quarta-feira, 18 de abril de 2012

Bósnia-Sarajevo: Infância na Guerra

Esse moço aí da foto é o Adnan Zuka. Estudante de literatura inglesa e guia turístico em Sarajevo. Dia 06 de Abril foi seu aniversário. Ele completou 25 anos. Chegamos cerca de 9h30 à agência “Insiders”, ele estava abrindo o local um pouco agitado, sorridente, enquanto olhava para o céu e via os helicópteros sobrevoarem a cidade. “Terá tour hoje?”, perguntamos. “Acho que sim, apesar desses helicópteros”. Olhamos intrigados um para o outro, mas Adnan virou as costas, tirou uma bandeja de bolo , copos e refrigerantes da bolsa e colocou sobre o balcão. “Voltem às 11h, quando começa o passeio”, ele aconselhou. Mas antes, como fomos os primeiros turistas a aparecer por lá, tivemos a honra de saborear um pedaço da torta. “É meu aniversário”, confessou. E também o dia em que a guerra da Bósnia começou há 20 anos. Perguntei se ele se lembrava de alguma coisa e ele respondeu contundentemente, na lata: “claro, foi bem no meu aniversário”. Todos que entravam na pequena sala, a procura dos passeios, eram convidados a celebrar a data com ele. Razões não lhe faltavam.
Assim como muitas crianças da época, Adnan teve uma infância perdida. O saldo no fim do conflito foi de 1.620 crianças mortas e mais de 15 mil feridas. Os dados são do museu de história de Sarajevo. Ele narra durante a visita como era difícil ter de viver nos porões e o que os pais tinham de fazer para convencer os filhos do quão perigoso era lá fora. Ele visitou a escola durante a guerra, locais improvisados, subterrâneos. De um planalto, em frente às ruínas medievais da cidade, ele aponta cada montanha nos arredores da capital e explica em detalhes como os sérvios tomaram o local. De tempos em tempos a gente perguntava coisas bobas, óbvias e ele respondia com naturalidade. Como as pessoas faziam para se aquecer? “A gente dava um jeito, as pessoas começaram a queimar livros, tapetes, embora como ficávamos em grande número nos porões, o ambiente era mantido aquecido por algum tempo”. Segundo seus relatos, até sopa de grama entrou no cardápio.

Ao longo do passeio ele deixava escapar uns flashes de memória. “Eu passei uma vez pelo túnel com meus pais para carregar água”, lembra. O tal túnel foi responsável pelo abastecimento da cidade durante os três anos. Era a forma mais segura de levar alimentos e ajuda humanitária que chegava ao aeroporto, sob domínio da ONU, até a única montanha sob domínio dos Bosniaks (islâmicos da Bósnia). O motorista, um ex-soldado, atravessou o túnel, umas 15 vezes. Só para constar. Trata-se de um lugar abafado, estreito, com cheiro de umidade  e (pasmem!) cavado manualmente! Hoje só sobrou alguns metros, revestido com madeira para deixar a passagem um pouco mais confortável em relação àqueles tempos. Enquanto assistimos um filme no museu do túnel, ele olha pela janela para o lado de fora cada vez que chega ou sai um avião. O memorial fica bem atrás da pista do aeroporto. “É só um avião”, diz.

Mesmo dentro do veículo, ele fala com energia, entusiasmado em contar a história da sua cidade. Não escapa sequer um detalhe, cada prédio, cada bairro. De vez em quando, troca frases com o motorista em bósnio e traduz para gente com um inglês impecável. “Isso eu não me lembro direito porque era muito criança, mas nosso motorista disse”...  No fim do tour, tira foto com o grupo, troca endereços no Facebook e sai correndo para não atrasar o próximo grupo que já o espera para a próxima partida.  “Parabéns e aproveita o restinho do dia”, dissemos na despedida. “Claro, é meu aniversário!”, respondeu nosso talentoso guia. 

domingo, 15 de abril de 2012

“Nós abortamos”


