidade de Berlim, acompanhada do prefeito Wowereit, se reunirá das 10h às 19h em torno do Memorial do Muro de Berlim, na Bernauerstraße, na divisa entre Mitte e Wedding, para diversas atividades. O espaço que tradicionalmente exibe fotos e uma vasta gama de documentos sobre o Muro de Berlim, ampliará a área externa de exposições. 

Grenzläufte e.V. 
Antiga Torre de Controle Schlesischer Busch, em Berlim 

Para aqueles que desejam entender como era viver em uma cidade dividida, as artistas Tamiko Thiel e Teresa Reuter fizeram uma reconstrução virtual de parte da barreira de concreto. Por meio de técnicas de realidade virtual como simulação, animação, viagem no tempo e interação, visitantes podem curtir a criação até 28 de agosto, no espaço de artes Bethanien, em Kreuzberg.  Outro projeto das artes visuais é o Cinema de Fronteira de Berlim, que exibirá filmes com essa temática em diversos pontos da cidade. O cinema de fronteiras trazia para as telas problemas como as fugas berlinenses, a vida no pós-guerra, assim como a propaganda da Guerra Fria, mas desapareceu subitamente após a construção do muro e até hoje ainda é pouco difundido. 

Há também uma exposição na Galeria Zero, em Kreuzberg, a partir do dia 13. No acervo, fotos, pôsteres de filmes, trechos de algumas películas e entrevistas. Intitulada como “Vibrações na Cortina de Ferro – A História do Cinema de Fronteiras de Berlim 1950-1961”, a mostra pode ser vista até 13 de setembro. De 02 a 09 de setembro, o cinema Arsenal, na Potsdamer Platz exibirá filmes do gênero. Na lista constam títulos como No Ocidente nada Novo, Um Romance de Berlim e Ela dançou somente um verão. 

Regina Cazzamatta para Opera Mundi: http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticia/MURO+DE+BERLIM+ALEMAES+LEMBRAM+OS+50+ANOS+DA+CONSTRUCAO+DA+BARREIRA_14207

sábado, 23 de julho de 2011

Apesar de apelo da ONU, Alemanha nega pedidos para receber refugiados da Líbia



Desde o começo da crise na Líbia, em março deste ano, pelo menos 1,6 mil pessoas morreram no Mediterrâneo durante a travessia na esperança de alcançar a Ilha de Lampedusa, na Itália. Segundo diversas organizações para refugiados, cerca de um milhão de pessoas deixaram o país – aproximadamente 900 mil encontraram abrigo na Tunísia ou no Egito e 40 mil conseguiram chegar à Itália. Até o momento, 11.230 barcos vindos da Líbia e 23.230 da Tunísia alcançaram a costa italiana. 



Enquanto isso, os países da União Européia discutem o abrigo e distribuição dos refugiados. As condições deles são precárias. No campo de Choucha, por exemplo, a cinco quilômetros da fronteira entre Tunísia e Líbia, quatro mil pessoas esperam há mais de três meses autorização para partir. Abrigados no deserto e com pouca perspectiva, relatos de falta de medicamento, comida e água são comuns. Para reforçar o apelo da agência de refugiados da ONU, a UNHCR (sigla em inglês), a organização alemã Pro Asyl lançou no mês passado uma campanha para pedir a aceitação de 11 mil refugiados no continente. E-Mails, cartazes e um apelo direto ao presidente do conselho europeu, Herman von. Rompuy, foram uma das ferramentas utilizadas. Sem sucesso. 

Assim como outros países da Europa, a Alemanha também não respondeu  aos apelos das organizações. Segundo relatos do canal de televisão alemão ZDF, a Alemanha deve autorizar a entrada de 100 pessoas. Mas, por enquanto, reina a rejeição. “É preciso um grande apoio do governo e do parlamento para que as melhoras exigidas na questão da proteção aos refugiados sejam alcançadas em um nível europeu”, disse Michael Lindenbauer, representante da UNHCR na Alemanha e na Áustria. 

Para a organização Pro Asyl, a Alemanha está “bem protegida” em relação ao problema. A organização não conhece nenhum caso de refugiados que tenha conseguido chegar em solo alemão. Quando eles sobrevivem à travessia, ficam na ilha de Lampedusa. E mesmo que conseguissem alcançar a Alemanha, seriam devolvidos à Itália, de acordo com o regulamento Dublin II. Segundo tal determinação, o asilo deve ser pedido e julgado no estado de entrada, o que coloca grande pressão sobre as zonas fronteiriças. 

