segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Degustações de Vinhos na Thüringer Weingut Bad Sulza — porque por lá o Goethe nunca se embebedou

        Queimar sola de sapato em grandes metrópoles, descobrir botecos legais e lojas descoladas é uma tarefa bem agradável. Mas, de tempos em tempos, bate um espírito regionalista, daqueles de querer descobrir algo novo no seu próprio quarteirão. O problema é que quando a gente mora em uma vila, pressupõe-se que não há mais nada de novo a ser explorado. Um erro. Tudo isso para falar que nas redondezas de Weimar, na região de Saale-Unstrut há uma vinícola “Thüringer Weingut Bad Sulza” que atrai visitantes de toda Alemanha e vale uma boa visita. A casa organiza degustações de diversos tipos, anunciadas com um ano de antecedência. Participei certa vez de uma “Weinprobe” durante o verão quando os campos ainda estavam verdinhos, e voltei agora no final do ano para conferir a do primeiro advento (e para comemorar setes anos em terras germânicas). Quem ainda acha que por essas bandas só se bebe cerveja ou aquele vinho doce ruim para danar, o Liebfraumilch, terá boas surpresas.
Os vinhedos de Saale-Unstrut datam de 998 e localizam-se no início do vale de Saaletal em Naumburg e nas encostas do rio Unstrut nas redondezas de Freyburg. Tratam- se de 750 hectares que cortam os Estados da Alta Saxônia, Turíngia e Brandemburgo. A visita começa do lado do casarão em Bad Sulza, onde os vinhos são armazenados, engarrafados e produzidos. O proprietário Andreas Clauß e sua família comandam o negócio e recebem os visitantes pessoalmente. Ao contrário das grandes e famosas vinícolas italianas, as quais deixam as degustações nas mãos de funcionários, o enólogo de Stuttgart não abre mão de estar presente a noite toda. Desta vez, todos fomos recepcionados com um vinho quente (o famoso Glühwein) logo na entrada para esquentar os ânimos desses meses gélidos de fim de ano. 
        Rumo aos porões da produção, o enólogo mostra os galões de aço inoxidável. Segundo ele, ideal para os vinhos brancos jovens e frutados, além da praticidade em termos de limpeza e manutenção. Dali, segue-se para o saguão onde a bebida é engarrafada. Curiosa foi a polêmica em torno da vedação das garrafas. A vinícola Bad Sulza foi uma das primeiras a aderir as roscas para os vinhos brancos, mas retrocedeu a decisão e seguiu como manda o figurino da tradição com as belíssimas rolhas. Honestamente, relatou que os vinhos acabavam totalmente sem oxigenação com a tampa e só ficavam saborosos um dia depois de serem abertos! A visita segue em direção ao porão dos barris, alguns trazidos da França, outros da Bulgária. Algumas produções da casa são mescladas e permanecem nos galões de aço e depois envelhecem nos barris. Os vinhos da linha Excellence costumam ser envelhecidos nos barris. Aqui, mesmo em pé, já é servido uma taça do tinto e seco “Herzog von Auerstedt”. 
          Antes da degustação começar para valer, os convidados sentam para jantar. O branco frutado “Castello di Auerstedt” é servido a vontade durante toda a refeição. Só então a coisa fica mesmo séria. A primeira taça (agora pra valer) é um Traminer seco da Turíngia. Um dos mais vendidos, aliás, na festa do vinho em Bad Sulza. A garrafa custa 10,50 euros. Depois é a vez do Weißburgunder Excellence trocken. Forte e encorpado, este vinho pertence à série envelhecida em carvalho. É o segundo mais vendido, depois do Müller-Thürgau, na região do Saale-Unstrut, e também pode se gabar de uma medalha de ouro da competição de 2015 entre os produtores alemães. O preço também é bastante camarada, 14 euros a garrafa. 
              A esbórnia continua com uma taça do tinto Cabernet Dorsa. Tja... Vinho tinto alemão não rola. Não tem jeito. Há pouquíssimas opções na lista da vinícula. Bem, até dá para pensar em um milagre. A tentativa vem com a taça do Micado Cuvée Trocken. É uma mistura das uvas Cabernet Mitos, Cabertin e Cabernet Dorsa (daí o Micado). São 18 meses envelhecendo no barril e mais um ano na garrafa. Não é ruim, mas o produtor teve que fazer um se vira nos trinta tão grande para o vinho se tornar aceitável que a garrafa é uma das mais caras da série Premium, por 19 euros. Nós já estávamos na penúltima taça, a coisa rolava em alemão e eu não entendo patavinas de agronomia, solo ou mistura de uvas. Só de beber mesmo. Resumo da ópera. Os caras fizeram algo tomável, mas compensa mesmo comprar um francês ou italiano por metade do preço e qualidade muito maior. O forte aqui são os brancos, com certeza. Sem traumas. Por fim, a coisa termina com um  mais doce, para acompanhar sobremesas. O tal do Kerner Auslese é servido após um ano pegando o sabor em um pequeno barril. A garrafa custa 22 euros e pra mim pareceu tão saboroso quanto os húngaros Tokaji. 
             Eu queria é ter o poder do Herr Clauß de embebedar toda aquela galera. O volume do salão vai subindo, todo mundo começa a tagarelas e aí ele desce as grapas produzidas também localmente para o nocaute final. Bom é que ninguém esquece de passar na lojinha e trazer umas garrafinhas pra casa!

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