terça-feira, 25 de outubro de 2011

Berlim revisitada

   

Há cerca de dois anos, o Berliner Morgenpost lançou uma campanha publicitária que explorava as facetas descoladas da capital e suas peculiaridades. “Berlim é quando todos vestem o que querem”, diz a frase sobre uma imagem de pessoas nuas em um lago; “Berlin é quando a verdade precisa ser dita”, afirma a sentença sobre a foto de um aconchegante estabelecimento com sua sincera lousa-cardápio: “café medianamente bom (ou meia boca mesmo): 1,10 euros”. Ou “Berlin é quando você não sabe se está totalmente In ou Out”. Nesse caso, a imagem dispensa explicação. Trata-se daquele estilo próprio das pessoas no Mitte, Kreuzberg ou Prenzlauerberg. Não é à toa que algumas revistas de turismo classificam a cidade como uma das mais vanguardistas da Europa. 



Revisitamos a capital por 48 horas, em um breve final de semana, após uma estadia de dois anos. Acho que desacostumamos o olhar e tudo agora tinha um quê de esquisitice. Nada contra, só que os hábitos locais voltaram a chamar atenção. Por exemplo, uma vitrine. Pessoas sentadas em bancos com os pés descalços atolados dentro de um aquários cheio de pequenos peixes. É sério! Olha o site: http://fussfetifisch.com/. E os caras ainda fazem brincadeirinhas com o nome: Fuss (Fuß, na verdade, ou seja, pés); fetiche e fisch (peixe). A proposta não é tão desvairada quanto parece. Os peixinhos fazem massagem nos dedos com pequenas mordidinhas (por isso eles são pequeninos) e ainda se alimentam das peles mortas. Uma simbiose berlinense.




Em que outra cidade do mundo é possível largar os grandes pés em companhia dos peixes e pedir durante o jantar, mesmo em restaurantes chiques, recomendados pelo Michelin, água da torneira (Leitungswasser) para acompanhar seu vinho? E não há taxa para o copo, antes que alguém pergunte. Berlim contra a Perrier! Isso sim descreve o espírito regional! E por falar em levante da oposição, enquanto isso, em Kreuzberg, a comunidade turca foi às ruas para protestar contra a atitude do governo da Turquia em relação à minoria curda no país. Coisa pacífica, nada que se assemelhe às conturbadas passeatas do dia 1 de maio.  A noite já tinha caído, mas as crianças participavam do ato ao lado dos pais.

Mas é na madrugada que a coisa fica realmente estranha. No metrô U8, em direção à uma balada, uma garota loira, de All Star branco, dorme capotada sobre as pernas com os cabelos desgrenhados sobre o rosto. A mochila da moça estava esquecida atrás dela. Nesse meio tempo, entre o entra e sai de músicos, eis que surge um cara carregando uma pedra quadrada entrelaçada por um barbante. Tá bom, cada um carrega o que quer. Agora lembra daquele papo sobre estar in ou out? Pois é, encontramos um cara vestido de militar da DDR na festa. Ok, mesmo se tratando de uma balada fetichista, uniforme comuna não está em alta, né? Pior que isso foi reencontrar, na volta para casa, às 4h30 da manha, a garota dorminhoca ainda passeando (ou roncando) pela mesma linha. Melhor que tudo isso é terem colocado um adesivo de um membro masculino sobre a imagem da beldade Gisele Bündchen em um outdoor da marca Esprit. 


Algumas horas antes do nosso retorno para o pacato interior alemão (na Turíngia), um músico de violão nas costas mantém a postura ereta e deixa seus rosto exatamente na direção do sol. Ok, isso é bastante comum quando o grande estrela resolve dar as caras no inverno, mas não é todo mundo que resolve bater um papo com o astro rei. Depois do diálogo, o cara ainda saiu tocando a viola e cantando sozinho ao longo do parque do castelo em Charlottenburg. Só ganhou desse sujeito a velhinha no ponto de ônibus. Em torno dos seus 85 anos, vestida como se estivesse na Belle Époque parisiense, sentada e com os braços apoiados no seu andador , a senhora coloca as mãos no bolso e saca um marlboro. Muito melhor que aquele cowboy americano! Ela não poderia mesmo morar em outro local.

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