quinta-feira, 8 de junho de 2017

Londres e coincidências estranhas II

Faz tempo que planejo escrever um post turístico sobre a capital inglesa – tipo a Londres da realeza, os mercados mais descoladinhos, grafites secretos, os canais perto das docas, o que fazer “na faixa” e por aí vai–, mas sempre aparece algum “maluco” (no melhor sentido da palavra) e me desvirtua da ideia inicial. 

Cheguei de uma viagem segunda-feira retrasada, quase à meia noite em St. Pancras (Kings Cross), tentei achar algo para comer na estação quase vazia, quando ouvi de longe uma cantoria meio desafinada, mas bem animada. Há sempre uns pianos espalhados pela cidade para quem esteja disposto a dar uma palhinha em público e há quem se jogue sem pudores. Parece bacana, mas às vezes pode não ser lá muito democrático com seus ouvidos! Nesse caso, um grupo de velhinhos estava lá esgoelando emocionadamente  “Hey Jude, don´t make it bad”... Um monte de gente parou para vê-los ali no universo todo particular deles. Trocaram para “Yesterday”, estavam meio emocionados até o alarme de segurança disparar (alguns dias após Manchester) e dissipar o público. Os caras não deram muita pelota e ficaram no local trocando uma ideia. Pensei em escrever sobre os garotos (sarcasmo), especular porque raios três senhores se encontraram ali, – será que eles quiçá se conheciam? –, mas deixei para lá. Foi interessante, mas pensando bem, puta chavão, né? Londres e “All my troubles seemed so far away”... “love was such an easy game to play”. Se ainda fosse o “yellow submarine”!
Dois dias depois estava em um pub com um grupo de estrangeiros falando da vida e reclamando dos preços dos aluguéis. Nada de mais, só conversa fiada com um alemão que está aqui há vinte anos e uma italiana dos meus tempos de Berlim e mais uma porção do tipo “festa estranha com gente esquisita”. Alguém grita – “eles são do Brasil”. Pronto! Conheci a pessoa mais curiosa da mesa inteira, a ponto de falar que valeu a noite. E antes que alguém venha com sorrisinhos maliciosos no canto da boca, era um professor aposentado. Um iraniano que canta Cartola em português!!! Ele disse que amava o Brasil, já tinha ido mil vezes a diferentes cidades e respondeu todas as nossas perguntas indagadoras e curiosas. 
No momento, ele tinha chutado tudo pro alto, abraçado a aposentadoria e virado artista (um dia eu chego lá). Foi preso no Irã, caiu fora e já estava em Londres por 50 anos. “Essa é minha cidade”, batia na mesa com orgulho. Ele nunca respondeu se voltara à cidade natal, não gostou do truco e chamou seis dizendo – “isso está ficando muito pessoal, falem de vocês”. Mas como o post é meu e a linha do raciocínio também, posso pular essa parte e seguir com a história. O fato de um cientista conhecer o Brasil não é assim tão fora da curva, mas ele era apaixonado, quase aficionado e tinha um vocabulário inacreditável de gírias locais. Tudo bem, o cara era todo passional, daqueles que morreriam por inúmeras causas, mas tinha algo mais. E papo vem, papo vai, ele estava com os olhos literalmente cheios de lágrimas cantando “se eu perder esse trem que sai agora às onze horas, só amanhã de manhã”. 
Já consigo imaginar a versão dos fatos dada pela minha espirituosa mãe – “é coisa de outra encarnação, são vínculos de outra vida”. Se a versão da matriarca for correta, o cara seria mesmo um puta azarado. Sério, eu voltaria só para mandar os espíritos à merda – nascer num Brasil da República do Café com Leite e retornar no Irã do Khomeini? Saravá! Pra mim a explicação é coração partido, massacrado, triturado ou sei lá. Embora ele comentou sobre uma esposa. Sem mais preâmbulos, a gente fechou o bar conversando sobre o eixo Brasil-Irã-Londres. 

Voltamos de bicicleta, a gente meio bêbado tentando se equilibrar e ele no auge dos seus 75 anos praticamente nos guiando até a avenida principal. Trocamos e-mail, ele me deu um colete daqueles de Detran fosforescente para à noite, insistiu que vestisse e não deu pra recusar. Não combinava muito com meu trench coach, mas achei melhor não dizer nada. Vai saber se não me salvou a pele?! Foi o pouco que conseguimos conhecer da sua história de vida, como um conta-gotas de pequenas revelações. Provavelmente o não dito seria mais interessante, mas não tive tempo suficiente de chegar lá. 
O cotidiano da cidade e de seus moradores parece correr paralelo aos atentados terroristas, a disputa lavada entre o partido trabalhista (Labour) e os conservadores (Tories), o Brexit e tantas outras coisas que dão pautas aos jornais. Continuo achando essa cidade um baita caos, mas um caos cheio de pequenos refúgios. 





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