segunda-feira, 14 de maio de 2012

Conflito cultural? Será?




B.S é uma americana que até o fim da high school morou com os pais em um estado praticamente na fronteira com o Canadá. Nas férias, ela acampava na região dos Grandes Lagos e curtia a natureza cantando com o grupo de escoteiros músicas do Cat Stevens. Lá mesmo, em sua terra natal, ela conheceu um garoto alemão, um intercambista da sua escola. Começaram a namorar. Um ano se passou e pelo que tudo indicava o romance dos jovens não seria lá muito promissor. Ele voltou para casa, ela ainda tinha mais um ano de colégio para terminar. Mas esse não foi o curto desfecho de dois garotos sem grana, separados por um oceano inteiro. Ela arrumou um emprego no Joey´s Pizza e trabalhou até mesmo nos finais de semana. Juntou 12 mil dólares em um ano e desembarcou de “mala e cuia” na Alemanha. E os planos que seus pais tinham determinado para ela, cursar a faculdade na mesma instituição em que a mãe trabalhava por um descontão? Esse não era bem o desejo dela.
O garoto morava numa província no interior da Turíngia, com os avós. Era provisório, só até ele fazer o Abitur (uma espécie de vestibular alemão) e se mudar para a cidade em que cursaria a faculdade. Foi assim que a americana B.S, com apenas 17 anos e contra a vontade da própria família, aterrissou na casa de dois alemães orientais, que sobreviveram a guerra e passaram a maior parte de suas vidas sob o regime da Alemanha Oriental. Amor, coragem, aventura, sonho?  Ela dava uma pequena quantia em dinheiro ao casal, coisa de 200 euros por mês, para cobrir seus gastos com luz, água e aquecimento. Começou a freqüentar aulas de alemão. Queria procurar trabalho, mas notou o quão complicada era a burocracia germânica. Nos conhecemos numa aula preparatória para a prova de proficiência, que dá acesso à universidade. Ela apareceu alguns meses depois do início do curso. Estava num nível abaixo, mas insistiu muito para fazer a prova naquele semestre mesmo, pois seu dinheiro estava acabando. Um ano de cursos anteriores, mais o voo e as despesas mensais consumiram seus 12 mil dólares velozmente. “Eu só tenho autorização para trabalhar se tiver o status de estudante, ou seja, preciso entrar na universidade”, explicava. Ao contrário de muitos colegas asiáticos, ela tinha uma gramática péssima, horrenda, beirava o desespero. Mas entendia praticamente 95% do que se passava. Assim, a deixaram assumir o risco de escrever a prova naquele semestre.
No início era parecia um peixe fora d’água. Não entendia as discussões em aula sobre diplomas, mestrados e a vida acadêmica. Contava sempre o exemplo de uma amiga que começou como camareira e hoje era gerente de um grande hotel, sem ter sequer pisado numa universidade. “Ela faz um monte de dinheiro”, dizia. Quando questionada pela professora, também da Alemanha Oriental, na faixa dos 70 anos, sobre educação ou cultura, ela levantava as sobrancelhas em tom de indagação e parava de discutir. Ao saber que o Chomsky faria uma palestra na universidade, perguntou sem titubear: “quem é esse cara aí”? Naquele momento seu sonho era trabalhar em alguma loja como a pizza Hut ou a Lush. Todo dia ela chegava inconformada com os avós do namorado. Achava estranho eles só comerem pão preto com queijo e vinho à noite. “Só os necessitados nos Estados Unidos fazem isso”, contava indignada. Também não entendia porque eles não esperavam a água esquentar antes de colocar o corpo debaixo da ducha. E o fato dela não poder mexer na máquina de lavar! Isso a tirava do sério. “A gente usa a roupa somente um dia e coloca no cesto”. Mas a vovó era a única autorizada a mexer no aparato e só fazia isso 2 vezes por semana. Quando a senhora ia às compras, ela tentava lavar suas própria roupas meio escondido.
Mas apesar das reclamações, ela também tentava agradar. Cozinhava de vez em quando, embora acabasse triste com a crítica em relação à cozinha americana. “Ela (a avó do namorado) diz que eu só faço comida pré pronta”. Pra tentar consertar, ela resolveu fazer uma pizza “do zero”, como fazia no Joey nos Estados Unidos. Comprou a massa, mas estava numa dificuldade danada para achar um molho de pizza e não simplesmente de tomate para montar a sua redonda. “Dessa vez, eu não comprei a pizza pronta e congelada”, dizia. Não sei qual foi o resultado, mas tudo leva a crer que a avó não tenha ficado lá muito entusiasmada.
De vez em quando, conversávamos sobre tudo isso. Apesar de me divertir muito com as diferenças dessas pessoas morando sobre o mesmo teto, tentava também mostrar pra ela o outro lado. Como é para uma senhora de mais de 70 anos abrir as portas da casa para o neto e a namorada dormirem juntos no mesmo quarto? Isso aconteceria nos EUA? E será que essa cultura americana e todos os sabonetinhos cheirosos que ela levava para casa não era algo muito supérfluo para duas pessoas que tinham a sensação de ter reconstruído o país no pós-guerra? Certa vez, a senhora achou um sabonete da Lush, aqueles bem cheirosinhos produzidos sem testes em animais, da namorada do neto, claro. Mas ela achou o troço tão fedido que o colocou em um saco plástico, deu um nó bem dado e colocou o embrulho no quintal. São pequenas histórias que sempre me divertiram, embora minha amiga B.S não entendesse tão bem porque eu achava tanta graça nisso tudo.
Fato é que ela passou na prova de alemão, conseguiu uma vaga na mesma universidade em que o namorado estuda e agora os dois moram juntos em uma outra cidade. Não nos falamos mais. Mas sei que ela começou a estudar sociologia e voltou a falar com os pais. Tudo indica que em pouco tempo ela não se referirá mais ao Chomsky ou a outros filósofos e lingüistas como “o cara lá”. “Depois que eu entrar na universidade, minha mãe vai perceber que eu não joguei tudo para o alto só para vir atrás de um cara”, explicou. E ela tinha razão. Alguns meses atrás tinha fotos dela com a família em visita a Alemanha. Um ano depois de sua chegada, ela parece ter colocado a vida em ordem. Foi a recompensa pela tentativa. Acho que gostaria de ter uma filha como ela, mesmo que isso me faça muitas vezes perder os cabelos.  

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