Goethe buscava inspiração para seus textos na bela região de Ettersberg durante longas caminhadas pelas matas bucólicas. Somente a dez quilômetros ao norte de Weimar, o planalto oferece uma bela vista da cidade, sede da Primeira República alemã, além de muita natureza. Mas não é por causa do consagrado escritor ou da paisagem deslumbrante que 600.000 pessoas visitam o local todos os anos. Ali, escondido entre a floresta, foi construído em 1937 o maior campo de concentração em solo alemão. Para não chamá-lo de Ettersburg, pois a região era fatalmente associada com os textos de Goethe, mudaram o nome do local para Buchenwald.
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terça-feira, 19 de abril de 2011
domingo, 17 de abril de 2011
O sentimento da volta (por Rodrigo P. Macedo)
Semana passada fomos a Berlim assistir ao show do Belle & Sebastian. Se considerarmos que Postdam, onde moramos de Janeiro à Março, é praticamente “grande Berlim”, fazia apenas uma semana e meia que tínhamos deixado a região rumo a Weimar. Mesmo assim, a sensação de re-visitar um local é bastante interessante. Caminhar novamente pela estação central, andar pelas linhas de metro e rever monumentos mata a saudades, mas também traz uma certa nostalgia e outros sentimentos difíceis de explicar.
O mesmo aconteceu quando recebemos a visita da mãe e sogra (ou vice-versa) e fomos para Leipzig. Após um ano, caminhar pela neve na feirinha de natal da praça central nos fez relembrar nossos primeiros dias em solo germânico. Para descrever então as idas ao Brasil, a coisa se complica ainda mais. Estamos indo ou voltando? Visitar o próprio lar? E depois se sentir em casa quando o avião pousa na Alemanha, mas ainda assim ter saudades de casa?
Retrocedendo mais um pouco no tempo, ainda em Leipzig, re-visitamos Praga. A primeira viagem à capital da República Tcheca, em 2005, foi nossa primeira experiência mochileira. O alfabetos nem era tão diferente, mas todo o leste europeu soava como uma grande aventura na época. Mal sabíamos o que nos esperava alguns anos depois em Moscou e Marrocos. Aliás, estes dois lugares já fazem parte da lista “re-visitar”. Assim como Dublin, que com certeza ocupa uma das primeiras posições neste ranking.
O duro é que quanto mais itens a gente risca dos “lugares a conhecer”, mais pontos aumentam na lista “re-visitar”. E pensar sobre todos esses locais gera ainda assunto para longas conversas e sonhos. Qual seria a nossa sensação ao, velhinhos e aposentados, passear pela Morsestraße em Berlim e observar o prédio número 5?
Com certeza uma cidade que entrará na lista da nostalgia será Weimar. Ainda estamos conhecendo a região e o passeio deste final de semana foi no campo de concentração de Buchenwald. Do lugar não há muito o que descrever, além da tristeza também presente em Sachsenhausen e Auschwitz. Por coincidência, chegamos durante a comemoração dos 66 anos de libertação do campo. Assim, a grande questão que ficou martelando na nossa cabeça durante toda a visita foi: o que sente o sobrevivente 31572 ao re-visitar Buchenwald e ver, inclusive, o crematório ainda intacto?
O mesmo aconteceu quando recebemos a visita da mãe e sogra (ou vice-versa) e fomos para Leipzig. Após um ano, caminhar pela neve na feirinha de natal da praça central nos fez relembrar nossos primeiros dias em solo germânico. Para descrever então as idas ao Brasil, a coisa se complica ainda mais. Estamos indo ou voltando? Visitar o próprio lar? E depois se sentir em casa quando o avião pousa na Alemanha, mas ainda assim ter saudades de casa?
