domingo, 9 de outubro de 2011

A vida do outro (por Rodrigo P. Macedo)


       O prédio foi construído em 1910. Diz o ditado popular que paredes tem ouvidos. Mas seria muito mais interessante se elas tivessem olhos e bocas. Quantas histórias elas não teriam para nos contar. Quantas reuniões políticas esse amontoado de tijolos não presenciou no período entre guerras nesta pequena cidade da Turíngia? Será que algum dos apartamentos serviu de palco para comemorações dos acontecimentos que ocorreram no Teatro da cidade, há algumas centenas de metros de distância e que cunharam a expressão “República Weimar” nos livros de história? Ou será que essas paredes chorariam ao se lembrar das manchas de sangue, derramadas por algum morador judeu, obrigado a trocar o aconchego do lar por um barraco do campo de concentração de Buchenwald?
        Provavelmente as histórias mais interessantes viriam da época da República Democrática Alemã, vulgo Alemanha Oriental. Ao subir os 90 degraus para chegar no sótão do prédio, é impossível não se lembrar do anti-herói de “A Vida dos Outros”, aquele espião que instala seus equipamentos também no último andar para acompanhar a vida de um diretor de teatro. Calma, não há com o que se preocupar. A solidão daquele sótão vazio e caído aos pedaços só reflete mesmo a alma do personagem do filme. O sótão daqui, assim como todo o prédio, foi reformado e restaurado em 1994, e hoje abriga inúmeros móveis do IKEA.
        Mas o que será que se passou por entre essas paredes da Friesstraße ao longo dos 60 anos da Alemanha Oriental? Será que alguém foi espionado? Será que algum vizinho dedurou o outro? Ou será que esses acontecimentos não eram, realmente, tão comum assim, mas povoam nosso imaginário apenas por causa da propaganda da Guerra Fria? O fato é que um espírito comunitário ainda paira no prédio. Nos finais de semanas as velhinhas jogam baralho no quintal, enquanto fazem um café da manhã coletivo. Baldes transbordando de maçãs são deixados na beira da escada para todos se servirem. As cartas, pacotes e encomendas ficam rotineiramente com os vizinhos (quando não estão simplesmente largadas em algum degrau da escadaria....). A espionagem da vida alheia também continua levemente presente, afinal, é preciso fiscalizar o lixo para saber se todos estão colaborando com a reciclagem. Agora, abrir a porta principal e dar de cara com um varal cheio de calcinhas cor da pele, largas e sem elástico, sutiãs tamanho GG, meias e outras peças exalando perfume de amaciante de flores é demais........

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