sábado, 11 de março de 2017

Weimar-Alemanha e minha morada sem mim

IstockFotos
Já faz um tempo que procuramos alguém para alugar nosso apartamento em Weimar e comprar todos nossos móveis. Coisa simples. Saio com roupas e livros, o sujeito entra lá para viver no meu mundo e me dá uma grana pela mobília. Bom, simples em cidades dinâmicas como Berlin, Londres, Paris e Nova Iorque, mas não necessariamente no berço protegido do classicismo alemão weimariano. 

Assim, há dias recebemos candidatos que bisbilhotam seus possíveis futuros lares. Ou melhor, pessoas das mais estranhas, no bom sentido. Gosto das estranhezas alheias, no fundo são histórias ambulantes circulando pelos meus privados cantinhos favoritos. Uma mulher, alguns anos mais velha que nós, sentou à la Sheldon Cooper em nosso sofá para se imaginar morando ali. Aparentemente, ela estava em processo de separação (até aí beleza), mas não sabia se as “crianças” (13 e 16 anos) se juntariam a ela. E, pelo que tudo indica, o digníssimo marido ainda não estava ciente da decisão da esposa.  Baita novela mexicana, né? Fomos orientados a não enviar nenhuma correspondência para o endereço dela. Achamos o pedido bem bizarro, afinal só responderíamos anyway por e-mail, Whatsapp ou SMS, mas NUNCA por correio. Depois entendemos os porquês da peculiar requisição. O proprietário do apartamento não achou que aquele cantinho seria adequado para três adultos. Contrato não assinado, história em aberta e nem sei se o cara já tomou o pé na bunda! Até pensei em escrever para perguntar! 

Depois de tantas idas e vindas de histórias sem graça (casais adolescentes e apaixonados saindo da casa dos pais) eis que apareceu nosso grande Match! Não do Tinder, mas de casinha. Achamos que fosse golpe no começo. Uma mensagem em alemão de um professor canadense com e-mail de Hong Kong. O cara marcou uma visita horas antes de um voo que pegaríamos em outra cidade. A casa estava com três malas enormes para serem desfeitas, mas ainda assim apostamos em um “cola aí”. 

O alemão cresceu no Canadá, morou vinte anos na Ásia (os últimos dez em Saigon), está casado com uma vietnamita e tem uma filhinha de sete anos. Resolveu vir tentar a vida na Alemanha já que ele tem um passaporte que lhe permite. Chega da Ásia sem móveis com a cara e a coragem, precisa de um endereço rápido para fazer o maldito Anmeldung e dar entrada no visto da família! Simpático, falante, esportista (ninguém é perfeito), ele andava pela MINHA casa e já conseguia imaginar os entes queridos ali. Descrevia a garotinha na minha mesa de trabalho fazendo lição de casa, a esposa tocando viola no meu cantinho de leitura e toda uma dinâmica própria. Eu ali me sentindo meio fora, meio dentro. Expliquei o porquê estava saindo, porque não levaria móveis e ficamos tomando café, falando do mundo. Perfeito!
Ou quase. O sujeito estava tão empolgado que pediu meu wifi e ligou para a esposa no Vietnã. Então surge a peculiar pergunta – “essa porta está voltada para o sudeste”? Eu, que nunca parei para pensar nisso, imaginei que a garota fosse arquiteta e estivesse interessada na luminosidade do ap. Sabe aquele papo do sol que esquenta a cozinha de manhã e a sala de tarde? Porra nenhuma! Ele andava com uma bússola pela casa, dava umas voltas em torno de si não querendo acreditar para onde o norte apontava, enquanto ela resmungava – “eu já te disse as coordenadas!!! Por que você me liga se não é assim?”. Tentei dar um pouco de privacidade ao casal, fui ao banheiro e segurava a gargalhada quando ele respondia – “don't do it to me, honey, please!”.... 

Conversamos um pouco, tentei mostrar certo entendimento pelas crenças culturais alheias e ele explicando como era difícil achar casas mobiliadas na cidade. Como era frustrante, naquele momento, a vida inteira dele depender do Feng Shui. Disse que iria mentir, dizer que a porta da rua estava na direção X para ela ficar contente. Avisei que seria uma péssima ideia enganá-la, afinal ela descobriria cedo ou tarde. O alemão-canadense fez então uma pesquisa na net, encontrou alguma filosofia chinesa pra provar que o posicionamento da minha casa no mundo cairia bem para os membros da família que eram de dragão, porco e sei lá mais que cazzo! E meu sorriso ficando amarelo. O Feng Shui estava destruindo meu match!
Pensei em contar que minha mãe também tinha hábitos duvidosos e apareceu uma vez em casa com uns adesivos (com olhos e triângulos) de colar embaixo da cama para neutralizar as energias. É sério, juro! Mas deixei para lá. Acho que a autêntica vietnamita não aceitaria um jeitinho brasileiro de burlar os maus agouros. De qualquer forma como eu arrumaria os tais adesivos? Estava quase aceitando a rejeição da minha casinha, indo consolar as minhas almofadas e dizer que, para mim, elas eram lindas, quando ele olhou e nos disse: se vocês nunca tiveram problemas aqui, também não teremos. Eis que o espírito pragmático alemão baixou no meu match e ele quis fechar negócio na mesma hora. Como ele contou isso a Miss Saigon eu não sei, mas estou muito curiosa para saber. Espero que minha morada cheire um delicioso phò na minha ausência.

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