domingo, 3 de março de 2013

Meu pé de manjericão


Acordei tarde com a luz do sol cegando meus olhos. Fazia tempo que isso não acontecia. Não me refiro sobre levantar depois das 11h (isso acontece todos os finais de semana), mas sim despertar com um raio de sol esquentando levemente as bochechas. Achei que a primavera chegaria com meus trinta anos (tinha um peso dizer isso!). Até que seria um bom presente. Nasci durante o verão, mas me tornei do outro lado do hemisfério uma Winterkind. Uma criança do inverno.
Sai para as compras vespertinas de sábado mais feliz que o normal. Não pela minha condição pré-balzaquiana, mas sim pelo sol ter voltado a dar as caras depois de tanto tempo. A cidade estava mais animada, as crianças davam tchau pelas janelas dos carros e os pais dirigiam de óculos escuros! Estavam todos, de algum modo, tocados pelo fim do inverno. Não havia mais terra para jardinagem nas lojas. Alguns senhores contemplavam o suporte giratório de sementes no supermercado. Um deles me perguntou o que eu procurava.
Pensei  e, sem hesitar, pedi o pacotinho de sementes de manjericão. Nada que lembre mais o verão que o aroma da planta com tomates e mussarela de búfala! Logo quando cheguei na Alemanha, ganhei um pé fresquinho de aniversário da minha professora. Confesso que achei o presente de início um tanto esquisito. Desenrolei o papel celofane e dei de cara com um manjericão! Agradeci com ares de interrogação, mas percebi o gesto atencioso. Muitos alemães gostam de dar presentes simbólicos, feito à mão, artesanal, algo especial ou personalizado. Como mesmo sem esboçar muitas palavras na língua do Goethe, eu defendia as qualidades do manjericão para a felicidade das pessoas. Vinho tinto e spaghetti são especiais, mas sempre falta aquele toque verdinho, não? Eu falava com tanta paixão das folhinhas nas nossas aulas A1 sobre comida, que a professora achou que me deixaria contente com o pé. E deixou! Dois anos depois, em Potsdam, também quase no fim do inverno, ganhei mais um vasinho do maridão. Ele queria me dar algo pela manhã e me fazer acreditar que a planta seria meu único presente do dia. Gosto tanto das danadas que até acreditei.
Assim, depois de toda minha relação afetiva com o manjericão, achei que o velhinho estava mesmo tentando me dar um toque: “compre manjericão, compre manjericão”. A neve ainda estava por toda a cidade, a temperatura já estava zero (não era mais negativa) e eu tinha planejado tomar um sorvete do lado de fora do café na Praça do Mercado, enquanto o sol esquentava os miolos. Olhei o senhor, as sementes e pensei, por que não mudar meus planos?
Trouxe-as para casa, comprei terra, vaso e medidor de água. Li as instruções e achei tudo bem complexo para uma paulistana. Não plantava nada desde que alguma tia me fez colocar feijões em um algodão com água, na época do jardim da infância. Coloquei luvas com medo de aparecer alguma minhoca do saco de terra. Plantei e deixei o vaso embaixo da janela para receber luz. Agora só resta saber se vai crescer. A impaciência está na alma dos metropolitanos. Olhei para as sementes dez minutos depois e não tinha acontecido nada. Elas estavam mais inexpressivas que tartarugas. O dia seguinte amanheceu nublado mas o manjericão deve suportar mais uns dias de inverno.

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