Retrocedendo mais um pouco no tempo, ainda em Leipzig, re-visitamos Praga. A primeira viagem à capital da República Tcheca, em 2005, foi nossa primeira experiência mochileira. O alfabetos nem era tão diferente, mas todo o leste europeu soava como uma grande aventura na época. Mal sabíamos o que nos esperava alguns anos depois em Moscou e Marrocos. Aliás, estes dois lugares já fazem parte da lista “re-visitar”. Assim como Dublin, que com certeza ocupa uma das primeiras posições neste ranking.
O duro é que quanto mais itens a gente risca dos “lugares a conhecer”, mais pontos aumentam na lista “re-visitar”. E pensar sobre todos esses locais gera ainda assunto para longas conversas e sonhos. Qual seria a nossa sensação ao, velhinhos e aposentados, passear pela Morsestraße em Berlim e observar o prédio número 5?
Com certeza uma cidade que entrará na lista da nostalgia será Weimar. Ainda estamos conhecendo a região e o passeio deste final de semana foi no campo de concentração de Buchenwald. Do lugar não há muito o que descrever, além da tristeza também presente em Sachsenhausen e Auschwitz. Por coincidência, chegamos durante a comemoração dos 66 anos de libertação do campo. Assim, a grande questão que ficou martelando na nossa cabeça durante toda a visita foi: o que sente o sobrevivente 31572 ao re-visitar Buchenwald e ver, inclusive, o crematório ainda intacto?
segunda-feira, 7 de março de 2011
Coincidências
Comecei a reler “Mulheres que Correm com os Lobos” (Clarissa Pinkola Estés) e além de redescobrir os arquétipos femininos por meio da análise de contos feitos pela psicóloga junguiana, achei esta foto (aí de cima) perdida entre as páginas. O livro estava lá esquecido na minha micro biblioteca em São Paulo e eu não tenho a mínima idéia como o retrato foi parar lá dentro. Fato é que a imagem viajou comigo, escondida entre as 500 folhas, cruzou o Atlântico e ainda assim eu ainda demorei pelo menos mais um mês para achá-la.
Enquanto lia sobre os anseios, expectativas e aventuras do universo feminino, a foto despencou do livro repentinamente. Curioso é que só chegamos a esse local exatamente por causa de uma mulher de meia idade. Dessas que imaginamos quando lemos a obra, que sabem "correr com os lobos". Nem sequer lembro direito de sua fisionomia, só que tinha olhos vivos e alegres. Ela estava acompanhada pelo namorado de cabelos longos e compridos. A única informação sobre o rapaz é que ele falava espanhol. Na verdade, não conhecíamos o casal. Tomávamos um café há seis anos em Atenas, quando ela, repentinamente, - assim como o tal retrato-, pulou na nossa frente. Ela fez um montão de perguntas, queria saber de onde éramos, o que estávamos fazendo lá, qual língua falávamos e quais pontos turísticos já tínhamos visitado. Simplesmente assim. Ela veio, se apresentou, disse que estava tentando ouvir nossa conversa, mas não entendia o que falávamos. O namorado jurava que espanhol não era. Estranho? Nem tanto. Era só alguém de personalidade marcante, com conteúdo para jogar conversa fora por muitas horas.
Depois de nos contar sobre sua viagem para a Tailândia e do crescimento do turismo na Grécia após as Olimpíadas, ela perguntou se conhecíamos Delphi e o templo do Apolo. Ao receber uma resposta negativa, a mulher se empenhou com todas as forças argumentativas e emotivas para nos convencer a ir ao local. Até sobre as vibrações dos antigos deuses ela falou. Reclamamos da distância (são quatro horas de Atenas) e do preço. Então ela abriu um mapa, mostrou, deu nome de linhas de ônibus usadas pelos locais e nos advertiu para ficar longe dos tours fechados, de preços exorbitantes.
Mesmo achando aquela papo besteira (Bullshit, Quatsch) resolvemos ir. Não sei explicar, mas acho que ela estava certa. Nunca mais a encontrei para dizer isso pessoalmente. Provavelmente ela nem sabe que ainda lembramos disso. Vai saber.
Obs.: Antes de ir embora, a mulher ainda pagou nossa conta no café e saiu feliz da vida naquele calor. Cheia de vida.
