quarta-feira, 24 de maio de 2017

Melhor de Londres – a metrópole da coexistência


Depois de uns 40 dias de adaptação, desde que deixei a bolha do bem estar social alemão e cai de paraquedas na capital inglesa, minha convivência com a cidade tem melhorado bastante. Estava disposta a não me deixar seduzir por esse centro financeiro global, ávido, hostil e ligeiramente arrogante, mas alguns desafios nos instigam além do normal. Especulação imobiliária e excessos de serviços financeiros são, sem dúvida, uma faceta local. Abro as janelas de manhã e tomo café com os edifícios do Bank of America, Citibank, Barclays e HSBC me observando. Canary Wharf – o centro financeiro londrino – está logo aqui com todas suas empresas, lojas, restaurantes, bares e todo um setor terciário à disposição, sem contar com a intersecção de transportes. É prático, pena que não provoca ou atrai suficientemente.  


O que mais fascina é a multiplicidade de outros nichos espalhados pelos bairros londrinos no limite da pacífica coexistência de qualquer identidade cultural, sexual ou religiosa. Durante uma onda conservadora europeia, a capital não só foi contra ao Brexit, como também elegeu um prefeito muçulmano – Sadiq Khan, do partido trabalhista (Labour Party). Claro que há problemas, segregação por bairros e hostilidades. Mas, comparado com a Alemanha, os estrangeiros estão (aparentemente) bem mais integrados, inclusive atuando nos aparatos estatais. 
Fui tirar o NINo (National Insurance Number), uma espécie de cpf inglês, e fiz a entrevista com uma moça de lenço. Nenhum ar desconfiado porque uma brasileira que pesquisa na Alemanha e apresenta documentos italianos pretende tirar o bendito certificado. Na mesa do lado, uma mulher de origem africana faz a triagem com um alemão, que trabalhou por um tempo nos EUA: “é um país lindo, mas como sou negra sempre me enchem de perguntas na fronteira”, diz sobre a terra do tio Sam, batendo papo. Foi tão espontâneo que todos caímos na risada, sem pudores por estarmos escutando a conversa alheia. O mesmo se pode dizer do sistema de saúde – todos os tipos de médicos e enfermeiros. Nem precisa continuar com exemplos, basta olhar os fenótipos dos apresentadores da BBC News. 
Cyberdog, Camden Market
Algumas coisas me causam estranhamento e esfregam na minha cara como alguns frames ainda estão enraizados. Fomos ao Camden Market, um mercado descoladinho ao Norte de Londres, comprar ingressos para uma festa, vendidos na loja Cyberdog. O lugar é incrível, uma espécie de boutique clubber, futurista, fetichista, cheia de objetos fosforescentes com vendedores fantasiados e dançando em gaiolas. São três andares de roupas e acessórios multicoloridos e no subsolo há uma área com uma pegada mais de sex shop. Então, lá vem eu toda saltitante, quando dou de cara com um casal muçulmano com beemmm mais de sessenta anos. A senhorinha tinha um rosto velhinho, de avó que faz mingau de aveia e canela para os netos a ponto de me deixar constrangida. Não perguntei o que ela fazia ali, mas pensei: “estou começando a adorar essa cidade”. 
Museum of London
No fim de semana passado, os museus estenderam seus horários de funcionamento com uma maratona de exposições, eventos, coquetéis e workshops (Museums at Night). Escolher um programa entre tantas opções às vezes nos deixa cansados – überfordert, overwhelmed, sobrecarregados–, como se estivéssemos no jornal fechando roteiro da Virada Cultural (à época em que o evento ainda era digno do nome)! Acabamos no Museum of London que oferecia diversas plataformas para explorar a identidade da cidade. Uma exposição fotográfica de Niall McDiarmid´s focava em retratos de pessoas que o artista encontrou ao longo de anos nas ruas londrinas. Na mesma noite, Lady Lucy fazia caricaturas em aquarela dos visitantes em troca de pequenos presentes, como um escambo de ideias. Há quem oferecesse cursos de italiano, culinária indiana ou auxílio na escrita de projetos acadêmicos. 
Paralelamente, o acervo fixo ficou parcialmente aberto, contando a história da cidade – do surgimento, passando pelo período romano até as olímpiadas e os dias atuais. E no espaço da Londres contemporânea rolaram uns shows de rap. Assim mesmo, pessoas pulando e cantando dentro do museu. Confesso que não é muito minha praia, mas um flirt inocente com outras tribos não faz mal a ninguém. Afinal, sempre é uma experiência antropológica. Melhor ainda foi ver a marofa subindo e os seguranças começando a se biparem desesperados e a circularem pelos corredores. Eles mesmos estavam com aquela cara de “essa molecada é f...”, com um sorrisinho de que até encaravam “umzinho”, mas tinham que trabalhar. 
Esses humores e possibilidades que beiram ao infinito andam me seduzindo bastante. E nem é preciso ir tão longe. É ver uma moça tirar o lenço em uma aula de ginástica só para mulheres; ou conhecer os alemães, brasileiros e italianos que o dono do “Kafe 1788”, no nosso quarteirão, nos apresenta cada vez que chegamos para uma xícara fumegante. Um haitiano que arranha diversas línguas, tira um expresso bem maneiro e está sempre te dando folhetos com programas pelo bairro. Toda essa embromação só para dizer que a multiplicidade, o lado pouco convencional e a liberdade londrina com seus prazeres sociais (culinária, mercados, música, subcultura) equilibram o excesso de neoliberalismo econômico.  


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