Aos 14 anos, eu achava que a pena de morte fazia mais sentido que um aborto. Afinal, um bebê é inocente e um assassino não. Tive coragem de dizer tamanha besteira em rede nacional no programa do Serginho Groisman. Grupos de jovens, mais velhos que eu, não se conformaram (com razão, assumo) com minha declaração simplista. Todo esse preâmbulo aí é só para deixar claro que as pessoas pensam, repensam e mudam de opinião. E tá mais que na hora do Brasil mudar! Achei graça quando Daniel Cohn-Bendit, o símbolo da revolução de 68 e do amor livre na França, assumiu seus três maiores equívocos em entrevista à revista Der Spiegel (Ed. 14/2012). Um deles foi a sua “infantil aversão ao casamento”. Atualmente,  ele vive há 30 anos com a mesma mulher.  Mas agora chega de digressões e vamos ao ponto. 

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Sempre uma primeira vez!


Pra tudo na vida, como diz meu título aí em cima, existe uma primeira vez! Até semana passada, com quase trinta anos, eu nunca tinha colocado os pés (ou melhor, o traseiro) numa Business Class. E quem me conhece, sabe bem que eu não desembolsei nem um centavo por isso. Mesmo que eu tivesse a grana, não pagaria. Acho (desculpe os mais abastados) uma afetação. Ta bom! Com exceção daqueles que precisam realmente dormir no desconforto de um avião para trabalhar no dia seguinte ou que têm algum problema de tamanho ou saúde.
Eu gosto mesmo é de voar de Easy Jet, Ryanair, German Wings ou qualquer outra lata velha que voe. É mais emocionante. Pelo mesmo motivo também não gosto de andar de táxi durante as estadias. Pois então. Eu que sempre viajo ouvindo as rifas das raspadinhas promocionais da  Ryanair, com os olhos lacrimejando por causa do ambiente azul-amarelão, dando cotoveladas para conseguir um espaço no bagageiro da aeronave e com calça fusô e aquela belezura dos sapatos crocs para sobreviver ao aperto do ar, fui parar no conforto da Business.
Culpa do overbooking da Lufthansa que quase destruiu meu feriado da Páscoa. Vou pular a parte do chilique e do furdúncio na hora do embarque, afinal como a própria atendente disse “toda companhia vende mais passagens que a capacidade do avião”. É porque ela não voa de Easy Jet. Isso nunca me aconteceu nos teco- tecos. Apesar de bem contente com o pedido de desculpas da companhia, fiquei pasma ao ver o avião decolar com as tais cadeiras vazias na Business (aquelas destinadas ao nosso conforto, só para o apoio de casacos e bolsas) e gente lá no aeroporto esmolando por um assento. Momento jeca-tatu: eu nem sabia que na Business a poltrona do lado fica mesmo vazia, somente com uma etiqueta “para o seu conforto”.

 Quase chamei a aeromoça para dizer que eu não me importaria se alguém atrapalhasse o meu bem-estar ali do lado. Bom, depois que todos nós estávamos acomodados e a aeronave partiu, percebi que o meu lanchinho ia ser deveras mais incrementado. Para um vôo rápido de uma hora, salmão defumado com cream cheese, cuscuz marroquino com groselha seca, omelete com presunto parma e mousse de chocolate. Momento jeca-tatu 2: tudo de louça, porcelaninhas brancas. Nada daquela quentinha de alumínio com tampa de papelão que eles dão aos pobres mortais! E sem a retórica: “massa ou carne”? O melhor de tudo é ser o primeiro a desembarcar sem ter que ficar batendo a cabeça para resgatar a mala de mão.
Algo atípico aconteceu nessa viagem. Depois disso tudo, ainda fomos para o hotel de traslado. Calma. Antes que alguém atire a primeira pedra (afinal, eu sempre digo que translado é a maior queimação de filme), o hotel oferecia o serviço de graça e não há trens ou linhas de ônibus que liguem o centro ao aeroporto. E entre pegar uma carona gratuita ou pagar um táxi....
Voltei para casa de classe econômica. Nem as “quentinhas” serviram. Só um croissant frio, de queijo....Eu queria ter tirado uma foto das loucinhas brancas pra deixar aqui no post, mas não quis dar na cara que não estava habituada a tanto mimo!  Essa aí de cima não foi clicada com a nossa máquina.
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Obs.: dedico o post a um amigo do meu tio que chamaria isso de atitude proletária da juventude. Pena que não deu tempo dele ouvir isso para poder fazer piada!  