Enquanto lia sobre os anseios, expectativas e aventuras do universo feminino, a foto despencou do livro repentinamente. Curioso é que só chegamos a esse local exatamente por causa de uma mulher de meia idade. Dessas que imaginamos quando lemos a obra, que sabem "correr com os lobos". Nem sequer lembro direito de sua fisionomia, só que tinha olhos vivos e alegres. Ela estava acompanhada pelo namorado de cabelos longos e compridos. A única informação sobre o rapaz é que ele falava espanhol. Na verdade, não conhecíamos o casal. Tomávamos um café há seis anos em Atenas, quando ela, repentinamente, - assim como o tal retrato-, pulou na nossa frente. Ela fez um montão de perguntas, queria saber de onde éramos, o que estávamos fazendo lá, qual língua falávamos e quais pontos turísticos já tínhamos visitado. Simplesmente assim. Ela veio, se apresentou, disse que estava tentando ouvir nossa conversa, mas não entendia o que falávamos. O namorado jurava que espanhol não era. Estranho? Nem tanto. Era só alguém de personalidade marcante, com conteúdo para jogar conversa fora por muitas horas.
Depois de nos contar sobre sua viagem para a Tailândia e do crescimento do turismo na Grécia após as Olimpíadas, ela perguntou se conhecíamos Delphi e o templo do Apolo. Ao receber uma resposta negativa, a mulher se empenhou com todas as forças argumentativas e emotivas para nos convencer a ir ao local. Até sobre as vibrações dos antigos deuses ela falou. Reclamamos da distância (são quatro horas de Atenas) e do preço. Então ela abriu um mapa, mostrou, deu nome de linhas de ônibus usadas pelos locais e nos advertiu para ficar longe dos tours fechados, de preços exorbitantes.
Mesmo achando aquela papo besteira (Bullshit, Quatsch) resolvemos ir. Não sei explicar, mas acho que ela estava certa. Nunca mais a encontrei para dizer isso pessoalmente. Provavelmente ela nem sabe que ainda lembramos disso. Vai saber.
Obs.: Antes de ir embora, a mulher ainda pagou nossa conta no café e saiu feliz da vida naquele calor. Cheia de vida.
sábado, 5 de março de 2011
Berlinale 2
Daqui a pouco fará um mês que a Berlinale terminou e até hoje não assisti o filme premiado. Não adianta, nunca acerto de antemão qual poderia ser a decisão do júri. Na verdade, geralmente passo longe, bem longe. Mas como até mesmo os profissionais da área são "pegos de calças curtas" nessa questão, quem sou eu para resmungar? Seja lá como for, só posso mesmo contar com a sorte, já que meu faro cinematográfico é praticamente nulo.
quarta-feira, 2 de março de 2011
Berlinale 1 - Porque amo peculiaridades
A Berlinale acabou há duas semanas e até agora ainda estou pasma, ou melhor, intrigada com alguns filmes que vi. Um em especial, o húngaro ganhador do urso de prata, o “A Torinói Ló”, do diretor Bela Tarr. Inicialmente fiquei bem animada. Após o anúncio dos vencedores, vi que tinha o ingresso em mãos para o domingo. Explico. Quando começam as venda, é um deus nos acuda para conseguir tíquetes dos filmes na competição. O melhor mesmo é comprar em duas pessoas. Alguém fica na fila da Potsdamer Arcaden, enquanto colegas, amigos, maridos e namorados brigam com as conexões de compra via internet. Fato é que cada um tem uma tática para passear pelos tapetes vermelhos e assistir as películas favoritas. Enfim, sem mais preâmbulos, a gente compra tudo o que consegue, na data disponível e só depois acompanha o que diz o júri. No ano passado, batemos o recorde de oito filmes. Mas nenhum levou o urso de ouro ou prata! Ta bom, meu faro não é aguçado para entender o que se passa na cabeça dos críticos. Por isso, em 2011, somente com três filmes na agenda fiquei bem feliz quando vi que estava com um premiado em mãos.
