segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Leipzig e uma despedida acidental


Há coisas particularmente irritantes nesse mundo. Despedidas, acordar cedo, segundas-feiras e Deutsche Bahn (a empresa de trens alemã). Quando todas elas se reúnem em uma mesma experiência (sim, isso é bem possível), não há chocolate, pão de queijo ou café capazes de nos devolver o bom humor. Juro que tento!

O despertador berrou às 6h. Apesar de não estar tão frio, ainda é inverno e a escuridão me avassala de preguiça. Mas como o lado mula teimosa da minha personalidade gosta de viajar de trem, estava até que resignada. Livro, revistas, balinhas, café, lista do spotify, facebook e um monte de caraminholas na cachola capazes de me distraírem por longas 5 horas de viagem.

Animação matutina que dura até o timetable luminoso com os aparentemente inofensivos cinco minutos de atraso. Conhecemos a novela. Ou encaramos uma troca ninja à la the flash, correndo como o papa-léguas e quase nos transformando no gato de Schrödinger para estar em dois trens ao mesmo tempo ou... Ou sofremos com o boliche de conexões indo para o brejo. Nessa manhã, fiquei com a segunda opção. Admito, problemas de primeiro mundo... Mas a gente se acostuma com a suposta pontualidade alemã.

De Leipzig, o próximo trem demoraria cerca de 90 minutos para partir, porque também estava, em tese, com um OUTRO atraso previsto. Minha vida em terras germânicas começara ali naquela cidade, e por isso o carinho pela Hauptbahnhof (estação principal de trem). Mesmo assim, uma hora e meia é tempo demais. Tempo suficiente para rebobinar nove anos de memória e rir sozinha dos curtos, mas intensos quatro meses da querida Lípsia (só não queria repetir o nome da urbe, acho a versão em português bem bisonha).

Não falava uma palavra de alemão, estava enrolada até o pescoço com a burocracia de vistos, precisava achar um apartamento em Berlim sem saber termos básicos como “quarto” e “sala”, organizar a mudança e encarar aulas diárias de declinações – tudo com uma disciplina prussiana que me fora empurrada goela abaixo (uma apropriação cultural tomara que não muito bem sucedida).

Naquela época, com todas essas preocupações em mente, tentei comprar um cacho de uva em uma barraquinha da tal estação principal. Voltei, sabe-se lá como, com quase um quilo em mãos e, pelo menos, uns dez euros mais pobre. Chorei de raiva e as comi compulsivamente. Passei hoje em frente ao mesmíssimo quiosque de frutas tropicais, pedi um suco, já sem problemas de comunicação, e ri internamente do meu momento drama queen passado. É vergonhoso contar essas coisas, mas quem nunca, né? Abrir um berreiro por causa de umas uvinhas a mais na conta é um motivo muito digno para um colapso nervoso!  

Ia ficar por ali sentada no mesmo banco do meu breakdown, mas sai da estação ao ver o bondinho azul e amarelo, ainda do modelo antigo, o mesmo que me levava à Eisenbahnstraße todos os dias. Fui caminhando até a Rathaus, Nikolaikirche, Thomaskirche... Achei que não saberia mais chegar aos locais, mas fui por osmose, os trajetos estavam lá registrados ainda em algum compartimento não afetado pelo curto circuito temperamental da manhã. Tudo era tão distante, mas ainda tão presente... Fui reconhecendo bares e cafés que frequentávamos com os amigos daquele tempo – hoje espalhados pela Alemanha, pela Europa ou pelo mundo.
Pensei em chutar tudo pro alto e ficar em Leipzig até o fim do dia, perder todas as conexões porque eu quis e não porque a DB é uma zona. Mas eu me tornei uma pessoa bastante vernünftig nessa Alemanha (racional até o último fio de cabelo) e uma tese de doutorado me esperava em Hamburgo. A vida seguiu, mas a maldita Deutsche Bahn não deixou barato. Não se abandona um país assim, simplesmente virando as costas. Seria como terminar um relacionamento de quase nove anos por whatsapp. Então fui lá, mesmo que acidentalmente, oficializar (psicologicamente) e de forma digna o término. Mas ainda nos veremos, com certeza. Com ou sem Deutsche Bahn. 



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