quinta-feira, 29 de março de 2012

Do Cáucaso ao Afeganistão

Para segurar a franja caída na testa, a senhora na faixa dos 40 anos usava um lenço azul marinho com flores coloridinhas. Enquanto abria a massa sobre uma mesa verde musgo, cheia de farinha, dava instruções às outras garotas. As explicações eram curtas, dadas somente por meio de palavras soltas, não chegavam a formar uma frase completa. Edilia vem do Cáucaso, mora em um apartamento para refugiados com os três filhos homens e o marido, em Weimar, na rua Ettersburger. “Tenho quatro filhos, porque meu marido também é como uma criança”, diz. Sobre os problemas em sua região, ninguém entra em detalhes. É difícil identificar pelos traços se ela poderia vir da Tchetchênia, da Óssetia do sul ou do norte. Dona de traços marcantes, semelhante aos da Glória Pires, ela está mesmo preocupada em preparar seu Pelmeni, aquela massa cozida, recheada com carne, e coberta por molho branco azedo. Ela trouxe um livro de receitas russas para mostrar às amigas.
Uma delas, do Afeganistão, ajuda a cortar a massa em rodelas. Como não há fôrmas apropriadas, ela usa mesmo a boca de um copo de vidro. De tempos em tempos, Edilia mostra como se faz, ressaltando que é preciso pressão para conseguirmos círculos de massa bem definidos. De cabelos pretos enrolados, na altura dos ombros, a moça do Afeganistão ajuda na preparação da guloseima sobre saltinhos pretos, bem arrumada de calça jeans e blusa verde limão. Um leve batom avermelhado marca seus traços, pelo menos até começar a comilança. Ela tenta me ensinar a pronunciar seu nome corretamente. Uma outra garota do Afeganistão,  bem magrinha, de pouca estatura e com olhos um pouco mais puxados, dá risada da minha pronuncia horrível. Edilia só escuta e comenta: “olha aí as duas terroristas amigas do Osama”. Elas riem. Rapidamente Edília pergunta às colegas do Afeganistão se elas realmente acreditam que Bin Laden esteja morto. “Pra mim ele continua escondido, mas agora lá nas montanhas do Paquistão”, diz contundente. Silêncio. Assunto complicado transmitido em alemão por falantes do russo e do persa. Ruído na comunicação. Todas se focam novamente na preparação dos pelmenis.
Trata-se de um dia de diversão. Duas vezes por mês, elas se reúnem (sem os maridos) para uma tarde de receitas e bate papo. Problemas políticos e burocracia não entram na pauta. Os únicos homens que caminhavam pela sala, tinham um e três anos. Um deles era filho de uma moça do Irã. Quieta, ela só observava. De vez em quando, conversava em persa com as duas companheiras do Afeganistão. Ao notarem minha cara de perplexidade, elas me explicaram as semelhanças e diferenças entre o persa de cada região. Algo como o alemão na Suíça ou na Áustria. A Iraniana balbuciava poucas palavras na língua germânica. A Anne, que acompanha as reuniões, tentava marcar uma excursão para o próximo mês. Com olhar de interrogação, a afegã, segurando o filhinho no colo, perguntou o que era uma excursão. Depois de tudo esclarecido, elas traduziam em persa para a iraniana do jeito que dava.
Nessa altura do campeonato, Edilia já estava jogando seus pelmenis na água quente. Quando voltou à mesa cheia de farinha, uma das moças já tinha aberto a outra massa. Ela olhou, amassou tudo com as mãos, fez outra bola e começou a abrir a massa de novo. “Estava muito fina”, reclamou. Quando terminou, raspou as mãos umas nas outras, as bateu no avental, olhou pra mim e disse: “como você não é alemã?”. Atordoada porque eu tinha pele clara, ela ouvia uma das alemãs explicar a miscigenação do Brasil. “Mas você sabe sambar, então?”. Tive de decepcioná-la mais uma vez. “Eu sei, as mulheres (normais) não fazem isso, né?”. Como não entendi bem qual a definição de normal disse que não sabia bem. 
Depois de todas se sentarem à mesa, com exceção de Edilia que não parava de limpar e cozinhar mais e mais, todas voltaram pra conversa. Mesmo de longe, a cozinheira oficial vinha à mesa dar alguns conselhos. “Você deveria ter mais um bebê”, disse a iraniana, que chacoalhava a cabeça em tom de negativa. “Esses garotos crescem, saem por aí com as mulheres, e não querem mais saber das mamas”, esclareceu a razão do conselho. Perto das 19h30, elas limparam tudo voando. Uma varria, a outra lavava as louças, outras embrulhavam os 50 quilos de comida que sobrara. Muitas delas não ficam fora de casa à noite. As quatros mulheres saíram então correndo, com sacolas e carrinhos de bebês em direção ao ponto de ônibus. Agora só no próximo mês.

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