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
Marrocos: Deserto do Saara — pernoite com beduínos
Uma vez eu fiz uma brincadeira, uma lista das dez coisas que gostaria de fazer ao longo da vida antes de morrer, mesmo que parecessem utópicas ou complicadas naquele momento. Nem sei mais onde este arquivo foi parar e não me lembro se havia incluído passar uma noite no deserto do Saara. De qualquer forma, acho que refiz mentalmente a tal lista ao longo dos anos e acrescentei essa possibilidade. Agora ficou o sonho de um possível retorno.
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
Vida Dura!
Tudo parece muito simples e descomplicado na rotina berlinense - as linhas de transporte funcionam, a criminalidade só preocupa mesmo os alemães, há ofertas culturais dignas de uma metrópole e tanta natureza quanto uma cidade do interior. Tudo isso até você decidir se mudar em pleno o inverno e atravessar a cidade em meio aos vinte centímetros de neve que caíram entre o Natal e o Réveillon. E olha que nem se trata de uma mudança de verdade com móveis e tudo. Só alguns livros, CDs e roupas. Mas mesmo assim, para evitar percorrer os trens com malas gigantes ou conhecer a vida inteira de um taxista de tanto ir e voltar, cedemos a propaganda da Hertz. “Se você tem um problema de logística, nós somos a solução”. Verdade, em partes.
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
Prazeres da Vida
Gotinhas geladas caiam sobre seus dedos do pé em irritantes intervalos de vinte segundos. O menino virava-se de um lado para o outro em sua cama, puxava a manta para altura dos braços, tentando proteger-se do frio quando descobria as pernas e sentia as goteiras do teto mofado lhe acordarem paulatinamente. Havia certa tristeza nas manhãs de inverno, uma melancolia própria da solidão de quem inicia o dia com café gelado e torradas sem manteiga. Não havia cor, nem sabor.
Era preciso partir, mas para onde? O irmão mais novo ainda dormia encolhido. A colcha azul desbotada de algodão ainda conseguia lhe cobrir todo o corpo, mas não por muito tempo. Ele já tinha quase cinco anos, ou sete. Não se sabia ao certo. Mas também, que diferença faz?
Saiu, enxugou os pés no trapo em frente à porta que servia de tapete, e colocou os chinelos de borracha. Atrás dos engradados sujos na lateral do quintal, quase a cozinha do vizinho, estava a sacolinha de plástico do supermercado com suas bolinhas de malabarismo.Pegou-a e correu para o ponto de ônibus.
Após duas horas e meia chegou ao farol da Avenida Brasil com a Rebouças. Aquele ponto valia a pena, o semáforo era demorado! Passou horas ali de um lado para o outro como um objeto qualquer, próprio da paisagem concreta. Nenhum olhar sequer... Pessoas passavam freneticamente, executivos perambulavam com seus laptops e mulheres fechavam-se em seus carros com ar-condicionado.
O farol já tinha fechado 760 vezes em sete horas. Era uma espécie de diversão ou de orgulho à resistência brincar com esses cálculos. Parou então um Cross Fox prata com as janelas semi-abertas e uma garota, por volta de dezoito anos, ao celular.
- “Me da a bolsa rápido sua vagabunda senão eu te furo” . “Vai vai anda”. Deu uma porrada no vidro, um chute na porta e desapareceu entre os veículos enfileirados. Correu, correu até refugiar-se em um beco embaixo de um viaduto. Separou o dinheiro e largou a Victor Hugo por ali. Retornou ao seu abrigo três horas depois. Já era noite e o irmão mais novo brincava sozinho no chão úmido e gelado com uns carrinhos de plástico sem rodinhas.
Era hora do café da manhã - deu-lhe pão francês com margarina, passou um pano molhado para limpar seus pés descalços e cortou-lhe as unhas. Depois, tirou novas havaianas do saco de papelão e deu de presente à criança.
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