quarta-feira, 18 de abril de 2012

Bósnia-Sarajevo: Infância na Guerra

Esse moço aí da foto é o Adnan Zuka. Estudante de literatura inglesa e guia turístico em Sarajevo. Dia 06 de Abril foi seu aniversário. Ele completou 25 anos. Chegamos cerca de 9h30 à agência “Insiders”, ele estava abrindo o local um pouco agitado, sorridente, enquanto olhava para o céu e via os helicópteros sobrevoarem a cidade. “Terá tour hoje?”, perguntamos. “Acho que sim, apesar desses helicópteros”. Olhamos intrigados um para o outro, mas Adnan virou as costas, tirou uma bandeja de bolo , copos e refrigerantes da bolsa e colocou sobre o balcão. “Voltem às 11h, quando começa o passeio”, ele aconselhou. Mas antes, como fomos os primeiros turistas a aparecer por lá, tivemos a honra de saborear um pedaço da torta. “É meu aniversário”, confessou. E também o dia em que a guerra da Bósnia começou há 20 anos. Perguntei se ele se lembrava de alguma coisa e ele respondeu contundentemente, na lata: “claro, foi bem no meu aniversário”. Todos que entravam na pequena sala, a procura dos passeios, eram convidados a celebrar a data com ele. Razões não lhe faltavam.
Assim como muitas crianças da época, Adnan teve uma infância perdida. O saldo no fim do conflito foi de 1.620 crianças mortas e mais de 15 mil feridas. Os dados são do museu de história de Sarajevo. Ele narra durante a visita como era difícil ter de viver nos porões e o que os pais tinham de fazer para convencer os filhos do quão perigoso era lá fora. Ele visitou a escola durante a guerra, locais improvisados, subterrâneos. De um planalto, em frente às ruínas medievais da cidade, ele aponta cada montanha nos arredores da capital e explica em detalhes como os sérvios tomaram o local. De tempos em tempos a gente perguntava coisas bobas, óbvias e ele respondia com naturalidade. Como as pessoas faziam para se aquecer? “A gente dava um jeito, as pessoas começaram a queimar livros, tapetes, embora como ficávamos em grande número nos porões, o ambiente era mantido aquecido por algum tempo”. Segundo seus relatos, até sopa de grama entrou no cardápio.

Ao longo do passeio ele deixava escapar uns flashes de memória. “Eu passei uma vez pelo túnel com meus pais para carregar água”, lembra. O tal túnel foi responsável pelo abastecimento da cidade durante os três anos. Era a forma mais segura de levar alimentos e ajuda humanitária que chegava ao aeroporto, sob domínio da ONU, até a única montanha sob domínio dos Bosniaks (islâmicos da Bósnia). O motorista, um ex-soldado, atravessou o túnel, umas 15 vezes. Só para constar. Trata-se de um lugar abafado, estreito, com cheiro de umidade  e (pasmem!) cavado manualmente! Hoje só sobrou alguns metros, revestido com madeira para deixar a passagem um pouco mais confortável em relação àqueles tempos. Enquanto assistimos um filme no museu do túnel, ele olha pela janela para o lado de fora cada vez que chega ou sai um avião. O memorial fica bem atrás da pista do aeroporto. “É só um avião”, diz.

Mesmo dentro do veículo, ele fala com energia, entusiasmado em contar a história da sua cidade. Não escapa sequer um detalhe, cada prédio, cada bairro. De vez em quando, troca frases com o motorista em bósnio e traduz para gente com um inglês impecável. “Isso eu não me lembro direito porque era muito criança, mas nosso motorista disse”...  No fim do tour, tira foto com o grupo, troca endereços no Facebook e sai correndo para não atrasar o próximo grupo que já o espera para a próxima partida.  “Parabéns e aproveita o restinho do dia”, dissemos na despedida. “Claro, é meu aniversário!”, respondeu nosso talentoso guia. 
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