terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Marrocos: Deserto do Saara — pernoite com beduínos


Uma vez eu fiz uma brincadeira, uma lista das dez coisas que gostaria de fazer ao longo da vida antes de morrer, mesmo que parecessem utópicas ou complicadas naquele momento. Nem sei mais onde este arquivo foi parar e não me lembro se havia incluído passar uma noite no deserto do Saara. De qualquer forma, acho que refiz mentalmente a tal lista ao longo dos anos e acrescentei essa possibilidade. Agora ficou o sonho de um possível retorno.
Tenho que admitir que apesar de odiar conhecer os lugares com excursões e muitas pessoas, recorri aos serviços de um guia local. Viajamos com ele e mais um casal de italianos por quase 24 horas, incluindo um pernoite, até alcançar Erg Chigaga. Sim, os 40 quilômetros mais disputados de dunas douradas no Saara, a 300 metros de altura. O trecho até a última cidade, M´Hamid, é bastante tranqüilo, apesar das inúmeras novidades e impressões de uma outra cultura. Narrar tudo isso pediria inúmeros posts, mas o que posso tentar explicar é que nos tornamos crianças novamente.  Em outras palavras, como descreve o norueguês Jostein Gaarder  em “O Mundo de Sofia”, ganhamos um olhar infantil em que tudo é novo. Não estamos acostumados a nada daquilo diante da gente. Será que eu conseguiria viver como uma mulher berbere em uma aldeia nas montanhas Atlas? Será que precisaria de papel e caneta?
Filosofias à parte, a diversão começa mesmo com as três horas off Road, deserto adentro.  É um mundaréu de areia sem fim. Tenho a sensação de estar acompanhando o caminho, observo o sol de rachar o coco sempre a nossa direita. Faço uma pergunta ou outra para o guia, jogamos conversa fora e não é que quando tento me localizar de novo, o sol está do lado esquerdo! Pergunto ao guia se ele sabe onde está. Risadas geral. O carro atola, só pra variar um pouco. Boa desculpa para descer no meio do nada, tirar fotos paradisíacas e por a mão na massa.  Empurramos o carro para baixo. Todos se afastam. Nosso guia entra no carro e acelera duna acima. Pronto. Hora de seguir viagem.  Era o último dia do ano e tínhamos que chegar a tempo não só para a virada, mas também para o pôr do sol.
De fato, é uma experiência singular.  Uma avalanche visual. Às vezes digo que quando algo é muito muito belo, chega a se tornar triste.  As poucas pessoas  ali, que vêem o sol descer sob Erg Chigaga, trocam olhares silenciosos. A noite cai. Os povos locais preparam uma festa de Réveillon. Em torno da fogueira, as mesmas pessoas que se entreolharam sobre as dunas começam a se conhecer.  Dividimos experiências sobre nossas aventuras. Um casal alemão, de Hannover, por volta de seus quarenta anos diz: “acho que se foi o ano novo mais audacioso que já vivemos”. Curiosamente, uma garota norueguesa arrisca um pouquinho de português e conta suas experiências no acampamento do MST.  Nunca passei o Réveillon com pessoas totalmente desconhecidas e acabei pensando. Por que logo estas? O que dividimos em comum?
Seja lá o que for, dançamos em torno da fogueira com a apresentação dos músicos marroquinos, não sei mais ao certo de qual etnia, bebemos e desejamos uns aos outros feliz 2011. Também dividimos as mesmas mesas sob a tenda durante o jantar regado a vinho e cuscuz (sim, as garrafas de vinho foram carregadas até o deserto). Ao se afastar da fogueira, longe da luminosidade da festa, o céu parecia desenho animado ou rabisco de criança. Acho que nunca vi tantas estrelas durante minha vida inteira (mesmo fora de São Paulo, claro!). Não sei se faz parte de toda cultura fazer pedidos às estrelas cadentes, mas lá dá para acabar com nosso arsenal. Nas tendas, sem o calor do fogo, mesmo com tapetes e cobertores, a noite é gelada. Acho que é a parte mais difícil da madrugada.  Mas é uma dificuldade esquecida logo no começo da manhã, quando o sol começa novamente a dar as caras e todos saímos sobre o lombo dos camelos (dromedários, na verdade) para subir e descer aquelas dunas douradas. O sol volta a dominar a paisagem. Não dá para permanecer no local por muito mais tempo. Não trouxe nem um pouco de areia, só lembranças e fotografias. 

Um comentário:

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