quinta-feira, 12 de abril de 2012

A polêmica Günter Grass


Desde semana passada, quando o prêmio Nobel de literatura alemã publicou seu poema “was gesagt werden muss” (o que deve ser dito) no caderno de cultura do jornal “Süddeutsche Zeitung“, a poeira não baixa e o autor não deixa mais as páginas do jornal do mundo inteiro. Pensei até em traduzir o poema, mas acabei encontrando duas boas versões em português, no site da Revista Cult e de um grupo pró-Palestina. Tem momentos em que a situação é tão complicada que é melhor ficar quieto e só observar. A questão Israel-Palestina é uma delas. Eu sempre tive a impressão que é muito difícil criticar a política de Israel aqui na Alemanha sem ser chamado de anti-semita. Acontece o tempo todo com os grupos de esquerda (die Link), por exemplo. Pra mim, que cresci e estudei no Brasil, a crítica não faz o menor sentido. Como grupos de esquerda podem ser anti-semitas? O mesmo tem acontecido com Günter Grass. Não sei se posso chamá-lo de um “ícone da esquerda alemã”, mas meu primeiro contato com o autor foi por conta dos seus textos sobre a reunificação do país. Acusado pela revista “Der Spiegel” e seu ex-chefe de redação Rudolf Augstein de ser contra o processo político da época, Grass defendia uma reunificação menos acelerada para que os grupos de oposição na Alemanha Oriental tivessem tempo de se consolidar. Assim como Habermas, ele não achava democrático a RDA ser anexada à Alemanha Ocidental. Em seu livro- diário de 1990, Grass relata todo o processo com um olhar digno em relação à história dos cidadãos da Alemanha oriental. Mas essa é uma outra discussão.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Um outro olhar (2)


Por que as pessoas não podem ser enterradas em um vale? Essa pergunta deveria ser respondida num post anterior  quando contei as esquisitices que já presenciei em cemitérios: http://pekuliaridades.blogspot.de/2012/03/um-outro-olhar.html. Mas à época ainda não tinha deparado com tal questionamento do cronista Miljenko Jergovic em seu livro “Sarajevo Marlboro”. Também não havia visitado a capital da Bósnia- Herzegovina e escalado montanha acima para lembrar do texto e refutar a ideia inicial de que o autor é um "xarope".
Os cemitérios em Sarajevo ficam, em geral, nas montanhas que circundam a cidade. A vista é sempre muito bonita. Lá de cima é possível narrar toda a vida do falecido e apontar tudo o que aconteceu: a padaria que ele trabalhava no bairro de Grbavica, a casa em que morou com a esposa em Kovacici e outras peripécias vivenciadas na região. Assim, somente as crianças, que não tem uma longa história de vida a ser contada ou trapaceiros e ladrões que precisam esconder seus feitos são enterrados no vale. Observação que só faz sentido mesmo para a geografia de Sarajevo. Então tá!.
Eu não ando perseguindo cemitérios, mas é que há tantos na cidade que é praticamente impossível não parar em um deles. As campas também são ligeiramente diferentes. Nunca estive num cemitério islâmico e apesar de detestar tumbas, achei o retângulo branco com uma pequena pirâmide em cima relativamente bonito (Foto). Mas estranho mesmo é perambular pelas tumbas e ver que praticamente todo mundo morreu entre 1992 e 1995, durante a guerra da Bósnia. Só em Sarajevo foram 11.541 vítimas. É uma imensidão de túmulos com essa data. E como não havia espaço suficiente, as tumbas foram cavadas em parques e até mesmo estádios de futebol. As passagens do Alcorão cravadas na pedra são às que se referem aos mártires. 
Hoje os Bosniaks já podem subir as montanhas e contar a história de seus mortos, apontando os pontos da cidade. Durante a guerra até mesmo a cerimônia de sepultamento era complexa. Quem quisesse enterrar seus amigos e familiares tinham de fazê-lo à noite para não ser atingido pelos atiradores de elite escondidos nas montanhas. Para todas essas 11.541 pessoas que repousam sobre as montanhas de Sarajevo, ocorreu um concerto no dia 06 de abril (sexta-feira passada), data em que começou o conflito há vinte anos. Não dava para ver ninguém nas 11.541 cadeiras em frente ao palco, mas vai saber se elas, de fato, não estavam por lá! 


