quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Meu Idi Amin interior


       Alguém compartilha comigo a sensação de estar sempre perdendo alguma coisa lá fora pelo mundo? Não importa o quanto eu caminhe, conheça ou descubra, há sempre o sentimento de que ainda falta algo. Assim, sobrecarrego sempre a agenda com novos planos, atividades, viagens em um espaço de tempo curtíssimo só para não deixar escapar nem sequer uma mísera experiência ou a possibilidade de conhecer pessoas diferentes. Sabe quando acabamos de chegar, as malas ainda estão pela casa e tudo que queremos é exatamente ficar no nosso canto, mas não resistimos em ir ao encontro com os amigos naquela mesma noite? Ou querer em três meses preparar uma festa de casamento, continuar no trabalho, terminar a pós-graduação, aprender alemão e preparar uma mudança internacional?
         Tudo vira perda de tempo. Meu pequeno ditador interno ordena um mandato de prisão cada vez que deito na cama com um novo romance, afinal com tantos textos acadêmicos e artigos para ler, como parar para se deleitar com ficções?! Ou vá ler o jornal, já que agora preciso acompanhar os acontecimentos nos dois lados do Atlântico para não parecer defasada. Não é melhor colocar a caixola para pensar no projeto de doutorado? Mesmo quando faço o que mais gosto na vida, viajar, esse Idi Amin interior fica martelando a cada passo. Cenários paradisíacos, restaurantes, degustações e vinhos precisam virar pauta! Sabe quando não dá mais para olhar o mar, uma cadeia de montanhas sem pensar se vale sugerir o destino para uma revista? Mesmo a ida à ginástica tem um componente produtivo que não tem nada a ver com a minha saúde. Afinal, é uma perda de tempo, mas trará ânimo e disposição para encarar longas jornadas com a minha amiga tese. Praticamente tudo precisa de uma utilidade. Não vou aprender francês porque espanhol é muito mais requisitado pelo  mercado de trabalho e muito mais falado nesse mundão afora. Desisti de estudar história da arte porque para o bendito currículo mais vale um mestrado na mão do que dois bacharelados voando. Quero ficar em casa, mas resolvo ir encontrar os amigos. Assim, pelo menos, treino o alemão, o inglês ou o raio que o parta. Até esse post é uma perda de tempo sem tamanho, já que deveria estar nesse momento (sim, com gerúndio) escrevendo o trabalho.
         Outro dia assistia o jornal enquanto almoçava e pesquisava sobre a vida do Gombrowicz no IPhone. Sim, eu não saboreei a comida, não prestei atenção nas notícias e não assimilei a biografia do polonês. Deixei tudo de lado cansada e fui ver as atualizações do Facebook! Tudo muito irônico quando penso que um daqueles que me deram a vida não tinha celular, nem trabalho, nem veículo motorizado, fugia da televisão e de outros meios de comunicação e fazia todo santo dia a coisa mais “inútil” possível, cujo objetivo era unicamente seu mero prazer ou o apaziguamento de suas indagações: caminhar pela rodovia dos imigrantes ou nadar na represa do Guarapiranga. Assim mesmo, bem simples e descomplicado. Hoje ele faz aniversário e o que posso oferecer como presente, dada as devidas circunstâncias físicas, é só a minha gratidão por ter tido alguém que me ensinou a questionar essas coisas. Lá a sua maneira ele tinha razão, “o mundo é que está louco e nós não entendemos nada”. Se a loucura fosse reversível, gostaria de enlouquecer por alguns meses para entender esse processo que os malucos aos olhos sociais enfrentam para aguçar o pensamento. Ou na perspectiva deles, gostaria de me curar para ver as coisas com mais serenidade e menos pressa. Linha tênue entre lucidez e alucinação.
             Tudo isso pra concluir que quando todos os prazos estiverem para vencer, tentarei sair de casa para fotografar joaninhas. E já deixa eu ir embora porque o cachorro começou a latir!

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