terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Let it go!


Uma vez, um homem se perdeu em meio as pedras do litoral da Jureia. Caminhava, olhava o mar, saltava de rocha em rocha e não achava o caminho de volta para casa - seja lá qual fosse seu conceito de casa. Fazer uma trilha sem água, comida, mapa ou uma mochila nas costas deixa a narrativa um pouco inverossímil, mas isso é, exatamente, o que torna o personagem, de certo modo, tão especial. Ele tinha um espírito aventureiro, pelo menos quando era jovem. Ao envelhecer, talvez possamos chamar a mesma atitude de desprendimento. Demorou alguns dias para que ele achasse a trilha de volta. Olhava o céu desconfiado, nutria um ressentimento pelos urubus, voando alto sobre sua cabeça pesada, como se os pássaros só estivessem por ali, esperando ele padecer. Ao voltar para casa, cansado e castigado pela natureza, contou seu método para prosseguir sem deixar o mar levá-lo: pensava na imagem da filha.
Demorou pouco para que se recuperasse e voltasse novamente as suas andanças em busca do mar. A cada passo anotava seus pensamentos (alguns um tanto estapafúrdios), guardava os blocos no bolso com zíper, mergulhava mesmo com os papéis no casaco e retornava à noite. Essa rotina durou anos e foi interrompida abruptamente por uma chuva forte e um caminhão. Nessa noite ele não voltou. Não houve vínculos, memórias ou pensamentos capazes de manter o coração batendo e os rins funcionando. Há um ano, ele deixava de existir. Talvez tivesse ido atrás dos urubus que o atormentavam, quem sabe.
Daquela vida curta e peculiar só restavam mesmo as lembranças. A filha tentava remontá-las como um quebra-cabeça. Conversas com ele em momentos mais e menos sóbrios, histórias de amigos próximos, ex-namoradas, os bloquinhos de anotações. Há coisas que os filhos nunca sabem sobre os pais, seus verdadeiros medos, incertezas, arrependimentos. Todos tiveram uma vida antes de seus rebentos nascerem, mas sabe-se lá por qual razão não se fala muito dessa fase. Era cada vez mais difícil reconstruir essa narrativa. As lembranças pareciam a sequência de um caleidoscópio, imagens fragmentadas de vidrinhos multicoloridos, sempre dispersas, diferentes, praticamente impossível de conseguir a mesma cena, mas, ainda assim, muito bonitas. O que era ficção, interpretação dela ou realidade? Isso importa?
Despediram-se 4 meses antes. Beijaram-se no rosto. Ela segurou seus ombros, o chacoalhou. Deram as mãos, ele foi se virando para ir embora, soltando os dedos levemente. Essa imagem era nítida, ela segurando somente a ponta do dedo indicador. Partiu, atravessou a rua. A filha falou em voz alta: “se cuida”. O pai não olhou para traz, mas ela sabe que ele sorriu. Ele a ensinou a deixar as coisas partirem. Mostrava isso a ela todos os dias pelo modo que vivia. Claro que a filha não quis aprender. Não é assim tão fácil let it go. Nunca mais se viram. 

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