sábado, 9 de junho de 2012

Saudade Vira-Lata



Sabe aquela cachorrada barulhenta que embala a sinfonia canina bem depois da meia noite? Ou aqueles cães de personalidade menos extravagante, mas donos de mãos (ops, patas) leves que rasgam o lixo em busca de restos das iguarias dos irmãos burgueses e de raça? Eles não existem na Alemanha. Bom, achei que não existissem, mas acabei de achar uma exceção pelas ruas de Dresden (o que motivou este post). A malandragem canina foi banida das ruas. Não há nem um pequeno rastro do perfil meio pulguento, mas livre e aventureiro. Nada daquele cão bastardo, com rabo de cocker e orelhas de poodle. Por aqui, quem tem um bichinho de estimação tem que pagar imposto. Eles recebem vacina e até um chip de identificação (!) para que não possam se rebelar e fugir para bem longe daquelas roupinhas de gosto duvidoso, banho, tosa e fitinhas. Sob a tutela de seus donos, também não se misturam por aí com outros filhotes de raça suspeita.
Se comparados com os primos menos abastados em Sarajevo, por exemplo, levam uma vida mansa e tranqüila. Depois de tanto tempo na Alemanha, sem ver sequer um filhote vira-lata, ficamos até impressionados com a abordagem da imensidão canina na Bósnia, saindo de trás de qualquer muro ou ruína.  Livres ou abandonados? Onde estão seus donos, se é que algum dia os tiveram? Se eu pudesse latir, perguntaria a um vira-lata por lá se ele viria para Alemanha viver com os pelos grudados por fitinhas, comendo ração (mesmo que três vezes por dia), recebendo picadas de vacina no traseiro e um treinamento de rigor prussiano para se tornar obedientes e silenciosos. Será que trocariam a liberdade por um estômago cheio?
A massa de cães saçaricando com sarnas pelas ruas não incomoda a paisagem, a atmosfera local em Sarajevo. Pelo contrário, é parte dela, como uma simbiose. Deitados sobre o sol, fazendo graça, seguindo turistas, tentando fazer uma boquinha aqui ou ali... Tudo bem descomplicado e sem coleira. Não devem amor ou confiança a ninguém. Levam um estilo de vida felino, só não conseguem pular de telhado em telhado. E se a coisa complicar, amarram a trouxa no cabo de vassoura e pegam a estrada sem olhar para trás. 

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