quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Prazeres da Vida


       Gotinhas geladas caiam sobre seus dedos do pé em irritantes intervalos de vinte segundos. O menino virava-se de um lado para o outro em sua cama, puxava a manta para altura dos braços, tentando proteger-se do frio quando descobria as pernas e sentia as goteiras do teto mofado lhe acordarem paulatinamente. Havia certa tristeza nas manhãs de inverno, uma melancolia própria da solidão de quem inicia o dia com café gelado e torradas sem manteiga. Não havia cor, nem sabor.
    Era preciso partir, mas para onde? O irmão mais novo ainda dormia encolhido. A colcha azul desbotada de algodão ainda conseguia lhe cobrir todo o corpo, mas não por muito tempo. Ele já tinha quase cinco anos, ou sete. Não se sabia ao certo. Mas também, que diferença faz?
    Saiu, enxugou os pés no trapo em frente à porta que servia de tapete, e colocou os chinelos de borracha. Atrás dos engradados sujos na lateral do quintal, quase a cozinha do vizinho, estava a sacolinha de plástico do supermercado com suas bolinhas de malabarismo.Pegou-a e correu para o ponto de ônibus.
      Após duas horas e meia chegou ao farol da Avenida Brasil com a Rebouças. Aquele ponto valia a pena, o semáforo era demorado! Passou horas ali de um lado para o outro como um objeto qualquer, próprio da paisagem concreta. Nenhum olhar sequer... Pessoas passavam freneticamente, executivos perambulavam com seus laptops e mulheres fechavam-se em seus carros com ar-condicionado.
     O farol já tinha fechado 760 vezes em sete horas. Era uma espécie de diversão ou de orgulho à resistência brincar com esses cálculos. Parou então um Cross Fox prata com as janelas semi-abertas e uma garota, por volta de dezoito anos, ao celular.  
   - “Me da a bolsa rápido sua vagabunda senão eu te furo” . “Vai vai anda”. Deu uma porrada no vidro, um chute na porta e desapareceu entre os veículos enfileirados. Correu, correu até refugiar-se em um beco embaixo de um viaduto. Separou o dinheiro e largou a Victor Hugo por ali. Retornou ao seu abrigo três horas depois. Já era noite e o irmão mais novo brincava sozinho no chão úmido e gelado com uns carrinhos de plástico sem rodinhas.
     Era hora do café da manhã - deu-lhe pão francês com margarina, passou um pano molhado para limpar seus pés descalços e cortou-lhe as unhas. Depois, tirou novas havaianas do saco de papelão e deu de presente à criança.



         

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