domingo, 18 de novembro de 2012

Um estranho no ninho


Sempre disse que gosto de andar de transporte público em cidades desconhecidas. Há quem torça o nariz para a ideia, os incansáveis amantes dos táxis, mas continuo batendo na mesma tecla. Não há melhor forma de ver as pessoas, testemunhar o dia a dia de uma metrópole ou pacato vilarejo. Mas e quando viajamos para casa ou para a nossa própria cidade? Tem muitas coisas que estranhamos quando vamos a São Paulo. O volume, a quantidade de carros, pessoas, trânsito. Parece um parlamento de esquizofrênicos falando alto, com um rádio ligado (que ninguém escuta), buzinas externas e um vai e vem estonteante. Um fala que ninguém te escuta.
Foi assim, com esse pano de fundo, que resolvi abrir mão do táxi e me apertar numa lotação rumo a Cocaia, em Guarulhos. Nunca tinha ido lá e fiquei incomodada com isso. “E o toque de recolher do PCC”? Mas se já ponderamos os ataques nos metrôs de Moscou, explosões de cafés em Marrakesh e até mesmo possíveis atentados em Tel Aviv, por que deveria temer as condições da minha cidade, onde nasci, vivi e falo a língua sem sotaque nenhum? Pois era questão de honra. Lá fomos nós até o metrô Armênia e procuramos a tal kombosa. Não foi difícil achar. Um garoto pendurado a porta do mini ônibus (agora as lotações estão regularizadas!) gritava COCAAAAAAIIIIIIA!
“Moço, eu preciso descer em frente a ACM, faz sentido?”, perguntei a um sujeito barrigudo. “Faz sim, sobe aí, disse o homem que, em seguida, se sentou ao volante. No caminho de ida e de volta, fui relembrando como as pessoas nesse Brasil são comunicativas. “Sim, dá remédio de verme e coloca pra dormir”, dizia uma moça loira, no celular, ao meu lado, de calça jeans e tênis de fazer ginástica. Um outro moço, mais caladão, lia um livro em inglês. Quando cheguei ao meu destino, esperei uns bons 40 minutos numa sala de espera confortável, com revistas, televisão e máquina de café. A Dona Ana Maria Braga continuava na telinha como sempre. Na TV, nada tinha mudado. E lá vem uma moça morena, em uniforme claro, avental, cabelos presos para trás, um sorriso no rosto e um pano nas mãos. Ela para de pé, em frente ao objeto da união nacional, olha pra mim e diz: “eu adorava as receitas da Ana Maria”. Não entendi o porquê do verbo no passado e perguntei se ela não gostava mais. “Gosto, mas eu não trabalho mais na residência da Dra. X” (sei lá eu o nome da tal patroa), respondeu ela. “Lá eu tinha tempo de anotar todas as receitas”.
-       Mas você tentava fazer depois?
-       Fazia quase todas. São fáceis, sabe. Bem mais fáceis que a do Guedes. Ele faz tudo muito complicado, temperos estranhos, vinhos na comida.
Quem é o tal Guedes eu não faço a mínima ideia. Fiquei com vergonha de perguntar e como não tenho smart phone, não deu para pedir ajuda ao Santo Google. Deixei o papo morrer. Mas a discussão gastronômica continuou, agora com a morena da recepção, de cabelos lisíssimos, calça Jens apertadinha e salto alto.
-       Acredita que o marido da minha amiga falou que só vai comer na casa da mãe dele porque ela cozinha mal? - contava ela para a recepcionista.  - E eu disse que ela tinha de aprender a cozinhar.
“Poxa, ela deveria dar graças a Deus, você não acha?” - disse eu me intrometendo na conversa alheia. Já estava lá mesmo, sentindo-me no meu país. 
-  Ah, eu cozinho para o meu marido, mas todos os finais de semana vamos para a casa da mãe dele - contou sua estratégia e continuou com a observação. - Mas agora eu sou visita lá, não lavo mais nada. Acredita que eu fazia tudo para ela, lavava, guardava, organizava os tupperware e ela ainda dizia que eu tirava tudo do lugar? - relatou com um ponto de interrogação no rosto.
Ri sem graça. Lembrei dos alemães e daquele papo sobre a esfera privada. Deixei pra lá. Nenhum germânico entenderia mesmo como eu sei tanto da vida daquela moça, sua sogra e sua amiga em coisa de 15 minutos. Precisei sair. Encontrei a advogada, aquelas com cara de advogada, sabe?, e fomos com o carro da empresa sentido ao cartório. O motorista, um menino de terno, com traços infantis, cheio de sardas no rosto e cabelos meio avermelhados, apontou um punk no caminho. “Olha essa calça rasgada”, comentou. “Se eu aparecesse assim em casa, meu pai arrancaria minha orelha”. Dei risada de novo. Dois mundos tão distantes numa só cidade. São Paulo e seus arredores têm lá suas vantagens.
No cartório, aquela situação chata, pacata, formal, onde ninguém fala nada sobre nada. Pensei. “Burocracia é entediante e igual no mundo inteiro”. Engano meu. Depois de 15 minutos, a escrivã contou todos os casos engraçados que viveu no último mês. “Pois é, a mulher encheu minha mesa de fotos do marido pelado com a amante”, relatava indignada e rindo. “E depois o homem veio assinar a partilha e eu não conseguia parar de lembrar daquelas imagens”. E uma mulher que perdeu o marido, entrou na justiça porque os filhos do primeiro casamento do falecido queriam vender a casa, alegou que não tinha onde morar e ganhou a ação? “É a justiça, sabe”, explicava a escrivã. “Agora os garotos só venderão depois que a segunda esposa do pai morrer”. Só não achei a tal funcionária do cartório mais simpática porque ela falava comigo como se eu não estivesse lá.
- Dra., agora ela deve assinar. - falava se dirigindo a advogada.
Antes de ir embora, precisava descobrir qual ônibus voltava para o metrô. Encostei no ponto com ar de interrogação. “Esse aí não serve, moça”, me avisou uma mulher sentada com sacolas de plástico no colo. “ Você vai para São Paulo, né?”, perguntou. “Tem de entrar em um intermunicipal, esse aqui só anda em Guarulhos”. Enquanto o meu busão não aparecia, minha conselheira me contou como ela se perde sempre que vai “lá pra São Paulo”.
Entrei no veículo, acenei para a senhora que ficou no ponto e passei uns 40 minutos no trânsito até descer na estação Tietê. Durante o trajeto, fiquei impressionada com as habilidades de uma moça loura, cheia de reflexos na cabeleira, calça fuseau preta e tênis, em se maquiar naquele chacoalhar rumo à Marginal Tietê. Ela espalhava o blush com o pincel de cerdas largas em todo o rosto, checava o resultado em um espelhinho e tirava mais apetrechos de dentro da bolsa. Voltei inteira para a minha bolha paulistana. Ouvi mais histórias do que se tivesse cruzado a Alemanha toda de trem. Confortável, não posso dizer que foi, mas foi São Paulo, assim como ela realmente é.


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