terça-feira, 3 de abril de 2012

Entre Sérvios e Croatas


Já estou queimando a caixola há duas semanas para entender o imbróglio na Bósnia antes de aterrissar por lá - as duas instâncias administrativas, a supervisão internacional, o acordo de paz de Dayton e o sentimento entre croatas, sérvios e islâmicos. Esta é deveras a pior parte! E “entender” foi mesmo um termo presunçoso. Já desisti. Se nem eles mesmos depois de séculos de convivência (do Império Otomano, ao Austro-Húngaro até a extinta Yugoslávia) tem lá as suas dificuldades... Vamos dizer que estou tentando ter uma ideia do que se passa. Independentemente do termo para a minha inspeção, achei, imersa entre filmes e livros, uma crônica do escritor Semezdin Mehmedinovic, no seu livro Sarajevo Blues, que relata algumas lembranças da guerra (1992-1995) bastante marcantes.
O autor, exilado político nos Estados Unidos desde 1996, afirma contundentemente que “a guerra começou em um domingo”. Ele explica. No dia do descanso semanal ele jogava bola com os amigos. A pelada era um ato religioso. Mas, exatamente naquele domingo, um dos camaradas não compareceu. Ninguém deu muita importância ao fato e o time entrou em campo como sempre. Depois, como de costume, reuniram-se para tomar cerveja até o horário permitido pela partida do último ônibus. A jornada deveria ser curta se não fosse por um grupo de encapuzados parar e invadir o veículo. No meio do tumulto, ele reconhece o amigo, aquele mesmo que não deu as caras na pelada, e atônito pergunta: “ Sljuka, é você”? Antigos parceiros de futebol, adversário na guerra.
No outro dia, o caso era transmitido pela televisão e Mehmedinovic ouvia as declarações de Radovan Karadzic. O impronunciável nome refere-se mesmo ao líder do partido nacionalista sérvio, médico psiquiatra e também (pasmem!) poeta. O autor, indignado com as mentiras espalhadas pelos quatro cantos pelo líder do país, foi a estante de livros do filho. Lá estava a obra de poesias infantis de Karadzic. Começou a rasgá-la com toda a fúria, interrompido pelo choro do garoto que não entendia o motivo daquilo tudo e protestava na tentativa de salvar sua obra infantil predileta. 
Mehmedinovic diz conhecer Karadzic do círculo de escritores. Conta como o líder nacionalista não tinha mesmo uma carreira promissora como escritor (com exceção dos textos direcionados às crianças) e lembra de pequenas conversas. Em uma delas Karadzic contava sobre um filme que tinha assistido na noite anterior: “A escolha de Sofia”. Narrava a performance da Meryl Streep em frente ao dilema imposto por um soldado nazista. Um de seus filhos poderia sobreviver desde que o outro morresse. Mehmedinovic se lembrava sempre deste diálogo quando ouvia casos semelhantes ocorrerem em campos sérvios. Não que o autor tivesse muito tempo para recordar as elucubrações do líder nacionalista. Durante a guerra ele estava mesmo ocupado com sua  sobrevivência.
Só para mostrar como a tal limpeza étnica não fazia sentido, o escritor abriu a lista telefônica para procurar registros do sobrenome “Karadzic”. 10 Karadzic(s) eram de origem islâmica, nove vinham da Sérvia e um da Croácia. A irracionalidade da guerra foi mostrada também por uma boa lista de filmes. O mais recente, “Land of Blood und Honey”, em que Jolie estréia como diretora e lota salas na Berlinale 2012, apesar de não ter concorrido oficialmente. A trama mostra o conflito do soldado sérvio Daniel (Goran Kostic) que mantém um relacionamento com a pintora mulçumana Ajla (Zena Marjanovic) em um dos campos para prisioneiras. O filme é bom, apesar de ter recebido inúmeras criticas de entidades da própria Bósnia, que acusou Jolie de manter a clássica dicotomia do conflito:  os sérvios como 100% do mal e os mulçumanos como 100% oprimidos, sem muito contexto histórico.
O vencedor da Berlinale 2006, “Grbavica, The Land of my Dreams” da diretora bósnia Jasmila Zbanic situa a narrativa no pós guerra. Relatos do conflito de uma garota que descobre que seu pai não era um herói de guerra e sim um soldado estuprador. Deixarei uma listinha de filmes sobre a Guerra da Bósnia e o quão intenso o conflito ainda está presente por lá, conto na volta!