Por isso, Lindenbauer fala na necessidade de reformas do conhecido Acordo Dublin II. “É preciso assegurar que nenhum estado da União Européia fuja da responsabilidade em relação aos exilados”, explicou. A própria comissária da União Européia para Assuntos Internos, Cecília Malmström, apelou aos governos para que recebessem 15 mil refugiados. O resultado também foi um fracasso. 

Ao invés disso, os líderes europeus decidiram por um fortalecimento e maior independência da Agência de Controle de Fronteiras, a Frontex. A decisão ainda precisa ser aprovada pelo conselho da União Européia, após a pausa de verão, mas acredita-se que não haverá nenhuma controvérsia. A Frontex existe desde 2005, com sede em Varsóvia, e conta com 300 funcionários e um orçamento, segundo o jornal Frankfurter Allgemeine, de 86 milhões de euros. Sua principal atividade é conter a onda migratória em operações por terra, mar ou nos próprios aeroportos, além de organizar vôos de deportação de imigrantes ilegais. No ano passado, quando a Grécia mostrou-se incapaz de assegurar suas fronteiras com a Turquia, uma operação de cinco meses da Frontex baixou em 70% o número de imigrantes ilegais. 

A partir de então, a agência terá seus poderes ampliados e poderá adquirir equipamentos próprios e não mais emprestá-los dos 11 países membros. Enquanto algumas organizações descrevem a tarefa da Frontex como a de impedir a entrada de refugiados e imigrantes, a União Européia coloca a agência como um “fórum consultivo” dos direitos fundamentais. 

A Pro Asyl trabalha em nome de uma política de acolhimento dos refugiados e se coloca contra o trabalho de defesa por meio da Frontex e a cooperação da Europa com países terceiros, no caso com o governo do Gaddafi. No flyer da campanha, a organização faz um panorama da cooperação de países da União Européia com o governo líbio para conter a imigração ilegal. Em 2007, por exemplo, A Frontex teria enviado uma delegação à Líbia. Durante a visita, o governo de Muamar Kadafi entregou uma lista aos dirigentes com solicitação de novos equipamentos como radares de vigilância, dispositivos de visão noturna, sistema de reconhecimento de imagens e impressões digitais, comunicação por satélite, equipamentos de navegação e caminhões e barcos de patrulha. Segundo dados da rede de televisão ZDF, ainda durante a visita, 60 mil refugiados e imigrantes ilegais foram presos. O termo Nautilus descreve as diversas operações da Frontex ocorridas no mediterrâneo em parceria com a Líbia. 

Números alarmantes 

Os dados referentes à prisões, deportações e repatriações disponíveis pela comissão européia (Eurostat) não faz distinção entre pedidos de asilo político e outros casos de imigração como o de trabalhadores ilegais, por exemplo, o que dificulta uma mensuração precisa de cada caso. Em 2009, a União Européia emitiu 598.755 ordens de deportação  Grécia (126.140), Espanha (103.010), França (88.565), Inglaterra (69.745), Itália (53.440) e Alemanha (14.595). 

O comissário de direitos humanos da ONU, Thomas Hammarberg, declarou em seu blog, em 6 de junho, que a Europa tem um papel importante na crise dos refugiados que se instaurou no Mediterrâneo no começo deste ano. “Os governos europeus e as instituições têm muito mais responsabilidade pela crise do que eles responderam até então”, disse. 

Em uma declaração para a imprensa no começo do ano, Christine Buchholz, membro do partido executivo do “Die Link”, partido de esquerda alemão, afirmou que a pobreza da maioria da população na África do Norte não caiu do céu e o governo também teria sua carga de culpa. “O governo alemão apoiou os ditadores norte-africanos, que junto com as companhias ocidentais saquearam as riquezas desses países”. 


