domingo, 15 de fevereiro de 2015

E a Berlinale vai de Taxi

                  Pela primeira vez em cinco anos de Berlinale, finalmente, acertamos boa parte dos filmes que venceram as premiações.  Não que dê para escolher muito, já narrei por aqui o “Ó do Borogodó” que é conseguir ingressos. Boa parte comprados online, exatamente três dias antes da exibição, preciosamente às 10h da manhã. Muitas vezes, murros são dados na mesa quando os ingressos escapam do nosso alcance e o computador abre a tela com a mensagem: ESGOTADO. Sim, alles weg em 30 segundos. Inacreditável. Quando morava em Berlim, ficava na fila da Potsdamer Arcade, aos berros no telefone com o marido em casa a postos das compras online. Parecia uma agente maluca no pregão da bolsa dos filmes. Fato é que depois de um tempo, começamos a desenvolver estratégias. Focar nos filmes da competição, excluir os com atores hollywoodianos e contar um pouco com a sorte. O mais perto que havíamos chegado de assistir um premiado durante o festival foi o The Turin Horse em 2011. Que para falar a verdade era bem do esquisito. Mesmo os críticos e os mais dos cinéfilos caiam na risada (angustiante) com as cenas mudas e intermináveis. Veja só aqui como foi o tormento. 
Mas, ontem, pulei de felicidade ao ver que o urso de ouro foi dado ao diretor iraniano Jafar Panahi. Seu filme, Taxi, abriu nossa maratona de filmes no fim de semana anterior. Assisti a película, às 9h da matina, no Friedrichstadt- Palast. Proibido de sair do país e de atuar como diretor, Panahi conseguiu levar mais uma vez um de seus filmes para fora do Irã. Uma mensagem claramente política do júri que gerou lá algumas críticas. Em 2006, o diretor já havia ganhado um urso de prata  (prêmio do júri) com Offside. Foi condenado a seis anos de prisão e proibido de fazer filmes. Depois disso, ainda conseguiu mandar uma de suas películas para Cannes, escondendo-a aparentemente em uma torta. Sentado em um táxi, o próprio diretor dirige pelas ruas caóticas de Teerã, filmando quadros e personagens que retratam a sociedade iraniana. Sem dúvida, um ato de coragem dos atores que claramente criticam o governo de Teerã na conversas com o motorista. A sobrinha de Panahi, que atua no filme, recebeu o prêmio pelo seu tio no Berlinale Palast. De cabelos soltos e brilhos nos olhos. O filme terminou com fortes aplausos do público frente a uma tela preta sem créditos. Saímos da sala comentando “será que leva”?
Estávamos convencidos até assistir Ixcanul, de Jayro Bustamante, o primeiro filme da história da Guatemala no festival, que conta a vida de uma garota em um vilarejo ao redor de um vulcão do país. Um belo retrato da vida dura na América Latina, do papel das mulheres em um mundo dominado pela pobreza e pelo machismo. O que tem lá sua proximidade com o vencedor de 2009, o peruano “O Leite da Mágoa” (La Teta Asustada) de Claudia Llosa. Mas, Ixcanul acabou levando o urso de prata (do prêmio Alfred-Bauer) pela abertura de uma nova perspectiva. 
O diretor de Victoria, Sturla Brandth Grovlen, levou o urso de prata pela alta performance artística. Esse filme fechou nosso domingo, saímos do cinema à meia noite divididos. A história mostra uma garota de Madrid que se mete em boas confusões por Berlim, mas a segunda parte da narrativa se perde de modo totalmente inverossímil. Claro que foi legal ver a capital alemã como pano de fundo, mas a segunda parte é tão sem pé nem cabeça que mais parecia um filme conclusão de curso de uma faculdade de cinema. Nada perto do que foi o Corra Lola, Corra, de Tom Tywer. Mas, a forma de filmar, tudo em um único take não editado, fez com que o trabalho tivesse sua singularidade. Premiada, aliás. Victoria, uma garota, uma cidade e um take. 
Por fim, os atores de 45 Years, Charlotte Rampling e Tom Courtenay, levaram a prata pela melhor atuação. Um casal que se prepara para celebrar os 45 anos de casamento, quando o marido descobre que o corpo da ex-namorada, morta em um trágico acidente nos Alpes, próximo da fronteira italiana, foi achado congelado. O fato o transporta para o passado, deixando a esposa atual sentido-se uma estranha dentro de sua própria vida. Quando Tom aparece no personagem daquele velho confuso, de cuecas brancas e largas na altura do umbigo, preparando-se para ir para cama com a esposa, batendo com os pulsos no peito em tom de o macho se prepara, ele arranca risadas da plateia. E depois, arranca suspiros, ao brochar quando a mulher pede para que ele abra os olhos e a encare. 
Assistimos outros que passaram longe dos prêmios. Também deixamos de assistir outros condecorados — Aferim (de Radu Jude como melhor diretor), Body (Malgorzata Szumowska como melhor diretora), El botón de nácar (Patrício Guzmán no melhor roteiro)—, mas é a vida. Esses teremos de assistir em casa ou em uma seção comum de cinema.  Quem sabe um dia eu não consiga uma semana inteira de férias em Berlim durante o festival! E pra quem acha esquisitice passar 6-8 horas no mesmo dia dentro do cinema e ficar roendo as unhas, elucubrando quem leva o que, lembrem-se que na próxima quarta todo mundo estará lá, mesmo que de ressaca, torcendo pela pontuação de sua escolas de samba!

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