Storm (2009), de Hans-Christian Schmid.
Grbavica, The Land of my Dreams (2006), de Jasmila Zbanic.
Gori Vatra (2003), de Pjer Zalica.
No Man´s Land (2001), de Danis Tanovic.
Land of Blood und Honey (2012), de Angelina Jolie.



sábado, 31 de março de 2012

Um outro olhar


       Nunca gostei muito de cemitérios. Também conheço poucos que gostem. Se tiver tumbas, pior ainda. Coisa de mal gosto, macabra. Tudo bem, já encarei o Père-Lachaise em Paris para visitar o Morrison, o Kardec, a Piaf, além de outros cemitérios por aí. Os da Escandinávia parecem parques. São até bonitos. Mas depois que meu pai faleceu, passei a freqüentar mais e por outros motivos (pelo menos enquanto estava na cidade) o condomínio daqueles que se foram. Desculpe pelo eufemismo! Fato é que, ao longo de tantas idas e vindas, comecei a notar coisas curiosas, intrigantes e até, por que não, engraçadas.

       Sem sacanagem, os “vizinhos do meu pai” se chamam Virgulino e Brisolino. Percebi essa esquisitice quando estava arrumando as flores no chão e não consegui imaginar o quão “puto” meu pai ficaria se soubesse disso. Pois bem. Também juro que não é brincadeira: o coveiro encarregado de regar os vasos de flores do meu pai durante a semana, até o próximo domingo, se apresenta como o “Sombra”. Mesmo a administração do cemitério se refere a ele assim.

       Comecei depois disso a olhar algumas placas para ver se achava mais nomes engraçados. Não tive lá muito sucesso. Acabei encontrando mesmo um casal que morreu junto no mesmo dia. Só pode ter sido acidente, né? A poucas quadras dali, está um bebê que viveu menos de um mês e seu irmão gêmeo que agüentou somente alguns dias a mais. Siameses que não sobreviveram a cirurgia da separação? Eu sei que é feio especular sobre a morte alheia, mas está lá bem no meio do caminho. Parece estranho, mas dá para elucubrar bastante sobre a vida dos que partiram só pelo que as famílias deixam sobre suas novas casas: ursinhos de pelúcia, cata-ventos, sapos de gesso, plaquinhas de madeira e por aí vai. Acho todas as coisas muito simpáticas. Cada qual com seu estilo. Mas tenho que admitir minha repulsa pelas flores de plástico. Será que é tão difícil assim lidar com a morte que precisamos desses objetozinhos irritantes, exibindo sua fria eternidade?

