segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Avalanche de presepadas


Não posso negar. Sempre que o inverno chega, e com ele os primeiros flocos de neve, fico encantada. Coisa rápida, questão de dois dias. Tudo porque a beleza dura pouco e logo é substituída por aquele lamaçal e pelo branco monótono da paisagem. Não sei como esquimó consegue enxergar tantos tons para a mesmíssima cor! Sem contar os problemas que a bendita branquicela nos causa. Há quatro anos, estava prestes a encarar meu primeiro inverno. Levantava às 6h da manha e às 7h já estava com os pés para fora de casa em uma escuridão de filme de terror.
Na primeira manhã em que a cidade acordou branca, fiz a minha primeira guerra de neve. Cheguei atrasada na aula (coisa de 3 minutos), levei uma bronca (sim, o fato ocorreu na Alemanha) e eu aprendi: excesso de neve não significa feriado nacional. Por aqui, as pessoas são liberadas quando a temperatura no verão passa dos 30 graus. Só! E quando faz -20, neve pra cachorro e não tem mais calçada, as coisas continuam normalmente. Tudo bem. Sem mágoas. Nossa primeira excursão da temporada foi para uma estação de esqui em Oberwiesenthal (quase na fronteira com a República Tcheca). Como uma brasileira tinha quebrado a perna no ano anterior e colocado alguns pinos, a escola de alemão boicotou os esquis e deixou à disposição somente umas bacias para descermos a montanha. No fundo eram os Schlitten, uma espécie de trenó. Assim ninguém se machucaria. Mas claro que um brasileiro tropical sempre arrumará um jeito de se estropiar, né? Meu querido esposo deixou a luva cair do lado de fora da pista principal da montanha. Ao tentar buscá-la afundou até a cintura e descobriu que derrubou a luva em um penhasco cheio de neve. Fui ajudá-lo, atravessei a pista correndo e fui literalmente atropelada por um trenó com um alemão maior que um mamute em cima. Nada se quebrou, mas a batida rendeu um domingo de hospital, radiografias e luxação.  
Primeiro inverno também significa primeiro boneco de neve. Fizemos um quase que do nosso tamanho, da mesma forma como crianças constroem castelos de areia na praia. Não preciso lembrar que ficou meio disforme. Só chamou atenção da vizinhança porque o decoramos com biquínis. Foi só no segundo vestibular para pingüins que descobrimos como girar as placas de neve como um tapete e formar bolas enormes bem rapidinho. Aprendemos a proeza em Viena. Estávamos sofrendo para levantar mais uma obra de arte em frente ao Hofburg, quando um grupo ao nosso lado fez um super ultra boneco de neve. Vergonhoso. Eles queriam mesmo mostrar como éramos gauche! Um dos nossos exclamou: “puxa, pergunta para aquela Japa da Coreia como eles fizeram!”. A Japa da Coreia era uma brasileira que riu da bobagem dita em voz alta e como boa compatriota ensinou os marmitões aqui a rolar o tapete de gelo.
Rá! Agora não tinha pra ninguém. Terceiro inverno em Berlim. Descemos para fazer o pirulão de neve no jardim do apartamento, mas eis que nossa técnica não funcionou. A gente rolava, rolava, se sujava e nada da bendita neve grudar na bola. Recorremos a tática castelo de areia e comemoramos o Natal com uma amigo alemão que ouviu todas as reclamações. E nós ficamos com as explicações. “Afinal, quem faz boneco com essa neve aí?”. Pra mim, neve é neve, sem discussão. Todos de acordo? Que nada. Segundo nosso camarada nativo, aquela não tinha a textura ideal. “Tem ano que é assim mesmo e a gente tem de se conformar”. No inverno em questão, a neve não estava mesmo do nosso lado. Ela deve ter alguma coisa contra nós brasileiros. Alugamos um carro para levar a mudança de Berlim para Potsdam. E conseguimos atolar o veículo a um quarteirão da Herz, faltando pouquíssimo para devolver. Veio um funcionário da empresa, o cabeleireiro onde eu havia pedido uma pá emprestada, cavamos até não sobrar uma raspa de gelo nas rodas e nada da geringonça se mexer. Esse perrengue foi descrito em detalhes em outro post: http://pekuliaridades.blogspot.de/2010/12/vida-dura.html
E quando a neve não vem até a gente, nós vamos até ela. Minha prima de 10 anos queria muito conhecer os pernilongos brancos. Viajou para cá em dezembro e nada de cair nem um floquinho. Fomos assim para Oberhof e aprendemos a fazer a primeira trilha na montanha. Dois quilômetros morro acima e nada de chegar. A pequena moça deixa escorrer lágrimas pelo rosto em protesto. Não tem mais volta. Pra baixo, branco. Pra cima, branco. Voltamos para o mesmo local este ano. Agora com os avós de 75 anos. Ok, subimos de ônibus, nada de trilhas. Já ousada, aluguei um esqui (os Langläufer), mas só os de caminhada. Aqueles que todo senhor usa para fazer passeios pelas montanhas. Aí começou a epopeia. Precisei de uns 20 minutos para conseguir acoplar  meus pés dentro das botas nos esquis. Depois andava a passos de tartaruga e não conseguia voltar. Virar o corpo significava cruzar os esquis e cair como abóbora. Ao ver um pequeno morrinho, desisti. Um me segurava de um lado, outro ria, outro tentava sair da frente. Até que um primo observa: “olha o garotinho”. Do meu lado, uma criança de 3 ou 4 anos em suas roupas de inverno olhava com um ar espantado. Sobrancelhas levantadas, bochechas vermelhas e um tom interrogador do tipo “o que essa marmanja está fazendo aí gritando e escorregando”. Sabe aquele olhar de criança que descobre algo novo, uma situação que ela até então nunca tinha presenciado?
Tenho medo do garoto nunca aderir aos esportes de inverno sempre que lembrar da minha cara apavorada! Foi então que decidimos fazer aulas de ski na próxima semana para nunca mais deixar um naniquinho do gelo nos observar com esse tom inquisidor. Se funcionará, conto daqui uns dias.
Obs.: A minha avó no trenó, agarrada em mim, montanha abaixo às gargalhadas também deve ter causado certo espanto!

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