quarta-feira, 23 de maio de 2012

Restaurante Anna Amalia — o único com uma estrela do guia Michelan na Alemanha Central


Vou confessar que, no início, achava a Turíngia um tanto caipira.  Apesar da presença marcante de figurões do classicismo alemão como Goethe, Schiller e cia, é difícil compará-la com a perfumada Provence ou a charmosa Toscana. Leva tempo para a gente se acostumar e passar a admirar suas belezas particulares. Mas a danada nos conquista. A prova está aí, numa reportagem do ano passado para a Viaje Mais!
Mas apesar do seu jeitinho provinciano, descobrimos até um restaurante, o Anna Amalia, do guia Michelin (condecorado com uma estrela), o único de toda a região.  A casa pertence ao  tradicional Hotel Elephant, em Weimar, onde Thomas Mann teria se hospedado e até usou o cenário para ambientar seu romance “Lotte in Weimar”. Acometidos pelo pecado da gula, fomos dar uma conferida para ver se o chef Marcello Fabbri realmente nos deixaria de queixo caído.
Não preciso nem falar que o ambiente está bem longe de uma cantina italiana. Decoração sóbria, clássica e fina. Casais bem mais velhos conversam baixinho, senhores de gravata tentam impressionar seus clientes e turistas do hotel dominam o salão. Criança é algo inexistente, afinal, esses serzinhos barulhentos atrapalhariam qualquer degustação e fariam os hóspedes engasgarem com tamanho tormento! Mas apesar dessa formalidade inicial, recepção com champanhe e essas coisas, a equipe é extremamente simpática (ou perceberam logo que a gente não tem um quê assim tão formal). Explico. Não há melhor remédio para quem já está no inferno a não ser “abraçar o diabo”. Por isso, decidimos por um menu degustação de oito pratos. Era para não correr o risco também de sair com fome, já que arte não enche muito a barriga!  Já diria minha avó....
Só tinha um pequeno detalhe. A quinta criação do chefe era a base de cordeiro e eu não vou com a cara de carnes vermelhas nem no boteco do Viera nem no restaurante do guia Michelin. O bom de enfrentar uma situação assim em outro país é que a gente pode fofocar a vontade sem que a equipe perceba que alguma coisa não está legal. Cheia de dedos, tentei explicar ao maitre o problema e perguntei o que ele me sugeria, qual prato se encaixaria melhor naquela seqüência gastronômica. “O que você quiser”, ele me disse. Bem diferente daqueles garçons franceses que torcem o nariz quando algum pobre coitado pede uma carne bem passada. “Mas esse é o ponto do chefe”, dizem com aquele ar de superioridade. Já vi isso acontecer e por isso estava preparada para receber um tom de reprovação. Mas me surpreendi. No lugar das peças de cordeiro com espuma de pecorino, repousadas sobre berinjelas regadas ao hortelã, me trouxeram um excelente risoto negro de lulas! E não me olharam com repúdia só porque eu dispensei uma criação do mestre! Amei.
O Sommelier, Roman Drobeck,  observou a troca e me trouxe um outro vinho da região de Rheingau (Riesling) para harmonizar quando o prato chegasse. Mas mesmo assim me serviu uma taça do ICARIO da Toscana, que acompanhava o cordeiro, para que eu pudesse experimentar a mistura de uvas Sangiovese, Teroldego e Merlot. Assim, sem frescura. Era ele quem nos distraia entre o vai e vem de pratos. Apresentava os rótulos, explicava as condições do solo de cada região (essa parte ficou um pouco obscura em alemão) e ainda contou em quais enotecas nós poderíamos comprar os vinhos por um precinho mais camarada! Ao perceber que a gente era do Brasil, elogiou o nosso “prosecco”. “Experimentei uns impressionantes”, disse. Quando ouviu da gente a palavra “espumante”, disse euforicamente “genau” (isso mesmo!). Trocamos boas figurinhas. Segundo ele, o solo de Bad Sulza (aqui perto, a 18 KM ao norte de Jena), por causa do Saale, tem as mesmas condições que o solo da Borgonha.  Fiquei meio desconfiada, mas como não entendo patavinas...
Depois de tantas idas e vindas da tal “sinfonia gastronômica” (crédito da expressão dada ao marido) a gente já estava bastante satisfeito. Passaram pela nossa mesa ainda o Ravióli de Ricota e Espinafre, ao molho de polvo, azeitonas pretas taggiascas e alcaparras; e O Filé de Linguado ao Chartreuse (aquele licor francês de ervas), acompanhado de aspargos e lagosta sobre fondue de baunilha. Ao notar que a variação de queijos voltou para a cozinha praticamente intacta, o maitre perguntou se gostaríamos de ir para o sétimo e oitavo prato ou se pararíamos por ali. Ainda faltavam duas sobremesas. Chegamos até a sétima degustação, mas cada um pediu uma opção diferente. Fiquei com dó deles terem de abrir dois vinhos de sobremesa para cada iguaria adocicada, bem na nossa frente, já pra lá da meia noite! E para poder levantar da mesa, recorremos ao café. Essa história de harmonizar cada prato com uma taça de vinho, ao longo de quase quatro horas, eleva nosso teor alcoólico para além do desejado. Duro é voltar para casa e ver as gororobas que cozinhamos. Algumas vezes até saem saborosas, mas sem nenhum apelo visual! 







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