         Em uma das minhas visitas fui surpreendida por uma salva de palmas. Enquanto eu conversava com o meu pai, ocorria um enterro alguns metros dali. Os aplausos serviam de trilha sonora para a descida do caixão. Minutos antes, quando a família subia a rampa em procissão rumo a sepultura, tive que dar uma cotovelada no marido que  olhava a cena atônito e ameaçava rebolar os quadris cantarolando: “e atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu”. Sei lá, né! Cada louco com a sua mania. E por falar em louco, em um outro velório de um conhecido, a família substituiu as palmas pela canção “Maluco Beleza”. A terra caía sobre o caixão e os amigos cantarolavam: “Enquanto você se esforça pra ser um sujeito normal”... A pedido do próprio falecido, ainda em vida, lógico! No dia do velório do meu pai (que muito estranhamente aconteceu no dia do aniversário da minha mãe), acho que enterraram algum fanático por escola de samba. Pelos menos a bateria estava toda lá em peso. Não, eles não soltaram o samba. Pudera! Mas só davam no tambor (Bummm) de forma mais cerimonial. Sambista ou budista, sei lá.

           Fiquei pensando agora como não seria entrevistar o Sombra. Se eu, em apenas três semanas, vi tantas coisas assim, imagina ele com vários anos de carreira e expertise! Pautinha para dia de finados? Não, sério. Cada um deve ter lá o seu jeito de superar a dor, não? Eu, por exemplo, desci até a floricultura do cemitério e pedi um buque de rosas para presente. Rosas vermelhas, grandes e cheia de fitas. Quando o pobre funcionário percebeu que eu ia subir sentido às campas, olhou assustado para a chefe e exclamou se justificando: “ela disse que era presente”! A moça posicionada bem em frente ao caixa riu e respondeu: “não deixa de ser, não”! Piscou e apresentou a facada. Nunca compre flores no próprio cemitério! Dava para ter bancado uma caixa enorme de chocolates da Kopenhagen, apesar do presente não ser apropriado para a ocasião.

        Em uma visita a um cemitério em Stockholm, indicado pelo guia Lonely Planet, passamos por um túmulo com a foto de um belo rapaz. Foi inevitável. Paramos lá em frente e começamos a comentar que só poderia ser acidente de carro e como a vida, às vezes, é ingrata. Não ficamos ali mais que alguns segundos, quando demos de cara com a família do moço. Fizemos um sinal da cruz, trocamos olhares e saímos sem falar nada para que eles não notassem nosso perfil de turista curioso. O pai, a mãe e possivelmente o irmão abriram as cadeiras de plástico (tipo de praia) e sentaram lá com o filho. No Père-Lachaise uma moça misteriosa, bonita, com batom vermelho e véu na cabeça colocava comida sobre uma das tumbas!

         Bom, e hoje a família está reunida (novamente!) para velar a bisa que depois de dar com o “pau de macarrão” em muita gente, resolveu ir cozinhar (aos 92 anos!) spaghetti com braciola no céu. Se alguém ver mais alguma peculiaridade por lá, não esqueçam de compartilhar! Rá!
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Obs.: não citarei nomes para não invadir a esfera privada alheia. Mas daria um outro post sobre pedidos estranhos que sempre escuto: ser enterrado de meias, servir pão de queijo e vinho quente no velório, ser doado para faculdades de medicina, repousar direto na terra sem caixão e por aí vai! Ainda perguntarei ao Sombra se ele já foi testemunha de outras bizarrices!

