terça-feira, 4 de maio de 2010

Imbróglio de Nacionalidades


Neste último sábado, fomos  convidados por um casal alemão  (muito gente boa) para uma rodada de fondue, às 19h. Éramos em três brasileiros, dois mexicanos, dois espanhóis, três alemães e um húngaro. O problema é que, antes do encontro, o grupo de latinos resolveu dar uma passadinha na festa do vinho no vilarejo de “Werder, an Havel” (logo mais escrevo um post sobre a celebração) . A vila é bem próxima de Potsdam, onde supostamente deveríamos aparecer por volta  das 19h.  A combinação foi um pouco desastrada. Leia-se: vinho de morango, framboesa, maça e derivações (se é que podemos chamar isso de vinho); feriado do dia primeiro de maio (passeatas e tropas de choque por toda esquina) e um grupo alegre de amigos tentando entrar nos poucos trens disponíveis e lotados na estação da vila, talvez um pouco menor que Pirapora.

Chegamos na casa dos nossos anfitriões às 19h50.  Se levarmos em consideração que um convidado alemão deu o ar da graça dez minutos antes do combinado, estamos com uma diferença de uma hora exata (genau, como diriam os próprios germânicos). Então demos conta que uma brasileira ainda estava faltando.  O espanhol balbuciou: “ apesar do atraso, não fomos os últimos”.  Resposta do dono da casa: “da próxima vez escreverei no convite que o último a tocar a campainha lavará a louça”.  Silêncio seguido por gargalhada geral.Sentamos em volta da mesa impecavelmente posta. 

Como o nível alcoólico estava alto depois dessa invenção moderna de festa da colheita, começamos com os famosos sucos “Já”.  Para quem não conhece, Ja é a marca de produtos genéricos e por isso bem baratinho. Em alemão falamos Ya. Comentamos que em português diríamos Já como Jane, Jaca, Jabiraca. E os falantes de espanhol da mesa deram a  versão deles da pronúncia. Já como Juan (para nós Ra e Ruan).  Foi então que a brasileira (aquela que chegou por último) soltou.: quer dizer que vocês escrevem no chat de internet Jajaja no lugar de Rarara? Alguém remendou (juro que não fui eu): “ pior que isso só papai Noel dizer Jô Jô Jô.  Quem fala espanhol é mesmo esquisito. Onde já se viu o Patolino chamar o El Pato Lucas!

Quando não poderia ser pior, o Húngaro (Jozsef) que até agora prestava atenção no duelo lingüístico espanhol-português lançou a pergunta.  “Se o diminutivo do meu nome é Josca (é assim que os amigos o chamam), significa que para vocês eu sou o Rosca”?  Nem preciso continuar a contar o que aconteceu...

Depois de tanto sacanearem e explicarem a maldade por trás da rosca, ele começou a se gabar  das dificuldades da língua húngara – dezoito declinações!  Até que a namorada dele se interferiu e disse: “claro, vocês também não tem gêneros nem preposição”. E ele esbravejou “mas pelo menos não é uma língua sexista". Todos os estrangeiros da mesa, que há meses brigam com a língua alemã, soltaram um suspiro aliviado com as quatro clássicas e mais que suficientes declinações. Ao reclamar que de inicio o nominativo é bico, mas depois a professora aparece com aquele acusativo e para lascar de vez vem o dativo e o genitivo, os alemães fizeram cara de interrogação.

Nós aprendemos tudo fora de ordem. Na escola eles estudam nominativo, genitivo, dativo e acusativo, sei lá porquê.  O fato é que nessa discussão um brasileiro mostrou o dedo indicador para falar da primeira declinação. A alemã anfitriã caiu na risada. É assim, olha, e mostrou o polegar. Esse povo se expressa mesmo cada um ao seu modo.  Agora o papo era como pessoas estranhas de países esquisitos contavam com as mãos. Nós brasileiros dizemos um e mostramos o indicador. Depois vem o dois com o dedo do meio, três com anelar , quatro quando acrescentamos o mindinho e finalmente cinco com o polegar.

Os alemães fazem nessa ordem: polegar, indicador, meio, anelar e mindinho. I-m-p-o-s-s-í-v-e-l. Ou nascemos alemães ou na pior das hipóteses contorcionistas. E a rodada filosófica da noite terminou com a pergunta daquele cara que foi o primeirão a chegar: “ mas porque vocês precisam mostrar os números com as mãos”, disse ele incrédulo. “É só dizer em voz alta”.  Sem mais comentários, hora da sobremesa. 

2 comentários:

Lícia disse...

assistiu Inglorious Basterds??? a maneira alemã de "contar com os dedos" faz tooooda a diferença no filme hehehehe ou jejejejeje adoro os posts! abraços!!

ReginaCazzamatta disse...

Assiti! ahahah. Nem para espiã eu serviria! Talvez sem falar, sem gesticular e com uma peruca loira eu enganaria um alemão! rsrs

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