segunda-feira, 20 de março de 2017

Londres e o mercado imobiliário – estranhas coincidências


Não gosto muito de posts de serviços, explicando o bê-á-bá de como resolver um problema em outra cidade. Sim, eles são necessários, mas chatos pra danar de escrever e/ou ler (a não ser que você seja o cara em apuros). Mas talvez eu mude de ideia e faça, algum dia, um guia prático sobre como achar um espaço embaixo da ponte só seu na capital inglesa.

Sério, isso aqui é um caos, uma bolha lotada e superfaturada, com ruas repletas de mendigos, pedintes e sem tetos. Margareth Thatcher goza gelada no túmulo com a selva competitiva radicalizada com seu livre mercado. Acho que depois desse lapso nervoso, preciso de uma digressão – vindo da Alemanha, onde há leis rígidas para especulação imobiliária e o Airbnb causa polêmica por puxar os preços dos alugueis, isso aqui parece mesmo um vale tudo de baixo nível.
 Existe um submundo extremamente distante do imaginário do palácio de Buckingham e da Oxford Street. É uma selva dominada por imobiliárias de alto padrão, cheia de corretores de polo e um tubo completo de gel na cabeça, tentando te enfiar goela abaixo o que eles consideram um local ideal para você guardar seus panos de bunda. Lembra daquelas casinhas em estilo vitoriano? Esquece! Os chamados “new developement” proliferam pela cidade, em especial na bruta zona leste da urbe– arranha-céus mobiliados, com porteiros e área de lazer, totalmente sem identidade, nada europeus e extremamente paulistanos. 
Interessante são os topetinhos de sapato de bico fino, tentando te convencer que esse é novo padrão trend de moradia. E se você ganha mil libras, eles te farão pagar 850 de aluguel, afinal cabe no bolso, né? Podemos ficar lá no nosso reino “looking for flying saucers in the sky” e se alimentando de luz! Interessante é saber mesmo onde esses caras moram. Um deles, por exemplo, – até simpático, mas com aquele ar de “sei o que é melhor para você” – reside em Woodford. É um bairro bonitinho, área cinco, mas relativamente distante. Considerando que transporte em Londres é caríssimo, é uma conta que se deve por na balança. Sem contar os que te apresentam caixas de sapatos mofadas, cheirando a naftalina, tipo puxadinho de fundo de quintal, decorados com os móveis da sua tataravó como se fossem o objeto do desejo mais íntimo da rainha Elisabeth. E pior, por um preço que nem garota de programa de luxo conseguiria pagar! 
Conselho? Fuja, passe longe, use uma corrente de alho ao entrar nas grandes imobiliárias como Haart, Neil King ou qualquer uma com muito vidro na fachada e muita gente de salto alto e meia fina perambulando lá dentro. Certo dia, de saco cheio dessa galera, entramos no Gumtree para ver uns anúncios, fizemos uma visita direto com um suposto proprietário e ficamos com a impressão de que tínhamos achado um cafofinho pra chamar de nosso (demos pra trás por medo de ser golpe, os scams são comuns nesses sites). Mas a questão é que diminuímos a quantidade de pulgas na cueca. Saímos então para dar um passeio – just in case, sabe? – em Dalston. Só por desencargo de consciência entramos em uma imobiliária pequena, tipo fundo de quintal, com seis mesas apinhadas em um salão. Não tenha preconceito, às vezes tem gente legal trabalhando por lá. 
Conhecemos um médico iraniano, que morou em Chemnitz na Alemanha, logo após a queda do muro, e trabalha como corretor em Londres porque seu diploma não é reconhecido no Reino Unido. Estava muito tensa com a busca de um barraco para perguntar como ele saiu da antiga DDR e caiu na terra da rainha. Fico devendo um update. Fato é que esse cara – longe do estereotipo mala sem alça perfuminho Ralph Lauren – nos olhou e teve plena convicção de que o apartamento de um outro casal (segundo ele muito parecido com a gente) cairia como uma luva. Naquele exato momento, ele não conseguia nos levar ao local. Pediu a um colega mais novo (um californiano de terninho e sapato de bico fino) que fizesse o favor de nos acompanhar. Rolou um stress entre os dois, não entendemos bem o porquê. Propuseram uma visita nos próximos dias e eu disse que não arredaria pé dali, que estava livre e queria ver o raio da casa. Bati o pé e fiz cara feia pro marido, pro iraniano e pro californiano. O garoto nos levou então.
No caminho explicou o desconforto – se o negócio fosse fechado, ele não ganharia comissão nenhuma porque esta casa não era dele. Pensei em mandá-lo a merda, mas fomos batendo papo no carro e a tensão se desfez. Cresceu nos EUA – com mãe das Filipinas e um pai mexicano que nunca conheceu – casou-se com uma inglesa e lá estava em Londres tentando sobreviver a selva. Chegamos. O iraniano tinha mesmo feeling! 
Um casal de fotógrafos precisava alugar o apartamento porque estavam debandando coincidentemente para a Alemanha, Berlim. Engraçado que tínhamos visto a casa deles no site de uma outra imobiliária, dessas estilosonas, ligamos e a moça disse que tentaria entrar em contato com os proprietários, mas nunca retornou. Olhamos os cômodos e entramos numa conversa sem fim sobre a conexão Londres-Berlim. Ela era uma italiana bonita de olhos verdes, casada com um sujeito bem humorado e com um charme à la Lucas Cage. A bisavó dela nasceu em São Paulo, tinha uns parentes perto de Monte Beluna (Treviso) de onde os Cazzamattas saíram em um passado remoto. Riram sem fim do sobrenome, quase choraram. E o corretor olhava apressado, com cara de “isso é uma visita e não um chá das cinco”! Na saída tentou miar o negócio do iraniano. Disse que o prédio por fora era feio e capenga (é mesmo, e daí?). Ainda não sabemos se rolou, mas que foi um match, ah isso foi! Agora é só fazer mandinga, pedir aos céus, vender a alma, trocar ideia com o plano espiritual para a documentação rolar de boa. 
Depois de encontrar um “moquifinho” pra repousar nossos corpos cansados, acho que finalmente conseguiremos aproveitar o lado peculiar londrino – estudantes andando de roupas de dormir e travesseiros em mãos (indo a uma festa do pijama, talvez?), um senhor pedalando uma roda circense, travestis correndo de salto fino próximo a um ponto de ônibus, a marofa por tabela perto das residências estudantis, casais lendo sobre barcos nos canais e a horda de turistas...Ah, garota complexa essa Londres!

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