domingo, 30 de junho de 2013

Marcha dos mindinhos


     Quando era mais nova achava bem do esquisito esse papo do Brás Cubas de que as “botas apertadas são uma das maiores venturas da Terra”, mas com o tempo passei não só a entender, como também a concordar. Libertar os dedos espremidos e esmagados pela botina numa sensação prazerosa de liberdade e alivio é uma metáfora que serve é bem pra muita coisa.
     Existe algo melhor que, ao fim do inverno, ver as primeiras folhas darem o ar da graça, o sol fazer hora extra até às 21h e a temperatura subir vagarosamente, permitindo que nossa pele volte a ter contato com o ar puro? Os dedos tortos e amassados começam a se recuperar até o clímax do veraneio, quando pisam  areia, folhas e pedrinhas de algum lago de águas refrescantes.
     Mas tem ano, que os coitados dos mindinhos e polegares até se livram das botas, mas enfrentam uma dificuldade danada para tirar as meias.  Ficam lá naquele conforto morno do fim do inverno, mas sem poder vivenciar tudo que o verão pode proporcionar.
     Há quase dez anos, almoçava com um grupo de estudantes bem heterogêneo, muito deles europeus, em um verão irlandês. Ao fim da refeição, propus uma ida ao cinema que foi por quase 90% dos votos totalmente rechaçada. O tempo estava muito bonito para ser desperdiçando com películas. Foram todos para o Phoenix Park libertar os dedões ávidos por ar puro e raios de sol. Coisa de europeu, gente esquisita, que gosta de graminha verde molhada entre as frieiras.
      Anos depois, lembro-me da data com outra perspectiva. Suposto verão 2013. Nada! Eternamente 16 graus, chuvas torrenciais, cheia do Elba, cidades como Dresden inundada. Cheia do Ilm, Saale e lagos interditados. Notícias e notícias na TV. Quando o sol aparecer e a aguaceira secar, vai ser uma avalanche, uma manada de gente deixando teses de lado, saindo mais cedo do trabalho só para libertar os mindinhos.
     Enquanto o dia D não chega, alegro-me por morar praticamente em cima de um pub (irlandês de verdade) e de um cinema. Chove, meus calos continuam se retorcendo, mas tem Guinness tirada até com o trevo na espuminha, música irlandesa  e sofás aconchegantes.  A poucos passos dali, um cineminha bem do bacana, o Lichthaus, com poltronas arrancadas de carros velhos, mas uma porção de filmes bons. Melhor de tudo, ainda posso levar a taça de vinho pra dentro da sala e colocar os pés, mesmo que sufocados dentro das meias, no assento.
      Pra quem não entendeu muito bem, não se trata de uma declaração de guerra contra São Pedro, mas de uma dança do sol pós-moderna, online com a esperança do Santo Google ser mais eficiente que esse bíblico das antigas. Fato é que aproveitarei muito mais o dia D depois que o inverno passar. Coisa que não sabia apreciar enquanto era presenteada com inúmeros dias ensolarados nos trópicos. 

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