quinta-feira, 29 de março de 2012

Do Cáucaso ao Afeganistão

Para segurar a franja caída na testa, a senhora na faixa dos 40 anos usava um lenço azul marinho com flores coloridinhas. Enquanto abria a massa sobre uma mesa verde musgo, cheia de farinha, dava instruções às outras garotas. As explicações eram curtas, dadas somente por meio de palavras soltas, não chegavam a formar uma frase completa. Edilia vem do Cáucaso, mora em um apartamento para refugiados com os três filhos homens e o marido, em Weimar, na rua Ettersburger. “Tenho quatro filhos, porque meu marido também é como uma criança”, diz. Sobre os problemas em sua região, ninguém entra em detalhes. É difícil identificar pelos traços se ela poderia vir da Tchetchênia, da Óssetia do sul ou do norte. Dona de traços marcantes, semelhante aos da Glória Pires, ela está mesmo preocupada em preparar seu Pelmeni, aquela massa cozida, recheada com carne, e coberta por molho branco azedo. Ela trouxe um livro de receitas russas para mostrar às amigas.
Uma delas, do Afeganistão, ajuda a cortar a massa em rodelas. Como não há fôrmas apropriadas, ela usa mesmo a boca de um copo de vidro. De tempos em tempos, Edilia mostra como se faz, ressaltando que é preciso pressão para conseguirmos círculos de massa bem definidos. De cabelos pretos enrolados, na altura dos ombros, a moça do Afeganistão ajuda na preparação da guloseima sobre saltinhos pretos, bem arrumada de calça jeans e blusa verde limão. Um leve batom avermelhado marca seus traços, pelo menos até começar a comilança. Ela tenta me ensinar a pronunciar seu nome corretamente. Uma outra garota do Afeganistão,  bem magrinha, de pouca estatura e com olhos um pouco mais puxados, dá risada da minha pronuncia horrível. Edilia só escuta e comenta: “olha aí as duas terroristas amigas do Osama”. Elas riem. Rapidamente Edília pergunta às colegas do Afeganistão se elas realmente acreditam que Bin Laden esteja morto. “Pra mim ele continua escondido, mas agora lá nas montanhas do Paquistão”, diz contundente. Silêncio. Assunto complicado transmitido em alemão por falantes do russo e do persa. Ruído na comunicação. Todas se focam novamente na preparação dos pelmenis.
Trata-se de um dia de diversão. Duas vezes por mês, elas se reúnem (sem os maridos) para uma tarde de receitas e bate papo. Problemas políticos e burocracia não entram na pauta. Os únicos homens que caminhavam pela sala, tinham um e três anos. Um deles era filho de uma moça do Irã. Quieta, ela só observava. De vez em quando, conversava em persa com as duas companheiras do Afeganistão. Ao notarem minha cara de perplexidade, elas me explicaram as semelhanças e diferenças entre o persa de cada região. Algo como o alemão na Suíça ou na Áustria. A Iraniana balbuciava poucas palavras na língua germânica. A Anne, que acompanha as reuniões, tentava marcar uma excursão para o próximo mês. Com olhar de interrogação, a afegã, segurando o filhinho no colo, perguntou o que era uma excursão. Depois de tudo esclarecido, elas traduziam em persa para a iraniana do jeito que dava.
Nessa altura do campeonato, Edilia já estava jogando seus pelmenis na água quente. Quando voltou à mesa cheia de farinha, uma das moças já tinha aberto a outra massa. Ela olhou, amassou tudo com as mãos, fez outra bola e começou a abrir a massa de novo. “Estava muito fina”, reclamou. Quando terminou, raspou as mãos umas nas outras, as bateu no avental, olhou pra mim e disse: “como você não é alemã?”. Atordoada porque eu tinha pele clara, ela ouvia uma das alemãs explicar a miscigenação do Brasil. “Mas você sabe sambar, então?”. Tive de decepcioná-la mais uma vez. “Eu sei, as mulheres (normais) não fazem isso, né?”. Como não entendi bem qual a definição de normal disse que não sabia bem. 
Depois de todas se sentarem à mesa, com exceção de Edilia que não parava de limpar e cozinhar mais e mais, todas voltaram pra conversa. Mesmo de longe, a cozinheira oficial vinha à mesa dar alguns conselhos. “Você deveria ter mais um bebê”, disse a iraniana, que chacoalhava a cabeça em tom de negativa. “Esses garotos crescem, saem por aí com as mulheres, e não querem mais saber das mamas”, esclareceu a razão do conselho. Perto das 19h30, elas limparam tudo voando. Uma varria, a outra lavava as louças, outras embrulhavam os 50 quilos de comida que sobrara. Muitas delas não ficam fora de casa à noite. As quatros mulheres saíram então correndo, com sacolas e carrinhos de bebês em direção ao ponto de ônibus. Agora só no próximo mês.