Regina Cazzamatta para Opera Mundi:
http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticia/APESAR+DE+APELO+DA+ONU+ALEMANHA+NEGA+PEDIDOS+PARA+RECEBER+REFUGIADOS+DA+LIBIA_13725.shtml

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Dentes permanentes



Ela ainda era pequena, vestia seu uniforme vermelho de algum jardim da infância de nome engraçado, mas já tinha os dentes da frente meio molengas. Um pouco abertos, mas nada comparável à janela que viria no futuro. Aquele era um dia especial, difícil e com lembranças não tão agradáveis quanto ao ambiente aconchegante do pré-primário, aquela época ainda existente. O cenário era um outro colégio, cheio de gente grande, de uniforme branco e azul, correndo feito uma manada de búfalos. O chão do pátio era um mosaico de azulejos avermelhados. Ali, um pouco assustada e com as costas apoiadas sobre uma gigante pilastra, ela esperava para fazer a prova de admissão da primeira série. Os boatos já corriam entre os colegas e familiares. Só podia entrar na escola nova quem já soubesse ler e escrever!
A sensação de ser testada era nova e desconfortável. A avó, que sempre lia com ela aqueles livros bonitos e cheio de figuras e a elogiava pela superação daqueles fonemas impronunciáveis, tinha ficado em casa. Àquela época, não era comum essas teorias pedagógicas em que as crianças não podiam ser sobrecarregadas. Ninguém tinha dó das pobres coitadas! Foi assim, que todas sentadas em fileiras receberam seus testes, um após o outro. O tema do exame de interpretação de texto já foi deletado pelo tempo e as imagens que sobraram revelam somente meia página de um texto de letras garrafais. O resultado não foi visto por ninguém. Fato é, que no ano seguinte, ela sentava sobre aquelas carteiras cobertas por plástico quadriculado verde, cor que indicava a tal primeira série. Para sair dali para um prédio ainda maior, ainda seria preciso encarar o quadriculado azul, vermelho e amarelo.
Muitos anos depois, a mesma personagem, agora com dentes permanentes e livre dos uniformes vermelhos, sentia saudades da manada de búfalos de bermudas azuis e camisetas brancas. A situação parecia semelhante, mais uma vez estava em jogo sua vaga numa carteira fria em frente a um quadro negro. Embora desta vez, aquela loira de estatura enorme (e não era porque todos estavam sentados), pés grandes repousados sobre sandálias e voz grossa parecia ser mais assustadora que os alunos mais velhos do ensino fundamental. Era como se a babá dos “Muppet Babies” mostrasse a cara!  A tortura também era muito maior para mostrar um pequeno nível de alfabetização em alemão. Primeiro uma palestra sobre energia atômica, Chernobyl, Fukushima, mutações genéticas e uma lista de perguntas sobre a tal explanação. Quinze minutos para ir ao banheiro e mais um teste de redação. Quinze minutos para reabastecer e ainda com biscoitos na boca começou a leitura da prova de interpretação de texto.  Para fechar, só mais um exame de gramática porque o importante é ser de ferro!
Os dentes permanentes devem ser responsáveis por uma estranha mutação cerebral que deixa as pessoas mais volúveis, sensíveis, extremamente preocupadas com coisas, diríamos, irrelevantes. Há muitos anos, depois do exame do jardim da infância, a protagonista saiu da sala, nem olhou para trás e esqueceu tudo. Foi brincar, comer, ler seus livros musicais e seguir a vida. Os anos passaram e a tal maturidade só trouxe desvantagens. A mesma situação e tudo estava diferente. Após a prova de alemão foi seu estômago durante dois dias seguidos pelo próprio suco gástrico corroído. Ácida, pálida e sem energia, ela chegou depois para a prova oral. Tudo deu certo, assim como há muitos e muitos anos. Culpados pelas preocupações da vida são mesmo os dentes permanentes. Agora, só faltam os plásticos quadriculados para continuar a história de muitos outros testes. Se não escolares, universitários ou da própria vida. 

terça-feira, 21 de junho de 2011

Is there anybody out there?

Hey you! Out there in the Cold, getting lonely, getting cold, can you feel me? Assim como nas apresentações há mais de trinta anos do “The Wall”, demorou noventa minutos para que o muro de 80x12 metros estivesse totalmente erguido sobre o palco. Nesse momento, pode-se dizer, o ponto alto do show, Roger Waters canta “Hey You”, seguido porIs there anybody out there?” atrás da barreira. Dessa vez, do outro lado, estão seus fãs aglomerados no estádio olímpico de Munique. A turnê que começou em setembro do ano passado em Toronto para comemorar os trinta anos do álbum, considerado a obra prima do até então Pink Floyd, chega na Alemanha. Ingressos para a apresentação em Berlim, que recebeu o show em 16 de junho pela segunda vez, estavam esgotados. A última vez que Roger Waters se apresentou na capital foi em 1990 logo após a abertura das fronteiras.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Berlim vista e vivida pelos olhos do mundo

A experiência de ser estrangeiro em Berlim virou arte em nova exposição na capital alemã, conhecida pela reputação criativa, dinâmica e cosmopolita. “Based in Berlin”, em cartaz até o dia 24 de julho em cinco pontos diferentes, reúne cerca de 80 artistas que escolheram a metrópole para viver. 


