sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Natal longe de casa e os sabores da tradição

       Sou uma pessoa que acredita em Deus (em maiúsculo por prevenção), dependendo do dia. Ainda assim, sou tomada por um lapso de empolgação no período de natal que talvez tenha muito mais a ver com memórias de infância do que propriamente com religião. Assim, esse Deus poderia ser Alá, Buda, os Rolling Stones, o Sol, o Deus da Republiqueta de Bananas, da Mandioca, do Vinho ou alguma outra criação cultural. 
Depois de seis natais longe de casa, o mês de dezembro deixou de significar pra mim férias de verão, piscina e churrasco. As festividades agora cheiram a vinho quente, castanhas caramelizadas e pão fresco recém saído do forno. Luzes que dão cor ao inverno esbranquiçado ou mercados de natal que dão ânimo para deixar o aconchego do lar e sentir o frio cortar o rosto. Uma época de alegria, mas bem distante do que conhecemos como férias. No meio de dezembro, as universidades desse lado do hemisfério estão a todo vapor.
Mas, apesar de nos deslocarmos da nossa cultura, não nos encaixamos perfeitamente na do país que nos recebe, mesmo com a aparente super adaptação. Exemplo: Convidamos um casal de amigos alemães para nos visitar no começo de dezembro (2011), logo depois de montarmos nossa árvore de natal toda cintilante. Eles não conseguiram esconder a surpresa e o estranhamento por ver aquele trambolho iluminado no meio do nosso apartamento. Então explicaram que o pinheiro só é decorado no dia 24. Embora seja um programa legal para a família fazer junta na manhã natalina, o prazer de ver aquela árvore piscante cheia de presentes é, por essas bandas, praticamente inexistente ao longo do mês. Sem contar que no dia 24 as pessoas estão alucinadas cozinhando o suficiente para esperar até a chegada dos reis magos. Portanto, nada mais justo que antecipar o pinheiro, não?
Tudo bem. Admito. Por aqui eles tem o calendário do Advento (os quatro domingos que antecedem o Natal), embora tecnicamente eu não saiba bem o que isso signifique. Ainda assim, foi algo que aderimos e curtimos bastante. E diversas empresas de chocolate vendem a caixa de bombons com janelinhas indicando as datas — de 01 a 24 de dezembro. Há quem faça uma versão personalizada, com bilhetinhos e lembrancinhas até a chegada do menino na cestinha. A cada dia um docinho e uma portinha aberta para lembrar que estamos mais perto da festa. É algo que gosto bastante de fazer, mas ainda não substitui minha árvore exibidona, com ares de rainha da bateria do Natal. É peculiar, mas mantenho a esquisitice todo ano e entro com o pinheiro pela porta já no dia 01 de dezembro. 
Mas apesar das diferenças, uma aqui, outra acolá, nada se compara ao vazio de passar o Natal em um país majoritariamente muçulmano. Por aqui, na Alemanha, o Natal se parece com episódios de desenho animado e filmes da Disney. Sei lá, como cenas de uma criança pobre e solitária à lá Oliver Twist, ou uma cigarra preguiçosa, olhando uma família de comercial de margarina partir o peru, no quentinho, à luz de velas! Já no Marrocos, por exemplo, é tudo inexistente. Resolvemos comemorar as férias natalinas do ano passado em Fez. Pensamos, “ah qual o problema? E daí que é Natal?”. Passeamos o dia 24 todo, mas conforme a noite foi caindo, o desespero foi batendo. Corremos para procurar um restaurante em algum hotel internacional (nós estávamos em um Riad) que servisse uma ceia natalina. Achamos, mas o clima não é o mesmo. Foi uma experiência interessante para provar como somos seres culturais, associados a uma tradição. Não se trata puramente de significados religiosos, mas do que fazemos desde sempre, só por termos nascido em um país predominantemente católico. Moldou nossa infância, nosso imaginário, nossos hábitos. 
Agora, após seis anos, este será o primeiro Natal que voltaremos para celebrar no Brasil. E pode ter certeza que sentiremos algum estranhamento, estranhamento de alguma coisa que foi para lá de normal, até conhecermos as festividades do lado de cá.     

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