quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Vida Dura!


Tudo parece muito simples e descomplicado na rotina berlinense - as linhas de transporte funcionam,  a criminalidade só preocupa mesmo os alemães, há ofertas culturais dignas de uma metrópole e tanta natureza quanto uma cidade do interior. Tudo isso até você decidir se mudar em pleno o inverno e atravessar a cidade em meio aos vinte centímetros de neve que caíram entre o Natal e o Réveillon.  E olha que nem se trata de uma mudança de verdade com móveis e tudo. Só alguns livros, CDs e roupas. Mas mesmo assim, para evitar percorrer os trens com malas gigantes ou conhecer a vida inteira de um taxista de tanto ir e voltar, cedemos a propaganda da Hertz. “Se você tem um problema de logística, nós somos a solução”. Verdade, em partes.
Explicamos a situação para o vendedor da loja de aluguel de carros. “Queremos levar umas doze malas e duas bicicletas para Potsdam”.  O cara apontou um caminhãozinho que mesmo descontando o acúmulo de neve em cima parecia bem grande, pelo  menos para os meus parâmetros, acostumada a percorrer as marginais paulistanas com um GOL. O Rô, que sempre fica bastante entusiasmado em dirigir pelas estradas alemãs, estava mesmo preocupado em saber quem tiraria aquela montanha de gelo de cima do veículo. O funcionário achou a preocupação bem engraçada e continuou explicando os preços de inverno com rodas adaptadas e outras parafernálias de segurança.
Às dez do dia seguinte estávamos lá em frente a Hertz manobrando a lata velha na Friedrichstraße. Pior que isso era aquele GPS com sotaque de português de Portugal resmungando “vire a rotunda”. Mas claro que o satélite não prevê desvios no trânsito causado pelo acúmulo de neve e recalculava a rota constantemente para o mesmo lugar. Estacionamos numa esquina bem em frente ao Monumento do Holocausto para reprogramar o navegador. Estávamos bastante entretidos até que alguém bateu no vidro. O motorista desses irritantes ônibus de turismo ficou puto porque bloqueamos a passagem dele.
Seguimos para o até então aconchego do lar (naquele momento já todo desmontada e empacotado), mas não havia nem um lugarzinho que coubesse aquele geringonça, apesar de nossa rua ser relativamente tranqüila. Paramos escondido no estacionamento do  supermercado da frente, o “Frisch Paradies”, uma espécie de Mercado Santa Luzia em São Paulo. Ta bom, nós sabemos que não é certo, mas eles passaram o verão inteiro em reforma, fazendo um barulho e uma poeira dos diabos e não custava nada nos ceder um espaço por uma horinha, bem rápida.  Descemos o mais rápido que pudemos com todo os pacotes do apartamento. Faltavam somente as bicicletas que estavam com a corrente congelada em torno de uma árvore e não saíam de lá nem com reza brava. Como o guarda do supermercado já estava olhando feio, estacionamos o protótipo de caminhonete em frente a garagem do prédio mesmo. Enquanto isso, fomos buscar água quente para  tentar desempacar as duas magrelas.
Enquanto eu finalizava os últimos retoques em casa, o Rô ficou no carro caso alguém precisasse sair da garagem. Mas não é que quem pediu para passar não foi um motorista, mas sim uma mãe com um carrinho de bebê, já que o automóvel estava obstruindo a calçada. Excesso de cidadania que merecia um vai tomar no .... Custava dar a volta? Entre mortos e feridos  partimos rumo a Potsdam. As pistas estavam limpas, sem neve e bem sinalizadas. Como a moradia estudantil fica numa rua afastada foi fácil estacionar. O lugar é bem bacana, parece mesmo um hotel. Os alemães recebem bem os cientistas convidados. O único probleminha foi que como viajaríamos por uma semana, deixamos as coisas num quarto que ainda não será realmente nosso apartamento. Cômodo posicionado no andar de baixo do casarão. E o acesso se dá por uma escada redonda, minúscula. Ali não passa nem uma mala de 20 quilos, daquelas de mão, quiçá as cinco de 32! Como a gente dá jeitinho pra tudo, socamos todas as roupas em sacos de lixo gigante e descemos com as malas vazias. Pelo menos pra  subir será mais fácil.
Com uma pressa inútil para não encarar a estrada escura (claro que não conseguimos, afinal luminosidade aqui anda coisa rara), voltamos para o carro. A idéia era seguir o mais rápido possível a Berlim e devolver a caminhonete à salvo na Hertz da Friedrichstraße. Mas quem conseguia tirar o carro da guia da calçada cheia de neve? Depois de uns quinze minutos, com o pé socado no acelerador e um cheiro terrível de borracha queimada, a roda saiu do lugar. Também se não tivesse saído, teríamos dormido em Potsdam até aparecer alguma alma viva apta a desempacar o veículo. Chegamos sã e salvos na Friedrichstraße, mas com o mesmo problema de sempre. Não tinha lugar para estacionar, nem estacionamentos. Perguntamos na loja e a resposta foi que isso era problema nosso. Então tá. Achamos um único lugar, cheio de neve. O carro entrou e não saiu mais. Passaram-se minutos tentando e nada. Desci, entrei num cabeleireiro em frente e pedi uma pá. O cara veio tentar ajudar. O Rô acelerava e eu tirava a neve das rodas. Tipo filme de terror! Não tinha mais o que limpar e mesmo assim a jabiraca não desempacava.
Até o cabeleireiro sentou no volante. Um cara passou, viu o tumulto e perguntou porque a gente não tentava colocar o tapete de borracha sob o pneu (supostamente dá atrito e faz a roda sair do lugar). Mas claro que não havia sequer um tapetinho no carro. O cabeleireiro resmungou e tentou explicar em alemão o que eles estavam falando. Que raios de adereço era aquele. Mas mesmo que tivesse um, eu nunca imaginaria a possibilidade de usá-lo. O cara ficou lá no volante, eu com a pá limpando a neve detrás das rodas e o Rô voltou a pé para a loja, no quarteirão detrás, para avisar que estávamos com um probleminha. E voltou com a solução. Um alemão com uniforme da Hertz que não viu outra maneira a não ser estacionar o carro pra gente. Bem feito, se já tivessem feito isso desde o início! Mas primeiro ele teve que desatolar a criança. Chegou e já xingou o cabeleireiro no volante que estava mandando bala com o pé no acelerador. Disse que não adiantava. O coitado que estava tentando ajudar desceu do carro e resmungou: “que importa essa merda, o carro é seu”. Foi embora. O entendido assumiu o comando. Acelerava para um lado, para outro, descia, olhava a posição dos pneus e dava uns trancos. Quase às sete conseguiu tirar o carro de lá e foi procurar outra vaga.  Longo dia! Mas pelo menos a mudança já estava onde tinha que estar.

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