O evento ocorreu entre duas importantes aberturas da cena artística europeia – a 54º Bienal de Veneza, em 8 de junho, e a 42º edição da feira Art Basel, com início no dia 15 deste mês – e convida visitantes de todo o mundo a checar o que há de melhor no circuito berlinense. 


O projeto foi impulsionado pela ideia inicial do prefeito Klaus Wowereit de fazer um pavilhão de arte para Berlim, assim como o Centre Pompidou em Paris. Porém, muitas instituições artísticas sentiram-se preteridas e alguns artistas, por sua vez, instrumentalizados pela política. A oposição desses grupos, aliada aos altos custos da proposta, fez com que a construção fosse deixada de lado. 


Desde novembro de 2010, o grupo visitou mais de 500 ateliês em Berlim e recebeu 1.250 portfólios. Ter residência na capital alemã – daí o nome da exposição – e ser um artista “emergente” foram requisitos que influenciaram os critérios de escolha. A impressão é que o projeto pretende apresentar ao mundo os talentos de amanhã. “Nós queremos criar uma concentração temporal-espacial, condensar muitas atividades artísticas a fazê-las acessíveis a uma grande audiência”, afirmaram os curadores. 

Produto desta intensa discussão, “Based in Berlin” mantém acesa a polêmica sobre o possível pavilhão de arte berlinense. Com um custo aproximado de 1,4 milhão de euros, a exibição teve três conselheiros renomados, o que reforça ainda mais seu peso político. São eles o alemão Klaus Biesenbach, diretor  do MoMA (Museu de Arte Moderna de Nova York), o suíço Hans Ulrich Obrist, da Galeria Serpentine em Londres e Christine Macel, do Centre Pompidou. Eles foram responsáveis pela escolha dos cinco curadores, que encabeçaram a seleção dos artistas. 


Neste aspecto, eles foram bem sucedidos. A programação abrange não só pinturas, desenhos e esculturas, mas também filmes, fotografias, vídeos, textos, performances e instalações, além de workshops e debates. O foco central da exposição está no Ateliê Monbijou, no Mitte, região central de Berlim. Esta será a última exibição do espaço de 1.500 metros quadrados antes da sua demolição em agosto. 


Artistas em ação 


É na casa Monbijou que está, por exemplo, a instalação de três canais de vídeo de Köken Ergun. Trata-se de 12 minutos de imagens de casamentos turcos em Berlim. Nascido em 1976 na Turquia, o artista é um tipo que se pode chamar de cosmopolita. Ergun estudou design de comunicação e teatro em Londres e Istambul e hoje divide um ateliê com outros colegas entre os bairros de Neuköhln e Kreuzberg. 

A dançarina sueca Helga Wretman também escolheu Berlim como sua casa, onde trabalha atualmente como dublê e mora como a maioria de seus pares no bairro de Neuköhln, uma das regiões preferidas pelos artistas ao lado de Moabit e Kreuzberg. O que eles têm em comum, além de apresentar suas obras no “Based in Berlim”? Todos adoram a charmosa improvisação berlinense.  

Para Opera Mundi, 13.06.2011
Em:http://operamundi.uol.com.br/dicas_ver.php

(Regina Cazzamatta, de Berlim) 

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Cat Stevens (Yusuf) em Berlim

Um grande clima de nostalgia tomou conta das dez mil pessoas na Arena O2 em Berlim nesse sábado quando Cat Stvens  (Yusuf Islam depois da sua conversão ao islamismo) abriu o show com  a canção "Moonshadow". Depois de uma pausa de 35 anos longe dos palcos, o antigo astro pop volta à ativa com uma turnê européia. Por enquanto, os show já rolaram em Stockholm, Hamburgo e Berlim.  Barbudo e dono de uma cabeleira branca, Yusuf ainda está em forma, apesar do intervalo de vinte minutos durante o espetáculo. Carismático e cantando em prol de um mundo melhor, como ele mesmo diz, o músico apresentou novas composições, mas não deixou de lado suas canções mais antigas. Bem humorado, ele segurava a ansiedade do público que gritava pedindo “Father and Son”, exclamando calmamente “ainda não”.